A CIDADELA

A. J. CRONIN



TTULO: A cidadela

AUTOR: CRONIN, A. J.

GNERO: Romance

CLASSIFICAO: 
Literatura inglesa  Sculo XX  Fico

EDITORA: Ulisseia

Lisboa, 196*

COLECO: A. J. CRONIN

CIDADELA

TRADUO DE
BERNARDO RAMOS

EDITORA ULISSEIA 
LISBOA

TITULO ORIGINAL
THE CITATEL

Copyright by
A. J. CRONIN

Capa de
Antnio Garcia

EDITORA ULISSEIA, LIMITADA
RUA DA MISERICRDIA, 67, 2.
LISBOA  Telef. 29673

PRIMEIRA PARTE
    
       

1
       No fim de uma tarde de Outubro do ano de 1924 umjovem mal vestido olhava atenta e intensamente atravsda janela de uma carruagem de terceira classe do comboioquase 
vazio que, vindo de Swansea, atravessava o Vale doPenwell. Partindo do Norte, Manson viajara durante todoo dia com transbordo em Carlisle e Schrewbury, mas natirada 
final da sua enfadonha viagem para Gales do Sulencontrou-se sob o domnio de uma excitao ainda maisintensa pelas perspectivas do emprego, o primeiro da suacarreira 
mdica, nessa estranha e desolada regio.
       L fora um forte aguaceiro era uma cortina de nvoa que cobria as montanhas que se levantavam de um ladoe do outro da via frrea. Os picos estavam ocultos
namancha cinzenta do cu; as abas dos montes, escalavradaspelos trabalhos de extraco do minrio, Caam negras edesoladas, mais claras aqui e alm por grandes
pilhas derefugo de minrio, sobre as quais erravam alguns carneirossujos, na v esperana de pastagem. No se via a menorvegetao. Na luz agonizante, as rvores 
eram fantasmasraquticos e descarnados. Numa curva da linha, o revrbero vermelho de uma fundio lampejou um instante, iluminando um grupo de trabalhadores, nus 
da cintura paracima, os dorsos retesos, os braos levantados para bater.
       Embora o quadro desaparecesse rapidamente atrs da confusa engrenagem do alto da mina, perdurava uma impresso de fora tensa e vvida. Manson respirou profundamente. 
Sentiu-se invadido por uma onda de estmulo, sufocado por uma alegria sbita que vinha da esperana e daspromessas do futuro.
       J havia cado a noite, acentuando o ar estranho edistante da cena, quando, meia hora mais tarde, a locomotiva entrou resfolegando em Blaenelly, a ltima 
cidadedo vale e trmino da linha. Chegara, finalmente. Segurando a maleta, Manson saltou da carruagem e desceurapidamente  plataforma, procurando com ansiedade 
qualquer sinal de boas-vindas.  sada da estao, debaixo deum lampeo que o vento sacudia, esperava-o um velho decara amarelada, com um chapu quadrado e uma 
capade borracha que mais parecia uma camisola. ExaminouManson com um olhar bilioso, e quando se resolveu afalar a voz ainda era hesitante.
       -  o novo assistente do Dr. Page?
       - Eu mesmo. Manson. O meu nome  Andrew Manson!
       - Hum! Pois o meu  Thomas. Velho Thomas  comomuitos me chamam, os malditos! Trouxe o cabriolet. Entreno carro, a no ser que prefira ficar encharcado.
       Manson levantou a maleta e pulou para o cabriolet tododesconjuntado, ao qual estava atrelado um cavalo alto e anguloso. Thomas seguiu-o, segurou as rdeas 
e gritou aocavalo:
       - Vamos, Taffy!
       Atravessaram a cidade. Embora Andrew tentasse vivamente distinguir os seus contornos, nada mais pde discernir, na chuva torrencial, do que a mancha confusa 
dascasas baixas e cinzentas, alinhadas ao p das altas montanhas que nunca se perdiam de vista. Durante algunsminutos o velho criado ficou em silncio, mas continuavaa 
lanar a Andrew olhares desconfiados por baixo da abagotejante do chapu. Em nada se parecia com o cocheiroelegante de um mdico de prestgio. Era, pelo contrrio,mal-amanhado 
e sujo e dele se desprendia um cheiro enjoativo de gordura ranosa. Afinal disse Thomas:
       - O Sr. Doutor concluiu h pouco o curso, no  verdade?
       Andrew moveu a cabea afirmativamente.
       - J calculava. O velho cuspiu. O triunfo tornava-operigosamente comunicativo. O ltimo assistente foi-seembora h uns dez dias. Eles nunca param.
       - Por qu?  
       Apesar do nervosismo, Andrew sorriu.
       - Creio que uma das razes  o trabalho, pesado demais.
       - E h outras?
       - O senhor ver!
       Um momento depois, como um cicerone que mostrasseuma catedral imponente, Thomas levantou o chicote eapontou para a ltima casa de uma fileira, onde umanuvenzinha 
de fumo subia de um portal iluminado.
       - Est a ver alm? L esto a minha patroa e a minha casinha de venda de batatas e peixe frito. - Uma ideia divertida arrepanhou-lhe o lbio superior. - No 
tardar muito que o doutor tenha necessidadede conhecer a casinha.
       A rua principal terminava e, virando para uma pequenavia lateral, atravessaram um terreno abandonado e seguiram pelo estreito caminho que levava a uma casa 
isoladaatrs de trs araucrias. No porto via-se uma placa comum nome: Bryngover.
       - C estamos, - disse Thomas, fazendo parar o carro.
       Andrew desceu. Acto contnuo, enquanto se preparavapara a cerimnia da apresentao, escancarou-se a portada frente e viu-se num vestbulo iluminado, recebido 
efusivamente por uma mulherzinha de cerca de quarentaanos, baixa, gorducha e risonha, fisionomia expansiva eolhos atrevidos e faiscantes.
       - Ora viva! Deve ser o Dr. Manson. Entre, meu filho,entre. Eu sou a mulher do mdico, a Sr.a Page. Espero quetenha feito uma viagem pouco fatigante. Oh! 
Que prazerem v-lo! Quase que no sei onde tenho a cabea desdeque nos deixou o outro assistente. Um sujeito horrvel! Seo senhor o visse! Nunca vi perdulrio 
igual,  o que possoafirmar-lhe. Mas pouco importa. Agora, com o senhor aqui,tudo correr bem. Venha, eu mesma quero mostrar-lhe oseu quarto. 
       No andar superior, o quarto de Andrew era um aposento pequenino e modesto, com uma cama de metal, umacmoda de pinho envernizada e uma mesa de bambu combacia 
e jarro. Examinando o quarto enquanto os olhinhosda mulher, que pareciam dois botes negros, lhe observavam a face, Andrew disse, querendo mostrar-se amvel:
        - Isto parece muito confortvel, Sr.a Page.
       - , sem dvida. - Ela sorriu e bateu-lhe maternalmente no ombro. - Ficar bem instalado aqui, meu filho. Trate-me bem e eu pagar-lhe-ei na mesma moeda. 
Nadamais justo, no  verdade? Agora, antes de outra coisa,venha, vou apresent-lo ao doutor.  Ela fez uma pausa.
       O seu olhar ainda fixava o dele interrogativamente e avoz esforava-se por ser natural. No sei se lhe disse naminha carta, mas, para falar com franqueza, 
o doutor notem andado muito bem ultimamente.
       Andrew fitou-a com surpresa.
       - Oh! Nada de grave - continuou a mulher, apressadamente, antes que ele pudesse falar. - H j semanas queest de cama. Mas ficar bom dentro em breve. 
Sobre issono h dvidas.
       Perplexo, Andrew acompanhou-a at ao fim de umcorredor, onde ela abriu uma porta, exclamando alegremente :
       - Est aqui o Dr. Manson, Edward! O nosso novo assistente. Vem cumprimentar-te.
       Quando Andrew entrou no aposento, um quarto de dormir comprido, de cortinas completamente corridas e comum pequeno fogo a arder na lareira, Edward Page 
virou-selentamente no leito, parecendo fazer com isso um grandeesforo. Era um homem grande, ossudo, de sessenta anostalvez, com feies gastas e olhos luminosos 
mas cansados.
       Em todo o seu rosto liam-se sofrimento e uma espcie de aborrecimento. E mais ainda. Incidindo sobre o travesseiro, a luz do candeeiro de azeite revelava 
um lado dorosto imobilizado e sem expresso. O lado esquerdo estavaigualmente paraltico e a mo esquerda, que caa sobre acolcha, estava contrada em forma de 
funil. Observandoesses sinais de um ataque grave e nada recente, Andrewsentiu-se tomado de sbito desalento. Estabeleceu-se umsilncio constrangedor.
       - Fao votos para que goste disto aqui. - Observouafinal o Dr. Page, falando arrastadamente e com dificuldade, tartamudeando um pouco as palavras. - Espero 
tambm que no ache a clnica demasiadamente trabalhosa. O senhor  muito moo.
       - Tenho vinte e quatro anos, doutor. - Andrew respondeu desajeitadamente. - Este  o meu primeiro emprego,mas no tenho medo do trabalho.
       - Ests a ver? - A Sr.a Page expandiu-se. - Eu no tedisse, Edward, que teramos sorte com o nosso novo assistente?
       Uma imobilidade ainda mais completa caiu sobre a facedo doente. Olhou para Andrew. E ento o seu interessepareceu declinar. Disse numa voz fatigada 
       - Espero que o senhor permanea.
       - Meu Deus do Cu! - exclamou a Sr.a Page. - Isso coisa que se diga? - Voltou-se para Andrew, sorridente, adesculpar-se. - Isto  s porque ele est hoje 
um poucoabatido. Mas ficar bom dentro em breve e voltar aoservio, no  assim, querido? - Curvou-se e beijou carinhosamente o marido. - Ouve. Mandarei Annie 
com o teujantar logo que terminemos o nosso.
       Page no respondeu. A expresso parada do rosto apoiado no travesseiro fazia a boca parecer torcida. A mo dolado ileso estendeu-se para um livro que estava 
sobre amesinha de cabeceira. Andrew viu o ttulo do livro: ASAVES SELVAGENS DA EUROPA. Antes mesmo que oparaltico comeasse a ler, compreendeu que devia retirar-se.
       Quando Andrew desceu para o jantar, os seus pensamentos estavam numa confuso dolorosa. Fora admitidonaquele lugar de assistente em resposta a um annciopublicado 
no Lancet. Todavia, na correspondncia mantidaat o fim de que resultou a sua aceitao para o lugar, aSr.a Page nunca fizera a menor aluso  doena do marido.
       Mas era certo que o Dr. Page estava doente e no podiahaver dvida sobre a gravidade da hemorragia cerebralque o incapacitara. Passariam meses antes que 
ele pudessevoltar ao trabalho, se pudesse ainda voltar a trabalharalguma vez.
       Andrew esforou-se por afastar preocupaes. Era moo, robusto, e no lhe repugnava o trabalho extraordinrioque a doena de Page lhe acarretaria. Na verdade 
o seuentusiasmo ansiava mesmo por uma avalanche de chamadas.
       - Est com sorte, meu filho - observou a Sr.a Page jovialmenteao entrar com alvoroo na sala de jantar. - Estanoite j pode ter uma amostra do seu trabalho. 
Nada declnica. Dai Jenkins incumbiu-se disso.
       - Dai Jenkins?
       -  o ajudante de farmcia - disse a Sr.a Page naturalmente. - Uma pessoa jeitosa. E de muito boa vontadetambm. Muitos tratam-no mesmo por Dr. Jenkins, 
embora, claro, no possa ser comparado em coisa algumacom o Dr. Page. Ele encarregou-se da clnica, e tambmde atender as chamadas, nestes ltimos dez dias.
       Andrew fitou-a com um novo interesse. Um clarotrouxe  sua memria tudo o que lhe tinham dito, todas asadvertncias que lhe haviam feito acerca dos discutveisprocessos 
de clnica mdica nessas paragens longnquasdo Pas de Gales. Mais uma vez foi com esforo que nadarespondeu.
        A Sr.a Page sentou-se  cabeceira da mesa, de costaspara a lareira. Quando se instalou confortvelmente nacadeira, apoiada numa almofada, deu um suspiro 
de satisfao  ideia do jantar e fez soar uma campainha na suafrente. Trouxe o jantar uma criada de meia-idade, rostoplido e ar limpo que, ao entrar, lanou 
um olhar furtivoa Andrew.
       - Venha, Annie - disse a Sr.a Page pondo manteiga numpedao de po macio e metendo-o na boca. - Este  o Dr. Manson.
       Annie no respondeu. De modo silencioso e discretoserviu a Andrew uma fatia fininha de carne: peito de vacacozido e frio. Para a Sr.a Page, no entanto, 
havia lomboquente, com cebolas, alm de meia garrafa de cerveja preta.
       Quando ela levantou a tampa do seu prato especial e cortouum pedao de carne suculenta, os dentes aguaram-senuma expectativa agradvel. Explicou ento:
       - Quase no almocei, doutor. Alm disso tenho deobservar a minha dieta.  o sangue! Tenho de tomar umagotinha de cerveja preta por causa do sangue.
       Andrew mastigou a carne nervosa e s bebeu gua. Passadoum momento de indignao, a sua principal dificuldadeconsistia em dominar o prprio senso de ironia. 
O pretexto da doena que ela apresentara era to falso que eleconteve a muito custo uma doida hilaridade.
       Durante a refeio, a Sr.a Page comeu muito e faloupouco. Por fim, ensopando o po no molho da carne, terminou o bife, fez estalar os lbios ao beber o 
resto dacerveja e recostou-se na cadeira com a respirao um tantoopressa e as faces gordas bem lustrosas e coradas. Pareciadisposta a demorar-se  mesa, inclinada 
a confidncias, tentando talvez formar uma impresso de Manson, l sua maneira astuciosa.
       Estudando-o, ela via um rapaz moreno, magro e desajeitado, de compleio robusta, mas do rosto salientes,queixo delicado e olhos azuis. Esses olhos, quando 
os levantava, eram extraordinariamente firmes e inquiridores, apesar da tenso nervosa da fronte. Embora nada soubesse aesse respeito, Blodwen Page estava diante 
de um exemplardo tipo celta. E ainda que reconhecesse o vigor e a vivainteligncia na fisionomia de Andrew, o que lhe agradouacima de tudo foi ter aceitado sem 
relutncia a fatia deuma carne de peito cozida havia mais de trs dias. Deduziu que o assistente no era difcil de alimentar embora parecesse faminto.
        - Vamos dar-nos muito bem, o doutor e eu - declarououtra vez com efuso, enquanto palitava os dentes comum gancho de cabelo. - Ainda bem, porque eu preciso 
deum pouco mais de sorte, para variar.
       Enternecida, contou-lhe as suas atribulaes e fez um vago esboo da clnica e da sua situao. 
       - Tem sido horrvel, meu filho! No pode calcular com a doena do meu marido, e comesses assistentes sem escrpulos, nada entra e tudo sai. Ah! Nem imagina! 
E o trabalho que tenho tido para conservar a boa vontade do gerente e dos funcionrios damina!...  por seu intermdio que se recebe o dinheiro daclnica. Bem 
pouco, alis apressou-se a acrescentar. Veja, as coisas esto montadas em Blaenelly da seguintemaneira: a Companhia tem trs mdicos no servio, embora lhe deva 
explicar que o Dr. Page est muito acimados outros pela inteligncia. E alm disso  o mais antigo. Uns trinta anos ou mais.  uma coisa que deve tomar-seem considerao! 
Pois bem, esses mdicos podem ter tantos assistentes quantos quiserem. O Dr. Page apenas temum, que  o doutor. O Dr. Nicholls tem um maduro chamado Denny. 
Mas os assistentes no fazem parte dos quadros da Companhia. De qualquer modo, como ia dizendo,a Companhia deduz um tanto do salrio de todos os seusempregados 
das minas e das pedreiras e paga com issoaos mdicos titulares, de acordo com o nmero de homensinscritos nos respectivos registos.
       Parou, esgotada pelo esforo imposto  sua ignornciae pelo estmago muito cheio.
       - Creio que j compreendi o sistema, Sr.a Page.
       - Ento, muito bem. - Ela riu-se alegremente. - Nodeve preocupar-se mais com o assunto. S deve lembrar-seque est a trabalhar com o Dr. Page. Isto  o 
principal,doutor. Lembre-se de que est por conta do Dr. Page eassim o senhor e a pobrezinha de mim entender-nos-emosbem.
       Observando-a em silncio, pareceu a Manson que a mulher procurava ao mesmo tempo inspirar-lhe piedade efirmar a sua autoridade sobre ele, tudo sob aquela 
formade falsa amabilidade. Ela sentiu, talvez, que tinha ido demasiadamente longe. Com um olhar para o relgio de parede, endireitou-se, colocou de novo o gancho 
no cabelonegro e gorduroso e levantou-se. A sua voz era agora diferente, quase autoritria.
       - A propsito, h uma chamada para a Glydar Place, 7. Veio por volta das cinco horas.  melhor ir atend-laquanto antes.
       Andrew saiu imediatamente, com uma sensao estranha quase de alvio, para atender a chamada. Alegrava-o a oportunidade de libertar-se das emoes curiosas 
e contraditrias que a sua chegada a Bryngover havia suscitado.
       J desconfiava da situao e da maneira pela qualBlodwen Page pretendia utiliz-lo para prosseguir com aclnica do mdico principal, incapacitado para o 
servio.
       Era uma situao estranha e muito diferente dos sonhos romnticos da sua imaginao. Como tudo isso era insignificante, no entanto, comparado com o seu trabalho! 
Eras o que importava. Estava ansioso por comear. Insensivelmente, apressou o passo, excitado pela expectativa doservio, ansioso pela sua realizao. Era esse 
o seu primeirocaso!

2
       Ainda chovia quando atravessou as trevas viscosas deum terreno baldio e seguiu ao longo de Chapei Street, nadireco vagamente indicada pela Sr.a Page. 
Na escuridoda noite, a cidade ia tomando forma diante de Andrew.
       Lojas e igrejas Zion, Capell, Hebron, Bethel, Bethseda, passou por muitas, depois os armazns de uma grandecooperativa e a filial de Western Counties Bank, 
tudo narua principal, mergulhada no fundo do vale. Era extraordinariamente impressionante a sensao de estar sepultado no fundo daquela cadeia de montanhas. 
Havia poucagente por ali. A pouca distncia, estendendo-se de um ladoe de outro de Chapei Street, havia filas de casas comtectos azuis de trabalhadores das minas. 
Mais alm, na extremidade da garganta, sob o claro que se espalhava comoum leque no cu opaco, a mina de hematite de Blaenellye as fbricas metalrgicas.
       Andrew chegou ao n. 7 da Glydar Place, bateu ansiosamente na porta, e logo o levaram  cozinha, onde a doenteestava deitada numa cama, a um canto. Era 
uma mulherjovem, esposa de um operrio metalrgico chamado Williams.
        Ao aproximar-se da cabeceira, com o corao a bater apressadamente, ele sentiu com toda a nitidez a significao deste acto. Era o verdadeiro ponto de partida 
da suacarreira.
       Quantas vezes imaginara aquela cena, quando, no meiode uma multido de estudantes, acompanhava uma aulaprtica na enfermarias do Prof. Lamplough! Agora 
nohavia uma multido para o amparar, nem a exposiofcil do mestre. Estava sozinho, diante de um caso quedevia diagnosticar e tratar sem ajuda estranha. De 
repente, numa verdadeira aflio, ele teve a conscincia doseu nervosismo, da sua inexperincia, da sua completafalta de preparao para tal eventualidade.
       Sob o olhar do marido, na diviso acanhada, com chode pedra e iluminao escassa, ele examinou a mulher comescrupuloso cuidado. No havia dvida: estava 
doente.
       Queixava-se de intolervel dor de cabea. Temperatura, pulso, lngua, tudo indicava perturbao, perturbao bemsria. Mas que podia ser? Andrew fez angustiosamente 
asi mesmo essa pergunta quando se inclinou novamentesobre a enferma. O seu primeiro caso! Oh! Ele sabia queestava demasiadamente nervoso. Mas, e se cometesse 
umerro, um terrvel erro? Pior ainda  e se no pudesse fazerum diagnstico? Nada esqueceu. Nada. Contudo, ainda lutava para chegar a uma concluso das suas observaes, 
 soluo do seu problema, esforando-se por classificar os sintomas correspondentes de alguma doena definida. Afinal, compreendendo que no poderia prolongar 
o examepor mais tempo, endireitou-se lentamente, enrolando oestetoscpio, procurando com esforo o que havia de dizer.
       - Ela teve um resfriamento? - perguntou sem levantara vista.
       - Sim, realmente - respondeu Williams com ansiedade. Mostrara-se apreensivo durante o demorado exame. - Htrs ou quatro dias. Estou certo de que foi um 
resfriamento,doutor.
       Andrew confirmou com a cabea, tentando dolorosamente inspirar uma confiana que no sentia. Murmurou:
       - Havemos de v-la curada dentro em breve. V ao dispensrio daqui a meia hora. Eu lhe darei um remdio.
       Despediu-se e, cabisbaixo, pensando desesperadamente, arrastou-se para o dispensrio, uma construo de madeira arruinada que ficava  entrada do caminho 
da casa dePage. L dentro acendeu o gs e comeou a andar de umlado para o outro diante dos frascos azuis e verdes sobreas prateleiras empoeiradas, quebrando 
a cabea, esforando-sepor uma soluo. No havia sintomas precisos. Deviaser, sim, devia ser um resfriamento. Mas, no ntimo, elesabia que no era um resfriamento. 
Resmungava exasperadamente, desanimado e raivoso em face da sua prpriainsuficincia. Contra a sua vontade, via-se forado a contemporizar.
       Para quando se lhe deparava um caso duvidosona sua enfermaria, o Prof. Lamplough tinha preparadauma frmulazinha que aplicava com tacto: P.O.D. pirexia 
de origem desconhecida. Era exacta e no comprometia.
       E soava to bem como coisa cientfica!
       Sentindo-se muito infeliz, Andrew tirou de um cantode um armrio um frasco de seis onas e, com uma rugade preocupao, comeou a compor uma preparao 
febrfuga.
       - Esprito de nitro doce, salicilato de sdio. Ondeestava o diabo do salicilato? Ah, est aqui!
       Tentou animar-sereflectindo que todas aquelas drogas eram esplndidas, excelentes, destinadas a fazer baixar a temperatura. S podiam fazer bem. O Prof. 
Lamplough declarara muitasvezes no haver remdio to eficaz na generalidade doscasos como o salicilato de sdio.
       Exactamente quando Andrew acabava de fazer a composio e escrevia o rtulo, com a sensao exaltada dehaver praticado uma faanha, a campainha tocou, a 
portada rua abriu-se e entrou, seguido de um co, um homemde trinta anos, baixo, de compleio robusta, faces avermelhadas.
       Houve um silncio. O co de plo negro assentou-sesobre as patas traseiras enlameadas. Entretanto o homem que usava um fato velho de veludo de algodo, 
meiascastanhas e sapatos com tachas, uma capa de oleado encharcadssima sobre os ombros fitou Andrew de alto abaixo. Quando se decidiu a falar f-lo com um tom 
de vozde uma polidez irnica, intolervelmente bem educada.
       - Ao passar vi luz na janela. Pareceu-me que devia entrar para lhe apresentar as boas-vindas. Sou Denny, assistente do conceituado Dr. Nicholls, L. S. A. 
Isso quer dizer,se ainda no sabe: Licenciate of the Society of Apothecaries, o ttulo mais elevado que Deus e os homens conhecem.
       Andrew baixou a vista, embaraado. Phillip Denny sacouum cigarro de um mao amachucado, atirou o fsforoao cho e comeou a passear insolentemente. Tomou 
ofrasco do remdio, leu o rtulo, as indicaes, destapou-ocheirou-o, tapou-o de novo e colocou-o outra vez no mesmolugar, deixando transparecer no semblante 
avermelhado eaborrecido uma expresso de amabilidade melflua.
       - Esplndido! J comeou a trabalhar lindamente! Uma colherada de trs em trs horas. Valha-me Deus! Como  confortante a velha e querida mistificao! Mas,doutor, 
porque no trs vezes ao dia? No compreende,colega, que, pela ortodoxia mais estrita, as colheradas devem passar trs vezes por dia pelo esfago do doente?
       Fez uma pausa, tornando-se ainda mais ofensivo na sua delicadeza, com o ar afectado de intimidade. 
       - E agora,diga-me, doutor, que  isso? Pelo cheiro  esprito de nitrodoce. Estupendo esse esprito de nitro doce, to eficientecomo ele ! Estupendo, 
meu caro doutor, estupendo! Carminativo, estimulante, diurtico, e pode beber-se  vontade um garrafo. No se lembra do que diz o livrinho de receitas?  Quando 
em dvida, recomende esprito de nitro. Ou iodureto de potssio? Ora essa! Parece que j esqueci alguma das minhas noes essenciais.
       Mais uma vez se estabeleceu silncio no barraco de madeira, quebrado apenas pelo tamborilar da chuva notelhado de zinco. De repente Denny soltou uma gargalhada, 
saboreando a expresso confusa do rosto de Andrew.
       E acrescentou com ar de troa:
       - Deixando a cincia de parte, doutor, poderia satisfazer a minha curiosidade? Que ideia foi essa de vir paraaqui?
       Por essa altura Andrew j estava meio irritado. Respondeu asperamente:
       - Tive a ideia de transformar Blaenelly numa estnciade cura; uma espcie de estao de guas, compreende?
       Denny riu-se novamente. O seu riso era como um insulto que dava a Andrew vontade de lhe bater.
       - Engraado, muito engraado, meu caro doutor.  oesprito contundente dos verdadeiros escoceses. Infelizmenteno lhe posso recomendar a gua daqui como 
especialmente indicada para uma estao de cura. Enquantoaos senhores mdicos, meu caro colega, so eles neste valeo rebotalho, o refugo de uma profisso gloriosa 
e verdadeiramente nobre.
       - Inclusive o senhor mesmo?
       - Precisamente. 
       Denny balanou a cabea num gesto confirmativo das suas palavras. Depois ficou calado ummomento, a contemplar Andrew por baixo das sobrancelhascastanho-carregado. 
Ento abandonou o tom irnicoe trocista e o seu rosto tornou-se concentrado. Emboraamargo, era srio o tom da voz.
       - Tome nota, Manson! Bem sei que comea agora asua carreira para ser um mdico de prestgio mas at lh duas ou trs coisas sobre isto aqui que deve saber. 
Noachar o lugar muito de acordo com as melhores tradiesdo exerccio romntico da medicina. No h hospital, nemambulncia, nem raios X, nem coisa alguma. 
Quando hnecessidade de operar, usa-se a mesa da cozinha. Paralavar-se depois, tem de o fazer na pia da cozinha. Os sanitrios so coisas que no se podem ver. 
Quando o Vero seco, as criancinhas morrem, como moscas, de clerainfantil. Page, o seu patro, foi um elemento bom na medicina,mas agora  um homem acabado, 
que Blodwen explora. Nunca mais voltar a ser o que era. Nicholls, omeu patro,  um tipozinho de parteira que s pensa emdinheiro. Bramwell, o Rei da Prata, 
nada sabe, a no seralguns recitativos sentimentais e os Salmos de Salomo. E, quanto a mim,  melhor antecipar as boas referncias: bebe como uma esponja. Ah! 
E o Jenkins, o boticrio dacasa, faz um ptimo negcio, por seu lado, com pastilhaspara doenas de senhora. Creio que  tudo. Anda, Hawkins,vamos embora.
       Chamou o co e dirigiu-se para a porta. Ali parou, passeando a vista desde o frasco do remdio,sobre o balco, at Manson. A sua voz era natural, quasedesinteressada. 
       - A propsito, se eu fosse a si considerariaa hiptese de enterite no caso de Glydar Place. Algunscasos no tm caractersticas definidas. 
       Pum... bateu a porta de novo. Antes que Andrew pudesse responder, o Dr. Phillip Denny e Hawkins desapareceram na escurido e na chuva. 

3
       No foi o colcho duro de palha que fez Andrew dormirto mal naquela noite, mas a ansiedade crescente provocada pelo caso de Glydar Place. Seria enterite? 
A observao de Denny ao despedir-se criara uma nova fonte dedvidas e desconfianas no seu esprito j incerto. Receandoter deixado passar despercebido algum 
sintoma capital, foi com dificuldade que dominou o impulso delevantar-se e ir examinar novamente a doente a uma horato imprpria da madrugada. Por certo, na agitao 
e nodesassossego da longa noite sem repouso, chegou a perguntar a si mesmo se afinal de contas sabia alguma coisade medicina.
       A natureza de Manson era extraordinariamente receptiva.
       Provavelmente, vinha da me essa particularidade,uma mulher do Highland, que, quando menina, tinhavisto da sua casa, em Ullapool, a aurora boreal brilhar 
nocu gelado. O pai, John Manson, um pequeno lavrador dePifeshire, tinha sido um homem srio, cuidadoso e arranjado.
       Nunca chegou a ser grande coisa na sua terra, equando morreu, como guarda real, no ltimo ano da guerra, deixou os negcios do seu modesto estbulo numa 
tristedesordem. Durante doze meses Jessie Manson lutou paraexplorar a granja como fornecedora de lacticnios, tendomesmo de fazer em pessoa a entrega do leite 
quando compreendeu que Andrew estava demasiadamente ocupadocom os seus livros para executar tal servio. Foi ento quese agravou a tosse a que durante anos no 
ligara importncia.
        De uma hora para outra a pobre rendeu-se ao maldos pulmes que devasta esse tipo de pele macia e cabelosnegros.
       Aos dezoito anos Andrew viu-se sozinho como estudantedo primeiro ano da Universidade de St. Andrew mantidopor uma bolsa escolar de quarenta libras anuais, 
pormsem um tosto de seu. Quem o salvou foi a Dotao Glen,essa fundao tipicamente escocesa que, na terminologiaingnua do finado Sir Andrew Glen, convida 
estudantes pobres e de valor com o nome de Andrew a solicitaremum emprstimo que no exceda cinquenta libras anuais,fornecido durante cinco anos, desde que se 
preparem conscienciosamente para reembols-los depois de formados.
       Graas  Dotao Glen e a alguma fome suportada denimo alegre, Andrew conseguiu fazer todo o curso emSt. Andrew e, mais tarde, na Escola Mdica de Dundee.
       Profundamente honesto a ponto de no olhar s convenincias prprias, a sua dvida  Dotao f-lo seguir apressadamente para Gales ao Sul, onde assistentes 
recm-formados poderiam obter remunerao mais elevada. Mas, embora o seu salrio fosse de duzentas e cinquenta librasanuais, se no existisse esse compromisso 
teria preferidouma nomeao de mdico para o hospital de Edimburgo,mesmo ganhando dez vezes menos.
       E ei-lo agora em Blaenelly, s voltas com o primeirocliente. Levantou-se, fez a barba, vestiu-se, sempre preocupado com o caso. Engoliu  pressa o primeiro 
almoo edepois, apressadamente, voltou ao quarto. Abriu a mala etirou de l uma caixinha de couro azul. Abriu-a e contemplou carinhosamente uma medalha que ela 
continha a medalha de ouro Hunter, concedida anualmente naUniversidade de St. Andrew ao melhor aluno da ClnicaMdica. Ele, Andrew Manson, conquistara-a! Prezava-amais 
do que tudo, chegando a consider-la um talism, asua inspirao para o futuro. Mas nessa manh no foitanto com orgulho como numa invocao secreta que elea 
contemplou, como se tentasse restaurar a confiana emsi mesmo. E ento apressou-se a sair para o servio matinaldo dispensrio.
       Quando Andrew chegou ao barraco de madeira j l encontrou Dai Jenkins, que tirava gua da bica parauma grande vasilha de loua. Era um sujeito mido eesperto, 
de veias arroxeadas, faces encovadas, olhos inquietos, que pareciam espiar todos os pontos ao mesmo tempo. 
       Nas pernas finas usava as calas mais apertadas que Andrew tinha visto. Recebeu Manson com modos amveis einsinuantes:
       - Doutor, no precisa de vir to cedo! Eu mesmo posso renovar os remdios j prescritos e preparar as receitasantes da sua chegada. A Sr.a Page mandou fazer 
um carimbo com a chancela do mdico quando ele caiu doente.
       - Obrigado - respondeu Andrew. - Prefiro tratar eumesmo desses assuntos. 
       Fez uma pausa, distrado momentaneamente da sua preocupao pela conduta do encarregado do dispensrio.
       - Que ideia  essa?
       Jenkins piscou um olho.
       - A gua tem outro sabor saindo dali. Ns sabemos oque significa, na verdade, a velha gua da bica, hem,doutor?! Mas os doentes no sabem. Havia de parecer 
umverdadeiro idiota se eles me vissem encher com gua datorneira os seus frascos de remdio...
       Era evidente que o homenzinho estava a querer fazer-secomunicativo, mas neste momento uma voz estridente partiu dos fundos da casa.
       - Jenkins! Jenkins! Preciso de si imediatamente!
       Jenkins pulou como um co amestrado ao estalar dochicote do dono. Disse a tremer:
       - Desculpe-me, doutor.  a Sr.a Page que me chama.
       Por sorte havia pouca gente para o servio do dispensrio. s dez e meia j estava terminado. Depois de recebidade Jenkins a lista das visitas a fazer, Andrew 
saiu nocabriolet guiado por Thomas. Numa expectativa quase dolorosa, ordenou ao velho criado que seguisse directamentepara o n. 7 da Glydar Place.
       Vinte minutos depois saiu do n. 7 plido, apertando os lbios, com uma expresso estranha no rosto. Bateu a duasportas adiante, no n. 11, atravessou a 
rua para o 18. Do18 dobrou a esquina para Radnoor Place, onde havia maisduas visitas marcadas por Jenkins como feitas na vspera.
       No espao de uma hora, ao todo sete visitas ali ao redor.
       Cinco delas, incluindo a de Glydar Place, que estava agora com um aspecto caracterstico, eram casos ntidos de enterite.
       Durante os ltimos dez dias Jenkins estivera a trat-los com carbonato de cal e pio. E agora, por maioresque tivessem sido os seus atabalhoados esforos 
na noiteanterior, Andrew compenetrou-se, com um arrepio deapreenso, de que tinha de enfrentar um surto de tifo.
       Foi num estado quase de pnico que ele terminou to rapidamente quanto possvel o resto da sua peregrinao.
       Durante o almoo meditou sobre o problema num silncio gelado, enquanto a Sr.a Page comia rim de vitela, explicando alegremente:
       - Mandei compr-lo para o Dr. Page mas parece-me queele no gostou.
       Andrew viu que da Sr.a Page poderia obter precrias informaes e nenhuma ajuda. Achou que devia falar aoprprio mdico.
       Mas, quando subiu ao quarto dele, as cortinas estavam corridas e Edward jazia prostrado com uma terrvel dorde cabea, a face muito congestionada e vincada 
pelo sofrimento.
        Embora convidado a sentar-se um pouco, Andrewsentiu que seria cruel trazer-lhe naquele momento um motivode inquietao. Ao levantar-se para sair, depois 
dealguns minutos  cabeceira do mdico, contentou-se emperguntar:
       - Dr. Page, se tivermos um surto infeccioso que devemos fazer?
       Houve uma pausa. Page respondeu de olhos fechados,sem se mover, como se o simples acto de falar j fossebastante para agravar a sua enxaqueca.
       - Tem sido sempre muito difcil. No temos hospital,s contamos com uma enfermaria de isolamento. Se estivermuito atrapalhado, telefone para Griffiths, 
em Toniglan. Fica a quinze milhas daqui.  o subdelegado de sade dodistrito. - Outra pausa mais longa do que a primeira. - Mas no espere dele grande coisa.
       Animado por essa informao, Andrew apressou-se adescer e pediu ligao para Toniglan. Enquanto esperavacom o receptor no ouvido, viu que Annie o espiava 
pelaporta da cozinha.
       - Alo, Alo!  da casa do Dr. Griffiths, de Toniglan? Conseguira ligao afinal.
       Uma voz de homem respondeu com muita precauo:
       - Quem deseja falar com ele?
       - Quem fala aqui  Manson, de Blaenelly. O assistentedo Dr. Page. - O tom de voz era estridente. - Tenho aquicinco casos de tifo. Preciso que o Dr. Griffiths 
venha imediatamente.
       Houve uma pausa misteriosa. Depois, de repente, a resposta veio, cheia de desculpas, numa vozinha cantada,bem do Pas de Gales:
       - Sinto muito, doutor, lamento sinceramente, mas infelizmente o Dr. Griffiths foi para Swansea. Assunto deservio, coisa importante.
       - E quando estar de volta? - berrou Manson. A linhaestava horrvel.
       - Para falar precisamente, doutor, no lhe posso daruma informao exacta.
       - Mas oua...
       Houve um tique do outro lado do fio. Desligaram calmamente.
       Manson praguejou em voz alta, com violncianervosa:
       - Diabo o carregue! Suponho que foi o prprio Griffiths.
       Pediu o nmero outra vez, mas no conseguiu ligao.
       Contudo, numa teimosia desesperada, j estava para telefonar novamente quando, ao virar-se, viu que Annie entrara no vestbulo e estava a contempl-lo humildemente,com 
as mos enfiadas nos bolsos do avental. Era umamulher de quarenta e cinco anos talvez, asseada, com expressode serenidade paciente e ajuizada.
       - Ouvi sem querer, doutor - disse ela. - Nunca encontrar o Dr. Griffiths em Toniglan durante o dia. Quasetodas as tardes vai jogar o golf em Swansea.
       Ele respondeu com irritao, dominando o n que lheapertava a garganta.
       - Mas creio que foi com ele mesmo que falei.
       - Pode ser. - Ela sorriu levemente. - J ouvi contarque mesmo quando no vai a Swansea diz que foi. - Fitou-o com tranquila simpatia antes de voltar para 
a cozinha. - Se eu fosse o doutor no perderia tempo com ele.
       Andrew pendurou o auscultador com um sentimento profundo de indignao e tristeza. Resmungando, saiu paravisitar os doentes mais uma vez. Quando voltou, 
j estavana hora da consulta nocturna. Durante hora e meia ficousentado no cubculo dos fundos que tinha o nome pomposode consultrio. Padeceu na diviso abafada 
at sentir asparedes ressumando humidade e o local insuportvelcom as exalaes dos corpos suados. Mineiros com joelhoscontundidos, dedos cortados, nistagmos, 
reumatismo crnico.
       As mulheres deles tambm, e as crianas com tosse, resfriamentos, contuses todas as pequenas dores da Humanidade.
       Numa outra ocasio at acharia graa em ver-se posto prova por aquela gente morena e de faces descoradas.
       Mas agora, perturbado pela impresso que o dominava, impacientava-se com a narrativa daquelas doenas sem importncia. Contudo, durante esse tempo uma deciso 
jse esboava no seu esprito. Enquanto escrevia receitas,auscultava pulmes e dava conselhos mdicos, ia pensandoconsigo mesmo: Foi ele quem me abriu os olhos. 
No otolero. Sim, tenho-lhe uma averso dos diabos. Mas noh remdio. Tenho de o procurar.
       s nove e meia da noite, quando saiu o ltimo cliente,levantou-se com a deciso estampada na fisionomia.
       - Jenkins, onde mora o Dr. Denny?
       Fechando rapidamente a porta da frente, a fim de impedir que pudesse entrar mais algum, o empregado voltou-se, deixando transparecer no rosto uma expresso 
dehorror quase cmico.
       - O doutor no deve querer entender-se com esse sujeito. A Sr.a Page... no gosta dele.
       Andrew, irritado, perguntou:
       - E porque no gosta dele a Sr.a Page?
       - Pela mesma razo por que os outros no gostam. Temsido grosseirssimo para com ela. 
       Jenkins parou, mas,vendo a expresso de Manson, acrescentou com hesitao: 
       - Ah, bem, se tem empenho em saber, ele mora em casada Sr.a Seager, na Chapei Street, 49.
       Ei-lo novamente na rua. Andara o dia inteiro, mas nemdava pelo seu prprio cansao, tal o sentido da responsabilidade, tal a preocupao com aqueles casos, 
pesando,pesando cada vez mais, no seu esprito. Foi principalmente alvio o que sentiu quando, ao chegar a ChapeiStreet, soube que Denny estava em casa. A dona 
da casamandou-o entrar.
       Se ficou surpreendido ao v-lo, Denny no o demonstrou. 
       Perguntou-lhe apenas, depois de o encarar longa e persistentemente:
       - Ento?! Ainda no matou algum?
       Ainda de p, no limiar da sala quente e em desordem, Andrew corou at  raiz dos cabelos. Mas, fazendo umgrande esforo, dominou os nervos e o orgulho e 
disseabruptamente:
       - O doutor tinha razo. Era enterite. Mereo ser castigadopor no haver descoberto isso. J tenho em moscinco casos. No me  agradvel ter de vir at 
aqui, masno sei o que fazer. Telefonei ao subdelegado de sade eele no me deu a mais insignificante ajuda. Tenho deapelar para si.
       Esparramado numa poltrona, perto do fogo, escutando,de cachimbo na boca, Denny fez afinal um gesto de mvontade:
       -   melhor entrar. - E com sbita irritao: - Oh! Que diabo, puxe uma cadeira! No fique a de p como seestivesse em penitncia. Quer beber alguma coisa? 
No! Logo vi que no havia de querer.
       Embora lhe custasse aceitar o convite, Andrew sentou-see acendeu mesmo um cigarro para disfarar a sua desorientao.
       Denny no parecia ter pressa. Ps-se a acariciaro co com a ponta do chinelo. Mas afinal, quando Mansonacabou de fumar o cigarro, disse com um movimento 
decabea:
       - Querendo pode olhar para isso!
       E indicou a mesa onde estava o microscpio, um ptimo Zeiss, e algumas lminas. Andrew focalizou uma lmina, derramou sobre ela uma gota de leo e pde ver 
o enxamede bactrias de forma alongada.
       - Est preparado de modo muito primitivo,  claro- disse Denny com vivacidade e cinismo, como se antecipassea crtica. - Na verdade est praticamente atamancado.
       - No sou rato de laboratrio, graas a Deus. Se sou algumacoisa,  cirurgio. Mas aqui, neste regime desgraado declnica, temos de ser pau para toda a 
obra. Alis, no hengano possvel, mesmo a olho nu. Eu preparei na minhaestufa os germes em cultura de agar.
       - Tambm est a tratar de casos de tifo? - perguntouAndrew com vivo interesse.
       - Quatro. Todos na mesma zona dos seus.  
       E acrescentou:
       - Esses micrbios vm da cisterna de GlydarPlace.
       Andrew fitou-o espantado, ansioso por perguntar uma poro de coisas, comeando a compreender a correcodo trabalho do outro e apreciando mais do que tudo 
aindicao do foco da epidemia.
       - O doutor compreende - continuou Denny no mesmotom amargo e irnico. - O paratifo  mais ou menos endmicopor estas bandas. E mais cedo ou mais tarde vamoster 
uma epidemiazita. A rede principal de esgotos  a culpadade tudo. Verte como um crivo e os esgotos infiltram-se na maioria das cisternas da parte baixa da cidade. 
Jmartelei a pacincia de Griffiths com este assunto, masacabei por ficar cansado.  um porco parvo, incompetente, evasivo e preguioso. A ltima vez que lhe telefonei 
disse-lhe que ia acabar com a sua incapacidade na primeiraocasio que o encontrasse. Foi por isso provavelmente queele se mostrou hoje to macio consigo.
        - Isto  uma vergonha horrvel! - explodiu Andrew, deixando-se invadir por uma crise sbita de indignao.
       Denny encolheu os ombros.
       - Ele no quer pedir providncias ao conselho, commedo que das despesas resulte um corte nos seus proventos.
       Houve um silncio. Andrew desejava ardentemente quea conversa prosseguisse. No obstante a hostilidade de quese achava possudo em relao a Denny, encontrava 
umestranho estmulo no seu pessimismo, no seu cepticismo,no seu cinismo patente e glacial. Entretanto, mais nenhum pretexto tinha para prolongar a visita. Levantou-se 
dacadeira, junto da mesinha do microscpio e encaminhou-separa a porta, ocultando o que sentia e esforando-se porexprimir a sua gratido num agradecimento formal.
       - Fico-lhe muito grato pela informao. O doutor fez-mever claramente a situao. Andava preocupado com aorigem da doena e j estava a pensar que o contgiofosse 
pessoal, mas, desde que o doutor localizou a origemnas cisternas, tudo se esclarece. De ora em diante toda agua de Glydar Place tem de ser fervida. 
       Denny levantou-se tambm e resmungou:
       - Griffiths  que devia ser posto a ferver. 
       Depois retomou o seu ar irnico:
       - Agora, meu caro doutor, nada de protestos comovidos.  um favor que lhe peo. Antes que este surto termineteremos provavelmente de nos suportar um ao outro. 
Venha visitar-me todas as vezes que se sentir com foraspara me tolerar. No temos muita vida de relao poraqui.
       Lanou um olhar ao co e concluiu rudemente:
        - At um mdico escocs pode ser bem-vindo, no  assim, Sir John!
       Sir John Hawkins varreu o tapete com a cauda, deitando a lngua de fora como a troar tambm de Manson.
       Contudo, ao voltar para casa, por Glydar Place, ondedeixou instrues rigorosas sobre a gua, Andrew compreendeu que no detestava tanto Denny como haviapensado.
       
       

4
       Andrew entregou-se de corpo e alma, com toda a energiada sua natureza ardente e impetuosa,  campanha contraa enterite. Amava o seu trabalho e julgava-se 
feliz por lheter aparecido tal oportunidade no comeo da carreira.
       Durante essas primeiras semanas trabalhou como um negro, mas alegremente. Tinha a seu cargo todo o servioda clnica, porm, mal dava conta da tarefa, voltava 
comentusiasmo aos seus casos de tifo.
       Foi talvez protegido pela sorte na primeira investida.
       Antes de terminado o ms, todos os seus doentes de enteriteiam em franca convalescena e o surto do mal parecia circunscrito. Quando pensava nas suas precaues, 
to rigorosamente tomadas gua fervida, desinfeco e isolamento, papis ensopados de cido fnico em todas asportas, quilos de cloreto de cal que mandara vir por 
contada Sr.a Page e que ele mesmo atirara aos esgotos de Glydar, quando pensava em tudo isso, dizia com satisfao:
       Tudo vai bem. Sei que no mereo tanto, mas que diabo! Estou dando conta do recado!Inspirava-lhe um prazer secreto e inconfessvel o factode os seus casos 
melhorarem mais depressa que os deDenny.
       Este ainda o desconcertava, ainda o exasperava. Acidentalmente encontravam-se muitas vezes por causa da vizinhana dos seus doentes e Denny regozijava-se 
porempregar todo o poder da sua ironia na tarefa comum.
       Dizia que Manson e ele estavam a lutar renhidamentecom a epidemia e saboreava o dito com prazer vingativo. Contudo, apesar da permanente ironia, de dizer 
zombeteiramente:
       No se esquea, doutor, de que estamos areabilitar a honra de uma profisso gloriosa, tratavacarinhosamente dos doentes, sentado  sua cabeceira, examinando-os 
a toda a hora, passando muito tempo juntodos leitos.
       As vezes Andrew chegava quase a estim-lo. Era quando Denny deixava transparecer uma simplicidade tmida efugidia. Mas logo depois prejudicava essa boa impressocom 
uma frase mal-humorada e sarcstica. Magoado econfuso, Andrew consultou certo dia o Anurio Mdicona esperana de um esclarecimento. Havia nas estantesdo Dr. 
Page um velho exemplar de uma edio de hcinco anos. Inseria, no entanto, algumas informaes surpreendentes.
       Apresentava Phillip Denny como estudantelaureado das Universidades de Cambridge e Guy, M. S. ofEngland(*), exercendo at quela data a sua actividadeprofissional 
na cidade de Leeborough, em cujo hospitaltambm desempenhava as funes de cirurgio titulado.
       
(*) Abreviatura muito usada na linguagem mdica para significarMaster in Surgery, isto , mestre em cirurgia.  o grau mais elevadode um operador na Inglaterra. 
(N. do T.)
       
       No dia 12 de Novembro, inesperadamente, Denny telefonou-lhe.
       - Manson, gostaria de o ver. Venha at aqui, s trshoras.  assunto importante.
       - Est bem, irei.
       Andrew foi almoar preocupado. E enquanto mastigavaa sua magra refeio percebeu que Blodwen Page o observava de modo incisivo e impertinente.
       - Quem foi que telefonou? Foi Denny, hem? No semeta com esse cavalheiro. Ele para nada presta.
       Manson encarou-a friamente.
       - Pelo contrrio, tem-me sido til em muita coisa.
       - Pois continue com ele, doutor.  
       Como sempre acontecia quando contrariada, Blodwen explodiu num acessode despeito:
       -  um tipo maluco. Quase nunca receita. Olhe,quando Megan Rhyes Morgan, que no pode passar semremdio, o foi consultar, recomendou-lhe apenas queandasse 
a p, duas milhas por dia, nas montanhas, edeixasse de enlamear-se no meio dos porcos. Foram essasexactamente as suas palavras. Ela veio procurar-nos depoisdisso 
e eu asseguro-lhe que desde ento nunca mais deixoude ter as suas garrafinhas de ptimos remdios preparadospor Jenkins. Oh!  um demnio grosseiro e torpe e 
aindapor cima abandonou a mulher no sei onde. No vivecom ela. Veja l! Alm disso, anda quase sempre bbado. Fuja da sua companhia, doutor, e no se esquea 
de queest a trabalhar por conta do Dr. Page.
       Quando ela instilou essa insinuao torpe Andrew sentiuo sangue subir-lhe  cabea. Fazia tudo o que lhe erapossvel para lhe ser agradvel, mas as suas 
exignciaspareciam no ter limites. As suas atitudes, entre a blandciae a desconfiana, tinham sempre em mira tirar tudodele e dar-lhe em troca o menos possvel. 
Talvez por descuido da parte dela, o pagamento do seu primeiro msj estava atrasado trs dias, facto que o aborrecia e preocupava muito. Ao observar esta mulher 
anafada, transbordantede bem-estar, ditando sentenas sobre Denny, Andrew no pde conter os seus sentimentos e disseindignando-se de repente:
       - Lembrar-me-ia mais facilmente de que estou a trabalhar para o Dr. Page se j me tivesse pago o ordenado,minha senhora.
       Ela corou to instantaneamente que Andrew ficou certode haver tocado num assunto bem presente no esprito daSr.a Page, que abanou a cabea com ar de desafio:
       - O senhor receber o seu ordenado. Esteja descansado.
       Durante o resto do almoo ficou amuada, sem olharpara Andrew, como se dele tivesse recebido um insultoMas depois, quando o chamou  sala de visitas, a suadisposio 
j era afvel, alegre, sorridente.
       - Aqui est o seu dinheiro, doutor. Sente-se e falemoscomo bons amigos. No poderemos progredir se no nosentendermos bem.
       Estava sentada numa cadeira de braos, de veludoverde, com vinte notas de uma libra no colo. Pegando nodinheiro, comeou a contar, passando lentamente as 
notaspara as mos de Manson:
       - Uma, duas, trs, quatro... - ao chegar ao fim do mao comeou a passar as notas mais devagar, bem mais devagarinho, com os olhinhos negros e manhosos piscandosignificati
vamente. Quando contou dezoito, parou de veze deu um suspiro de quem se lastima. - Oh, meu caro doutor! Isso  um dinheiro nestestempos to difceis, no lhe 
parece? Toma l, d c, temsido sempre o meu lema na vida. Devo ficar com asoutras duas como recordao?
       Ele nada achou que dizer. Era abominvel a situaocriada pela mesquinhez da mulher. Bem sabia que a clnicaera muito bem paga pela Companhia.
       Durante um momento Blodwen ficou imvel, estudandoa fisionomia de Andrew. Depois, no encontrando respostana sua face impassvel, deixou cair-lhe na mo, 
com umgesto de aborrecimento, as duas notas que faltavam e dissesecamente:
       - E agora trate de corresponder a este ordenado!
       Levantou-se de supeto e fez meno de deixar a sala,mas Andrew deteve-a antes que ela atravessasse a porta.
       - Um momento, Sr.a Page. - A sua voz indicava umadeciso nervosa. Por mais odioso que isso fosse estavaresolvido a no deixar que ela ou a sua sovinice 
o prejudicasse. - A senhora s me deu vinte libras, que correspondema duzentas e quarenta por ano, quando o nossocontrato foi de duzentas e cinquenta. Faltam-me 
dezasseisxelins e oito pence.
       Ela ficou branca como cera, de tanta raiva e decepo.
       - Ah!  assim?! - Soprava. - O senhor pretende estragar a nossa amizade com questezinhas de vintm? Sempre ouvi dizer que os escoceses eram muito sovinas 
e agoraestou a ver a confirmao. Tome! Aqui esto os seus miserveisxelins e os seus trocos tambm.
       Tirou da bolsa bojuda o resto do dinheiro, contandomoeda a moeda, com os dedos trmulos e os olhos cravadosem Andrew. Depois, lanando-lhe ainda um olhar 
feroz,retirou-se e bateu a porta com toda a fora.
       Andrew saiu de casa enraivecido. As injrias da Sr.aPage feriram-no profundamente porque as consideravainjustas. Ela no via que no se tratava de uma questozinha 
miservel de dinheiro, mas de um princpio de justia?
       Alm disso, mesmo sem falar no aspecto moral docaso, ele era por natureza um homem incapaz de deixarque algum fizesse pouco dele. Andrew sentiu-se melhor 
quando chegou ao correio eexpediu, em carta registada, as vinte libras do seu ordenadopara a Dotao Glen. As moedas ficavam para assuas despesas midas.  sada 
viu aproximar-se o Dr. Bramwell e a sua disposio melhorou ainda mais. Bramwell andava lentamente, com ar majestoso, todo empertigadono seu fato preto j muito 
cansado, a cabeleirabranca e comprida espraiando-se pela nuca sobre o colarinho sujo, os olhos fixos no livro aberto que trazia na mo,com o brao todo estendido. 
Quando chegou junto deAndrew, a quem j tinha visto desde o meio da rua, fezum gesto teatral de quem finalmente dava pela sua presena ali.
       - Ah, Manson, meu filho! Quase passei por si sem over. Ia to distrado...
       Andrew sorriu. J entrara em relaes amistosas com oDr. Bramwell, que, ao contrrio de Nicholls, o outro mdicoinscrito, o recebera cordialmente aquando 
da sua chegada.
       A clientela de Bramwell era pouco numerosa e nolhe permitia o luxo de um assistente, mas o doutor dava-seuns ares de importncia e tinha atitudes prprias 
de umgrande clnico.
       Fechou o livro, marcando cuidadosamente a pginacom a unha suja, e enfiou a mo livre na abertura dojaqueto coado, numa imponncia pitoresca. Era umapersonagem 
to teatral que custava acreditar na suarealidade. Mas no havia dvida de que ele estava ali,bem vivo, na rua principal de Blaenelly. No era de admirarque Denny 
o alcunhasse de O Rei da Prata.
       - E ento, meu filho? Gosta da nossa pequenina cidade? Como lhe disse, quando nos foi visitar no Retiro, istoaqui no  to mau como parece  primeira vista. 
Temosas nossas capacidades, a nossa cultura. Minha mulher eeu fazemos o possvel para ajudar a intelectualidade daterra. Alimentamos o fogo sagrado, Manson, mesmo 
nodeserto. Deve vir  nossa casa uma noite destas. O senhorcanta?
       Andrew teve uma vontade doida de rir. Bramwell continuava, com uno:
       -  claro que j ouvimos falar do seu trabalho noscasos de enterite. Blaenelly orgulha-se de si, meu rapaz.
       - Bem gostaria eu de ter uma oportunidade dessas. Se vierum dia a precisar de mim para alguma coisa, estou ssuas ordens.
       Um rebate de remorso, quem era ele para se divertir custa do velho? impeliu Andrew a dizer:
       - A propsito, Dr. Bramwell, estou a tratar de umcaso de mediastienite secundria muito interessante.  umcaso raro. Quer, dar-se  maada de o examinar 
comigo,se nada mais tem que fazer?
       - Ah, sim? - indagou Bramwell, esfriando um pouco o entusiasmo. - No quero perturbar o seu trabalho.
       -  aqui bem perto - disse Andrew com solicitude. Tenho ainda meia hora livre antes de me encontrarcom o Dr. Denny. Podemos ir at l num pulo.
       Bramwell parou, hesitou um pouco, como  procura deuma desculpa, e ento fez um gesto desanimado de assentimento. E os dois desceram a Glydar Place e foram 
vero doente.
       O caso era de facto, como dissera Manson, de excepcional interesse, apresentando um raro exemplo de inflamao persistente do timo. Manson estava muito orgulhosode 
ter feito o diagnstico e sentia uma confortante sensao de ardor comunicativo quando convidou Branrwell aparticipar das emoes da sua descoberta.
       Mas, apesar dos seus protestos, o Dr. Bramwell noparecia entusiasmado por aquela oportunidade. SeguiuAndrew, entrou no quarto do doente com m vontade,sustendo 
a respirao e aproximando-se do leito de modosuave e lento. Ali tomou uma atitude natural e, a distncia que lhe pareceu conveniente, fez um exame apressado, 
pois nem sequer estava disposto a demorar-se. E fois quando chegou  rua e aspirou profundamente o arlivre que recuperou a sua eloquncia habitual. Expandiu-se 
com Andrew:
       - Tive muito prazer em ver o caso na sua companhia,meu rapaz. Em primeiro lugar, porque faz parte dos deveres do mdico nunca fugir ao perigo da infeco 
e emsegundo porque me agradam todas as oportunidades deestar em contacto com a cincia. Acredite que este  omelhor caso de inflamao do pncreas que eu j algumavez 
examinei.
       Apertou a mo de Andrew e foi-se embora apressadamente, deixando o companheiro muito surpreso. O pncreas!, pensou Andrew, espantado. No fora apenas 
umlapso de linguagem que levara Bramwell a cometer aqueleerro crasso. Toda a sua atitude no caso denunciava ignorncia.
       A verdade era que ele nada sabia. Andrew enrugoua testa. E pensar que um mdico, a quem estavamconfiadas centenas de vidas humanas, no sabia a diferena 
entre o pncreas e o timo, muito embora um estejano abdmen e o outro no trax. No era de facto depasmar?!
       Subiu lentamente a rua na direco da casa deDenny. No caminho ia pensando mais uma vez como sedesmoronava aos prprios olhos toda a sua concepoantiga 
do exerccio da medicina. Ele bem sabia quanto era deficiente a sua preparao e a sua experincia, a suaformao incompleta muito capaz de cometer erros. MasBramwell 
no era inexperiente e por isso mesmo nohavia desculpa para a sua ignorncia. Inconscientementeo pensamento de Andrew voltou-se para Denny, que nuncaperdia oportunidade 
de satirizar a profisso. De princpioDenny indignara-o profundamente com a afirmao pessimista de que a Inglaterra estava cheia de mdicos incompetentes que 
s se distinguiam pela sua completa estupidez e pela capacidade de iludir os doentes. Agora perguntavaa si mesmo se Denny no teria uma certa razoao dizer isso. 
Resolveu retomar a discusso naquela tarde.
       Quando entrou no quarto de Denny viu imediatamenteque a ocasio no era propcia para discusses acadmicas.
       Phillip acolheu-o com um silncio enfastiado, testa franzida e olhar sombrio. Depois de um momento disse:
       - Jones morreu esta manh, s sete horas. Perfurao intestinal. - falava calmamente, com raiva fria e contida. - E ainda tenho dois outros casos de enterite 
em Ystrad.
       Andrew baixou os olhos cheio de pena, mas sem sabero que dizer.
       - No se mostre to aborrecido com isso - continuouDenny com azedume. -  agradvel para voc verificarque os meus casos so mal sucedidos enquanto os seusmelhoram. 
Mas as coisas no iro assim to bem quandoaquele maldito cano de esgoto comear a vazar na suazona.
       - No, no! Eu sinto muito, sinceramente. - Falou Andrew num impulso. - Temos de tomar quaisquer providncias. Devemos escrever ao Ministrio da Sade.
       - Poderamos escrever uma dzia de cartas - replicouPhillip, num tom sombrio. - S conseguiramos que nofim de seis meses aparecesse por aqui um inspector 
dehigiene inteiramente desinteressado. No! J nem pensonisso. S h um meio de obrigar essa gente a construiruma nova rede de esgotos.
       - Como?
       - Fazendo saltar o esgoto velho!
       Na primeira impresso Andrew chegou a desconfiar que Denny no estava no seu perfeito juzo. Mas logo depois compreendeu a inteno audaciosa do companheiro. 
Fitou-o consternado. Por mais que tentasse pr em ordemas suas ideias em alvoroo, Denny parecia sempre dispostoa destro-las. Disse meio estupefacto:
       - Isso iria dar uma srie enorme de complicaes... sefosse descoberto.
       Denny encarou-o arrogantemente.
       - Se no quiser vir comigo, no preciso.
       - Mas eu vou consigo - respondeu Andrew pausadamente. - Mas s Deus sabe porqu!
       Durante toda a tarde Manson trabalhou de m vontade, lamentando a promessa que fizera. Aquele Denny era doidoe mais cedo ou mais tarde acabaria por envolv-lo 
emqualquer sria complicao. Era uma coisa horrorosa oque ele acabara de propor, uma infraco  lei, que, descoberta, havia de lev-los  polcia e poderia 
expuls-losda Ordem dos Mdicos. Um arrepio de horror correu porAndrew ao pensar que a sua bela carreira, que se esboavato brilhante para o futuro, poderia 
ser subitamente cortada, arruinada. Amaldioou Phillip violentamente e jurou mais de vinte vezes que no o acompanharia. Contudo,por uma razo misteriosa e complexa, 
no queria, no podia voltar atrs.
       
       

5
       s onze horas da noite, Denny e ele saram juntos, acompanhados do co, e foram at ao fim de Chapei Street.
       Estava muito escuro. O vento sibilava e uma chuvinha mida salpicava-lhes o rosto. Denny j havia traado oplano e calculado cuidadosamente em quanto tempo 
poderiam realiz-lo. O ltimo turno de trabalhadores sarahavia uma hora. Alguns rapazolas ainda rondavam pelaporta da venda de peixe do velho Thomas, mas o restoda 
rua estava deserto. Os dois homens e o cachorro foram andando calmamente.
       No bolso do pesado sobretudo Denny levava seisdelgados pacotes de dinamite, que Tom Seager, o filho dadona da casa onde morava, roubara para ele, naquelatarde, 
do depsito de explosivos da pedreira. Andrew transportava seis latas de cacau, todas com um furo na tampa,uma lanterna elctrica e um rolo de rastilho. Inclinadopara 
a frente, com a gola do sobretudo levantada, lanandoolhares desconfiados para um lado e para outro, o espritoperdido num torvelinho de emoes que se chocavam, 
eraapenas por monosslabos que respondia s rpidas observaes de Denny. Imaginava apreensivamente o que pensaria dele, vendo-o envolvido nessa comprometedora 
aventura nocturna, o Prof. Lamplough, o suave professor daortodoxia mdica.
       Logo acima de Glydar Place chegaram  abertura principal da rede de esgotos; um tampo de ferro sobre umabase de cimento carcomido. Ali lanaram mos  
obra.
       Havia muitos anos que ningum mexia naquela cobertura roda pela ferrugem, mas depois de muito esforo conseguiram levant-la. Ento, Andrew projectou a 
luz da lanterna, discretamente, para as profundezas mefticas, onde a torrente de imundcies se escoava lentamente sobre as lajesj desmanteladas.
       - Lindo, no? - rosnou Denny. - Lance um olhar paraas fendas naquele ponto. Lance um ltimo olhar, Manson.
       Nada mais foi dito. Inexplicavelmente mudou o estadode esprito de Andrew, j ento dominado por uma exaltao repentina e selvagem, uma resoluo igual 
 do prprio Denny. Muita gente estava em riscos de morrer porcausa daquela peonha abominvel e a burocracia mesquinhano tomava providncias. No era o momento 
deproceder como se estivessem  cabeceira dos doentes, comcarinhos e remdios.
       Comearam a preparar rapidamente as latas de cacau, metendo em todas elas um pacote de dinamite. Cortaramrastilhos de comprimentos graduados, ligando-os 
ao explosivo.
       Um fsforo brilhou na escurido, iluminando de repente a face branca e impassvel de Denny e as mos trmulas de Andrew. O primeiro rastilho crepitou. Uma 
poruma as latas foram escorregando para o fundo da correntenauseabunda, comeando por aquelas que tinham rastilhos mais compridos. Andrew no podia ver claramente.
       O corao pulsava-lhe clere, excitadssimo. Podia no ser medicina ortodoxa, mas era o momento de maior intensidade que tinha vivido. Quando a ltima lata 
desceu, como seu curto rastilho j aceso, Hawkins teve a infeliz ideiade caar uma rata. Foi um momento de agonia. O colatia e com a ameaa terrvel de uma exploso 
debaixodos ps, os dois homens tiveram de correr at o alcanar.
       Depois disso, o tampo enferrujado foi reposto no lugare eles correram loucamente, subindo a rua, at uns trintametros de distncia. Mal tinham alcanado 
a esquina da Radnoor Place, parando a para olhar para os lados, uma primeiralata explodia.
       - Deus do Cu! - Andrew arfou, exultante. - Estconcluda a nossa obra, Denny!
       Tomava um ar de camaradagem com o outro. Queriasegur-lo pelo brao e gritar bem alto.
       E ento, rapidamente, maravilhosamente, seguiram-seas exploses abafadas, duas, trs, quatro, cinco e a ltima,afinal, uma gloriosa detonao que deve ter 
ecoado pelomenos at um quarto de milha na extenso do vale.
       - Ah! - murmurou Denny, numa voz abafada, como se toda a amargura secreta da sua vida se escapasse naquela simples palavra.  Isto  o fim de uma imundcie 
vergonhosa!
       Quase no tinha falado antes da exploso. Portas e janelas escancararam-se, projectando luz sobrea escurido da rua. Muita gente saiu de casa. Num momento 
a rua ficou cheia. A princpio dizia-se que fora umaexploso na mina. Mas essa verso foi logo posta de parte.
       Os estampidos tinham vindo do vale. Surgiram discussese aventuraram-se hipteses. Um grupo de homens saiu com lanternas para ver o que havia. A algazarra 
e a confusoenchiam a noite. Protegidos pela escurido e pelo alvoroo,Denny e Manson esgueiraram-se at s suas casas, tomando desvios. Havia uma aleluia de 
triunfo na alma deAndrew.
       Na manh seguinte, antes das oito, chegou de automvel o Dr. Griffiths, com o seu rosto balofo, tomado depnico, arrancado da sua fofa cama pelo conselheiro 
GlynMorgan,  custa de muita blasfmia. Griffiths podia ignorar os apelos dos mdicos locais, mas no havia recusapossvel para a ordem enfurecida de Glyn Morgan. 
E, naverdade, Glyn Morgan tinha razo para estar irado. Anova vivenda do conselheiro, que ficava a meia milha dovale, fora cercada durante a noite por uma enxurrada 
deimundcies. Durante meia hora o conselheiro, acolitadopelos seus auxiliares, Hamar-Davies e Deawen Roberts,disse ao subdelegado de sade, em voz que podia ser 
ouvida por toda a gente, tudo o que pensava dele.
       No fim da descompostura, Griffiths limpou o suor datesta e dirigiu-se a Denny, que, em companhia de Manson,estava no meio da multido curiosa e esclarecida. 
Andrewquase desfaleceu ao ver aproximar-se o mdico. Uma noitede inquietao tinha esfriado um pouco o seu entusiasmo.
        luz fria da manh, assustado com o pavor de uma carreira em perigo, viu-se outra vez perturbado e nervoso.
       Mas Griffiths no estava em condies de alimentar suspeitas.
       - Que desastre! - disse gaguejando para Phillip. - Temos de fazer agora quanto antes a nova rede de esgotospor que o doutor tanto se interessava.
       A fisionomia de Denny continuou impassvel.
       - H muitos meses que eu o avisei - respondeu ele glacialmente. - No se lembra?
       - Sim, sim, sem dvida! Mas como podia eu adivinharque essa maldita coisa ia explodir dessa maneira? No seicomo foi isto possvel. Para mim  um mistrio.
       Denny encarou-o com frieza.
       - Para que servem os seus conhecimentos, doutor? Nosabe que os gases dos esgotos so altamente inflamveis?
       A construo da nova rede de esgotos comeou na segunda-feira seguinte.
       Trs meses depois, numa linda tarde de Maro, a aproximao da Primavera perfumava a doce brisa quevinha das montanhas, onde vagos indcios de verde desafiavam 
a fealdade dominante da paisagem nua das pedreiras. Sob o cu de lmpido azul at mesmo Blaenellyera bonita.
       Ao sair para atender uma chamada, que acabava dereceber para a Riski Street, 3, Andrew sentiu o coraoalvoroar-se com o encanto do dia. Comeava a aclimatar-sequela 
estranha cidade, primitiva e solitria, sepultada entre montanhas, sem casas de diverses, sem umnico cinema, nada mais do que as suas minas sombrias,as suas 
pedreiras e as suas fbricas metalrgicas, a sriede capelas e o conjunto triste das casas. Era uma comunidadeestranha que vivia isolada do mundo.
       A gente do lugar tambm no era banal. Embora sesentisse bem diferente dela, Andrew queria-lhe bem. Comexcepo dos comerciantes, os pastores do culto e 
maisumas poucas pessoas, s havia ali empregados da companhia.
         entrada e  sada de cada turno de trabalhadores, as ruas adormecidas despertavam subitamente, ressoando os sapatos ferrados, povoando-se inesperadamentede 
um exrcito de figuras em marcha. As roupas, o calado, as mos, mesmo o rosto dos que trabalhavam namina de hematite estavam impregnados da poeira avermelhada 
do minrio. Os homens das pedreiras usavam reforos de oleado nos joelhos. Os metalrgicos distinguiam-se pelas suas calas de riscas azuis.
       O povo de Blaenelly falava pouco, e muito do que diziaera no dialecto de Gales. com o seu ar distante e compenetrado, dava a impresso de formar uma raa 
 parte. No entanto, era boa gente, e simples as suas distraces.
       Os centros de reunio eram os prprios lares, ostemplos, o modesto campo de rugby no alto da cidade. Setinha paixo por alguma coisa era pela msica. No 
pelasmelodias vulgares em voga, mas pela msica superior: clssica e severa. 
       Ao passear de noite, Andrew ouvia frequentemente o som de um piano vindo de uma pobre casa: uma sonata de Beethoven ou um preldio de Chopin,optimamente 
executado, a flutuar na atmosfera silenciosa,subindo para alm das montanhas inescrutveis.
       A situao da clnica do Dr. Page era agora bem clarapara Andrew. Edward Page nunca mais trataria de qualquer doente. Mas os clientes no queriam prescindir 
domdico que os atendera devotadamente em mais de trintaanos. Empregando modos afveis e mistificaes para comWatkins, o director das minas, por intermdio do 
qual seliquidavam as cotizaes dos operrios, para pagamentoao mdico, a esperta Blodwen conseguira manter Page nalista da Companhia e estava assim gozando uma 
choruda renda, da qual s uma sexta parte em benefcio de Manson,que fazia todo o trabalho.
       Edward Page inspirava a Andrew profunda pena. Erauma alma simples e gentil este pobre Edward, que se casara com a pequenina Blodwen, gorduchinha, afectada 
epetulante. Ao tir-la do emprego numa casa de ch emAberyswyth estava longe de saber o que havia por detrsdos botezinhos negros e buliosos dos seus olhos. 
Agora, alquebrado, preso a uma cama, estava inteiramente  suamerc, sujeito a um tratamento misto de blandcia e deuma espcie de brutalidade jovial. No que 
Blodwen noo amasse.  sua maneira especial era louca por Edward.
       Ele, o Dr. Page, pertencia-lhe. Se entrava no quarto quandoAndrew estava ao lado do doente avanava sorrindo, mas exclamava com um estranho esprito de exclusivismo:
       - Que  isso? Vocs dois a a conversar?
       Era impossvel deixar de querer bem a Edward Page,to evidentes as suas qualidades de sacrifcio e renncia.
       Ficava ali abandonado no leito, acabrunhado, submisso diante de todas as atenes inoportunas da esposa impaciente, atrevida, de fisionomia mal-humorada, 
sempre vtima das exploraes e da sua impertinncia constante epetulante. No havia razes para permanecer em Blaenelly e ansiava por ir morar em clima mais 
quente e suave. Umavez, quando Andrew perguntou:
       - Que lhe agradaria, doutor?        
       Ele suspirou:
       - Eu gostaria de sair daqui, meu filho. Li umas coisassobre aquela ilha... Capri... onde vo fazer uma reservapara os passarinhos.
       E ento voltou o rosto para o outro lado do travesseiro. O acento da sua voz era de melancolia infinita.
       As crianas irritavam-no. Nunca falava da clnica, ano ser para murmurar uma vez por outra, numa vozcansada:
       - Parece-me que no entendo muito disso. Contudo,fiz o que pude.
       Passava horas estirado na cama, em absoluta mudez, espiando o peitoril da janela onde todas as manhs Annie colocava piedosamente pedacinhos de miolo de po, 
fiaposde presunto e coco raspado. Aos domingos, antes do meio-dia, vinha visit-lo um velho mineiro, Enoch Davies, muitoempertigado no seu fato preto lustroso 
e na sua camisacom o peitilho de borracha. Os dois homens ficavamobservando os pssaros em silncio. Certa vez Andrewencontrou Enoch, que descia as escadas todo 
excitado.
       - Nem queira saber - exclamou o velho mineiro. - Tivemos uma manh estupenda. Dois pintassilgos passaramuma hora brincando no peitoril da janela. Mesmo 
juntode ns.
       Enoch era o nico amigo de Page e tinha grandeinfluncia entre os mineiros. Afirmava com energia quenenhum homem sairia da lista do doutor enquanto elefosse 
vivo. Nem imaginava o prejuzo que a sua lealdadecausava ao pobre Edward.
       Outra visita frequente na casa era a de Aneurin Rees, gerente do Western Counties Bank, um homem comprido,seco e calmo, de quem Andrew desconfiou logo  
primeiravista. Rees era um cidado altamente respeitvel mas quenunca fitava algum de frente. com o Dr. Page ficavaapenas uns cinco minutos por mera formalidade 
e logo depois fechava-se com Blodwen uma hora larga. Essasentrevistas eram de um decoro irrepreensvel. Tratava-seapenas de dinheiro. Julgava Andrew que a Sr.a 
Page aplicara uma grande quantia em negcios no seu prprionome, e assim, sob a administrao admirvel de AneurinRees, ela ia aumentando astuciosamente os seus 
cabedais. 
       Nesse tempo dinheiro nada significava para Andrew. Contentava-se em saldar regularmente as suas obrigaes para com a Dotao. Sobravam-lhe ainda algunsmidos 
para os cigarros. Fora disso o trabalho preenchia-lhe a existncia. Agora, mais do que nunca, compreendia quanto o servio da clnica era importante para ele. 
Animava-o a conscincia do trabalho, uma certeza ntima, sempre presente,que o alimentava quando se sentia cansado, deprimido, desorientado. Na verdade, perturbaes 
estranhas dominavam ultimamente o seu esprito e desorientavam-no.
       Em questes de medicina havia comeado a pensar porsua prpria conta. Talvez o principal responsvel por issofosse Denny, com o seu ponto de vista radicalmente 
demolidor.
       As teorias de Denny eram literalmente opostas atudo o que fora ensinado a Manson. E todas poderiamresumir-se no lema: Eu no creio. Formado pelo padroda 
Faculdade de Medicina, Manson encarara sempre ofuturo com a confiana bem explcita nos manuais. Adquirira leves noes de Fsica, Qumica e Biologia pelomenos 
tinha aprendido a dissecar e estudar as minhocas, e depois disso haviam-lhe metido dogmticamentena cabea as doutrinas consagradas. Conhecia todas asdoenas, 
com os seus sintomas catalogados, e os remdios correspondentes. Por exemplo, o caso da gota. Devia sercurada com o emprego de clquico. Ainda estava a ouviro 
Prof. Lamplough pontificando suavemente na aula:
       Vinum colchlci, meus senhores, em vinte ou trinta dosesmnimas,  o especfico absoluto da gota. Mas seria de facto? Eis a pergunta que Andrew fazia agora 
a si prprio.
       Um ms antes ministrara clquico at o mximo do limite permitido num caso tpico grave e doloroso de gota. E oresultado fora um fracasso desanimador.
       E que dizer de metade ou mesmo de trs quartas partesdos outros remdios da farmacopia? Dessa vez a voz queouviu foi a do Dr. Elliot, lente de Teraputica: 
E agora,meus senhores, passemos ao eleni, uma substncia resinosa, cuja origem botnica  indeterminada, mas que provavelmente  uma Canarium Commune; importada 
emgeral de Manilha, essa substncia  empregada em formade unguento na base de um para cinco, constituindo estimulante e desinfectante admirveis para as afeces 
dapele, como a herpes.
       Tolice! Sim, tolice absoluta, sabia agora. Teria Elliot experimentado alguma vez o unguento de eleni? Estava convencido de que no. Todas as noes eruditas 
forampassando de um livro para o outro, sempre assim provavelmente desde a Idade Mdia. A palavra herpes, toarcaica e anacrnica, confirmava este ponto de 
vista.
       Denny zombara dele na primeira noite, por v-lo manipular ingenuamente um remdio. Denny zombara sempredos mestres de tempero, dos cozinheiros de remdios. 
Sustentava que s meia dzia de drogas era de alguma utilidade.
       As restantes classificava-as cinicamente de porcarias.
       No ponto de vista de Denny, discutido aquela noite, transparecia um esprito desiludido cujas ramificaesAndrew por enquanto s podia distinguir vagamente.
       Meditava dessa maneira quando chegou a Riskin Streete entrou no n. 3. O doente era uma criana de nove anos,Joe Howells, que apresentava erupo de sarampo 
benigno,prprio da estao. O caso em si nada tinha de alarmante,mas preocupava-o a me de Joe, dada a sua falta de recursos.
       O pai Howells, que trabalhava nas pedreiras, no iaao trabalho havia trs meses, com uma pleurisia, nadarecebendo durante a doena. E a Sr.a Howells, uma 
mulherde compleio delicada, que j trabalhava como enfermeiraparticular, alm de fazer a limpeza da Capela Bethseda,tinha agora de enfrentar mais a trabalheira 
da doenada criana.
       Ao terminar a visita, quando conversava com ela porta de casa, Andrew observou, compadecido:
       - A senhora est sobrecarregadssima.  uma pena quetenha de tirar Idris da escola. - Idris era o irmo maisnovo de Joey. A criatura resignada, de mos 
vermelhase dedos inchados de tanto trabalhar, levantou a cabeacom vivacidade. 
       - Mas a professora diz que no h necessidade de opequeno deixar de ir  escola.
       Apesar da sua solicitude Andrew sentiu-se um pouco sobressaltado. 
       - Ah, sim? E quem  a professora?
       -  a menina Barlow, da escola de Bank Street - respondeu de boa f a Sr.a Howells. - Ela veio aqui estamanh. Ao perceber quanto eu estava apoquentada consentiu 
que Idris continuasse a ir  escola. S Deus sabeo trabalho que havia de ter se ele tambm ficasse aosmeus cuidados!
       Andrew teve mpetos de dizer-lhe que devia obedecers suas indicaes, e no s de uma professorazita intrometida; no entanto logo compreendeu que a Sr.a 
Howellsno era culpada. No momento no fez qualquer comentrio, mas quando se despediu e desceu a Riskin Street trazia na testa uma ruga de ressentimento. Odiava 
interferncia, principalmente no seu trabalho, e sobretudo tinha horrora mulheres importunas. Quanto mais pensava no casomais aumentava a sua fria. Conservar 
Idris na escolaquando o irmo estava atacado de sarampo era uma infraco bem clara do regulamento sanitrio. E subitamente resolveu procurar essa menina Barlow, 
to amiga de semeter em assuntos que no lhe diziam respeito, e debatero assunto com ela.
       Cinco minutos mais tarde j subia ele a ladeira daBank Street na direco do edifcio da escola. Ali, depoisde se informar junto do porteiro, chegou  sala 
de aulaque procurava. Bateu  porta e entrou.
       Era uma sala ampla, bem ventilada, com um fogoaceso a um canto. Todos os alunos pareciam ter menosde sete anos. Como Andrew entrou na hora da merenda,cada 
um dos garotos tinha diante de si um copo de leite benefcio que fazia parte do plano de assistncia infantilde uma associao de beneficncia.
       O olhar de Andrew fixou-se logo na professora. Estaestava ocupada a escrever algarismos no quadro negro,de costas para ele, e no primeiro momento no deu 
pelasua presena. Mas subitamente voltou-se.
       Ou por ser to diferente do tipo de mulher intrometidacriado na sua Imaginao ou talvez pela surpresa estampada nos olhos castanhos da jovem, o caso  
que Mansonhesitou e perturbou-se. Corou um pouco e disse:
       -  a menina Barlow?
       - Sou, sim. 
       Tinha uma figura esguia, com saia castanha, meias de l e grossos sapatos.
       Deve ter a minha idade, conjecturou Manson. No, deve ser mais jovem, vinte e dois anos mais ou menos.
       Ela tambm o examinou, um pouco confusa, sorriu ligeiramente, como se, cansada da aritmtica infantilacolhesse de boa vontade qualquer distraco nesse diadelicioso 
de Primavera.
       - E o senhor no  o novo assistente do Dr. Page?
       - Sou. sim, mas isso no importa. Sou o Dr. Mansone sei que a senhora tem aqui um elemento de contgio,Idris Howells. A senhora deve saber que o irmo dele 
estcom sarampo.
       Houve uma pausa. Ainda com expresso interrogativa,o olhar dela continuava amistoso. Limpando o cabelo sujode giz, respondeu:
       - Sim, sei.
       O facto de a jovem no dar grande importncia  suavisita irritava-o.
       - No compreende ento que mant-lo aqui  umainfraco ao regulamento?
       Ouvindo as suas palavras a jovem corou e perdeu o arde camaradagem. Andrew no podia deixar de admirara frescura da pele da professora e o sinalzinho castanho,exactamente
 da cor dos seus cabelos, no alto da facedireita. Parecia bem delicada na sua blusinha branca eridiculamente jovem para professora. Na ocasio a suarespirao 
estava um pouco alterada, mas foi com vozpausada que disse:
       - A Sr.a Howells estava sem saber o que fazer. Muitas crianas daqui j tiveram sarampo. As que no tiveramainda ho-de t-lo mais cedo ou mais tarde. Se 
Idris noviesse  escola sentiria a falta do leite que lhe faz tantobem.
       - No se trata de leite - interrompeu Andrew, - acriana deve ser isolada.
       Ela respondeu obstinadamente:
       - Mas eu isolei-o... de uma certa maneira. Se no acredita veja com os seus prprios olhos.
       Manson seguiu o seu olhar. Idris, um garotinho decinco anos, numa pequena carteira s para ele, perto dofogo, parecia extraordinariamente satisfeito da 
vida. Osolhos, de um azul-plido, arregalavam-se de contentamentosobre o copo de leite. Esse quadro irritou mais Andrew.
       Riu com sarcasmo.
       - A sua noo de isolamento pode ser esta, mas comcerteza no  a minha. A senhora deve mandar estacriana para casa imediatamente.
       Os olhos da professora faiscaram.
       - Parece que o senhor esquece que sou eu a responsvelpor esta classe. O senhor pode dar ordens a pessoasmais importantes. Mas aqui quem manda sou eu.
       Ele encarou-a com dignidade enfurecida.
       - A senhora est a infringir a lei. No pode conserv-loaqui. Se fizer isso, terei de participar.
       Seguiu-se um curto silncio. Andrew podia ver que ela apertava o pedao de giz que tinha na mo. Este sinal deemoo ainda lhe aumentou a raiva contra a 
professorae talvez contra si mesmo. Ela disse desdenhosamente: 
       - Poisento participe. Ou mande prender-me. Notenho dvida de que isso lhe dar uma grande satisfao.
       Furioso, ele no respondeu, sentindo-se numa posiofalsa. Procurou aprumar-se, encarando-a com firmeza etentando faz-la baixar os olhos, que fuzilavam 
agora. Porum momento os dois defrontaram-se to perto um do outroque Manson pde ver a leve pulsao do colo dela, o brilhodos seus dentes entre os lbios entreabertos. 
Foi ChristineBarlow quem rompeu o silncio:
       - Nada mais temos a tratar, no  verdade? - E voltando-se bruscamente para a classe: - Levantem-se meninos, e digam: boas-tardes, Dr. Manson. Obrigado 
pela suavisita.
       As cadeiras foram arrastadas e os garotos, de p, repetiram o irnico cumprimento. Ardiam as orelhas de Andrew quando a jovem o acompanhou at  porta. 
Sentia-seexasperadamente constrangido e tinha a inquietante suspeita de haver procedido muito mal perdendo toda acalma enquanto ela soubera admiravelmente dominar-seManson 
procurou encontrar uma frase esmagadora, umarplica final de intimidao. Mas antes que a achasse ja porta se fechara calmamente nas suas costas.
       
       

6
       Depois de um terrvel fim de tarde, durante o qualescreveu e rasgou trs cartas virulentas ao inspector dehigiene, Manson tratou de esquecer o incidente. 
Recuperando o senso de humor, perdido momentaneamente nasproximidades de Bank Street, no perdoava a si mesmoa atitude inconcilivel. Depois de vencer com esforo 
orgido orgulho de escocs, chegou  concluso de que notinha razo nem devia pensar em apresentar queixa docaso muito menos ao antiptico Griffith. Contudo 
pormais que tentasse no conseguia deixar de pensar emChristine Barlow.
       Era absurdo que uma simples professorazita absorvesseto exclusivamente os seus pensamentos e que se preocupasse com o que ela poderia pensar a seu respeito.
       Andrew dizia a si mesmo que era um simples caso de amor-prprio ferido. Bem sabia que era tmido e desajeitadocom as mulheres. Contudo, no havia raciocnio 
capaz deacalmar-lhe o nimo inquieto e um pouco irritado. Nosseus momentos mais libertos de preocupaes, como, porexemplo, quando comeava a ser invadido pelo 
sono, a cenada escola voltava-lhe  memria com insistncia renovadae ele surpreendia-se franzindo a testa no escuro. Ainda avia, esmagando o giz, os olhos castanhos 
faiscando deindignao. A blusa dela tinha trs botezinhos de madreprola.
        A figura era esguia e gil, com ntida economia delinhas, que revelava muita correria e muito pulo travessoquando menina. Andrew no perguntava a si mesmo 
se elaera bonita. J bastava t-la sempre diante dos olhos, viva efina. E o pensamento, sem que ele o quisesse, procurava-acom uma espcie de suave opresso que 
anteriormente nunca sentira.
       Uns quinze dias mais tarde, descia ele a Chapei Street, absolutamente distrado, quando quase esbarrou na Sr.aBramwell  esquina da Station Road. Teria 
passado sema reconhecer. Ela, porm, parou imediatamente e saudou-o,radiante, com o melhor dos sorrisos.
       - Que surpresa, Dr. Manson! Estava exactamente  sua procura. Tenho esta noite uma das minhas reuniezinhas. O senhor vai, no  verdade?
       Gladys Bramwell era uma senhora de trinta e cincoanos, de cabelos cor de palha, sempre vestida de formaa dar nas vistas, cheia de corpo, olhos azuis de 
boneca eares de garota. Gladys classificava-se romanticamentecomo a mulher de um s homem. Mas nos mexericos deBlaenelly outros termos a definiam. O Dr. Bramwell 
morriapor ela e dizia-se que s a cegueira da sua paixo o impediade ver as atenes mais do que levianas que ela dedicavaao Dr. Gabell, o mdico amulatado de 
Toniglan.
       Enquanto a observava, Andrew procurou apressadamente uma desculpa.
       - Teria muito prazer, Sr.a Bramwell, mas julgo ser impossvel.
       - No diga isso, homem de Deus. Vai ser um grupode pessoas muito agradvel. Os srs. Watkins, marido emulher, da mina, e escapou-lhe um sorriso significativo 
o Dr. Gabell, de Toniglan. Ah! e ia-me esquecendo, aprofessorinha Christine Barlow.
       Manson sentiu um estremecimento. Riu sem querer.
       - Pode contar que irei com toda a certeza, Sr.a Eramwell. Muitssimo obrigado pelo convite.
       Conseguiu sustentar a conversa por alguns minutos atque ela se despediu. Mas o resto da tarde no pde pensarseno naquela oportunidade de ver novamente 
ChristineBarlow.
       A reunio da Sr.a Bramwell comeava s nove da noite, escolhendo-se essa hora avanada em considerao pelos senhores mdicos, que podiam ficar detidos at 
tarde nosseus dispensrios. E na verdade passava um quarto dasnove quando Andrew acabou a ltima consulta. Lavouo rosto apressadamente, alisou o cabelo com o 
pente quebrado e voou para o Retiro. Ao entrar na casa, que, desmentindo o seu nome idlico, era uma construozinhade tijolos no centro da cidade, Andrew notou 
que forao ltimo a chegar. Censurando-o amavelmente, a Sr.a Bramwell fez passar os cinco convidados e o marido para a salaonde estava servida a ceia.
       Era uma ceia de coisas frias espalhadas por pratinhosde papel sobre a mesa escura de carvalho. A Sr.a Bramwellgabava-se de receber muito bem em sua casa 
e tomavaares de esprito progressivo em Blaenelly, o que permitiachocar a opinio pblica com modernismos de elegncia.
       A sua ideia de dar vida ao ambiente era falar e rirmuito. Dava sempre a entender que o seu meio, antes decasar-se com o Dr. Bramwell, tinha sido de grande 
luxo.
       Nessa noite, quando os convidados se sentaram, ela disse,toda esfuziante:
       - Muito bem! Agora sirvam-se do que quiserem.
       Ainda esbaforido pela pressa com que viera, Andrewficou a princpio profundamente embaraado. Duranteuns dez bons minutos no se atreveu a olhar para Christine.
       Conservou-se de olhos baixos, oprimido pela ideia deque ela estava sentada ao outro canto da mesa, entre oDr. Gabell, um dandy de tez bem morena, com polainas,calas 
de riscas e prola na gravata, e o Sr. Watkins, ovelho director da mina, de cabelos bem arrumados na cabea, que l a seu modo, um tanto abrutalhado, se desfaziaem 
amabilidades. Por fim, foi atrado pela alusorisonha de Watkins:
       - Ento, menina Christine, continua a ser a minha namoradinha?
       Manson, com involuntrio cime, levantou a cabea eolhou para ela. Achou-a to  vontade ali, com o seu vestido cinzento discreto, gola e punhos brancos, 
que se perturbou e baixou os olhos antes que a jovem pudesse ler oque eles diziam.
       Para disfarar, quase sem saber o que dizia, comeou a dedicar-se exclusivamente  sua vizinha, Sr.a Watkins, um bocadinho de mulher que levava para a reunio 
o seutricot.
       Durante o resto da ceia Andrew sofreu a angstia de conversar com uma pessoa quando estava doido por falara outra. Quase deixou escapar um suspiro de alvio 
quando o Dr. Bramwell, que presidia  cabeceira da mesa,passou os olhos com benevolncia sobre os pratos vaziose fez um gesto napolenico.
       - Creio, minha querida, que j todos terminaram. Devemos passar ao salo.
       Os convidados distriburam-se pela sala. Era evidenteque a msica estava no programa. Bramwell sorriu embevecido para a esposa e conduziu-a ao piano.
       - Qual  a primeira cano com que irs deliciar-nosesta noite, meu amor? - Trauteando folheava as pginasdo caderno de msica na estante.
       - Os Sinos do Templo - sugeriu Gabell. - Nunca mecanso de ouvir isso, Sr.a Bramwell.
       Sentando-se no banquinho giratrio, a Sr.a Bramwelltocou e cantou, enquanto o marido, uma das mos atrsdas costas e a outra erguida no gesto de quem vai 
tomarrap, ficava a seu lado e ia virando as pginas diligentemente. Gladys tinha uma voz cheia, de contralto, puxandodo peito todas as suas notas profundas com 
um esticarde queixo. Depois de Couplets de Amor ofereceu aos convidadosVagueando e Apenas Uma Garota.
       Houve aplausos calorosos. Distraidamente, Bramwell murmurava num meio tom satisfeito:
       - Ela hoje est com uma linda voz.
       O Dr. Gabell foi ento intimado a levantar-se. Girandoo anel no dedo, alisando o cabelo bem engordurado,com pretenses, o gal de pele cor de azeitona curvou-seafectadame
nte para a dona da casa e, esfregando as mos,cerrou convictamente Amor na Doce Sevilha. Depois, atendendo a insistentes pedidos, cantou ainda Toreador.
       - O senhor interpreta essas canes espanholas com verdadeira alma, Dr. Gabell - comentou a amvel a Sr.aWatkins.
       -  o meu sangue espanhol, creio eu - riu Gabell modestamente ao sentar-se.
       Andrew notou uma fasca maliciosa no olhar de Watkins.
       - O velho director da mina, verdadeiro homem deGales, conhecia msica, ajudara no ltimo Inverno os seus trabalhadores a apresentarem uma das menos conhecidasperas 
de Verdi e agora, fumando sonolentamente o cachimbo, estava a divertir-se de modo enigmtico. No passara despercebido a Andrew quanto era delicioso para ovelho 
Watkins observar essa gente estranha que vinhapara ali com ares de espalhar cultura em forma de canonetazinhas sentimentais e sem valor. Quando Christinese recusou, 
num sorriso, a cantar, Watkins voltou-se paraela e disse baixinho:
       - Pelo que vejo, minha querida, a menina  como eu. Gosta demasiadamente de piano para tocar.
       Chegou o momento solene da noite. O Dr. Bramwellocupou o centro da cena. Aclarou a voz, atirou um ppara a frente, lanou a cabea para trs, ps a mo 
teatralmente na abertura do palet, e anunciou: Minhassenhoras e meus senhores: A Estrela Cadente, monlogomusicado. Ao piano Gladys passou a arremedar um acompanhamentozinho
 adequado. E Bramwell comeou.
       O recitativo, que se inspirava nas vicissitudes patticasde uma actriz outrora famosa e lanada agora  maisnegra misria, era gelatinoso de tanto sentimentalismo. 
Bramwell interpretava-o com a alma comovida. Quandoo drama aquecia, Gladys apelava para as notas graves.
       Quando a tragdia esfriava um pouco, ela martelava asnotas agudas. Quando chegou ao ponto culminante, Bramwell empertigou-se e lanou o ltimo verso: 
       
       Ei-la...
       uma pausa
       morrendo de fome na sarjeta...  
       umalonga pausa 
       apenas uma estrela cadente!.
       
       A pequena Sr.a Watkins, com o tricot cado no cho,levantou para ele os olhos hmidos.
       -Pobrezinha, pobrezinha! Dr. Bramwell, o senhor recita isso sempre de maneira to pattica!
       O claret cup chegou a tempo para aliviar os espritos.
       Nessa altura j eram mais de onze horas. O apogeu a que chegara Bramwell no podia ser ultrapassado e por issocomeou a retirada. Houve risos, amveis expresses 
deagradecimento e um movimento geral para o hall. QuandoAndrew vestia o sobretudo, meditou tristemente que nochegara a trocar uma palavra com Christine durante 
anoite.
       Ao sair, resolveu parar na porta. Sentia necessidade defalar  jovem. Pesava-lhe como chumbo o pensamentoda longa noite perdida em que pretendera to naturalmente 
e de modo to agradvel desfazer o mal-entendidoentre ambos. Embora no parecesse dar-lhe ateno, elaestivera ali, perto dele, na mesma sala. E Andrew ficaraestupidamente 
a olhar os sapatos. Oh, meu Deus!, pensava angustiado. Eu sou pior que A Estrela Cadente. O melhor que tenho a fazer  ir para casa e meter-me na cama.
       Mas no procedeu assim. Ficou ali e o seu coraops-se a bater apressadamente quando Christine apareceu  porta, dirigindo-se para onde ele estava. Andrew 
apeloupara todas as suas foras e gaguejou:
       - Menina Barlow, posso acompanh-la a casa?
       - Julgo que no. - Fez uma pausa. - Prometi esperarpelo casal Watkins.
       Desanimou. Sentiu mpetos de abalar como um co perseguido. No entanto qualquer coisa ainda o prendiaali. Estava plido, mas decidido. As palavras vieram 
atropelando-se umas s outras, num s flego.
       - Eu s queria dizer-lhe que lamento muito o que sucedeu a propsito de Howells. Fiz uma exibio de autoridadepires. Merecia uma boa sova. O que a menina 
fez coma criana parece-me agora admirvel. Afinal de contas, melhor observar o esprito do que a letra da lei. Lastimoma-la com tudo isso, mas  um imperativo 
da minhaconscincia. Boas noites! 
       Andrew no pde ver a fisionomia dela. Nem esperoupela sua resposta. Deu meia volta e seguiu o seu caminho.
       Pela primeira vez- em muitos dias sentia-se feliz.
       Chegara dos escritrios da Companhia o pagamento semestral da clnica. A Sr.a Page teve, portanto, assuntopara srias meditaes e outro motivo para discutir 
comAneurin Rees, o gerente do banco. Pela primeira vez emano e meio os algarismos mostravam progresso acentuado.
       Na lista do Dr. Page havia mais setenta homens do queantes da chegada de Manson.
       Embora encantada com o aumento dos rditos, Blodwen tinha qualquer coisa que a preocupava: Andrew muitasvezes a surpreendera s refeies cravando nele olhos 
inquisidores e desconfiados. Na quarta-feira que se seguiu festazinha da Sr.a Bramwell, Blodwen apareceu ao almootoda alvoroada, numa grande demonstrao de 
alegria.
        -  o que eu tenho a dizer! - observou ela. - Estavaa pensar nisso agora mesmo. O senhor j est aqui hquase quatro meses, doutor, e, com franqueza, no 
tem idomal. No tenho razo de queixa. Mas, compreende, no a mesma coisa que o Dr. Page. Oh, meu amigo, isso no! Ainda outro dia, o Sr. Watkins esteve a dizer-me 
que todos ansiavam pela volta do meu marido. O Dr. Page to inteligente!, dizia-me o Sr. Watkins, que no poderamos pensar em substitu-lo.
       E ela entrou a descrever, com pitorescos pormenores, aextraordinria competncia e habilidade do marido.
       - O senhor no acredita - exclamou arregalando osolhos - mas nada h que ele no possa fazer ou no tenhafeito. Operaes!? S vendo! Basta contar isto, 
doutor: uma vez ele tirou os miolos da cabea de um homem ecolocou-os depois de novo no lugar. Sim! Olhe bem para mim e veja se tenho cara de mentirosa. O Dr. 
Page retiroua massa enceflica e recolocou-a na cabea do homem.
       Inclinou-se na cadeira e encarou Manson tentando lero efeito das suas palavras. Depois sorriu, confiante.
       - Vai ser uma grande alegria para Blaenelly quandoo Dr. Page voltar ao trabalho. Isso no deve tardar. NoVero, eu j avisei o Sr. Watkins, no Vero o Dr. 
Pageretomar a clnica.
       
       

7
       No fim dessa mesma semana, quando voltava do trabalho, Andrew ficou chocado ao encontrar Edward encolhido numa cadeira  porta da casa e em trajes de rua,uma 
colcha sobre os joelhos e um bon posto de qualquermodo na cabea trmula. Soprava um vento desagradvele era fria e plida a luz do sol de Abril que inundava 
asua trgica figura.
       - Olhe - gritou a Sr.a Page, da porta, encaminhando-senum alvoroo triunfante para Manson. - V? O doutor jest de p! Acabei de telefonar ao Sr. Watkins 
para lhedizer que o doutor est muito melhor. Dentro em brevevoltar ao trabalho, no  verdade, querido?
       Andrew sentiu o sangue subir-lhe  cabea.
       - Quem o arrastou para aqui?
       - Eu! - disse Blodwen num tom de desafio. - E porque no?  meu marido. E est muito melhor.
       - O doutor no est em condies de sair da cama e a senhora sabe-o muito bem - disse Andrew em voz baixa,irritado. - Faa o que lhe digo. Ajude-me a lev-lo 
para oquarto imediatamente.
       - Sim, sim - murmurou Edward. - Leve-me para a cama. Estou com frio. No estou bem. Eu... eu no me sintobem. 
       E com grande tristeza de Manson o paraltico comeou a gemer.
       Blodwen teve ento um dilvio de lgrimas. Caiu dejoelhos e abraou as pernas do doente, contrita, bajuladora.
       - Est bem, est bem, querido. Voltas j para a cama, queridinho. Blodwen far tudo o que quiseres, Blodwenest aqui para cuidar de ti. A tua mulherzinha 
s tequer bem.
       Dava beijos a escorrerem saliva na face do marido.
       Meia hora mais tarde, com Edward j deitado, Andrewfoi  cozinha a estalar de raiva.
       Annie tornara-se uma verdadeira amiga. Muita confidncia havia trocado ali mesmo na cozinha e muita mae muito bolo tinham sado da dispensa pela mo daquelamulher 
solcita e discreta quando as raes de Andrew aoalmoo e ao jantar eram excessivamente reduzidas. Algumas vezes at, como ltimo recurso, ela corria  casinhade 
Thomas para trazer uma ceia de peixe frito e o doutore a criada banqueteavam-se  mesa da cozinha sob a luzdo candeeiro. Havia bem uns vinte anos que Annie estavaao 
servio de Page. Tinha muitos parentes em Blaenelly,tudo gente remediada, e o nico motivo por que continuava como criada era a sua dedicao ao Dr. Page.
       - Sirva-me o ch aqui mesmo - pediu Andrew. - Neste momento no posso tolerar a presena de Blodwen.
       Ao entrar na cozinha verificou que Annie tinha visitas,sua irm Olwen e o marido, Emly Hughes. J os conhecia.
       Emly era um homem slido, de boa ndole, com feies toscas e plidas, que trabalhava como dinamitador naspedreiras de Blaenelly.
       Como Andrew hesitasse ao dar pela presena do casal, Olwen, que era uma mulher jovem, viva, de olhos negros,disse impulsivamente: 
       - No se incomode por nossa causa, doutor, se quertomar o seu ch aqui. At estvamos falando a seu respeito quando entrou.
       - Ah, sim?
       - Sim, sem dvida! - Olwen desviou o olhar para airm. -  intil olhares dessa maneira, Annie. O quepenso tenho de dizer. Toda a gente diz, Dr. Manson, 
queh muitos anos no aparece por aqui um mdico to bomcomo o senhor. So todos unnimes em elogiar o cuidadoe as atenes que o senhor dedica aos exames e aos 
tratamentos. Se no acredita em mim pode perguntar a Emly. E os homens esto fulos com a explorao da Sr.a Pagede que o senhor est a ser vtima. Dizem que, pela 
justia,o senhor  quem devia ser titular da clnica. Ela tomouconhecimento dessas conversas, compreende, doutor? E foipor isso que resolveu hoje de tarde arrancar 
da cama ovelhinho sob o pretexto de que ele est melhor. Coitadodo pobre homem.
       Logo que terminou o ch, Andrew retirou-se. A linguagem sem rodeios de Olwen deixara-o constrangido. Contudo, era lisonjeiro saber que a gente de Blaenelly 
gostavadele. E Andrew considerou uma significativa homenagema visita que lhe fez, com sua mulher, John Morgan diasdepois. Era o capataz do grupo de brocadores 
da mina dehematite.
       Casados havia quase vinte anos, os Morgans eram umcasal de meia-idade, que nada tinha de abastado, mascom ptimo conceito em todo o distrito. Andrew ouviradizer 
que estavam de viagem para a frica do Sul, ondeMorgan tinha um contrato em vista para trabalhar nasminas de Joanesburgo. Era frequente que bons brocadoresse 
deixassem tentar pelas minas de ouro da Rand, onde oservio de broca era semelhante, mas mais bem remunerado.
       Ficou bastante surpreendido quando Morgan explicou, meio acanhado, o motivo da visita.
       - Bem, doutor, parece que chegou afinal a nossa vez. Minha mulher est a preparar-se para ter um beb. Depoisde dezanove anos de casados, veja! Estamos encantadose 
decidimos adiar a viagem para depois do grande acontecimento. Tambm estivemos a pensar em quem seria omdico e chegmos  concluso de que o doutor  o nicoa 
quem devemos confiar o caso.  o que h de mais importante para ns. E vai ser uma coisa difcil, pelo que imagino. Minha mulher j est com quarenta e trs. Sim,senhor. 
Mas ns sabemos que com o doutor podemos ficartranquilos.
       Andrew aceitou a incumbncia com a agradvel impresso de ser objecto de uma homenagem. Era uma emoo estranha que no se baseava em motivos materiais,mas 
que era duplamente confortante para a situao emque se encontrava. Nos ltimos tempos sentia-se perdido,completamente desolado. Moviam-se dentro dele foras 
estranhas, perturbando-o e afligindo-o. Quando o coraoestava repleto de um sentimento confuso, passava pormomentos que at ento, como um profissional j experimentado, 
julgara impossvel encontrar na vida.
       At aqui nunca havia pensado a srio no amor.Quando frequentava a universidade era to pobre, vivia to malvestido e to preocupado com os exames que nunca 
tiveragrandes oportunidades para pensar no outro sexo. EmSt. Andrew s um temperamento ardente como o do seuamigo e colega Freddie Hamson podia aventurar-se nocrculo 
das danas, das festas e da vida de sociedade.
       Tudo isso lhe fora negado. Exceptuando a sua amizadecom Hamson, pertencia a essa multido de esquecidosque fica do lado de l, fumando, com a gola do sobretudolevantada, 
e que, procurando ocasionalmente uma diverso, no vai ao clube, mas ao bilhar.
        verdade que o seu esprito no deixava de povoar-sede imagens romnticas. Mas em virtude da sua pobreza,elas geralmente projectavam-se num cenrio de 
inatingveis riquezas. No entanto, agora, em Blaenelly, ele encostava-se distrado  janela de um consultrio desmantelado,a contemplar a imundcie da ganga de 
minrio, com ocorao cheio da imagem de uma professorinha de escolaprimria. A modstia das suas aspiraes dava-lhe vontade de rir.
       Sempre se orgulhara de ser um esprito prtico, dotadode uma forte dose de bom senso, e por isso mesmo tentava vigorosamente, como medida de defesa, reagir 
s suas prprias emoes. Procurou, fria e logicamente, examinar os defeitos dela. No era bonita. A sua figura era demasiadamente pequena e esguia. Tinha aquele 
sinalzinho norosto e uma ruga ligeira, visvel quando sorria, no cantodo lbio superior. Alm disso no estava seguro dos seussentimentos e provavelmente detestava,-o.
       Andrew disse com os seus botes, irritado, que procedia irreflectidamente deixando-se levar com tanta fraquezapelos seus sentimentos. Tinha resolvido devotar-se 
ao trabalho.
        Ainda era apenas um assistente. Ento que espciede mdico era ele para alimentar assim, logo no comeoda carreira, um afecto que poderia embaraar o seu 
futuroe que j comeava a perturb-lo no trabalho?
       No esforo de dominar-se procurou vrias maneiras dese distrair. Convencendo-se agora de que estava em faltacom os antigos companheiros de St. Andrew, escreveuuma 
longa carta a Freddie Hamson, que fora nomeadorecentemente para um hospital de Londres. ProcurouDenny com frequncia. Mas, se bem que Phillip algumasvezes se 
mostrasse acessvel, geralmente era frio, desconfiado, marcado com a amargura de um homem maltratadopela vida.
       Por mais que tentasse, Andrew no conseguia desviardo seu pensamento, nem libertar do corao, aquela impresso torturante. No a tinha visto desde o seu 
desabafo sada do sarau. Que pensaria ela a seu respeito? No avia desde h tanto tempo, apesar dos olhares ansiosos quelanava  escola, ao passar pela Bank 
Street, que esperavano mais a encontrar.
       Mas na tarde de sbado 25 de Maio, quando j estavaquase sem esperana, recebeu um bilhete dela expressonestes termos:
       
       Prezado Dr. Manson:
       O casal Watkins vem jantar comigo amanh,domingo. Se nada de melhor tiver de fazer, venhatambm. s sete e meia.
                                                             Sinceramente
                                                             Christine Barlow
       
      Teve uma exclamao to violenta que Annie veio acorrer da copa.
       - Apre, doutor - disse em tom de censura. - s vezesparece maluco.
       - E estou de facto! - respondeu ele, ainda fora de si. Eu... Parece que consegui afinal o que queria. Oua, Anniequerida. Quer passar a ferro as minhas calas 
ainda hoje? Quando eu me for deitar deixo-as do lado de fora da porta.
       Na noite seguinte, livre do consultrio por ser domingo, Andrew apresentou-se, trmulo e ansioso, na casa da Sr.a Herbert, onde Christine residia. Era ainda 
muito cedo eele tinha noo disso, mas no podia esperar um minuto.
       Foi a prpria Christine quem lhe abriu a porta coma mais cordial das fisionomias, sorrindo para ele.
       Sim, ela sorria, sorria naquele momento. E chegara apensar que ela o detestava! Ficou to perturbado quequase no teve palavras para se exprimir.
       - Est um dia adorvel, no lhe parece? - mastigouAndrew, seguindo-a at  saleta.
       - Glorioso - concordou ela. - E eu, logo depois do almoo, dei um grande passeio. Fui para l de Pandy. Imagineque encontrei celidnias.
       Sentaram-se. Andrew esteve a ponto de perguntar nervosamente se ela gostava de passear, mas engoliu a tempo essa banalidade.
       - A Sr.a Watkins acaba de mandar dizer-me que ela eo marido vm um pouco mais tarde. Ele teve de ir aoescritrio. No se importa de esperar um pouco?
       Importar-se? Um pouco! Sentia vontade de rir, numa estranha felicidade. Se ela soubesse... Havia esperado tantoisso! Era to maravilhoso ficar ali, a seu 
lado... Disfaradamente, Andrew olhou  sua volta. A sala, mobilada comas suas prprias coisas, era to diferente de qualquer outrointerior que ele conhecia em 
Blaenelly! No tinha pelcias,nem enfeites de crina, e muito menos essas almofadas decetim que adornavam espalhafatosamente a sala de visitasda Sr.a Bramwell. 
O soalho era encerado e junto da lareirahavia um tapetezinho castanho. O mobilirio era to discreto e bem arrumado que quase no se notava. No centroda mesa, 
preparada para a ceia, havia uma jarra brancasem ornatos onde mergulhavam as celidnias que apanhara naquela manh O efeito era discreto e agradvel.
       No peitoril da janela, uma pequena caixa de madeira,cheia de terra, na qual cresciam algumas plantas, alegrava a vista. Por cima do fogo estava pendurado 
umquadrinho muito estranho, com uma cadeirinha de crianapintada de vermelho, e, na opinio de Andrew, extraordinariamentemal pintada.
       Ela devia ter notado a surpresa que o quadro lhe causou.
       Sorriu num humor contagioso.
       - Espero que no imagine ser isso original.
       Embaraado, ele no soube que dizer. Perturbava-o a personalidade que Christine imprimia ao ambiente e aconvico de que ela sabia coisas que estavam fora 
doseu alcance. Contudo, o interesse de Andrew era to grandeque esqueceu o acanhamento e fugiu da conversa tola ebanal dos comentrios sobre o tempo. Encaminhou 
a conversa para a vida dela.
       Christine respondeu com simplicidade. Era de Yorkshire. Perdera a me quando tinha quinze anos, o pai forasubdirector numa das grandes minas de carvo de 
Blaenelly. O seu nico irmo, John, havia praticado como engenheiro na mesma mina. Cinco anos mais tarde, quandoela j tinha dezanove anos e completara o curso 
da EscolaNormal, o pai fora nomeado director da hulheira de Porth,a vinte milhas dali. Christine e o irmo vieram com elepara Gales do Sul, ela para cuidar da 
casa e John paraauxiliar o pai. Seis meses depois da sua chegada deu-seuma exploso em Porth Pit. John estava no fundo damina e teve morte instantnea. Sabedor 
do desastre, o paidesceu imediatamente ao local, onde foi vtima do grisu. Uma semana depois foram retirados os dois corpos. Quando Christine acabou estabeleceu-se 
um silncio.
       - Sinto muito o que lhe aconteceu - disse Andrewnuma voz em que a simpatia se manifestava.
       - Todos foram muito bons para mim - acrescentou com simplicidade. - O casal Watkins especialmente. Conseguiesta colocao na escola. - Ela calou-se; a sua 
expressovoltou a animar-se. - Entretanto, eu sou como o doutor. Ainda uma estranha aqui.  preciso muito tempo para noshabituarmos a estes vales.
       Manson fitou-a, procurando manifestar de qualquer modo, mesmo ligeiramente, o que sentia por ela; uma observao qualquer com o poder de encerrar habilmente 
opassado e abrir o futuro a todas as esperanas.
       -  vulgar sentirmo-nos fora do ambiente aqui quandose est s. Sei muito bem. Muitas vezes sinto necessidadede algum com quem possa trocar impresses.
       Ela sorriu.
       - E sobre que sente necessidade de trocar impresses?
       Andrew corou, com a ideia de que ela o pusera numa situao crtica.
       - Oh, sobre o meu trabalho, por exemplo. - Deteve-se,mas sentiu depois necessidade de explicar-se. - Parece-me,s vezes, que meto os ps pelas mos, defrontandosempre 
um problema aps outro.
       - Quer dizer que tem tido casos difceis?
       - No  bem isso. - Ele hesitou, mas depois prosseguiu. - Eu vim para aqui cheio de frmulas, essas coisasem que toda a gente acredita ou finge acreditar. 
Quejuntas inchadas querem dizer reumatismo. Que reumatismo cede ao salicilato. Esses princpios ortodoxos, comosabe! Pois bem, comeo a achar que muitas dessas 
noes esto completamente erradas. O caso dos remdios, porexemplo. Parece-me que alguns, em vez de bem, fazemmal. O sistema  assim. O doente entra no consultrio. 
Est convencido de que lhe vo dar um frasquinho deremdio. E, na verdade, do-lho, ainda que seja apenasacar queimado, bicarbonato de sdio ou mesmo a boae 
velha gua do pote. Isto , aqua.  por isto que essascoisas so receitadas em latim, para que o doente noentenda. Isso no est certo. Isso no  cientfico. 
Outracoisa ainda: creio que muitos mdicos tratam as doenas empiricamente, isto , tratam dos sintomas individualmente. No se preocupam em lig-los e estud-los 
e delesextrair o diagnstico. Dizem depressa, porque geralmenteno podem perder tempo: Ah, dor de cabea? Tome essasplulas. Ou ento: Est anmico? Deve tomar 
ferro. E no procuram curar das razes da dor de cabea ou daanemia. - Parou subitamente. - Oh, perdoe-me! Estou aaborrec-la!
       - No, no - disse ela, com vivacidade. - Isso  interessantssimo.
       - Estou apenas comeando, tacteando o terreno - continuou ele precipitadamente, animado pelo interesse dela. - Mas, sinceramente, diante do que tenho visto, 
acho queos manuais de medicina esto cheios de ideias atrasadasou anacrnicas. H remdios que j no tm actualidade,sintomas que foram interpretados por algum 
na IdadeMdia. Poder dizer que isso no tem importncia para omdico vulgar que faz clnica geral. Mas porque ho-deser esses mdicos meros receitadores de xaropes 
e emplastros? J  tempo de pr a cincia em contacto com a vida. Muita gente pensa que a cincia deve ficar no fundo deuma proveta de mdico. Eu no admito. Julgo 
que os mdicos que fazem clnica geral em locais afastados tmtodas as oportunidades para ver as coisas como elas so emelhores ensejos para observar os primeiros 
sintomas deuma nova doena do que os especialistas nos hospitais. Quando um caso chega ao hospital, geralmente j estnuma fase muito adiantada.
       Ela estava a ponto de responder animadamente quandoa campainha tocou. Christine levantou-se, dizendo apenascom o seu ligeiro sorriso:
       - Espero que noutra ocasio cumprir a sua promessade falar nisso.
       Watkins e a esposa entraram, pedindo desculpas pelo atraso. Pouco depois sentaram-se todos  mesa para ojantar.
       Era bem diferente da ceia inspida em que haviamestado juntos na ltima vez. Havia vitela e pur de batatacom manteiga, seguidos de uma torta de ruibarbo 
frescocom creme, e depois queijo e caf. Embora simples, todosos pratos eram saborosos e fartos. Depois das magras raesque Blodwen servia, era um grande regalo 
para Andrewencontrar comida agradvel e apetitosa. Suspirou:
       - A senhora tem muita sorte com a sua dona de casa,ela cozinha muito bem.
       Watkins, que estivera observando com um olharzinho zombeteiro o trabalho de Andrew a cortar a carne, rebentou subitamente numa gargalhada.
       - Essa  boa! - e voltando-se para a mulher: - Ouvisteo que ele disse, minha velha? Acha que a Sr.a Herbertcozinha muito bem.
       Christine corou ligeiramente.
       E para Andrew:
       - No ligue importncia ao que ele diz. Esse foi omelhor louvor que recebi, porque o senhor no sabia queme estava a elogiar. Para falar com franqueza fui 
eu quemfez a ceia. Posso utilizar a cozinha da Sr.a Herbert. Eu que gosto de fazer as coisas. E j estou acostumada a isso.
       A sua explicao tornou a alegria do gerente da minaainda mais ruidosa. O homem estava completamente diferente. J no era o indivduo taciturno que aguentaraesticamente 
a recepo da Sr.a Bramwell. Um pouco simplrioe rude, mas de trato agradvel, saboreou a ceia,lambeu os beios depois de comer a torta, fincou os cotovelos na 
mesa, contou anedotas e fez rir toda a gente.
       O tempo passou depressa. Quando Andrew olhou paraO relgio ficou espantado ao verificar que j eram quaseonze horas. E prometera fazer uma visita a um doenteem 
Blaina Place antes das dez e meia!
       Quando se levantou, contra vontade, para despedir-se,Christine acompanhou-o  porta. No corredor estreito obrao de Andrew tocou no corpo da jovem. Sobreveio-lheuma 
onda de ternura. Ela era diferente, com a sua fragilidade, a sua quietude, os seus olhos escuros e inteligentes. Devia penitenciar-se por ter ousado classific-la 
de magricela. Com a respirao apressada, ele murmurou:
       - No sei como agradecer-lhe o convite para vir aquiesta noite. Posso ter o prazer de v-la novamente? Eu nemsempre falo dos meus assuntos. A Christine 
aceitaria oconvite... convite para ir ao cinema de Toniglan comigo,qualquer dia destes?
       Os olhos dela fitaram-no sorrindo e pela primeira vez levemente provocantes.
       - Experimente fazer o convite.
       Um longo minuto de silncio,  porta, sob a luz dasestrelas. O ar carregado de humidade era frio na faceardente de Andrew. O hlito de Christine bafejou-o 
suavemente. Sentiu vontade de beij-la. Desorientado, apertou-lhe a mo, deu meia volta, desceu estrepitosamentea rua e seguiu para casa, com ideias tumultuando 
na cabea, pisando nuvens ao longo desse caminho encantadoque milhes j trilharam e que a todos parece sempre novo,nico, predestinado para a felicidade, eternamente 
bendito.
       Que pequena maravilhosa! Como compreendera bem assuas palavras quando falou das suas dificuldades profissionais. Ela era inteligente, muito mais inteligente 
do queele! E alm disso, que esplndida cozinheira! E ele chamara-apelo primeiro nome... Christine!

8
       Se bem que Christine estivesse agora mais do que nuncano pensamento de Andrew, era outro o seu estado de esprito. Fora-se o antigo desnimo. Sentia-se feliz, 
exultado,cheio de esperana, e essa mutao no estado da sua almareflectiu-se imediatamente no seu trabalho. A sua pujantemocidade imaginava-a sempre presente, 
observando-o emplena actividade, verificando os seus processos cuidadosos,os seus escrupulosos exames, felicitando-o pela seguranae pela penetrao dos diagnsticos. 
Qualquer tentao parafazer uma visita apressada e sem cuidado ou para chegara uma concluso sem primeiro auscultar o doente era combatida no mesmo instante pela 
ideia: Isso no! Que pensaria ela de mim se fizesse tal coisa?.
       Mais de uma vez surpreendeu o olhar de Denny, satrico, compreensivo. Mas no se importava. com o seufeitio vibrtil e idealista, associava Christine a todas 
assuas ambies, fazia dela, inconscientemente, mais umincentivo no grande assalto ao desconhecido.
       Era o primeiro a reconhecer a sua quase total ignorncia. Mas diligenciava aprender a pensar por si mesmo, aprocurar ir alm das evidncias, esforando-se 
por descobrir as causas fundamentais. At ento nunca se sentirato poderosamente atrado para o ideal cientfico. Pediaaos Cus que nunca o deixassem tornar-se 
descuidado oumercenrio, que nunca chegasse a concluses precipitadas,nunca escrevesse: Repita o remdio. Queria investigare acertar, proceder cientificamente, 
ser digno de Christine.
       Com todo esse entusiasmo ingnuo era uma pena queo seu trabalho na clnica se tivesse tornado de repente tomontono e desinteressante. Queria escalar montanhas. 
Entretanto, naquelas ltimas semanas, s se lhe depararam colinas de amador. Os casos que teve de tratar eramtrivialssimos, supinamente vulgares. Uma srie banal 
detraumatismos, dedos cortados, defluxos, e at um dia tevede andar duas milhas para atender a chamada de umavelha de cara amarelada que, olhando-o por baixo 
de umatouca de flanela, pediu que lhe cortasse... os calos.
       Sentia-se intil, irritado com a falta de oportunidade, ansioso por tempestades e furaces. Comeou a duvidar da sua prpria f, a conjecturar seseria realmente 
possvel que um mdico naquele lugar toafastado fosse alguma coisa mais do que um miservel assalariado. E ento, quando o seu esprito parecia estagnarpor falta 
de incentivo, um incidente veio elevar outra vezs nuvens a sua f, que havia decado tanto.
       Em fins de Junho, ao passar pela ponte da Estao,Andrew encontrou o Dr. Bramwell. O Rei da Prata escapolia-se pela porta lateral do Hotel da Estao, a 
limpardisfaradamente os lbios s costas da mo. QuandoGladys partia, toda alegre e vestida da maneira mais tafulpara as suas enigmticas expedies a Toniglan, 
sob opretexto de fazer compras, ele consolava-se discretamentecom uma grande caneca de cerveja.
       Um pouco desconcertado ao ser surpreendido por Andrew, soube, entretanto, enfrentar a situao com desenvoltura.
       - Ol, Manson! Que prazer tenho em v-lo! Acabo justamente de atender uma chamada de Pritchard.
       Pritchard era o dono do Hotel da Estao, e Andrewvira-o, cinco minutos antes, a passear o seu terrier, masfingiu acreditar em Bramwell. Estimava o Rei 
da Prata,cujas atitudes de melodrama e linguagem solene e floreadaeram compensadas pela sua timidez e pelos buracos dasmeias que a venturosa Gladys se esquecia 
de coser.
       Ao subir lado a lado a rua, assuntos profissionais vieram colao. Bramwell estava sempre disposto a falar nosseus casos e contou ento, com ar carrancudo, 
que EmlynHughes, o cunhado de Annie, estava aos seus cuidados.
       - Emlyn - disse ele - tem-se portado ultimamente deum modo muito estranho, originando desordens na mina,perdendo a memria. Tornou-se conflituoso e violento. 
No gosto disso, Manson. - Bramwell abanou a cabeapretensiosamente. - Tenho visto muitos casos de perturbaomental. E o de Emlyn parece ser um deles.
       Andrew concordou com as suas apreenses. Era de opinio de que Hughes era um sujeito agradvel e calmo. Mas tambm se recordava de que Annie parecia preocupadaultimamente,
 e, quando a interrogou a esse respeito, depreendeu vagamente (porque apesar da sua inclinaopara mexericos, ela era muito reservada em assuntosde famlia) que 
estava muito inquieta com o cunhado.
       Ao despedir-se de Bramwell, Andrew fez votos para queo caso entrasse numa fase tranquilizadora.
       Mas na sexta-feira seguinte, s seis da manh, foi acordado por algum que batia na porta do seu quarto. EraAnnie, que, com os olhos vermelhos e vestida 
para sair,lhe entregou uma carta. Andrew rasgou o sobrescrito. Erado Dr. Bramwell.
       
       Venha imediatamente. Preciso que me ajude acomprovar um caso de loucura perigosa.
       
       Annie estava lavada em lgrimas.
       -  o pobre do Emlyn, doutor. Aconteceu uma coisahorrvel. Peo-lhe que venha quanto antes.
       Andrew vestiu-se em trs minutos. No caminho, Annie contou como pde o que havia com Emlyn. Doente haviatrs semanas, nem parecia o mesmo homem. Durante 
anoite passada tornara-se violento e perdera completamenteo juzo. Perseguira a mulher com uma faca. Olwen escapou-se porque correu para a rua em camisa de dormir. 
Erabem triste a histria sensacional quando narrada por Annie, aos pedaos, caminhando apressadamente ao ladode Andrew,  luz cinzenta da manh. No havia palavrasque 
a pudessem consolar.
       Chegaram  casa de Hughes. Na sala da frente, Andrew encontrou o Dr. Bramwell, com a barba por fazer, semcolarinho, com ar grave, sentado  mesa, de caneta 
namo. Diante dele uma folha de papel azulado, j metadeescrita.
       - Ah, Manson! Foi bom ter vindo to depressa. Ascoisas aqui esto mal paradas. Mas isso no lhe tomarmuito tempo.
       - Que h?
       - Hughes enlouqueceu. Parece que lhe disse, na semana passada, que receava isso. Pois bem. Acertei.  um casoagudo. 
       Pronunciava as palavras com imponncia trgica.
       - Mania de homicdio. Temos de mand-lo quanto antespara Pontynewead. O certificado exige duas assinaturas. Lembrei-me de si. Os parentes quiseram que eu 
o chamasse. Sabe quais so as formalidades, no sabe?
       - Sei - disse Andrew.  - Que provas apresenta, doutor?
       Depois de afinar a garganta, Bramwell comeou a lero que escrevera. Era uma exposio abundante e pormenorizada de certos actos de Hughes durante a semanaanterior, 
todos bem caractersticos de desequilbrio mental. Ao terminar a leitura, Bramwell ergueu a cabea.
       - Provas evidentes, creio eu!
       - O caso parece de facto grave - comentou Andrew arrastadamente.  - Bem! vou ver o homem!
       - Obrigado, Manson. Estarei aqui quando terminar.
       E ps-se a acrescentar novos detalhes ao relatrio.
       Emlyn Hughes estava na cama, e, sentados junto dele,dois dos seus companheiros da mina, para o conter emcaso de necessidade. De p, junto do leito, com 
a fisionomiaplida e transtornada de tanto chorar, Olwen nem pareciaa criatura viva e animada que Andrew conhecera. A suaatitude era de tanta aflio e a atmosfera 
do quarto tocarregada que Manson teve um sbito calafrio, quase demedo.
       Aproximou-se de Emlyn, a quem no primeiro momento quase no reconheceu. A transformao era total. Eraainda Emlyn quem estava ali, mas um Emlyn alterado,desfeito, 
com qualquer coisa de embrutecido nas feies.
       O rosto parecia inchado, as narinas entumecidas, a pele macerada, tendo apenas uma leve mancha vermelha aestender-se pelo nariz. Todo o seu aspecto era pesado,aptico. 
Andrew falou-lhe. Ele resmungou uma respostaininteligvel. E ento, torcendo as mos, saiu-lhe dos lbiosuma srie de tolices agressivas, que vinham corroborar 
aopinio de Bramwell de ser premente a necessidade do seuinternamento.
       Seguiu-se um silncio. Andrew sentiu que havia razespara o convencer. Mas, inexplicavelmente, no estava satisfeito.
       Porqu? Porqu?, - insistia em perguntar a si mesmo. - Porque falaria Hughes daquela maneira? Mesmo em casode desarranjo mental qual seria a causa? Fora 
sempre umhomem equilibrado e feliz. Sem preocupaes, muito dado,fcil de levar. Porqu, sem razo aparente, essa transformao?
       Devia existir uma razo, pensava Manson teimosamente.
       Os sintomas no se manifestam sem um motivo.
       Fitando as feies inchadas que tinha diante dele, esforando-se por encontrar uma decifrao para a charada, instintivamente estendeu o brao e tocou a 
face entumecida, notando subconscientemente que o calcar do dedo no deixava qualquer depresso no rosto inchado.
       De sbito, eletricamente, uma concluso vibrou-lhe nocrebro. Porque no deixava a presso marca no ponto inchado? Porqu? E agora o seu corao batia precipitadamente!
        Porque no era um verdadeiro edema, mas ummixedema. Ele descobrira, por Deus, descobrira! No, nodevia precipitar-se. Procurou acalmar-se a todo o custo. 
No devia dar saltos no escuro, atirando-se cegamente aconcluses apressadas. Devia ir com segurana, devagar,ter a certeza! 
       Inclinou-se e levantou a mo de Emlyn. Sim, a peleestava seca e spera, as pontas dos dedos ligeiramenteinchadas. A temperatura estava abaixo do normal. 
Metodicamente, terminou o exame, reprimindo as sucessivasondas de entusiasmo. Todos os indcios e todos os sintomasse ajustavam bem como esses bocados que servempara 
formar figuras nos jogos de pacincia. A fala entaramelada,a pele seca, os dedos espatulados, o rosto inchadoe sem elasticidade, a memria deficiente, a compreenso 
retardada, os acessos de irritabilidade culminando numaexploso de violncia homicida. Oh! Era sublime o triunfodo quadro completo.
       Levantou-se e voltou  saleta da entrada, onde oDr. Bramwell, de p, de costas para a lareira, assim orecebeu:
       - Que tal? Satisfeito? A caneta est ali na mesa.
       - Devagar, Dr. Bramwell! - Andrew desviou o olhar e procurou que a voz no trasse a sensao impetuosa detriunfo. - Creio que no devemos atestar a loucura 
deHughes.
       - Como? - A impassibilidade da fisionomia de Bramwell desapareceu lentamente. - Mas o homem est doido!
       - No  esse o meu ponto de vista - respondeu Andrewem tom natural, ainda contendo o entusiasmo, a excitao.
       No bastava o diagnstico do caso, devia ainda preparar gradualmente Bramwell, tentar agir em boa harmonia, nofazer dele um inimigo.  A meu ver, a perturbao 
do esprito de Hughes vem apenas da perturbao do seu organismo.
       - Parece-me que o caso  de deficincia da glndulatiridea. Um caso absolutamente ntido de mixedema.
       Bramwell, apalermado, fitou Andrew. To apalermadoque nem sabia o que dizer. Fez esforos para falar, masda garganta s saam sons roucos e inarticulados.
       - Alm disso - continuou Andrew, persuasivamente,com os olhos dirigidos para a grelha do fogo - Pontynewead um verdadeiro sepulcro. Se o levamos para 
l, ohomem nunca mais de l sai. Ou se sair, ficar a vida todacom esse estigma. Porque no experimenta primeiro umtratamento  tiride?
       - Ora, doutor... - Bramwell gaguejava. - Eu no posso compreender.
       - Pense no prestgio que conquistar - interrompeuAndrew mais do que depressa - se conseguir cur-lo. Noacha que vale a pena? Vamos, diga que sim! Vou 
chamara mulher dele. Est a desfazer-se em lgrimas com a ideiade que vo levar Emlyn. O doutor dir-lhe- que vai experimentar um novo tratamento.
       Antes que Bramwell pudesse protestar, Andrew saiu dasala. Poucos minutos depois, quando voltou com a Sr.a Hughes, o Rei da Prata j era outro homem. Encostado 
lareira, informou Olwen, no seu melhor estilo, que aindapodia haver um raio de esperana. Entretanto, por trsdele, Andrew fez do atestado uma bola de papel 
e atirou-aao fogo. Depois saiu para encomendar em Cardiff, pelotelefone, extracto de tiridina.
       Depois de uma fase de torturada ansiedade em que umaexpectativa dolorosa se estendeu por alguns dias antes queo tratamento comeasse a surtir efeito, os 
resultados foram maravilhosos. Ao fim de uma quinzena Emlyn estava dep. Ao cabo de dois meses voltava ao trabalho. Uma noiteapareceu no consultrio de Bryngover, 
alegre e bem disposto,em companhia da sorridente Olwen, para dizer aAndrew que nunca se sentira to bem em toda a sua vida.
       Olwen declarou:
       -  ao doutor a quem devemos tudo. Queremos deixar Bramwell e passar para a sua clnica. Emlyn estava nalista dele antes de nos casarmos. Mas  um velho 
tonto! Teria levado o meu Emlyn para... bem, o doutor sabe paraonde... se no fosse o doutor e tudo o que fez por ns.
       - No pode mudar de mdico, Olwen - respondeu Andrew. - Isso comprometer-me-ia. - A desistiu da circunspeco profissional e deixou-se arrastar por uma alegriaespontnea 
e despreocupada. - No tente fazer isso... corroatrs de si com aquela faca!
       Encontrando Andrew na rua, Bramwell observou comoque muito convencido:
       - Ol, Manson! J viu Hughes por a! Tanto ele comoa mulher esto muito agradecidos. Felicito-me pelo desenlace feliz deste caso. Nunca tive um melhor.
       Annie disse:
       - Esse tal Bramwell anda a exibir-se na cidade comose fosse algum importante. Ele nada sabe e a sua mulher,que horror! No h criada que pare em casa dela.
       Comentrio de Blodwen:
       - Doutor, no esquea que est a trabalhar para oDr. Page!
       Reaco de Denny:
       - Manson, actualmente o senhor est intolervel devaidade. No tardar muito que se mostre como um pavoNo tardar muito.
       Mas Andrew, correndo ao encontro de Christine, exuberante pelo triunfo do mtodo cientfico, guardou para elatudo o que tinha a dizer.
       
       

9
       Em Julho daquele ano inaugurou-se em Cardiff o congresso anual da Sociedade Mdica Britnica. Eram famosos os congressos dessa Sociedade e j o Prof. Lamploughdeclarava 
na palestra de despedida aos seus alunos que aela no poderia deixar de pertencer um mdico reputado.
       Esplendidamente organizados, esses congressos incluam actividades desportivas, sociais e cientificas para os membros e suas famlias, excurses gratuitas 
a qualquer abadiaem runas dos arredores, livros de notas artisticamenteencadernados e anurios dos principais armazns dos produtos farmacuticos e casas de 
artigos de cirurgia, comabatimentos nos preos dos hotis da estao de cura maisprxima. No ano anterior, no fim da semana de festas,foram distribudas gratuitamente 
a todos os mdicos erespectivas esposas caixinhas de amostras de biscoitos prprios para quem no quer engordar.
       Andrew no era membro da Sociedade, pois os cincoguinus da jia estavam, como ainda nesse momento, foradas suas possibilidades, mas o facto  que seguia 
de longeo congresso com uma pontinha de inveja, o que o faziasentir-se isolado em Blaenelly, sem contacto com a suaclasse. Fotografias nos jornais de um grupo 
de mdicosrecebendo expresses de boas-vindas numa plataformaembandeirada ou preparando-se para iniciar uma partidade golf do Penarth Club, ou ainda no convs 
de um navioa uma excurso martima, exasperavam ainda a suaideia de excluso.
       Mas no meio da semana Andrew teve uma surpresa agradvel: uma carta que trazia o timbre de um hotel deCardiff. Vinha do seu amigo Freddie Hamson. Como erade 
esperar, Freddie estava no congresso e pedia a Andrewque fosse v-lo. Convidava-o para jantar no sbado.
       Andrew mostrou a carta a Christine. Era agora neleuma coisa instintiva tom-la por confidente. Desde aquelanoite, havia quase dois meses, em que fora cear 
com ela,estava cada vez mais apaixonado. Agora, que podia v-lafrequentemente, sentia-se animado pelo evidente prazerque ela manifestava nesses encontros. Estava 
a gozar osdias mais felizes da sua vida. Christine era muito prtica,sincera e sem nenhuma coquetterie e exercia sobre eleuma influncia sedativa. Muitas vezes 
Manson ia procur-la cansado e nervoso, mas voltava sempre confortado etranquilo. Christine ouvia sossegadamente tudo o que eledizia, fazendo de vez em quando 
um ou outro comentrio,quase sempre oportuno ou espirituoso. Tinha um vivosentido de humor. E nunca o lisonjeava.
       Uma vez por outra, apesar da calma da jovem, tinham grandes discusses, porque Christine pensava pela suaprpria cabea. Ela mesma lhe explicou, com um sorriso,que 
esse sentido de discusso o herdara de uma avescocesa. Talvez o seu esprito independente tivesse amesma origem. Andrew notou as grandes reservas de coragem 
que ela possua; tal facto comovia-o e dava-lhe vontade de proteg-la. Na verdade, Christine estava completamente s no mundo, tendo apenas uma tia invlida emBridlington.
       Nas tardes de sbado e domingo, quando o tempo estavabom, faziam longas caminhadas pela estrada de Pandy.
       Uma vez foram ao cinema ver Em busca de Ouro, deCharlot, e outra vez, por sugesto dela, a um concertosinfnico em Toniglan. Mas o que o encantava sobretudoeram 
as noites em que a Sr.a Watkins ia visitar Christinee ele podia gozar a intimidade da sua companhia nosprprios aposentos dela. Era ento que tinham muitas dassuas 
discusses, enquanto a Sr.a Watkins, entretida calmamente com o seu tricot, na firme disposio de o fazerdurar toda a noite, no era mais do que um respeitvel 
chaperon.
       Agora, na perspectiva dessa viagem a Cardiff, queriaque a jovem o acompanhasse. A escola de Bank Street iasuspender as aulas no fim da semana, devido s 
friasde Vero, e Christine estava com a viagem marcada paraBrindlington, onde ia pass-las com a tia. Andrew manifestou desejos de organizarem uma festa de despedidaantes 
da separao.
       Depois de Christine ler a carta, Manson disse impulsivamente :
       - Quer vir comigo? Apenas hora e meia de comboio. Conseguirei que Blodwen me liberte na noite de sbado. Poderemos talvez assistir a alguma festa do congresso. 
E de qualquer maneira gostaria que a Christine conhecesseHamson.
       Ela fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - Terei muito prazer.
       Entusiasmado, Andrew no queria de modo algum quea Sr.a Page de qualquer forma impedisse a combinao, e,antes de tocar no assunto, pendurou na janela do 
consultrio um letreiro onde se lia:
       
       FECHADO SBADO A NOITE
       
       e entrou em casa alegremente. 
       - Sr.a Page! De acordo com o Estatuto dos Assistentes Mdicos, tenho direito a meio dia de folga por ano. Gostaria de ter por minha conta o meio dia de sbado. 
Queroir a Cardiff.
       - Est bem, doutor.
       Blodwen recebeu de m vontadeo pedido, parecendo-lhe que ele estava cheio de si, comares superiores, mas depois de o encarar, desconfiada, declarou num 
resmungo:
       - Bem, acho que pode ir.
       Umaideia repentina passou-lhe pela cabea. Os olhos brilharam, humedeceu os lbios:
       - Poder-me- trazer algunspastis da casa Parry. Nada h que eu aprecie tanto comoos pastis dessa casa.
       Sbado, s quatro e meia, Christine e Andrew tomaramo comboio para Cardiff. Andrew estava animadssimo, espalhafatoso, chamando o carregador e o vendedor 
derevistas pelos nomes. Sentado em frente de Christine, contemplava-asorrindo. Ela vestia casaco e saia azul, fatoque acentuava o seu ar elegante. Os sapatinhos 
pretosestavam lustrosos. Os olhos, bem como todo o seu aspecto,manifestavam quanto apreciava o passeio. Ambos estavamradiantes.
       Ao v-la junto de si Andrew sentia uma onda de ternura e uma nova sensao de desvelo. Esta nossa camaradagem  realmente muito agradvel, pensava ele. 
Mas issos no bastava, queria sentir bem perto de si o calor doseu corpo e da sua vida.
       Disse espontaneamente:
       - Nem sei como hei-de passar sem a ver, quando aChristine se for embora, nas frias de Vero.
       A jovem corou levemente. Ficou a olhar pela Janela.
       Num mpeto, Andrew perguntou:
       - Parece-lhe que as minhas palavras foram inconvenientes?
       - Seja como for. fiquei alegre quando as ouvi. - respondeuela sem desviar a vista.
       Andrew esteve a ponto de declarar que a amava, depedir-lhe, apesar da precria segurana da sua situao,que se casasse com ele. Numa lucidez repentina 
viu queessa era a nica, a inevitvel soluo para ambos. Masalguma coisa o deteve, uma espcie de intuio de que omomento no era apropriado. Decidiu falar-lhe 
na viagemde regresso.
       Entretanto, continuou a falar, um tanto nervoso:
       - Devemos gozar esta noite de horas deliciosas. Hamson  um bom camarada. Fazia sucesso quando estudante.  muito desembaraado. Lembro-me de que uma vez 
- oseu olhar tornou-se saudoso - se realizou uma festa decaridade, em Dundee, para os hospitais. Todas as estrelasdeviam aparecer, isto , gente de teatro. 
Pois sabe o queHamson fez? Subiu ao palco, cantou e danou e no exageroquando lhe digo que a casa quase vinha abaixo comaplausos.
       - Parece mais um dolo do palco do que um mdicodisse ela sorrindo.
       - Ora, Chris, no seja rabujenta! Garanto-lhe que gostar de Freddie.
       Chegaram a Cardiff s seis e um quarto e seguiram directamente para o Palace Hotel. Hamson havia prometido esper-los s seis e meia, mas quando entraram 
nohall do hotel ele ainda no chegara.
       Ali ficaram, observando a cena. O salo estava cheiode mdicos e mulheres de mdicos, falando e rindo comintensa cordialidade. Convites amveis ouviam-se 
de todosos lados. Dr. Smith! O senhor e a sua esposa devem sentar-seperto de ns esta noite. Ol, doutor! E os bilhetes de teatro onde esto?Havia muita 
gente entrando e saindo e cavalheiros com distintivos vermelhos na lapela atravessando o salo, apressadamente, com ares importantes, com papis na mo.
       Na sala contgua, um porteiro fardado berrava numa cantilena montona: Seco de otorrinolaringologia, poraqui, faam favor.  entrada de um corredor 
que levavaao salo anexo via-se um letreiro: Exposio Mdica.
       Havia tambm palmeiras decorativas e uma orquestra de cordas.
       - Isso est animado, hem? - observou Andrew com a sensao de estarem um pouco deslocados no meio daanimao geral. - E o maldito do Freddie atrasado comosempre! 
Vamos dar uma vista de olhos por a.
       Andrew foi logo atulhado de vistosa literatura. com umsorriso mostrou a Christine um dos folhetos. Doutor, oseu consultrio est vazio! Podemos indicar-lhe 
o meiode o encher! Havia tambm dezanove prospectos, todosdiferentes, oferecendo as ltimas novidades em analgsicos e sedativos.
       - Parece que a tendncia mais em voga na medicina para entorpecentes - observou tornando-se srio.
       Em frente do ltimo mostrurio, quando j iam a sair,foram abordados delicadamente por um jovem que apresentava um aparelhozinho brilhante, parecido com 
umrelgio.
       - Doutor! Creio que se interessar pelo nosso indexmetro. Tem mil utilidades,  a ltima palavra dognero, d uma admirvel impresso  cabeceira do doentee 
o preo  apenas dois guinus. Com licena, doutor. Vejabem, aqui na frente, um ndice dos perodos de incubao. Volta-se o mostrador e encontra-se o perodo de 
infeco. Aqui dentro - abriu o fundo da caixa - h um excelentendice de colorao da hemoglobina. Alm disso, na partede trs...
       - O meu av tinha um desses aparelhos - interrompeu Andrew com firmeza - mas atirou-o fora.
       Christine ainda se ria quando voltaram ao salo.
       - Coitado - disse. - O senhor deve ter sido o primeiroa troar do seu aparelhozinho to lindo.
       Nesse momento, quando chegaram ao hall, apareceuFreddie Hamson, que saltou de um txi e entrou no hotelacompanhado por um garoto que carregava os seus apetrechosde 
golf. Ao ver Andrew e Christine, avanou paraeles, com um aberto e triunfante sorriso.
       - Ol, ol! C esto. Desculpem-me o atraso. Tive dedisputar a Taa Lister. Nunca vi sujeito de tanta sortecomo o que jogou comigo. Ora viva! Que bom ver-te 
denovo, Andrew! Sempre o mesmo velho Manson, hem? Oh,meu caro, porque no compras um chapu novo!? - Bateunas costas de Andrew, afectuoso, num tom camarada, 
comum sorriso aberto que abrangia Christine. - Apresenta-me,meu patife. Que ests a pensar?
       Sentaram-se a uma das mesinhas. Hamson declarouque haviam de beber qualquer coisa. com um estalar dededos chamou o criado. E ento, saboreando Xerez,contou 
toda a histria da partida de golf. Estava absolutamente seguro da vitria, mas  ltima hora o seu adversrio deu para acertar em todas as jogadas.
       De aspecto sadio, cabelos louros empastados de brilhantina, um fato bem cortado e botes de opalas nospunhos, que tinha a preocupao de mostrar, Freddie 
eraum tipo bem apresentado, sem nada de bonito as suasfeies eram vulgares, mas simptico e elegante. Parecia talvez um pouco pretensioso, mas, quando se esforava,sabia 
ser agradvel. Fazia amigos com facilidade,mas na universidade o Dr. Muir, patologista e clnico,disse-lhe certa vez, mal-humorado, na presena de todosos alunos: 
Voc  um ignorante, Hamson. A sua cabea um balo cheio de gs de egosmo. Mas voc nunca seatrapalha. Se conseguir sair-se bem desta brincadeira decrianas 
que so os exames, posso vaticinar-lhe um brilhante futuro.. 
       Foram jantar no aritt-roam porque nenhum deles estava vestido a rigor, mas Freddie informou que mais tarde teria de vestir a casaca. Havia um baile, uma estopada 
terrvel, mas sentia-se na obrigao de comparecer. Tendo escolhido com -vontade o jantar num menuterrivelmente mdico: sopa Pasteur, linguado  la Curie,tournedos 
 la Conference Mdicale Freddie deu-se arelembrar com dramtico ardor os velhos tempos.
       - Nunca havia de pensar - concluiu abanando a cabea- que o velho Manson iria afundar-se num lugarejo deGales do Sul.
       - Acha que est de facto afundado? - perguntou Christine, com um sorriso um tanto irnico. Houve uma pausa.
       Freddie passou os olhos pelo salo repleto e, franzindo a cara, perguntou a Andrew:
       - Que te parece o congresso?
       - Creio - respondeu Andrew sem convico - que uma forma prtica de ficar em dia com a cincia.
       - Qual histria! Em toda esta semana no comparecia qualquer dessas reunies to aborrecidas. No, no, meuvelho! O que interessa  entrar em contacto, 
 encontrartoda esta gente,  misturar-se com a faco em evidncia. No fazes ideia de quantas relaes de real influncia eutravei durante esta semana.  para 
isso que estou aqui. Quando voltar  cidade, telefonarei a toda essa gente, ireivisit-la e jogar golf na sua companhia. Mais tarde fixabem as minhas palavras! 
Isso ser de uma grande vantagem.
       - No compreendo muito bem, Freddie.
       - Pois  claro como gua. Por enquanto exero umcargo pblico, mas no perco de vista um consultriozinhobem elegante na zona chique de Londres, com uma 
placabrilhante onde h-de ficar bem esta inscrio: FreddieHamson Mdico. Quando a placa for um facto, estescamaradas, j meus ntimos, indicaro o meu consultrioaos 
clientes. Sabes como  a coisa. Reciprocidade, meu caro. Ajudas-me e eu pago-te na mesma moeda. 
       Freddie sorveulentamente um pouco de vinho, numa expresso de conhecedor. E continuou:
       - Alm disso, tambm vale a penaentrar em contacto com os colegas suburbanos. Algumasvezes tambm podem arranjar-se alguns conluios. Tumesmo, meu patife, 
tu mesmo, podes mandar-me l paraa cidade, quando eu j tiver o consultrio, alguns clientesdo fundo do teu buraco, Blaen... qualquer coisa.
       Christine olhou furtivamente para Hamson, fez menode falar, mas conteve-se e cravou os olhos no prato.
       - E agora conta-me a tua vida, velho Manson - continuou Freddie, sorrindo. - Que tens feito?
       - Oh, nada de especial. Tenho um consultrio numbarraco, fao cerca de trinta visitas por dia, na maiorparte mineiros e as suas famlias.
       - Confesso que isso no me agradaria muito. - Freddie balanou a cabea novamente com ar compungido.
       - Pois a mim agrada-me - disse Andrew docemente.
       Christine interveio:
       - E ainda encontra oportunidade para trabalhos devalor.
       - Sim, tive outro dia um caso bem interessante - confirmou Andrew. - Cheguei at a mandar uma nota a esserespeito para o Medical Journal.
       E fez a Hamson uma curta exposio do caso de Emlyn Hughes. Embora Freddie pretendesse demonstrar que oescutava com interesse, os seus olhos giravam por 
todo osalo.
       - Muito bem - observou quando Manson concluiu. - Eu pensava que s na Sua ou em outros lugares semelhantesse poderiam encontrar casos de bcio. De qualquermodo, 
calculo que tenhas apresentado uma conta calada. E isso faz lembrar-me uma coisa: Um colega esteve hojea contar-me que o melhor meio de agir nesta questo decobrana 
dos honorrios...
       E continuou a falar, entusiasmado com o plano quealgum lhe havia sugerido para o pronto pagamento detodos os honorrios. O jantar terminou antes da suadissertao 
exuberante. Levantou-se, atirando com o guardanapo.
       - Vamos tomar caf l fora. Terminaremos no hall anossa conversa.
       s nove e quarenta e cinco, j no fim do charuto, esgotado temporariamente o repertrio de anedotas, Freddiebocejou ligeiramente e deu uma olhadela ao relgio 
depulso de platina.
       Mas Christine antecipou-se. Olhou significativamentepara Andrew, levantou-se com rapidez e observou:
       - No acha que estamos quase na hora do comboio?
       Manson esteve quase a dizer que ainda podiam demorar-se uma meia hora, mas Freddie acrescentou:
       - Creio que tambm j  tempo de pensar nesse maldito baile. Tenho um compromisso a que no posso faltar.
       Acompanhou-os at  porta giratria do hotel, despedindo-se longa e afectuosamente de Andrew.
       - Bem, meu velho - murmurou com mais um apertode mo e uma palmadinha no ombro. - Quando eu colocara placa na zona elegante de Londres, no me esquecereide 
te enviar o carto.
       No ar quente da noite, Andrew e Christine saram apassear em silncio pela Park Street. Ele compreendia vagamente que a noite no fora o sucesso que esperara. 
Pelomenos tinha ficado muito aqum da expectativa de Christine. Aguardou que ela falasse, mas Christine continuoucalada. Afinal, com hesitao, ele disse:
       - Imagino que deve ter sido muito aborrecido para siescutar todas estas histrias de hospital, no  verdade?
       - No - respondeu ela. - Absolutamente. No achei aborrecido.
       Houve uma pausa. Ele perguntou:
       - Agradou-lhe?
       - No muito - Christine voltou-se, perdendo a calmaforada, os olhos a brilharem de sincera indignao. - Queideia a dele de sentar-se ali, a noite toda, 
com o seu cabeloenvernizado, o sorriso vulgar e uns ares protectores diantede si.
       - Com ares protectores? - Andrew repetiu as palavrasdela, cheio de espanto.
       Ela confirmou vivamente com a cabea.
       - Estava intolervel. Um colega esteve hoje a contar-me que o melhor meio de agir na questo dos honorrios...,isso logo depois de o senhor lhe falar 
no casoestupendo do Emlyn. E chamar quilo bcio, tambm! Ateu sei que era exactamente o contrrio. E aquela insinuao para o senhor lhe enviar clientes - os 
lbios crisparam-se-lhe - foi realmente soberba! E concluiu, j furiosa: - Oh! Quase no pude aguentar aquela atitude de superioridade.
       - No me pareceu que ele tivesse assumido uma atitudede superioridade - argumentou Andrew, perplexo. E depois de uma pausa: - Reconheo que pareceu esta 
noiteum pouco pedante. Talvez uma disposio de momento.  o camarada mais sincero que tenho encontrado. Fomosgrandes amigos na faculdade. Passmos muito juntos.
       - Provavelmente ele tirava partido de si - disse Christine com um azedume que no lhe era natural. - Conseguia que o senhor o ajudasse nos estudos.
       Andrew protestou, aborrecido:
       - Ora, no seja assim, Chris.
       - O senhor  que no deve ser assim! - explodiu elazangada, com lgrimas nos olhos. - O senhor deve estarcego para no compreender aquela espcie de sujeito. 
Estragoua nossa excurso. Tudo foi adorvel at que eleapareceu e comeou a falar de si mesmo. E havia umconcerto magnfico no Salo Vitria, a que poderamos 
terido! Perdemos o concerto, para mais nada temos tempo,mas ele est justamente na hora do seu baile idiota!
       Arrastaram-se para a estao, que ficava a alguma distncia.
       Era a primeira vez que via Christine zangada.
       E ele tambm estava zangado, aborrecido consigo prprio, com Hamson, e, sim, tambm com Christine. O pior  queela tinha razo quando havia dito que a noite 
fora umfracasso. E agora, na verdade, observando discretamentea sua fisionomia plida e constrangida, sentiu que a noitefora efectivamente um fiasco.
       Chegaram  estao. Subitamente, quando atingirama plataforma, Andrew viu por acaso duas pessoas quepasseavam pelo outro lado. Reconheceu-as imediatamentea 
Sr.a Bramwell e o Dr. Gabell. Naquele momento chegouum comboio descendente para a praia de Porthcawl. Gabell e a Sr.a Bramwell entraram no comboio de Porthcawl,sorrindo 
um para o outro. A locomotiva apitou. O comboiopartiu.
       Andrew sentiu de repente uma sensao de tristeza.
       Olhou vivamente para Christine na esperana de que elano tivesse visto o casal. Ainda naquela manh ele seencontrara com Bramwell, e este, comentando a 
beleza dodia, esfregara satisfeito as mos ossudas a explicar que amulher tinha ido passar o fim de semana em companhiada me, em Shrewsbury.
       Andrew ficou de cabea baixa, calado. Estava to apaixonado que sinceramente lhe custou a cena que surpreendera, com toda a sua significao. Sentiu-se mal. 
O seunimo parecia indicar uma completa mutao de ideias.
       Cobriu-se de sombras a sua alegria. Ansiava por uma longaconversa com Christine, por abrir-lhe o corao, acabarde uma vez com o tolo pequeno mal-entendido. 
Ansiava,acima de tudo, por ficar s com ela. Mas o comboio naviagem de regresso estava superlotado. S conseguiramlugar num compartimento repleto de mineiros, 
que discutiam em voz alta o jogo de futebol da cidade.
       J era tarde quando chegaram a Blaenelly e Christine parecia muito cansada. Andrew estava convencido de queela vira a Sr.a Bramwell e Gabell. Compreendeu 
ser inoportunofalar-lhe naquele momento. Nada mais havia afazer seno deix-la em casa e despedir-se desejando-lhetristemente boas noites. 

10
       Embora fosse quase meia-noite quando chegou aBryngover, Andrew encontrou Joe Morgan  sua espera,andando de cima para baixo, em passadas curtas, entre oconsultrio 
fechado e a entrada da casa. Ao ver o mdico,a fisionomia do corpulento brocador teve uma expressode alvio.
       - Eh, doutor! Que alegria por v-lo! H bem umahora que ando aqui de um lado para outro. Minha mulherest a precisar do doutor e h bastante tempo.
       Arrancado abruptamente s suas prprias preocupaes, Andrew disse a Morgan que o esperasse. Entrou em casapara ir buscar a maleta e depois partiram juntos 
para on. 12 da Blaina Terrace. O ar da noite era frio e impregnado de sereno mistrio. Habitualmente to perspicaz, Andrew mostrava-se agora triste e desatento. 
No lhe passaria pela cabea que aquela visita nocturna teria efeitossingulares e decisivos em todo o seu futuro em Blaenelly.
       Os dois seguiram em silncio at chegar ao n. 12. A Joeparou de repente.
       - Eu no entro - disse ele, numa voz emocionada. Mas sei, doutor, que sob os seus cuidados tudo correr bempara ns.
       Dentro de casa uma escada estreita conduzia a uma pequena alcova, limpa, mas mobilada pobremente, tendoapenas a ilumin-la uma lamparina. Ali, a me da Sr.a 
Morgan, uma velha alta, de cabelos brancos, orando pelos setenta anos, e uma parteira idosa e robusta esperavam ao lado da parturiente, examinando a expresso de 
Andrew enquanto este se movimentava no quarto.
       - Deixe-me fazer-lhe chazinho, doutor - disse a velha, depois de alguns momentos.
       Andrew esboou um sorriso. Compreendeu que ela,cheia de experincia, percebera que ainda havia algumtempo de espera e receava que o mdico se retirasse, 
prometendo voltar mais tarde.
       - No se preocupe, av. Eu no me vou escapar.
       Em baixo, na cozinha, bebeu o ch que ela lhe serviu. Cansado como estava, Andrew sabia que se voltasse paracasa no acordaria to cedo. Sabia tambm que 
aquelecaso exigia toda a sua ateno. Apoderou-se do seu esprito um estranho torpor. Decidiu ficar at ao fim.
       Uma hora depois subiu novamente, observou a parturiente, desceu outra vez e sentou-se junto do fogo dacozinha. Tudo estava silencioso, excepto o sussurro 
da combusto na grelha e o montono tiquetaque do relgio deparede. Nada mais se ouvia alm do rudo dos passos deMorgan na rua. Em frente de Manson estava sentada 
avelha, toda encolhida no seu vestido preto, absolutamenteimvel, os olhos, extraordinariamente vivos e atentos, fitosna fisionomia do mdico, sondando.
       Os pensamentos de Manson eram confusos. A cena a queassistira na estao de Cardiff ainda o obcecava morbidamente.
        Pensava em Bramwell, loucamente devotado a umamulher que o enganava de maneira srdida; em EdwardPage, amarrado  intolervel Blodwen; em Denny, vivendocomo 
um infeliz, separado da mulher. O bom senso dizia-lhe que todos esses casamentos eram fracassos desanimadores.
        Era uma concluso que o deixava apreensivo na disposio em que se encontrava. Gostaria de considerar ocasamento como um idlio; sim, no podia consider-lode 
outro modo com a imagem de Christine diante dosolhos; os olhos dela brilhando para ele no admitiamoutra concluso. E era o conflito entre a sua razo prosaica 
e indecisa e o corao transbordante que o deixava triste e perturbado. Deixou o queixo cair sobre opeito, estirou as pernas e ps-se pensativamente a contemplar 
o fogo.
       Ficou assim tanto tempo e as suas ideias estavam tocheias de Christine que estremeceu quando, de repente,a velha lhe dirigiu a palavra. As reflexes dele 
tinhamseguido rumo to diferente...
       - Susan disse que no lhe dessem clorofrmio porquepodia fazer mal  criana. Est doida por esse beb, doutor.
       Uma ideia sbita iluminou-lhe os olhos cansados. E acrescentou em voz baixa:
       - E aqui entre ns... Estamos todos doidinhos pelo garoto.
       Foi com esforo que ele voltou a si.
       - Nenhum mal lhe far o anestsico - disse afectuosamente. - Tudo correr bem.
       Nisto ouviu-se a voz da parteira chamando do alto da escada. Andrew olhou o relgio, que marcava agora trs emeia. Levantou-se e subiu ao quarto. Compreendeu 
que jpodia comear o trabalho.
       Uma hora passou. Foi uma luta demorada e difcil.
       Finalmente, quando os primeiros alvores da madrugada se infiltraram pelos interstcios da veneziana partida, a criana veio ao mundo, mas sem vida.
       Um arrepio de horror perpassou por Andrew quandoviu o corpo sem movimento e sem voz. Depois de tudo oque prometera! O rosto, afogueado pelo esforo, arrefeceude 
repente. Hesitou, indeciso entre o desejo de tentar aressurreio da criana e as suas responsabilidades paracom a me, que se encontrava em estado desesperado.
       O dilema era to premente que no teve conscincia daforma por que se decidiu. Cegamente, instintivamente, entregou a criana  enfermeira e voltou a ateno 
paraSusan Morgan, que estava desmaiada, quase sem pulsaes, ainda sob a aco do ter. A pressa de Andrew eraexasperada, numa precipitao frentica para conservar 
asforas da parturiente, que fugiam. Num instante quebroua ampola e injectou a pituitrina. Atirou para o lado aseringa e continuou e luta desesperada para reanimar 
amulher inerte. Depois de alguns minutos de angustiadoesforo, o corao dela reanimou-se. Viu que podia deix-lamomentaneamente sem maiores apreenses. Girou 
no quarto, em mangas de camisa, o cabelo cado sobre a testa inundada de suor.
       - Onde est a criana?
       A parteira fez um gesto amedrontado. Havia posto acriana debaixo da cama. No mesmo instante j Andrewestava ajoelhado. Procurando entre os panos ensopadospor 
baixo do leito, arrancou para fora a criana. Um menino perfeitamente constitudo. O corpo, tpido e flexvel,era branco e mole como cera. O cordo umbilical, 
cortado pressa, era como um caule partido. A pele macia e tenra,a cabea balanava sobre o pescoo delgado. Os membrospareciam sem ossos.
       Ainda ajoelhado, Andrew fitou a criana, atnito, com atesta franzida. A brancura s significava uma coisa: asfixia branca. Numa tenso sobre-humana, veio-lhe 
mente, num relance, o caso que vira, certa vez, no HospitalSamaritano, e o tratamento que fora empregado. Levantou-se :
       - Traga-me gua quente e fria - gritou para a parteira. - E bacias tambm. Depressa! Vamos, depressa!
       - Mas, doutor... - gaguejou ela, com os olhos no corpinho descorado.
       - Depressa - berrou o mdico.
       Arrancando um cobertor da cama, estendeu nele acriana e iniciou o mtodo da respirao artificial. Porfim trouxeram a chaleira, o jarro da gua e as bacias.
       Trabalhava com frenesim. Deitou gua fria numa bacia; na outra, gua quase fervente. E ento, como um malabarista desvairado, passava a criana rapidamente 
de umabacia para outra, mergulhando-a ora num banho frio oranum banho escaldante.
       Passaram-se quinze minutos. O suor escorria para osolhos de Andrew, cegando-o. Uma das mangas pendia escorrendogua. Estava ofegante. Mas nenhum sinal derespirao 
vinha do corpo flcido da criana.
       Oprimia-o uma exasperada sensao de derrota, umraivoso desespero. Sentia a parteira a observ-lo numaconsternao atenta, enquanto mais adiante, encostada 
parede, onde ficara desde o comeo, a velha silenciosa, no desviava dele os olhos em fogo, com a mo apertandoa garganta. Lembrou-se da sua grande esperana 
de terum neto, esperana to veemente como a da filha de terum filho. E tudo gorado, perdido, sem apelo.
       O soalho era agora uma confuso suja. Tropeandonuma toalha ensopada, Andrew quase deixou cair o beb, que j escorregava nas suas mos como um peixe estranhoe 
esbranquiado.
       - Basta, doutor! - sussurrou a parteira. - A criananasceu morta.
       Andrew no lhe deu ateno. Batido, desesperado, tendo lutado em vo durante meia hora, ainda persistia numverdadeiro desvario, esfregando a criana com 
uma toalhafelpuda, comprimindo e afrouxando o pequenino peitocom as duas mos, tentando dar alento ao corpo inanimado.
       E ento, como por milagre, o pequenino peito, entre assuas mos, deu um suspiro curto e convulsivo. Outro. E outro mais. Andrew desvairou. A sensao de 
vida quebrotava debaixo dos seus dedos depois daquele esforosobre-humano era to estranha que por pouco no o fezdesmaiar. Febrilmente redobrou de esforos. 
A crianaagora respirava. Uma respirao cada vez mais pronunciada.
        Uma bolha de muco surgiu numa das narinas, uma bolhazinha irisada, anunciadora de vida. Os membros jno pareciam sem ossos. A cabea j no lhe descaa 
comose no houvesse espinha dorsal. A pele esbranquiada iaaos poucos adquirindo cor. E nisto, deliciosamente, ouviu-seo choro da criana.
       - Meu Deus do Cu! - a parteira comeou a soluar histericamente. - Nasceu... Nasceu viva!
       Andrew entregou-lhe a criana. Sentia-se fraco e atordoado.
         sua volta o quarto era uma confuso de metermedo: cobertores, toalhas, instrumentos manchados, a seringada injeco espetada pela agulha no oleado, o 
jarrovirado, a chaleira numa poa de gua. No leito em desalinho a me ainda sonhava plcidamente, libertando-seprogressivamente dos efeitos do anestsico. A velha 
aindacontinuava encostada  parede. Mas as suas mos estavamjuntas, os lbios moviam-se sem rudo. Rezava.
       Como um autmato, Andrew ajeitou as mangas dacamisa e vestiu o casaco.
       - Virei buscar mais tarde a maleta.
       Desceu as escadas, dirigiu-se  cozinha. Os lbios estavam secos. Bebeu a gua de um grande copo. Agarrou nochapu e no sobretudo.
       L fora encontrou Joe de p na escada, com a fisionomia contrada, expectante.
       - Tudo bem, Joe - disse com voz arrastada. - A mulher e a criana esto muito bem.
       Era dia claro. Quase cinco horas. Alguns mineiros jestavam na rua. Os primeiros do turno da noite que voltavam do servio. Quando Andrew seguia com eles, 
nomesmo andar cansado e lento, os seus passos ecoando comos dos outros sob o cu da manh, ps-se a pensar distraidamente, esquecido de todos os outros trabalhos 
quej havia feito em Blaenelly: Fiz alguma coisa, oh! MeuDeus! Afinal fiz alguma coisa de concreto.
       
       

11
       Depois de fazer a barba e de tomar banho (graas aAnnie havia sempre gua quente  sua disposio), Andrew sentiu-se menos cansado. Mas Blodwen viu a camadele 
intacta e mostrou-se zombeteira e sarcstica  horado caf e ainda mais quando ele recebeu em silncio assuas alfinetadas.
       - Apre, doutor! Amanheceu com a cara muito cansada. E que olheiras escuras! S voltou de madrugada, hem? E esqueceu-se tambm dos meus pastis de Parry. Dormiufora 
de casa, no , menino? A mim no me engana. Eununca me iludi com esse ar de santarro! Vocs, assistentes,so todos a mesma coisa. Ainda no encontreium s que 
no bebesse ou que no perdesse a linha umavez por outra!
       Depois do trabalho do consultrio e das visitas damanh Andrew foi ver o seu caso. J eram doze e trintaquando se dirigiu a Blaina Terrace. Havia grupos 
de mulheres tagarelando s portas das casas e  sua passagemPararam de falar para sorrir e dar-lhe uns efusivos bonsdias.
        Ao aproximar-se do n. 12, pareceu-lhe ver algumna janela. De facto. Estavam  sua espera. No momentoem que chegou em frente da casa, a porta escancarou-se 
e,irradiando incrvel alegria em toda a sua face enrugada,a velha veio dar-lhe as boas-vindas.
       Na verdade ela estava to ansiosa por cativ-lo que nosabia o que dizer. Convidou-o a tomar primeiro qualquer refresco na saleta, e, em face da sua recusa, 
ainda maisse desfez em submissas amabilidades:
       - Est bem, est bem, doutor. Ora essa!  como diz! Mas pode ser que antes de se ir embora ainda tenha ocasiopara tomar uma gota de vinho e comer um pedaode 
bolo. - Levou-o escada acima a bater-lhe no ombrocom as velhas mos trmulas.
       Andrew entrou na alcova. O pequeno quarto, que deixara com aspecto de matadouro, fora to bem lavado eencerado que brilhava agora. Muito bem arrumados, todosos 
seus instrumentos luziam sobre uma mesa envernizada.
       A maleta fora cuidadosamente engraxada, os fechos tobem polidos que pareciam de prata. Tinham mudado aroupa da cama, onde se via agora roupa limpa. E ali 
estava a me, com o semblante calmo e concentrado a fit-lonuma felicidade muda, enquanto a criana mamava, bemdisposta e sossegada, no seio tmido.
       - Ol! - A corpulenta parteira, que estava sentada  cabeceira da cama, levantou-se a desfazer-se em sorrisos. Parecem muito bem agora, no , doutor? Nem 
sabem o trabalho que nos deram. Nem avaliam, no  verdade?
       Humedecendo os lbios, uma luz indefinida nos olhos meigos, Susan Morgan tentou gaguejar a sua gratido.
       - Ah, a senhora  quem pode dizer - disse a parteira, balanando a cabea, procurando chamar a si as glriasa todo o custo. - No se esquea, querida, que 
na sua idadeno poderia ter outro filho. Ou desta vez ou nunca mais.
       - Sabemos tudo isso Sr.a Jones - interrompeu significativamente a velha, ainda da porta.  Ns sabemos que tudo devemos aqui ao doutor.
       - O meu Joe ainda no o procurou, doutor? - perguntou timidamente a me. - No? Pois ir procur-lo, comcerteza. Ele no cabe em si de contente. Ainda h 
poucoesteve a dizer que o que nos far mais falta na fricado Sul  no ter l o doutor como nosso mdico.
       Ao sair, devidamente fortificado por uma fatia de boloe um clice de vinho feito em casa (pois teria despedaadoo corao da velha se se recusasse a beber 
 sadedo neto), Andrew continuou as suas visitas com um estranho calor no corao. No me teriam prestado maioreshomenagens, pensava ele cheio de si, se eu 
fosse o reida Inglaterra. Aquele caso tornara-se de certo modo oantdoto para a cena que surpreendera na plataforma daestao de Cardif. J era alguma coisa 
em favor do casamentoe da vida de famlia ver a felicidade que enchiao lar de Morgan.
       Quinze dias depois, quando Andrew J havia feito altima visita ao n. 12, Joe Morgan veio procur-lo. A atitude de Joe era solene e imponente. E, depois 
de mastigarpor muito tempo as palavras, explodiu, de repente:
       - Macacos me mordam! No tenho jeito para falar. No h dinheiro que pague o que fez por ns. Mas mesmoassim, minha mulher e eu queremos dar-lhe uma lembrana.
       Impulsivamente, entregou a Andrew um pedao depapel. Era um cheque de cinco guinus pagvel na Sociedade Construtora. Andrew olhou espantado para o cheque. 
Os Morgans,como se dizia na linguagem local, era gente limpa, pormnada tinham de abastados. Aquela quantia nas vsperasda sua partida, com tantas despesas 
de viagem, deviarepresentar um grande sacrifcio, uma nobre generosidade.
       Emocionado, Andrew disse:
       - No posso aceitar, amigo Joe.
       - Tem de aceitar - continuou Joe com sisuda insistncia, pondo a mo em cima da de Andrew. - Seno, minhamulher e eu ficaremos mortalmente ofendidos.  um 
presentepara o senhor. No  para o Dr. Page. Ele tem levadoo meu dinheiro durante anos e anos e ns nunca o incomodamos; foi esta a primeira vez que precismos. 
Ele estmuito bem pago. Isto  um presente pessoal para o senhor. Compreende, doutor?
       - Sim, compreendo, Joe - concordou Andrew, sorrindo.
       Dobrou o cheque, colocou-o no bolso do colete e durante alguns dias esqueceu-o ali. Mas na tera-feira seguinte, aopassar em frente do Western Counties Bank, 
parou, reflectiu um momento e entrou. Como a Sr.a Page sempre lhepagava em notas que ele enviava em cartas registadaspara os escritrios da Dotao, ainda no 
tivera oportunidade de qualquer operao com o Banco. Mas agora,com a noo reconfortante da sua prpria importncia,decidiu-se a abrir um depsito com o dinheiro 
de Joe. Emfrente do guichet, endossou o cheque, encheu alguns impressose entregou-os ao empregado, observando com um sorriso:
       - No  muito, mas de qualquer modo  um comeo.
       Enquanto procedia a essa operao, percebeu que Aneurin Rees esticava o pescoo, l do fundo, a observ-lo.
       Quando Andrew se voltou para sair, o gerente avanoupara o balco. Apanhou o cheque. Alisando-o carinhosamente olhou para os lados, por trs dos culos.
       - Boas tardes, Dr. Manson. Como est? - Pausa. E mostrando a dentadura amarela. - E... quer que esse dinheiroseja lanado numa conta sua?
       - Sim - explicou Manson um pouco surpreso.  A quantia  pequena de mais para abrir uma conta?
       - Oh, no, doutor. No se trata da quantia. Temosmuito prazer em lhe abrir uma conta. - Rees hesitou examinandoainda o cheque, e levantando para Andrew 
osseus olhinhos desconfiados. E quer que seja em seu prprio nome?
       - Pois claro.
       - Est certo, doutor, est certo. - A sua expresso desfez-se subitamente num sorriso amarelo. - Estava apenasa conjecturar. Queria ter a certeza. Que tempo 
deliciosopara esta poca do ano! Passe bem, Dr. Manson, passebem!
       Manson saiu do banco intrigado, perguntando a simesmo o que estaria insinuando aquele imbecil calvo e empertigado.
       Alguns dias depois teve a resposta a essa pergunta.

12
       Havia mais de uma semana que Christine deixaraBlaenelly em gozo de frias. Andrew, porm, estivera toocupado com o caso Morgan que s conseguiu v-la algunsmomentos 
no dia da partida. Nem chegou a falar-lhe. Masagora, longe dela, andava cheio de saudades.
       O Vero estava insuportvel na cidade. Transformaram-se num amarelo sujo os ltimos verdes da Primavera.
       As montanhas tinham um ar febril e quando ecoavam naamplido abrasada os estampidos das minas e das pedreiras pareciam cobrir o vale com uma abbada de 
sons ardentes.
       Os operrios saam da mina com o rosto impregnadode p de minrio que dava a impresso de ferrugem.
       Crianas brincavam descuidadamente. Thomas, o velho cocheiro, foi atacado de ictercia e Andrew teve de fazera p as suas visitas. Ao arrastar-se pelas ruas 
sufocantes,lembrava-se de Christine. Que estaria fazendo? Pensaria nele um pouco que fosse? E que pensaria do futuro, quaisos seus projectos, as perspectivas de 
felicidade que podiamter juntos?
       Ento, quando menos esperava, recebeu um recado de Watkins, pedindo-lhe que fosse v-lo aos escritrios da Companhia.
       O director da mina recebeu-o de modo agradvel, convidando-o a sentar-se e oferecendo-lhe cigarros.
       - Olhe, doutor - disse num tom de amigo. - H tempoque quero falar-lhe e  melhor entendermo-nos antes queeu faa o meu relatrio anual.  Parou um momento, 
paratirar da ponta da lngua um resto de tabaco. Esteveaqui um grupo de trabalhadores, com o Emlyn e o EdWilliams  cabea, pedindo-me que inclusse o seu nomecomo 
mdico titular na lista da Companhia.
       Andrew aprumou-se na cadeira, invadido por uma ondade calor e de alegria.
       - Quer dizer... Trata-se de passar para mim a clnicado Dr. Page?
       - No, no  bem isso, doutor - explicou Watkins vagarosamente. - Compreenda que a situao  delicada. Tenhode atender as exigncias dos operrios. No 
posso tirar dalista o Dr. Page. H um certo nmero de homens que noadmitiriam isso. O que eu queria fazer em seu favor eraencaix-lo habilmente na lista da Companhia. 
Assim, quemquisesse podia transitar da clnica do Dr. Page para a sua.
       A expectativa ansiosa foi desaparecendo da fisionomiade Andrew. Franziu a testa, ainda emocionado.
       - Mas o senhor deve compreender que no posso fazerisso. Vim para aqui como assistente do Dr. Page. Se mecolocasse em oposio a ele... No, nenhuma pessoa 
decente pode fazer uma coisa dessas!
       - Mas no h outro meio.
       - Porque no me deixa ficar com a clnica dele? - insistiu Andrew. - Pagaria de boa vontade uma indemnizao, uma percentagem sobre todas as quantias recebidas. 
 uma outra sada.
       Watkins sacudiu a cabea, francamente em desacordo.
       - Blodwen no concordaria com isso. J lhe expus ocaso. Ela sabe muito bem que est numa situao slidaQuase todos os trabalhadores mais velhos daqui, 
comoEnoch Davies, por exemplo, querem o Dr. Page. Acreditaque ele ainda regressa  clnica. Eu teria de enfrentaruma greve se tentasse substitu-lo. - Parou um 
momento- Dou-lhe um prazo de um dia para pensar. Amanh tenhode enviar a nova lista para o escritrio central de SwanseaDepois de a lista seguir, s daqui a um 
ano podereivoltar ao assunto.
       Andrew ficou a olhar o soalho por um momento edepois fez um vagaroso gesto de recusa. As suas esperanas,em to elevado plano ainda h pouco, estavam agorapor 
terra.
       -  intil. No posso fazer isso. Mesmo que ficassepensando semanas inteiras.
       Doeu-lhe muito chegar a esta deciso e sustent-ladiante da parcialidade de Watkins em seu favor. Contudo,no podia abstrair do facto de que entrara em 
Blaenellycomo assistente do Dr. Page. Colocar-se numa posiocontrria, mesmo nessas circunstncias excepcionais, erainconcebvel. Admitindo que, por sorte improvvel, 
voltasse  actividade... com que cara havia de fazer concorrncia ao velho? No, no podia e no queria essa situao.
       No entanto, durante o resto do dia, sentiu-se melanclicoe abatido, magoado com a extorso descarada deBlodwen, certo de que estava numa posio absurda, 
lamentando at que lhe tivessem feito aquele oferecimento.
        noite, por volta das oito horas, foi fazer uma visita aDenny. Desde algum tempo que no o via. E no seu desnimo sentiu que lhe faria bem uma conversa 
com Phillip,talvez uma confirmao de que procedera acertadamente.
       Chegou a casa de Phillip pouco depois das oito, e, comoj era seu costume, entrou sem bater. Foi  saleta. Phillipestava estirado no sof. A princpio havia 
pouca luzteve a impresso de que ele estava descansando de umpenoso dia de trabalho. Mas Phillip nada fizera naqueledia. Ficara estendido ali, com a respirao 
opressa, umbrao por cima do rosto, completamente embriagado. Aovoltar-se, Andrew deu com a dona da casa, que o observava de banda, com ar preocupado.
       - Ouvi o Sr. Doutor entrar. Ele est assim h muitotempo. Nada comeu. No sei que fazer.
       Andrew no encontrou palavras para responder. Ficoua observar a face parada do amigo, a recordar o cinismodo primeiro comentrio de Denny na noite da sua 
chegada.
       - H dez meses que no se embebedava assim - continuou a dona da casa. - Mas quando comea j no pra. Agora o desastre ainda  maior, porque o Dr. Nicholls 
estfora, de frias. Parece que ser bom mandar-lhe um telegrama.
       - Mande Tom c acima - disse Andrew, afinal. - Vamos lev-lo para a cama.
       Com a ajuda do filho da Sr.a Seager, um jovem mineiroque parecia achar graa ao caso, despiram Phillip e vestiram-lhe um pijama. Mole e pesado como um saco, 
foilevado at o quarto.
       - O que deve fazer-se antes de tudo  vigi-lo para quemais nada beba. Feche a porta por fora se for necessrio- recomendou Andrew  mulher, quando voltaram 
 saleta. - E agora  melhor dar-me a lista das visitas de hoje.
       Numa ardsia pendurada na parede estavam mencionadas as visitas que Phillip deveria fazer naquele dia. Andrew copiou-a e saiu. Andando depressa, poderia 
despachar a maior parte antes das onze horas.
       Na manh seguinte, logo depois do seu trabalho do consultrio, foi ver Denny. A dona da casa veio ao seuencontro torcendo as mos.
       - No sei onde ele arranjou bebida. Eu no lha dei. Tenho feito por ele o melhor que tenho podido.
       Phillip estava ainda mais embriagado do que na vspera, pesado, insensvel. Depois de o sacudir vrias vezese de esforar-se por reanim-lo com uma xcara 
de cafbem forte - caf que afinal entornou todo na cama - Andrewcopiou novamente a lista das visitas. Amaldioandoo calor, as moscas, a ictercia de Thomas e 
Denny tambm,enfrentou mais um dia de trabalho dobrado.
       No fim da tarde, esgotado, aborrecido, voltou dispostoa acabar com a bebedeira de Denny. Dessa vez encontrou-o espapaado numa poltrona, de pijama, ainda 
embriagado,fazendo um longo sermo a tom e  Sr.a Seager. QuandoAndrew entrou, Denny calou-se imediatamente e dirigiu-lhe um olhar sombrio, sarcstico. Falou-lhe 
com uma vozempastada.
       - Ah!  o bom samaritano! J soube que o doutor me substituiu no trabalho. Que gesto nobre! Mas porqu esse interesse? Porque foi esse maldito Nicholls gozar 
a vidaatirando para cima de ns todo o trabalho?
       - No sei. - A pacincia de Andrew estava por um fio. - S sei que o trabalho seria mais fcil para ns doisse Denny colaborasse.
       - Eu sou cirurgio. No sou desses desgraados de clnica geral. Clnica geral! Ora... Que significa isso? J feza si prprio essa pergunta? No fez ainda? 
Bem, eu explico-lhe.  o anacronismo mais completo e acabado, o pior, omais estpido sistema criado pelo homem desde que Deuso ps na Terra. Velho e querido clnico 
geral... Velho eingnuo pblico britnico! Ah! - ria com sarcasmo. - Opblico ingnuo que criou esse tipo de mdico. E gostadele. E chora por ele. - Inclinou-se 
para um lado da poltrona.
        Os seus olhos congestionados exprimiam outra vez amargura e desiluso. E numa voz arrastada continuoua objurgatria: 
       - Que pode fazer o pobre diabo? Ah! O clnico geral! Tem de ser pau para toda a obra! Admitamosque tem vinte anos de formado. Como pode entender demedicina, 
de obstetrcia e bacteriologia, de todos os ltimosprogressos da cincia e da cirurgia tambm? Sim! No deve esquecer-se a cirurgia. De quando emquando pratica 
numa operaozita feita em casa. - Voltouao tom sardnico. - Um caso de mastoidite, por exemplo. Duas horas e meia contadas pelo relgio. Quando encontrapus,  
um salvador da humanidade. Quando no encontra,a vtima vai para o cemitrio. - Levantou a voz. Estavaindignado, terrivelmente indignado. - S mandando tudopara 
o Inferno, Manson. H sculos que  a mesma coisa. Ser possvel que eles no queiram mudar de sistema? Para que lutar? Para qu, pergunto-lhe. D-me outrowhisky. 
Estamos todos naufragados. E parece que estou bbado tambm.
       Durante alguns minutos reinou o silncio. Afinal, contendo a irritao, Andrew falou:
       - No acha que deve voltar agora para a cama? Venha,ns ajudamos.
       - Deixe-me em paz! - respondeu Phillip de mau humor. - Que diabo! No venha para c com esses malditos cuidadozinhosde cabeceira de doente. J usei esses 
processos. Sei muito bem como . 
       Levantou-se abruptamente, a cambalear, e, agarrando a Sr.a Seager pelo ombro, atirou-apara a poltrona. Balanando o corpo numa caricatura damais requintada 
cortesia, dirigiu-se  mulher, amedrontada: 
       - Como passou o dia, minha querida senhora? Um poucochinho melhor, pelo que vejo. Com o pulso um bocadinho mais forte. Dormiu bem? Ah! Temos ento de receitarum 
calmantezinho...
       Na cena de farsa havia uma nota estranha, alarmante: a figura de Phillip, com a barba crescida, de pijama echinelos, a caricatura de um mdico mundano, inclinando-senuma 
servil reverncia diante da esposa do mineiro, que se encolhia toda na cadeira. Tom rompeu num acessonervoso de riso. Num relmpago, Denny investiu contraele.
       - Est contente! Ria! Ria, seu desgraado, at quandoquiser! Mas gastei cinco anos da minha vida nessas coisas! Meu Deus! Quando penso nisso sinto vontade 
de morrer.
        Passou o olhar por todos os lados, agarrou numa dasjarras que estavam sobre o fogo e espatifou-a no soalho. A seguir pegou noutra e atirou-a contra a parede. 
E dosseus olhos brotavam relmpagos avermelhados, nos quaisse lia a nsia da destruio.
       - Misericrdia! - choramingou a Sr.a Seager, - Seguremeste homem!
       Andrew e Tom Seager atiraram-se a Phillip, que lutava,sem reconhecer ningum, no paroxismo da intoxicaoalcolica. Depois, ao capricho da embriaguez, de 
repenterelaxou a atitude e tornou-se sentimental, melacento.
       - Manson - choramingou, pendurando-se no ombro de Andrew. - Voc  um bom tipo. Gosto de si como um irmo Voc e eu... Se nos unssemos firmemente podamossalvar 
esta nossa maldita profisso.
       Estava de p, com o olhar distante, perdido. Depois acabea descaiu. O corpo vergou. Deixou que Andrew o levasse para o quarto e para a cama. Rolando a 
cabea notravesseiro, fez o seu ltimo pedido de brio:
       - Prometa-me uma coisa, Manson! Por amor de Deus,no se case com mulher importante.
       Na manh seguinte estava mais embriagado do quenunca. Andrew desanimou. Embora Tom Seager jurasseque no, Andrew estava desconfiado de que era ele quem, 
s escondidas, fornecia as bebidas a Denny.
       Durante toda aquela semana, Andrew enfrentou trabalho dobrado atendendo tambm os clientes de Denny. Nodomingo, depois do almoo, foi visitar o amigo. Phillipestava 
de p, barbeado, vestido, irrepreensvel na aparncia. Embora abatido e trmulo, no tinha sinais de embriaguez.
       - Parece que o senhor trabalhou por mim toda a semana.
       Fora-se a intimidade dos ltimos dias. A sua atitude era contrafeita, de uma correco gelada.
       - No teve importncia - respondeu Andrew embaraado.
       - Pelo contrrio, deve ter sido um trabalho dos diabos.
       A atitude de Denny era to distante que Andrew corou. Nem uma palavra de gratido, nada mais que uma arrogncia mal disfarada.
       - Se tem de facto interesse em saber - desabafou Andrew - confesso: tive um trabalho infernal por sua causa.
       - Indemniz-lo-ei. Pode estar certo.
       - Quem pensa o senhor que eu sou?! - respondeu Andrew, exaltado. - Pensa que sou um miservel cocheiro espera de uma gorjeta? Se no fosse eu a Sr.a Seager 
teriatelegrafado ao Dr. Nicholls e o senhor estaria no olho darua. O senhor  um tipo pretensioso, arrogante e malagradecido. E precisa de levar uns sopapos.
       Denny acendeu o cigarro com dedos to trmulos quemal podiam segurar o fsforo, e com ar de escrnio respondeu :
       - Que bela oportunidade escolheu para querer medirforas comigo. Verdadeiro tacto escocs! Noutra ocasioterei muito gosto.
       - Oh! Cale a boca, desgraado. Eis aqui a sua lista devisitas. As que esto marcadas com uma cruz devem serfeitas na segunda-feira.
       Saiu furioso da casa do amigo. V para o diabo que ocarregue!, resmungou com raiva. Parece que se julgadono do mundo. D a impresso de que me prestou 
umfavor, permitindo que eu fizesse o seu trabalho.
       Mas a caminho de casa a irritao foi diminuindo progressivamente.
       Estimava muito Phillip e via agora maisclaro na sua alma desorientada. Era tmido, de uma sensibilidadeexcessiva, vulnervel. Era s por isso que serevestia 
de uma capa de orgulho e rudeza. A lembranada sua recente recada no vcio e dos espectculos quedera durante a crise devia tortur-lo horrivelmente.
       Mais uma vez Andrew ficou impressionado com o paradoxo daquele homem inteligente enterrando-se em Blaenelly para romper com todas as convenes. Phillip 
tinhaqualidades excepcionais de cirurgio. Encarregado de daro anestsico, Andrew vira-o certa vez executar uma ressecoda vescula biliar, na mesa de cozinha 
da casa deum mineiro, com o suor a escorrer do rosto avermelhadoe dos braos cabeludos. Um primor de rapidez e segurana.
       Um homem capaz de fazer dessas coisas merecia especial apreo.
       No entanto quando chegou a casa ainda no estavarefeito do golpe que recebera com a frieza de Phillip.
       Assim, quando transps a porta e pendurou o chapu no cabide, no estava com muita disposio para ouvir a vozda Sr.a Page, exclamando:
       - Ah,  o senhor, Dr. Manson? Preciso de falar-lhe 
       Andrew no se dignou responder-lhe. Voltando-se, preparou-se para subir as escadas na direco do seu quarto. Mas quando ps a mo no corrimo, ouviu de 
novo a vozde Blodwen, mais aguda, mais estridente.
       - Doutor! Dr. Manson! Preciso falar-lhe.
       Andrew deu meia volta e viu a Sr.a Page irromper nasaleta, com a fisionomia muito plida, os olhos negrosfalseando, possuda de violenta emoo, vindo ao 
seu encontro.
       - O senhor  surdo? No me ouviu dizer que precisavafalar-lhe?
       - Que h, Sr.a Page? - perguntou ele, irritado.
       - Ora, o que h! - ela quase no podia respirar. - Estou a gostar de o ver. O senhor a fazer-me perguntas! Eu que lhas quero fazer, meu prezado Dr. Manson!
       - Que  ento? - fuzilou Andrew.
       O seu modo impaciente parecia excit-la acima dassuas foras.
       -  isto. Sim, meu esperto doutorzinho! Poder ter abondade de me explicar o que quer isto dizer? 
       Do seiogorducho tirou um pedao de papel e agitou-o ameaadoramentediante dos seus olhos. Ele reconheceu o cheque deJoe Morgan. Ento, levantando a cabea, 
viu Rees portrs de Blodwen, esgueirando-se  entrada da saleta.
       - Ah, pode olhar  vontade - continuou Blodwen. - Vejo que o reconhece. Mas  melhor que nos diga depressacomo foi este dinheiro parar ao banco em seu nome,quando 
pertence ao Dr. Page e o senhor sabe isso muitobem.
       Andrew sentiu o sangue subir-lhe  cabea. As orelhas ardiam.
       -  meu. Foi uma ddiva de Joe Morgan.
       - Uma ddiva! Oh! Oh! Esta  boa. Ele no est aquipara confirmar.
       Manson respondeu de dentes cerrados:
       - A senhora pode escrever-lhe para ter a certeza seno confia na minha palavra.
       - Tenho mais que fazer do que escrever cartas. - Completamente fora de si, berrou: - E de facto no confio nasua palavra. O senhor pensa que  muito esperto, 
hem? Sim, senhor. Vem para c e j se lhe meteu na cabeaque pode ficar com a clnica por sua conta, quando deviatrabalhar para o Dr. Page! Mas isso mostra muito 
bemquem o senhor .  um gatuno. Isso mesmo! Um gatunomuito ordinrio.
       Lanou-lhe o insulto em cara. Deu meia volta paraprocurar apoio em Rees.  porta da saleta, com a fisionomia mais plida que nunca, o gerente do banco emitiasons 
estranhos que deviam ser apelos de moderao. Naturalmente Andrew viu em Rees o instigador de toda aquesto. O homem passara alguns dias indeciso antes delevar 
a novidade a Blodwen. Manson desceu os dois degraus da escada e avanou para eles, fitando com ameaadora atitude a boca fina e sem sangue de Rees. Estavalouco 
de raiva e ansioso por um conflito.
       - Sr.a Page - disse num tom pausado - a senhoraacaba de fazer uma acusao contra mim. Se dentro dedois minutos no a retirar e no pedir desculpas, process-la-ei 
por difamao e exigirei uma indemnizao. Ter deser apresentada em juzo a origem da sua calnia. Notenho dvidas de que a direco do banco do Sr. Rees estar 
interessada em saber como se viola o sigilo profissional.
       - Eu... eu fiz apenas o meu dever - gaguejou o gerentedo banco, j sem uma gota de sangue.
       - Estou  espera, Sr.a Page! - As palavras vinham-lheem catadupas, sufocando-o. - Se no se apressar darei aogerente do seu banco a maior tunda que ele 
levou emtoda a sua vida.
       Ela viu que fora demasiadamente longe, que falaramais, muito mais, do que tinha inteno. A ameaa de Andrewe a sua atitude indignada amedrontaram-na. Era 
quasepossvel seguir as reflexes vertiginosas da cabea deBlodwen: Indemnizao! Uma indemnizao pesada! Oh,meu Deus, poderia arrancar-me o meu dinheiro!.
       Engasgou, mastigou, gaguejou:
       - Eu... eu retiro o que disse. Peo desculpa.
       Era quase cmico ver a gorducha, h pouco to valente, sbita e inesperadamente subjugada. Mas Andrew noachou a menor graa ao caso. Compreendeu num momento, 
com profunda amargura, que chegara ao extremolimite da sua pacincia. No podia mais com aquela criatura impertinente, irascvel. Respirou profundamente. Esqueceu 
tudo, menos a sua averso por aquela mulher. Eranuma alegria louca e selvagem que ele se deixava arrastarpelo prprio impulso.
       - Sr.a Page, h uma ou duas coisas que preciso de lhedizer. Em primeiro lugar, sei que a senhora est a tiraruma renda anual de mil e quinhentas libras 
 custa domeu trabalho. Desse dinheiro todo a senhora reserva paramim s umas miserveis duzentas e cinquenta libras, ealm disso faz o que pode para me cercear 
os alimentos. Talvez lhe interesse saber tambm que a semana passadauma delegao de trabalhadores procurou o director damina e este convidou-me para fazer parte 
da lista da companhia.  Ainda deve saber que por motivos da tica, coisade que a senhora possivelmente no tem a mais leve noo, recusei terminantemente. E agora, 
Sr.a Page, estouto absolutamente enojado da sua pessoa que no possocontinuar aqui. A senhora  uma cadela mercenria; cpida e mesquinha. Na verdade a senhora 
 um caso patolgico. Notifico-a desde j de que s trabalharei at aofim do ms.
       Ela abriu a boca e os seus olhinhos como botes pareciamsaltar das rbitas. Ento, de repente, gritou :
       - No, isso no! Tudo  mentira. O senhor no foiconvidado para entrar na lista da Companhia. E estdespedido, fique sabendo. Ainda no houve assistente 
queme notificasse de que ia deixar o emprego. Que ideia, quedescaramento, que desaforo falar-me dessa maneira! Fuieu quem falou primeiro. Est despedido, est, 
fique sabendo, despedido, despedido, despedido...
       A exploso foi estridente, histrica, degradante. Noauge do desabafo, interrompeu-se. L em cima a porta doquarto de Edward abriu-se lentamente, e um momento 
depois o prprio Edward apareceu, como um fantasma, mostrando as pernas mirradas sob a camisa de dormir. Estaapario foi to estranha e inesperada que a Sr.a 
Page parou fulminada, no meio da frase. Olhou para cima. omesmo fizeram Rees e Andrew. E o doente, arrastando aperna paraltica, veio vagarosa, dolorosamente, 
at o altoda escada.
       - No posso ter sossego? - Embora agitada, a sua vozera severa. - Que h?
       Blodwen tomou flego, iniciou uma acusao chorosacontra Manson e concluiu:
       - E perante isto... perante isto, disse-lhe que estava despedido.
       Manson no contradisse a sua verso do caso.
       - Quer dizer que ele se vai embora? - perguntouEdward, todo trmulo pela agitao e pelo esforo de seconservar de p.
       - Sim, Edward - choramingou. - De qualquer maneiraem breve voltars ao trabalho.
       Houve um silncio. Edward desistiu de tudo o que queria dizer. Os seus olhos demoraram-se em Andrew numadesculpa muda, voltaram-se para Rees, passaram rapidamente 
por Blodwen e repousaram tristemente no vazio.
       Uma expresso de desespero, mas tambm de dignidade,foi toldando o seu rosto parado.
       - No - disse ele, afinal. - No mais voltarei a exercerclnica. 
       Nada mais disse. Voltou-se lentamente, apoiando-se na parede, e arrastou-se de novo para o quarto. A portafechou-se em silncio.

13
       Lembrando-se da alegria e do verdadeiro entusiasmoque o caso Morgan lhe produzira e que algumas palavrasreles de Blodwen haviam transformado numa coisa 
srdida, Andrew, indignado, perguntava a si mesmo se nodevia levar a questo para diante, escrever a Joe Morgan,e exigir da velha mais do que uma simples desculpa. 
Masabandonou a ideia considerando-a mais digna de Blodwendo que dele. Por fim decidiu-se pela instituio de caridade mais pobre do distrito. E, num acesso de 
amargura,mandou os cinco guinus, pelo correio, ao secretrio, pedindo-lhe que remetesse o recibo a Aneurin Rees. Depoisdisso sentiu-se melhor. Mas gostaria de 
ver Rees tomarconhecimento daquele recibo.
       E ento, compenetrado de que o seu trabalho ia terminar no fim do ms, comeou imediatamente a procuraroutra colocao, esmiuando as pginas de anncios 
doLancet e respondendo a todos os que pareciam aceitveis.
       Havia muitos, na coluna de Assistentes - Precisa-se...
       Enviou cartas bem redigidas com cpias de todos os seus atestados e at mesmo o retrato, como era frequentemente exigido. Mas passou a primeira semana, veio 
a segunda,esta acabou e nada de resposta. Estava desiludido e atnito.
        Foi ento que Denny lhe explicou nesta frase dura:
       - O senhor j esteve em Blaenelly...
       Andrew compreendeu afinal, numa crise de desalento,que era uma condenao estar exercendo clnica naquelacidade mineira perdida no Pas de Gales. Ningum 
queriaassistentes vindos daqueles stios. Tinham m reputao.
       Quando expirou a primeira quinzena do prazo que marcara para deixar o emprego, Andrew comeou de facto ainquietar-se. Que havia de fazer? Ainda devia mais 
de cinquenta libras  Dotao.  claro que poderia suspenderesse pagamento. Mas, mesmo assim, se no encontrasseoutra colocao, como iria viver? No tinha em 
dinheiromais do que duas ou trs libras. No tinha instrumental,nada possua. Desde que viera para Blaenelly no comprara sequer um fato, e os que havia trazido 
estavam bastante coados. Tinha momentos de verdadeiro terrorquando se via mergulhado na misria. 
       Presa de dificuldades e incertezas, ansiava por Christine.
       Era intil escrever. No tinha talento para traduzirno papel os seus sentimentos. Tudo o que poderia escreverdaria sem dvida impresso falsa. Entretanto, 
ela noestaria de volta a Blaenelly antes da primeira semana deSetembro. Lanou um olhar desesperado para o calendriocontando os dias que faltavam. Doze dias 
ainda tinhamde passar. Sentiu, num crescente abatimento, que seria omesmo se j tivessem passado, pois deles nada mais esperava.
       Na noite de 30 de Agosto, trs semanas depois de ter notificado  Sr.a Page, j comeava, sob o aguilho danecessidade, a enfrentar a ideia de procurar um 
empregode encarregado de dispensrio. Quando caminhava, desanimado, por Chapei Street, encontrou Denny. Haviamficado os dois em termos da mais cerimoniosa cortesiadurante 
as ltimas semanas e Andrew estranhou quandoo outro o fez parar na rua.
       Batendo o cachimbo no salto do sapato, Phillip parecia concentrar toda a sua ateno nesse cuidado.
       - Ando um pouco triste, porque o senhor se retira,Manson. O senhor h-de fazer falta aqui. - Hesitou. - Ouvi dizer hoje de tarde que a Sociedade de Auxlios 
Mdicosde Aberalaw anda  procura de novo assistente. Aberalaw fica a trinta milhas daqui, do outro lado do vale. Comparado com o nvel daqui,  uma sociedade muitodecente. 
Suponho que o mdico principal, Llewellyn, uma pessoa capaz. E como se trata de uma cidade do vale,eles nada tm a opor a um homem do vale. Porque noexperimenta?
       Andrew fitou-o, indeciso. As suas esperanas nos ltimos tempos tinham subido to alto e cado to desesperadamente que perdera toda a confiana na sua capacidadede 
xito.
       - Bem, pode ser - concordou arrastadamente. - Se assim, no h mal em fazer uma tentativa.
       Minutos depois j estava a caminho de casa, debaixode um aguaceiro, para propor-se ao lugar.
       Em 6 de Setembro realizou-se uma reunio da direcoda Sociedade de Auxlios Mdicos de Aberalaw, a fim deescolher o sucessor do Dr. Leslie, que se demitira 
recentemente para ocupar uma situao nas plantaes de borrachadas ilhas da Malsia. Havia sete candidatos e a todosmandaram um aviso para se apresentarem.
       Era uma linda tarde de Vero e o relgio do grandearmazm da Cooperativa marcava quase quatro horas.
       Passeando para cima e para baixo na calada dos escritrios da Sociedade, em Aberalaw Square, lanando olharesnervosos aos outros seis candidatos, Andrew 
esperavaimpacientemente a primeira badalada das quatro. Agora,que as suas ideias derrotistas no se confirmavam e queestava ali em igualdade de circunstncias 
com os outrospara a obteno do lugar, desejava de todo o corao sairvitorioso. Pelo que tinha podido observar da cidade, Aberalaw agradava-lhe. Situada na extremidade 
do vale deGethly, a cidade estava mais na montanha do que no vale.
       Num plano elevado, compacta, bem maior que Blaeneily tinha perto de vinte mil habitantes com boas ruas ecasas de comrcio, dois cinemas, dava ainda uma 
sensaode largueza pelos campos verdes que a cercavam. Comparada com um buraco sufocante como Blaeneily, Aberalawparecia a Andrew um paraso.
       Mas esse emprego no  para mim, resmungava aflito,a andar de um lado para outro. Nunca, nunca. No teriatanta sorte!Todos os outros candidatos tinham 
ar mais triunfantedo que ele, melhor apresentao, tom mais confiante.
       O Dr. Edwards, especialmente, irradiava segurana. Andrew surpreendeu-se a odiar Edwards, um homem maduro,robusto, prspero, que um momento antes confessara 
abertamente, numa conversa colectiva  porta do escritrio daSociedade, que passara a sua prpria clnica no vale afim de concorrer quele lugar. Diabo que o 
carregue, praguejava Andrew intimamente. Ele no iria desfazer-sede uma situao segura se no tivesse a certeza de conseguir esta aqui!.
       Acima e abaixo, de um lado para outro, cabea baixa,mos enterradas nos bolsos, Andrew atormentava-se. Sefracassasse, que pensaria dele Christine? Ela devia 
voltara Blaenelly naquele dia ou no seguinte. Na carta que lheescrevera no dera a certeza. A escola de Bank Streetreabria na segunda-feira e, embora ele nada 
lhe tivesseescrito a respeito do que ia tentar, o fracasso significariaencontr-la bem triste, ou pior ainda, com uma animaopostia. E isso exactamente quando 
ele queria, acima detudo no mundo, disp-la bem, conquistar o seu sorrisosereno, franco, inspirador.
       Quatro horas da tarde, finalmente. Quando se encaminhou para a entrada do edifcio, uma linda limousineentrou silenciosamente na praa e parou diante dos 
escritrios da Sociedade. Dela saiu um homem baixinho eesperto, a sorrir aos candidatos, animado, afvel, mas comcerto ar de indiferena superior. Antes de subir 
as escadasreconheceu Edwards e cumprimentou-o:
       - Como vai, Edwards? - Em voz baixa, s para ele: - Suponho que tudo correr bem.
       - Obrigado. Desde j muito obrigado, Dr. Llewellyn - sussurrou Edwards numa deferncia exagerada.
       Pronto, disse Andrew para si mesmo, com azedume.
       No andar de cima, no fim de um pequeno corredor, quedava para a sala da direco, estava a saleta de espera,mal mobilada, com cheiro a bafio. Andrew foi 
o terceiroa ser ouvido. Entrou na grande sala da direco com umadisposio nervosa, aborrecida. Se o lugar j estava previamente concedido no ia adular algum 
inutilmente.
       Ofereceram-lhe uma cadeira e ele sentou-se sem deixar transparecer na fisionomia o que lhe ia no Intimo. Enchiam a sala cerca de trinta mineiros, sentados, 
todos afumar. olhando-o com uma curiosidade rude, mas semhostilidade. Junto de uma mesinha, num canto, via-se umhomem plido e tranquilo, de cara inteligente 
e sensvelque, a julgar pela pele manchada, parecia j ter sidomineiro. Era Owen, o secretrio. Recostado a um cantoda mesa, o Dr. Llewellyn sorria acolhedoramente 
a Andrew.
       A inquirio comeou. com voz tranquila, Owen explicou as condies do cargo.
       -  como o senhor v, doutor. Pelo nosso sistema os operrios de Aberalaw pagam  Sociedade uma certa quantia, que  descontada nos seus salrios semanais. 
Existemaqui no distrito duas minas de antracite, uma fundioe uma hulheira. com o dinheiro de todos esses trabalhadores, a Sociedade custeia os servios mdicos 
necessriose mantm um bom hospitalzinho, dispensrios, forneceremdios, etc. A Sociedade contrata os mdicos: o Dr. Llewellyn, chefe da clnica e cirurgia, quatro 
assistentes e umdentista. Estes recebem um tanto por cabea, de acordocom o nmero de homens inscritos nas suas listas. Creioque o Dr. Leslie estava fazendo umas 
quinhentas libraspor ano quando nos deixou. - Fez uma pausa. - Ns todosachamos que o sistema  bom. - Houve um murmrio deaprovao vindo dos trinta membros 
da direco. Owenlevantou a cabea e encarou-os. - E agora, meus senhores,tm alguma pergunta a fazer?
       Comeou um dilvio de perguntas sobre Andrew, quetentou responder calmamente, sem exagero, com sinceridade.
       Marcou um tento de certa vez.
       - Fala o dialecto de Gales, doutor? - Quem perguntoufoi um mineiro, jovem e teimoso, chamado Chenkin.
       - No - disse Andrew. - O que conheo desde criana o dialecto da Alta Esccia. 
       - Que interesse tem isso aqui?
       - Sempre interessa.  muito til para praguejar contraos meus doentes - disse Andrew com frieza.
       E toda a gente se riu  custa de Chenkin.
       A penitncia acabou finalmente.
       - Agradeo-lhe muito, Dr. Manson - disse Owen.
       E Andrew voltou  saleta bolorenta, com ar de enjoado,e ps-se a observar os outros candidatos que iam entrando.
       Edwards, o ltimo chamado, demorou-se muito tempo.
       Voltou com um sorriso aberto, e o seu olhar s faltavadizer: Sinto muito, companheiros, mas o lugar j aquicanta no bolso.
       Seguiu-se uma interminvel espera. Finalmente abriu-sea porta da sala da direco e de uma nuvem de fumoemergiu o secretrio Owen, com um papel na mo. 
Os seusolhos, como se procurassem algum pousaram finalmenteem Andrew, com real simpatia.
       - Quer vir aqui por um momento, Dr. Manson? A direco gostaria de o ouvir outra vez.
       Com os lbios brancos, o corao a saltar no peito,Andrew seguiu o secretrio at  sala da direco. Nopodia acreditar, no, no podiam estar interessados 
nele.
       Voltando  cadeira da penitncia, s encontrou sorrisose cabeas que se inclinavam animadamente para o seulado. O Dr. Llewellyn, entretanto, no olhava 
para ele,Owen, o orador da reunio, comeou:
       - Dr. Manson, sejamos francos. A direco tem umacerta dvida. Na verdade, por conselho do Dr. Llewellyn,a direco estava muito inclinada a favor de outro 
candidatoque possui uma grande experincia de clnica novale Gethly.
       -  demasiadamente gordo esse tal Edwards - interrompeu um membro da direco, grisalho, l do fundo. - Eu queria ver esse gordalhufo trepar at s casas 
domorro Mardy.
       Andrew estava demasiadamente preocupado para sorrir.
       Sem respirar, estava suspenso das palavras de Owen.
       - Mas - prosseguiu o secretrio - devo dizer que ospresentes ficaram muito bem impressionados com o doutor. - A direco, como ainda h pouco se expressou 
poeticamente o Tom Kettles, quer homens novos e activos!
       Gargalhadas, gritos de Silncio! Silncio! e  bomeste velho Tom.
       - Alm disso, Dr. Manson - continuou Owen, - devo confessar-lhe que a direco ficou muito bem impressionadacom duas referncias, devo esclarecer duas refernciasno 
solicitadas pelo doutor, o que ainda as tornamais valiosas aos olhos da direco. S chegaram snossas mos hoje de manh, pelo correio. So de doismdicos da 
sua prpria cidade, isto , de Blaenelly. Uma do Dr. Denny, que tem o M. S.(*), um ttulo muito importante,como reconhece o prprio Dr. Llewellyn, entendido 
na matria. A outra, que veio com a do Dr. Denny, assinada pelo Dr. Page, de quem penso que o senhor agora assistente. Bem, Dr. Manson, a direco tem bastanteexperincia 
de recomendaes. E estas duas a seufavor esto redigidas em termos to sinceros que a direcoficou muito impressionada.
       
(*) M. S. - Master In Surgery. (N. do T.)
       
       Andrew mordeu os lbios e baixou os olhos, comovidocom a iniciativa generosa de Denny.
       - S h uma dificuldade, Dr. Manson. - Owen paroumeio embaraado, brincando com a rgua na mesa. - Embora a direco esteja unanimemente inclinada em seu 
favor, esse emprego com as suas responsabilidades...  maisou menos emprego para homem casado. O senhor compreende: alm de os homens preferirem que seja ummdico 
casado que atenda as suas famlias, existe aindauma casa, Vale View, alis uma boa casa, reservada parao mdico. Ela no seria... sim, no seria muito prpriapara 
um homem solteiro.
       Um silncio sepulcral. Andrew respirou profundamente.
       No seu pensamento fixou-se uma luz muito clara e brilhante, a imagem de Christine. Estavam todos, mesmo oDr. Llewellyn, com os olhos voltados para ele, aguardandoa 
resposta. Sem raciocinar, as palavras vieram-lhe aos lbios espontaneamente. Ouviu-se a si mesmo a declararcalmamente:
       - Para usar de franqueza, senhores, estou noivo de uma jovem em Blaenelly. Eu estava... estava mesmo  esperade uma colocao satisfatria... para isso... 
para me casar!
       Owen bateu com a rgua na mesa em sinal de satisfao.
       Todos aprovaram manifestando-se ruidosamentecom os sapates pesados. E o irreprimvel Kettles exclamou: :
       - Bravo, meu rapaz! Aberalaw  um lugarzinho idealpara lua-de-mel! Verifico ento que todos os senhores esto de acordo. - A voz de Owen sobressaiu no rumor 
geral. - O Dr. Manson foi nomeado por unanimidade.
       Houve um cordial murmrio de assentimento. Andrew sentiu uma sensao de triunfo.
       - Quando comea, Dr. Manson? A opinio da direco que seja o mais depressa possvel.
       - Poderei comear na prxima semana - respondeuManson. Mas logo arrefeceu ao pensar: E se Christineno me quiser? Perco-a e perco com ela este empregoestupendo?
       - Est combinado, ento. Obrigado, Dr. Manson. Estoucerto de que a direco lhe deseja... e tambm  futuraSr.a Manson,  claro... o maior sucesso no seu 
novo lugar.
       Aplausos. Todos agora o felicitavam. Os membros da direco, Llewellyn, e, com um cordial abrao, Owen. Aoretirar-se atravessou a saleta de espera procurando 
ocultaro seu contentamento, esforando-se por no notar a expresso ainda incrdula, mas de crista cada, de EdwardsMas era em vo, absolutamente em vo. Quando 
atravessava a praa, no caminho da estao, a alma exultavano frmito da vitria. O passo era firme e gil. Ao descera colina, viu  direita um pequeno jardim 
pblico, todoverde, com um repuxo e um coreto. E o nico esboo depaisagem que havia em Blaenelly eram montculos deescrias de minrio. Que bom tambm aquele 
cinema ali emfrente. E grandes lojas e as ruas bem calcetadas. Noeram aquelas pedras lascadas da sua cidade. E Owen tambm no tinha dito qualquer coisa sobre 
um hospital, umbom hospitalzinho? Ah! Pensando no que o hospital significaria para o seu trabalho, Andrew soltou um longo suspirode satisfao. Refastelou-se 
no banco de um compartimentovazio do comboio de Cardiff que o levou num delrio de entusiasmo.

14
       Embora a distncia atravs das montanhas no fossegrande, a viagem por caminho de ferro de Aberalaw aBlaenelly era cheia de voltas. O comboio que levava 
Andrew parava em todas as estaes; o de Penelly, que tomoudepois do transbordo em Cardiff, no andava depressa,no tinha mesmo pressa alguma. A disposio de 
Mansonera agora bem diferente. Afundado num banco, ardendode impacincia, doido por chegar, era atormentado pelosprprios pensamentos.
       Viu pela primeira vez como tinha sido egosta nos ltimos meses olhando s ao prprio interesse. Todas as suasdvidas sobre o casamento, todas as suas hesitaes 
emfalar a Christine tinham girado unicamente em torno dossentimentos dele, Manson. Baseavam-se na convico deque ela o aceitaria. Mas se estivesse a laborar 
num erro?
       Se ela no o amasse? Viu-se rejeitado, a escrever comdesalento uma carta  direco para explicar que, devidoa circunstncias posteriores, alheias  sua 
vontade, nopodia assumir o cargo. Christine estava agora bem ntidadiante dos seus olhos. Como ele lhe conhecia o ligeirosorriso interrogador, o modo de apoiar 
o queixo na mo,uma serena candura nos olhos castanhos. Uma saudadepungente dominou-o. Christine querida! Se tivesse de aperder, nada mais lhe importaria...
       s nove horas, como que arrastando-se, o comboio chegou finalmente a Blaenelly. De um salto Andrew j estavana plataforma e num abrir e fechar de olhos encontrou-sea 
subir Station Road. Embora s esperasse Christine namanh seguinte, sempre havia uma possibilidade de jali a encontrar. Chegou a Chapei Street. Dobrou a esquina.
       Uma luz no quarto dela encheu de esperana o seu corao.
       Procurando acalmar-se, explicava a si mesmo que naturalmente era a dona da casa que arrumava o quarto.
       Entrando apressadamente, precipitou-se na salinha de espera.
       Sim! Era Christine ajoelhada a um canto, no meio delivros, a arrum-los na prateleira mais baixa da estante,Terminando a arrumao, comeou a apanhar cordis 
epapis espalhados no soalho. A mala e o casaquinho estavam numa cadeira, com o chapu em cima. Percebeu quedevia ter chegado h pouco.
       - Christine!
       Ela virou-se, ainda ajoelhada, com uma mecha decabelo cado sobre a testa. Soltou um grito de surpresa eprazer e levantou-se.
       - Andrew! Que bom o senhor aparecer!
       Ao seu encontro, radiante, ela estendeu-lhe uma dasmos. Mas Andrew segurou-lhe logo as duas mos, prendendo-ascom firmeza. Olhou-a enternecido. Ainda gostava 
mais dela: com aquela saia e aquela blusa. Como que acentuavam a sua delicadeza, a doura da sua mocidade.
       O corao de Manson batia de novo.
       - Chris! Tenho uma coisa para lhe dizer.
       Os olhos dela fixaram-no com ar preocupado. J ansiosa examinou Andrew, muito plido e fatigado pela viagemPerguntou, aflita:
       - Que aconteceu? Uma nova questo com a Sr.a Page? Vai-se embora daqui?
       Andrew fez um sinal negativo com a cabea, prendendo ainda mais nas suas as delicadas mos de Christine. E ento, num rompante, desabafou:
       - Christine! Consegui um emprego, e que emprego!...  em Aberalaw. Entendi-me hoje com a direco. Quinhentaslibras por ano e casa para morar. Uma casa, 
Christine! Oh! Christine... Pode... quer casar comigo?
       Ela empalideceu, e na sua palidez os olhos brilhavam. Com a respirao suspensa, respondeu num murmrio:
       - E eu pensava... eu pensava que me vinha dar msnotcias.
       - No, no. - E impulsivamente: -  a mais maravilhosadas notcias, minha querida. Acabo de ver a cidade. Tudo aberto e claro, com campos verdes e lojas 
bonitase um jardim pblico e... Christine! At um hospital! Sequer casar comigo podemos comear a nossa vida l semmais demora.
       Os seus lbios tremeram. Mas os olhos sorriam, sorriampara ele com brilho estranho.
       -  por causa de Aberalaw ou por minha causa?
       -  por si, Chris. Oh! J sabe que gosto de si, mas... enfim... pode no me querer...
       Ela quis dizer qualquer coisa que no lhe saiu da garganta.
       Chegou-se tanto que a cabea ficou mergulhada nopeito de Andrew. E quando os braos dele a enlaaram,pronunciava frases soltas:
       - Oh! Querido, meu amor, gostei de si desde... - e sorrindoentre lgrimas felizes - desde que entrou naquelatriste sala de aula.

SEGUNDA PARTE 

01
       O decrpito camio de Gwilliam John chocalhava efumegava pela estrada da montanha. Na parte de trs umvelho oleado, que cobria as pranchas desmanteladas, 
achapa de matrcula enferrujada e a lanterna sempre apagada,pendia para fora, deixando marcas na poeira daestrada. Tudo balanava e rangia ao ritmo do velho motor.
       E na frente, no banco do condutor, apertados alegremente com Gwilliam John, iam o Dr. Manson e a esposa.
       Haviam casado de manh. Aquela era a carruagemnupcial. Sob o oleado estavam as poucas peas da mobliade Christine, uma mesa de cozinha comprada em segundamo 
por vinte xelins, algumas panelas e caarolas novase a bagagem do casal. Sem pretenses, decidiram que amelhor maneira, a mais barata, de transportar para Aberalaw 
a enorme quantidade das suas riquezas e as respectivas pessoas era a lata velha de Gwilliam John.
       O dia estava bonito, o cu muito azul e corria umaleve brisa. Riam e chalaceavam com Gwilliam John, queos obsequiava de vez em quando com a interpretao, 
sua maneira, do Largo de Haendel na buzina do camio.
       Pararam numa vendazinha isolada de Ruthin Pass, noalto da montanha, para que Gwilliam bebesse uma cerveja  sade deles. Gwilliam John, um sujeito vesgo 
emeio desmiolado, brindou-os vrias vezes e depois bebeuum gole de gin por sua prpria conta. Dali em diante, aviagem foi realmente diablica, numa descida vertiginosa,com 
duas curvas apertadssimas a ladear perigosos precipcios.
       Afinal, galgaram a ltima subida da estrada e ao descer entraram em Aberalaw. Foi um momento de xtase. A cidade estendia-se diante dos seus olhos, com as 
longas eondulantes linhas dos telhados subindo e descendo pelovale, com as lojas, igrejas e escritrios acastelados na partealta e, em baixo, as minas e os trabalhos 
de minerao,as chamins fumegando sem parar e tudo, tudo brilhandoao sol do meio-dia.
       - Olha, Chris! Olha! - murmurava Andrew, apertando-lhe o brao com fora. Estava possudo de todo o alvoroo do cicerone. -  um stio bonito, no ? Aquilo 
ali a praa. Ns viemos pela parte de trs da cidade. E olha! No h candeeiros de azeite, minha querida. Ali  a fbricade gs. Gostava de saber onde fica a 
nossa casa.
       Perguntaram a um mineiro que passava e logo seguiramna direco de Vale View, que ficava, como o homeminformou, naquela mesma rua,  entrada da cidade. 
Numinstante chegaram l.
       - Pronto! - disse Christine. - fi...  bonitinha.
       - Pois , querida. Parece... Sim, parece uma casa adorvel.
       - Deus do Cu! - manifestou-se Gwilliam John, atirandoo bon para a nuca. - Que casaro de aspectoestranho.
       Vale View era, na verdade, um edifcio extraordinrio. A primeira vista parecia uma coisa assim entre um chal suo e um pavilho de caa escocs, com uma 
profuso de platibandas. A construo era de estilo rstico, no centro de um jardim maltratado, invadido por ortigas e ervas daninhas. Cortava o terreno um fio de 
gua que ia esbarrando num tropel de latas velhas at que, no meio do seu curso, era atravessado por uma ponte rstica desmantelada. Embora ainda no tivessem conscincia 
disso, ValeView era para Andrew e Christine a primeira manifestaodos diversos poderes, da multiforme sabedoria da direco,que, no prspero ano de 1919, quando 
as contribuiesestavam em mar alta, anunciou generosamente que queria construir uma casa, mas uma casa de facto bonita quefizesse honra  direco, uma casa 
de estilo, um primorde arquitectura. Todos os membros da direco tinhamuma ideia prpria e especial sobre o que podia ser umprimor de arquitectura. Havia trinta 
membros. O resultado foi Vale View.
       Entretanto, fosse qual fosse a impresso do exterior, ocerto  que eles se sentiram logo confortados quando entraram.
       A casa era slida, bem assoalhada, forrada de novoa papel. Mas o nmero de divises era alarmante. Compreenderam imediatamente, embora no trocassem umapalavra 
sobre o assunto, que as poucas peas do mobiliriode Christine s poderiam guarnecer, quando muito, doisdesses amplos aposentos.
       - Deixa-me ver, querido - disse Chris, contando pelosdedos, quando voltaram ao hall, depois da primeira inspecoesbaforida da casa. - Aqui em baixo fao 
a salade jantar, a sala de visitas, a biblioteca, ou ento um escritrio, ou seja l como tu lhe queiras chamar... E ficamcinco quartos de dormir em cima.
       - Est bem - Andrew sorriu. - Agora no me admiroque eles quisessem um homem casado. - O sorriso transformou-se numa expresso compungida. - Sinceramente,Chris, 
sinto-me envergonhado com isso tudo. Eu, sem umtraste que me pertena, a usar os teus lindos mveis.  como se eu estivesse a explorar-te como um parasita,achando 
que tudo assim est muito bem e arrastando-tepara aqui de um momento para outro, sem quase te dartempo para encontrares algum que te substitusse naescola. Sou 
um animal muito egosta. Devia ter vindoaqui primeiro e arranjado as coisas decentemente paraquando chegasses.
       - Andrew Manson! Se ousasses deixar-me em segundo plano... 
       - De qualquer modo vou tratar de arranjar isto. - E franziu a testa, obstinado. - Agora ouve, Chris...
       Ela interrompeu-o com um sorriso.
       - Acho, querido, que devo ir fazer-te quanto antes uma omelette. Uma omelette de acordo com as Indicaes deMadame Poulard. Pelo menos, a noo de omelette 
queconsta do meu livro de receitas.
       Interrompido logo no comeo, Andrew ficou a olharpara Chris, boquiaberto. Ento a ruga da testa foi-se desvanecendo.
       Sorrindo de novo, acompanhou-a at  cozinha.
       No se conformava com ficar longe dela. Sob os seuspassos, a casa vazia ressoava como uma catedral.
       A omelette - Gwilliam John fora mandado buscar ovos - saiu da frigideira bem quentinha, saborosa, de um amarelodelicado. Comeram sentados  beira da mesa 
da cozinha.
       Andrew exclamou com entusiasmo:
       - Apre! Cozinhas bem! O calendrio que eles deixaramali no est mau. Enfeita bem a parede. E gosto do cromo,destas rosas. Ainda sobrou omelette? Quem  
Poulard? Parece nome de galinha. Obrigado, querida. Nem sabescomo estou ansioso por comear a trabalhar. Deve haverboas oportunidades. Grandes oportunidades! - 
Calou-se derepente, pousando os olhos numa caixa de madeira envernizadaque estava no canto, ao lado da bagagem. - Chris,que  aquilo?
       - Oh, aquilo - Ela procurou dar  voz um tom despreocupado. - Aquilo  o presente de casamento do Denny.
       - Denny! 
       A fisionomia de Andrew mudou. Phillipmostrara-se frio e ausente quando Manson o fora procurarpara lhe agradecer a sua generosa aco no caso do novoemprego 
e para lhe anunciar o seu matrimnio com Christine.
        Naquela manh nem mesmo assistira  partida docasal. Isso magoara Manson, fizera-o sentir que Denny era demasiadamente complicado, estranhamente incompreensvel 
para continuar seu amigo. Andrew aproximou-se vagarosamente da caixa, um tanto desconfiado. Imaginouque talvez houvesse l dentro uma botinha velha. Essadevia 
ser a ideia que Phillip tinha do humorismo. Abriua caixa. Que surpresa deliciosa! Continha o microscpiode Denny, um precioso Zeiss, e este bilhete: Eu de factono 
preciso disto. J lhe disse que sou um serrador deossos, um carniceiro. Felicidades.
       Andrew no encontrou palavras. Pensativo, quase reconquistado, terminou a omelette, sempre com os olhosfixos no microscpio. Depois tomou-o com reverncia 
e,acompanhado por Christine, carregou-o para a sala queficava atrs da casa de jantar. Colocou o microscpio solenemente no cho, no centro da sala vazia.
       - Isto aqui no  a biblioteca, Chris, nem a sala dealmoo, nem o escritrio, nem nada disso. Graas ao nossobom amigo Phillip Denny baptizo-o agora: o 
Laboratrio.
       Andrew beijava Christine, para dar mais efeito  cerimnia, quando o telefone tocou. O som insistente que vinha do hall vazio causou-lhes espanto. Olharam 
um parao outro, interrogando-se alvoroados.
       - Talvez seja um doente, Chris! Imagina s! O meuprimeiro caso em Aberalaw. - E precipitou-se para o hall.
       No era um doente. Era o Dr. Llewellyn, que de suacasa, no outro extremo da cidade, lhes dava as boas-vindas.
       A sua voz vinha pelo fio to clara e afvel que Chris, naspontas dos ps, com a cabea encostada ao ombro de Andrew, podia ouvir perfeitamente a conversa.
       - Ol, Manson! Como vai? No se preocupe por enquanto, desta vez ainda no  trabalho. Pretendo apenasser o primeiro a desejar-lhe as boas vindas, e  sua 
esposa,a Aberalaw.
       - Muito obrigado, muito obrigado, Dr. Llewellyn.  muito gentil da sua parte. Mas ainda que seja trabalho,estou pronto.
       - No, no! No pense nisso antes de estar bem instalado. - Llewellyn expandiu-se. - E olhe, se nada tem parafazer hoje  noite, venha jantar connosco, o 
doutor e asua senhora. Nada de cerimnias. s sete e meia. Teremosmuito prazer em v-los. Poderemos conversar. Est combinado?
       - At logo.
       Andrew pendurou o auscultador com uma expressofeliz.
       - Foi um gesto amvel, no achas, Chris? Convidar-nosdesta maneira!  o mdico-chefe, nota. Um homem demuitos ttulos, posso garantir. Tirei informaes 
dele. Praticou em hospitais de Londres,  do D. P. H.(1), tem oM. D.(2) e o P. R. C. S.(3). Calcula! Todos esses ttulosso de primeira ordem. E mostra-se to 
amvel. Creia-me,Sr.a Manson, vamos ter muito sucesso aqui.
       
(1) D. P. H. - Abreviatura por que  geralmente conhecido na Inglaterra o Departament of Public Healt, isto , o Departamento da SadePblica.  (N. do T.)
(2) M. D. - Abreviatura de Doctor of Medicine. O titulo de doutorem Medicina s  conquistado pelos mdicos ingleses depois da apresentaode teses julgadas pelas 
congregaes das universidades.  O mdico,ao sair da faculdade, tem apenas o titulo de Bachelor of Medicine, oubacharel em Medicina. (N. do T.)
(3) Os ttulos mdicos e cientficos na Inglaterra so conhecidos geralmente pelas iniciais. P. R. C. S. significa Fellow of the Royal College of Surgeons,  um 
dos mais importantes ttulos para cirurgio, escala superior ao de M. R. C. S., Isto , Member of the Royal Collegeof Surgeons.  (N. do T.)
       
       Enlaando-a pela cintura, Andrew comeou triunfantemente a valsar com Christine em torno da sala.
       Naquela noite, s sete horas, atravessaram as ruas movimentadas e cheias de vida, na direco da residnciado Dr. Llewellyn a Vila Glynmawr. Foi um passeio 
agradvel.
        Andrew passava revista, com entusiasmo,  gentecom quem ia viver.
       - Vs, Christine, aquele homem que l vem! Depressa! Aquele homem que est ali a tossir.
       - Sim, querido... Mas que tem ele?...
       - Oh! Nada, - disse - Ele com displicncia. Apenas,  bem provvel que seja um futuro cliente.

02
       No tiveram dificuldade em encontrar Glynmawr umaslida vivenda dentro de um terreno bem tratado poiso belo automvel de Llewellyn estava do lado de fora 
e noporto de ferro batido via-se a placa reluzente do mdico,com todos os seus ttulos gravados em pequeninas letrasbrancas. Subitamente nervosos com tanto aparato, 
tocaram a campainha e apresentaram-se,O Dr. Llewellyn veio da sala de espera para receb-losmais gentil do que nunca, de sobrecasaca e a camisa engomada com 
botes de punho de ouro. A expresso exprimiacordialidade.
       - Entrem, entrem! Esplndido! Encantado por conhec-la, Sr.a Manson. Espero que goste de Aberalaw. A cidadeno  m, posso garantir-lhe. Venha para aqui. 
Minhamulher vem num instante.
       A Sr.a Llewellyn veio a seguir, to acolhedora como omarido. Era uma mulher de cabelos arruivados, de cercade quarenta e cinco anos, um tanto descorada 
e sardenta.
       Depois de cumprimentar Manson, voltou-se para Christine com expanses afectuosas.
       - Oh! Minha senhora, que pedacinho adorvel que ! Declaro-lhe que j me conquistou o corao. Tenho vontade de a beijar. No se incomoda, querida?
       Sem mais delongas abraou Christine e ps-se a examin-la com encantamento. Um gongo soou no fundo docorredor e foram jantar.
       Foi um jantar excelente - sopa de tomate, dois assadoscom recheio, salsichas e pudim. O doutor e a Sr.a Llewellyndesfaziam-se em atenes com os convidados.
       - O senhor no tardar muito a integrar-se no ambiente - daqui dizia Llewellyn. - Sim, sem dvida. Eu oajudarei em tudo que puder. A propsito, fiquei satisfeitoporque 
esse tal Edwards no conseguiu o lugar. Eu nopodia de forma alguma apoiar a sua pretenso, emborativesse prometido dizer qualquer coisa em seu favor. Queestava 
eu a dizer? Ah, sim! Bem, ficar na clnica Oeste...  l para os seus lados... com o velho Dr. Urquhart, umcamarado, e Gudge, o farmacutico. No lado de c, naclnica 
Leste, temos o Dr. Mendley e o Dr. Oxborrow. Sotodos bons companheiros. H-de gostar deles. No joga ogolf? Podemos ir algumas vezes a Fernley Course. Ficaapenas 
a nove milhas daqui. Naturalmente, tenho sempremuito que fazer. Sim,  claro. No me ocupo pessoalmentedas clnicas. Cuido do hospital. Trato dos casos de acidentes 
de trabalho para a Companhia. Sou o mdico oficialda cidade, tenho o meu cargo na fbrica de gs. Sou ocirurgio da Santa Casa e tambm chefe do servio de vacinaes. 
Fao todas as peritagens em casos judicirios. Ah! e sou o mdico legista tambm. Alm disso - os seusolhos brilharam sem malcia - tambm atendo, nas horasvagas, 
uma clnica particular bem boazinha.
       -  muita coisa - disse Manson.
       Llewellyn iluminou-se.
       - Devemos combinar os nossos esforos, Dr. Manson. Aquele carrinho que viu l fora custa a bagatela de mile duzentas libras. E quanto ao... bem, isso no 
vem parao caso. No vejo motivo para que o senhor no tire umaboa renda aqui. Vamos dizer... Umas trezentas ou quatrocentaslibras, por sua conta, se trabalhar 
com vontade esouber aproveitar. - Fez uma pausa. E numa sinceridadeirritada: - H uma coisa que acho do meu dever explicar-lhe. Os mdicos assistentes combinaram 
pagar-me um quinto dos seus honorrios. - E continuou animada, inocentemente: - Isso  porque eu tomo conta dos casos mais bicudos. Quando se vem atrapalhados, 
recorrem a mim. E posso garantir-lhe que isso tem sido bom para eles.
       Andrew levantou os olhos, um pouco surpreendido.
       - Isso no consta da organizao dos Auxlios Mdicos. 
       - Bem, de modo formal no entra - disse Llewelly,franzindo a testa. - Foi tudo arranjado pelos prprios mdicosj h muito tempo.
       - Mas...
       - Dr. Manson! - a Sr.a Llewellyn chamou-o suavementeda outra ponta da mesa. - Estou a dizer  sua queridamulherzinha que nos devemos encontrar com frequncia. 
Ela deve vir tomar ch comigo uma tarde destas. O doutorpode ceder-ma algumas vezes, no  verdade? Qualquerdia iremos a Cardiff de automvel. Vai ser agradvel, 
novai, minha querida?
       - Sem dvida - prosseguiu Llewellyn untuosamente -quem estava no lugar onde o senhor vai mostrar quantovale era um pobre diabo... Leslie, seu antecessor, 
era ummdico lastimvel, quase to ruim como o velho Edwards. Nem ao menos sabia aplicar bem um anestsico. Espero,doutor, que seja um bom anestesista. Quando 
tenho emmos um caso importante, compreende, preciso de contarcom um bom anestesista. Mas, valha-me Deus! No vamosfalar nisso por enquanto. O senhor mal chegou 
ainda eno  justo que eu o incomode.
       - Idris! - gritou a Sr.a Llewellyn para o marido, comar de quem d uma notcia sensacional. - Eles s se casaramhoje de manh! A Sr.a Manson acabou de me 
explicar. Ela  uma noivinha! Calcula! Os inocentinhos!
       - Muito bem! Muito bem! - expandiu-se Llewellyn.
       A Sr.a Llewellyn bateu na mo de Christine: 
       - Minhapobre pequena! Que trabalheira vai ter at se instalarnaquele lastimvel Vale View! Preciso de ir l, um dia destes, para lhe dar uma ajudazinha.
       Manson corou ligeiramente, procurando coordenar asideias. Parecia-lhe que ele e Christine se tinham tornadonuma bola de brinquedo que os Llewellyn atiravam 
umpara o outro, com destreza e facilidade. Contudo, julgoupropcia a ltima observao. 
       - Dr. Llewellyn - decidiu-se a dizer, meio nervoso - asua senhora tem razo. Estive a pensar... No gosto depedir isso, mas eu gostaria de passar dois dias 
fora, paralevar minha mulher a Londres, a fim de ver essa histriada moblia e mais uma ou outra coisa.
       Viu Christine arregalar os olhos, surpreendida. Mas Llewellyn estava j concordando generosamente com acabea.
       - Porque no? Porque no? Depois de comear o trabalho no lhe ser to fcil afastar-se daqui... Aproveiteamanh e depois, Dr. Manson. Est a ver?  nessas 
coisasque eu lhe posso ser til. Alis, eu sou sempre til paraos assistentes. Eu falarei  direco sobre o seu pedido.
       Andrew no teria dvidas em falar pessoalmente direco, ou mesmo a Owen. Mas deixou passar.
       Beberam o caf na sala de visitas, como acentuou aSr.a Llewellyn, em xcaras pintadas  mo. Llewellynofereceu cigarros da sua cigarreira de ouro.
       - Olhe para isto, doutor!  um presente, repare. Umcliente agradecido. Pesada, no ? Vale no mnimo umasvinte libras.
       Por volta das dez horas, o Dr. Llewellyn olhou para oseu magnfico relgio. Na verdade, sorriu para o relgio,pois ele tinha o mrito de contemplar at 
mesmo objectos inanimados, especialmente quando lhe pertenciam, comaquela cordialidade meiga que era to sua. Por um momentoManson pensou que ele iria entrar 
em confidnciassobre o relgio. Mas Llewellyn disse apenas:
       - Tenho de ir ao hospital. Uma operao gastroduodenal que fiz esta manh. Que lhe parece ir comigo deautomvel para ver o caso?
       Andrew levantou-se animado.
       - Pois no. Com o maior prazer, Dr. Llewellyn.
       Como Christine foi tambm includa no convite, desejaram as boas noites  Sr.a Llewellyn, que da porta darua acenava ternas despedidas, e instalaram-se 
no carro,que seguiu com silenciosa elegncia pela rua principal,virando depois  esquerda.
       - Faris poderosos, no  verdade? - comentou Llewellyn. Foi acendendo-os para causar impresso. - Luxite! Especiais! So extra. Mandei p-los de encomenda.
       - Luxite! - disse Christine subitamente, numa voz melflua. - So com certeza muito caros, no so, doutor?
       - So de facto! - confirmou Llewellyn, enfaticamente,grato pela pergunta. - Custaram-me trinta libras.
       Metido em si mesmo, Andrew no ousava trocar olharescom Christine.
       - C estamos - disse Llewellyn, minutos mais tarde. - Isto aqui  o meu lar espiritual.
       O hospital era um edifcio de tijolos vermelhos, bem construdo, ao qual levava um caminho de saibro, ladeadode loureiros. Desde a entrada, comearam a brilhar 
osolhos de Andrew. Embora pequeno, o hospital era moderno,com ptima aparelhagem. Quando Llewellyn lhes foi mostrando o anfiteatro, a sala de raios X, a dos curativos,as 
duas enfermarias confortveis e arejadas, Andrew ps-sea pensar entusiasticamente que tudo era perfeito... e todiferente de Blaenelly! Como seria bom tratar ali 
os seusdoentes!
       No decorrer da visita, encontraram a enfermeira-chefe,uma mulher alta e ossuda, que ignorou Christine, cumprimentou Andrew sem entusiasmo e logo se ps 
em adoraodiante de Llewellyn.
       - Conseguimos tudo com a maior facilidade, no  verdade, enfermeira? - disse Llewellyn. -  s pedir  direco. Sim, com efeito,  boa gente. Todos so 
decentes sem excepo. Como vai a minha gastroenterostomia, enfermeira?
       - Vai muito bem, Dr. Llewellyn - murmurou a chefedas enfermeiras.
       - Bem! Verei isso daqui a pouco.
       E acompanhou Christine e Andrew, de volta ao vestbulo.
       - Confesso, Manson. Tenho certo orgulho neste hospital.  como se fosse meu. E ningum me pode censurarPor isso. o senhor saber o caminho para sua casa? 
E, oua, quando estiver de volta, na quarta-feira, telefone-me. Eu posso precisar de si para uma anestesia.
       Abandonando o hospital a caminho de casa, os doisficaram em silncio por um momento e Christine pendurou-se no brao de Andrew.
       - E ento? - indagou ela.
       Andrew percebeu o seu sorriso no escuro.
       - Gostei dele - disse apressadamente. - Gostei dele. Reparaste tambm na enfermeira? Como se fosse beijar afmbria do seu manto... Mas, que hospitalzinho! 
Que maravilha! E tambm que rico jantar nos deram! No somiserveis... S o que no percebo  porque lhe hei-depagar um quinto dos meus honorrios! Isso no me 
parecejusto, nem mesmo decente! E, seja como for, tenho a impressode ser amimado e festejado com a condio deproceder como um bom menino.
       - Foste realmente um menino encantador por terespedido esses dois dias. Mas, com franqueza, meu querido,como  que vamos fazer? No temos dinheiro para 
gastarem mveis. Como vai ser?
       - Espera e vers - respondeu ele enigmaticamente.
       As luzes da cidade j lhes ficavam para trs e um misterioso silncio caiu sobre eles quando se aproximaram deVale View. O contacto da mo dela no brao 
de Andrewera uma delcia. Envolveu-o uma grande onda de amor.
       Pensou nela, casando-se to precipitadamente num vilarejomineiro, conduzida num camio desconjuntado atravs das montanhas, atirada para uma casa meio vazia, 
ondea caminha dela de solteira tinha de ser o leito nupcial,e suportando todas essas provaes e embaraos com corageme risonha ternura. Ela amava-o, tinha f 
e confiananele. Uma grande resoluo o dominou. Havia de a recompensar de tudo isso, havia de lhe mostrar, pelo trabalho,que a confiana era merecida.
       Atravessou a ponte de madeira. O murmrio do ribeiro,com as suas margens mal tratadas ocultas na suaveescurido da noite, era doce aos seus ouvidos. Mansontirou 
a chave do bolso e enfiou-a na fechadura.
       O hall estava na penumbra. Quando fechou a porta,Andrew voltou-se para onde ela estava  sua espera. A fisionomia de Christine parecia iluminada. A sua 
ligeira figuraera expectante, mas indefesa.
       Andrew ps os braos em torno dela, gentilmente, murmurou num tom estranho:
       - Como te chamas, querida?
       - Christine - respondeu ela, espantada.
       - Christine de qu?
       - Christine Manson.
       A respirao dela era opressa, mais, cada vez mais. E os lbios de Andrew sentiam-na quente.
       
       

03
       Na tarde seguinte o comboio em que viajavam entrouna estao de Paddington. Conscientemente, por reconhecerem a prpria inexperincia em face da grande 
cidade,onde nenhum deles tinha estado antes, Andrew e Christine desceram  plataforma.
       - J viste o homem? - perguntou Andrew, ansioso.
       - Talvez esteja do outro lado da grade - lembrou Christine.
       Estavam  procura do homem do catlogo.
       Durante a viagem Andrew tinha explicado minuciosamente a beleza, a simplicidade e o extraordinrio alcancedo seu plano. Compreendendo as necessidades do 
casal,antes mesmo de deixar Blaenelly entrara em contactocom a Regency Plenishing Company and Depositaries, deLondres. A Regency no era dessas lojas gigantescas 
ondese vende de tudo. Era uma casa decente, dirigida peloPrprio proprietrio, que se especializara em vendas a prestaes. Tinha no bolso uma carta recente do 
dono. Porque, na verdade...
       - Ah! - exclamou ela com satisfao. - L est ohomem.
       Um homenzinho insignificante, de fato azul muito lustroso e chapu de feltro, com um grande catlogo verdeque lembrava um livro de prmio escolar, parecia 
identific-los na multido dos viajantes por algum mistriodom de telepatia. Adiantou-se para eles.
       - O senhor  o Dr. Manson? E a Sr.a Manson? -tirando respeitosamente o chapu: - Eu represento a Regency. Recebemos o seu telegrama hoje de manh. O carroest 
 nossa espera. Posso oferecer-lhe um charuto?
       Quando rodaram atravs das ruas estranhas, congestionadas pelo trnsito intenso, Andrew deixava transparecer certa inquietao. Olhava desconfiado o charuto 
deboas-vindas, ainda por acender na sua mo. Resmungou:
       Temos rodado bastante de automvel nos ltimos dias. Mas desta vez as coisas devem correr bem. Eles garantemtudo, inclusive transporte grtis da estao 
para a lojae da loja para a estao, assim como tambm as despesasdo caminho de ferro.
       Contudo, apesar dessa garantia, foi com ansiedade visvel que atravessaram as ruas estuantes de intensidade,muitas delas acanhadas e feias.
       Chegaram afinal. Era uma casa mais vistosa do que esperavam. Tinha boas montras e letreiros luminosos nafachada. Apareceu logo quem lhes abrisse a porta 
do carroe os acompanhasse, com reverncias, para dentro da Regency.
       Ali tambm havia algum  sua espera. Foram saudados cerimoniosamente por um empregado idoso, de sobrecasacae colarinho engomado, que, pelo impressionante 
ar de distino, lembrava de certo modo o finado prncipe Alberto.
       - Por aqui, senhor. Por aqui, minha senhora. Encantado por servir um mdico to distinto. Ficar espantadocom o nmero de mdicos prestigiosos que nos honracom 
a sua preferncia. E os atestados que temos? Agora,doutor, que deseja adquirir?
       Comeou a mostrar moblias ao casal, andando acima e abaixo com passos majestosos pelas galerias da loja. Mencionava preos assustadores. Citava estilos 
nobres. Mas oque mostrava eram monos sob camadas de verniz.
       Christine mordeu os lbios e o seu olhar tornou-se oespelho da sua preocupao. Desejava de todo o seu ntimoque Andrew no se deixasse enganar, que no 
atravancassea sua casa com aquelas coisas horrorosas.
       - Meu querido - cochichou ela rapidamente quando o prncipe Alberto voltou costas. - Isso no presta. Paranada presta.
       Ele apertou os lbios levemente como nica resposta.
       Examinaram mais algumas peas. Depois, calmamente,mas com uma rudeza de espantar, Andrew dirigiu-se aovendedor:
       - Oua. Viemos de muito longe para comprar moblia. Eu disse moblia! No esses cacarecos.
       Calcou fortemente com o polegar na porta de umguarda-fato. Era de madeira to ordinria que a portafoi dentro com um vergonhoso estalido.
       O empregado quase desmaiou. A sua expresso dava aentender que no acreditava no que via. 
       - Mas, doutor - mastigou ele - mostrei-lhes, ao senhore a sua esposa, o que temos de melhor na casa!
       - Pois ento mostre-nos o pior - disse Andrew, irritado. - Mostre-me moblia velha, em segunda mo. Contantoque seja moblia de verdade.
       Um momento de silncio e o outro murmurou quasesem flego:
       - O patro vai ficar fulo comigo se eu no lhe vendercoisa alguma.
       Afastou-se desconsolado e no voltou. Alguns minutosdepois veio precipitadamente ao encontro deles um homenzinhobaixo, vulgar, de cara avermelhada, que 
quase gritou :
       - Que deseja o senhor?
       - Moblia boa... em segunda mo... barata!
       O homem dirigiu a Andrew um olhar irritado. Sem pronunciar mais palavra deu meia volta e levou-o ao elevador do fundo da loja, no qual desceram a um subterrneo 
grande e hmido, abarrotado at ao tecto de mveisusados.
       Durante uma hora, Christine andou catando pelos cantos, entre a poeira e as teias de aranha, a descobrir aquium armrio resistente, ali uma boa mesa, uma 
pequenapoltrona estofada debaixo de uma pilha de sacos, enquantoAndrew, atrs dela, discutia obstinadamente os preos como vendedor.
       Afinal, a lista ficou completa e quando subiam no elevador, Christine, o rosto empoeirado mas feliz, apertou-amo de Andrew com uma sensao de triunfo.
       - Era exactamente do que ns precisvamos - cochichouela.
       O homem da cara avermelhada levou-os ao escritrio.
       Ali, inclinando-se sobre o livro de encomendas, na secretria do patro, disse com ar de quem envidara os seusmelhores esforos mas que nada mais pudera 
fazer.
       - Aqui est a lista, Sr. Isaac.
       O Sr. Isaac acariciou o nariz. Os olhinhos vivos, destacando-seda pele descorada, tomaram um tom de tristezaquando examinou a lista das compras.
       - No lhe posso fornecer isto tudo com pagamento aprazo, Dr. Manson. Veja, so tudo mveis em segundamo e encolhendo os ombros, num ar de desculpa. - Nopodemos 
fazer negcio desta maneira.
       Christine empalideceu. Mas Andrew, com persistncia sombria, deixou-se cair numa cadeira, como pessoa dispostaa no sair dali.
       - Pode, sim, meu caro senhor. O senhor pode fazernegcio. Pelo menos  o que diz na sua carta. Est bemclaro no cabealho do papel da casa, o preto no branco: 
Mveis novos e usados com facilidades de pagamento.
       Depois de uma pausa, curvando-se para o Sr. Isaac, ohomem de cara avermelhada, sempre a gesticular, cochichou algumas palavras ao seu ouvido. Christine 
apanhouno ar expresses pouco amveis que definiam a durezade fibra do marido, a fora da sua tenacidade racial.
       - Bem, Dr. Manson - sorriu com esforo o Sr. Isaac. - faremos como o senhor quer. No diga depois que a Regency no o atendeu com boa vontade. E no se esqueade 
contar aos seus clientes. Diga-lhes como foi bem tratado aqui. Smith! Tire uma nota de compras em papelqumico e mande amanh de manh uma cpia pelo correioao 
Dr. Manson!
       - Obrigado, Sr. Isaac.
       Com ar de quem encerra a entrevista, disse o vendedor:
       - Est assente ento, tudo combinado. Os mveis ser-lhe-o entregues na sexta-feira.
       Christine fez meno de retirar-se. Andrew, porm, continuou ainda recostado na cadeira e pronunciou vagarosamente :
       - E agora, Sr. Isaac, as passagens do caminho de ferro?
       Foi como se uma bomba explodisse dentro do escritrio.
       Na cara avermelhada de Smith as veias davam a impresso de que iam estourar.
       - Valha-me Deus, Dr. Manson! - exclamou Isaac -Que quer o senhor mais? Assim no podemos fazer negcio. O que  justo  justo, mas eu tambm no sou camelo! 
Despesas de viagem!
       Inexoravelmente, Andrew tirou do bolso um papel. Embora um pouco alterada, a sua voz no saiu dos limitesda correco.
       - Tenho aqui uma carta, Sr. Isaac, em que se comprometea pagar as passagens para qualquer ponto da Inglaterra ou do Pas de Gales desde que as encomendas 
importemem mais de cinquenta libras.
       - Mas eu explico! - explodiu Isaac. - O senhor s comprou cinquenta e cinco libras de mveis. E tudo emsegunda mo...
       - Na sua carta, Sr. Isaac...
       - No Importa o que diz a carta. - Isaac levantou asmos em desespero. - Nada adianta. No se faz negcio. Em toda a minha vida nunca encontrei um fregus 
comoo senhor. Estamos acostumados a casais jovens e agradveis com quem se pode tratar. Primeiro o senhor insultao Clapp. Depois o Smith no consegue entender-se 
consigoe por fim vem aqui esgotar-me a pacincia com histriasde despesas de viagem. Ns no podemos fazer negcio,Sr. Manson. V a outra casa e veja se  mais 
bem sucedido.
       Tomada de pnico, Christine fitou Andrew, dirigindo-lhe um olhar de desesperado apelo. Sentiu que tudo ia porgua abaixo. Aquele terrvel marido estava 
a perder todasas vantagens que conquistara com tanto esforo. MasAndrew nem parecia v-la e foi dobrando cuidadosamentea carta e metendo-a no bolso.
       - Ento est bem, Sr. Isaac. Vamos despedir-nos. Masdevo avis-lo de que isso tudo no deve ser convenientepara o senhor quando o souberem os meus clientes 
e amigos. Eu tenho uma grande clientela. E cada vez aumentamais. Como o senhor nos fez vir a Londres prometendopagar as nossas despesas de viagem...
       - Basta! Basta! - choramingou Isaac num verdadeirofrenesi. - Quanto custaram essas passagens? Pode pag-las, Sr. Smith. Pague, pague tudo. Ao menos no 
h-dedizer que a Regency no cumpre o que promete. Pronto.Est satisfeito?
       - Obrigado, Sr. Isaac. Estamos muito satisfeitos. Esperamos a entrega na sexta-feira. Boas noites, Sr. Isaac.
       Com ar solene, Manson apertou-lhe a mo e, dando obrao a Christine, encaminhou-se apressadamente para aporta. L fora estava  espera deles a velha limousine 
queos trouxera da estao.  Como se tivesse feito a maiorencomenda alguma vez registada na histria da Regency,Andrew ordenou:
       - Chauffeur, leve-nos ao Museum Hotel.
       Partiram logo, deixando East End na direco de Bloomsbury. Pendurada nervosamente no brao de Andrew, Christine foi-se acalmando aos poucos.
       - Oh, meu querido! - sussurrou ela. - Manobraste maravilhosamente. Quando eu pensava...
       Ele meneou a cabea, ainda com expresso teimosa. 
       - Essa gente no quer sarilhos. Eu tinha uma promessada casa. Uma promessa escrita. - Voltou-se para ela comos olhos ardentes. - O que estava em causa no 
eram essaspassagens, querida. Convence-te disso. Era uma questo deprincpio. Palavra empenhada tem de ser mantida. E euestava tambm de p atrs pela maneira 
como nos receberam. Via-se a uma lgua de distncia.  um parzinho deotrios, sem dinheiro para gastar, pensavam eles. Essecharuto que me impingiram, tudo cheirava 
a vigarice.
       - Em todo o caso conseguimos o que queramos - murmurou ela diplomaticamente.
       Andrew concordou com a cabea. Estava ainda muito enervado e indignado para ver humorismo nalguma coisa.
       Mas no quarto do hotel o lado cmico tornou-se bem visvel.
       Quando acendeu um cigarro e se estendeu na cama, observando Christine, que se penteava, Andrew comeou arir de repente. Riu tanto que ela tambm se ps s 
gargalhadas.
       - Aquela cara do velho Isaac - disse ele, com a respirao entrecortada e o peito doendo-lhe de tanto rir - erarealmente de uma graa estupenda.
       - E ento quando tu - ela quase no podia respirar- quando tu falaste na histria das passagens...
       - Assim no podemos fazer negcio, disse ele. - Teveuma nova crise de riso. - Eu tambm no sou camelo!. Era o que ele dizia. Oh, senhor! Um camelo...
       -  verdade, querido. - De pente na mo, as lgrimas escorrendo, voltou-se para o marido, quase sem poder articular as palavras. - Mas para mim a coisa mais 
engraadafoi a maneira como tu disseste: o senhor ps isto aqui,preto no branco. E eu sabia, querido! Eu sabia que tetinhas esquecido da carta l em casa, na 
cimalha dofogo.
       Ele levantou-se, encarou a mulher e depois caiu de novona cama s gargalhadas. Rolou tapando a cara com o travesseiro, desarmado, exausto. Ela, agarrada 
ao toucadorsacudida pelo riso, implorava-lhe doidamente que parassecom aquilo. No suportava mais...
       Mais tarde, quando conseguiram serenar, foram ao teatro. Uma vez que Andrew lhe dera o direito de escolher,Christine preferira Saint Joan. Confessou-lhe 
que um dosdesejos mais ardentes da sua vida era ver uma pea deShaw.
       Sentado ao lado dela na platia repleta, Andrew estavamais interessado na expresso extasiada do rosto de Christine do que na pea, histrica demasiadamente, 
- dissedepois. - E esse tal Shaw, quem pensa que , afinal de contas?
       Era a primeira vez que iam juntos ao teatro. Bem,no havia de ser a ltima. Os seus olhos passearam emtorno da sala cheia. Eles voltariam ali algum dia, 
no paraas cadeiras, mas para um dos camarotes. Haviam de ver!
       Christine usaria um vestido de noite, decotado. Muitagente olharia para ele. Uns diriam aos outros: Aquele o Dr. Manson. Deve conhecer, naturalmente! 
 o mdicoque fez aquele trabalho maravilhoso sobre os pulmes.
       Voltou a si de repente, um pouco acanhado. No intervalo ofereceu um gelado a Christine.
       Depois, Andrew tomou ares de uma indiferena soberana.
       Saindo do teatro, viram-se completamente perdidos, estonteados pelos letreiros luminosos, pelos autocarros epela multido. Andrew fez com o brao um gesto 
enrgico.
       Escondidos discretamente no fundo do automvel que osconduzia ao hotel, consideravam-se os primeiros e abenoados descobridores do abrigo amoroso que oferece 
umtxi londrino.

04
       Para quem vinha de Londres o ar de Aberalaw eracortante e frio. Saindo a p de Vale View, na manh dequinta-feira, para comear a sua actividade, Andrew 
sentiafustigar-lhe o rosto um ventozinho estimulante. Acompanhava-o uma alegria buliosa. Todo o seu trabalho sedesenhava diante dos olhos trabalho perfeito, 
escrupuloso, sempre orientado pelo princpio que adoptara: o mtodo cientfico.
       A clnica Oeste, situada perto da sua casa. era umedifcio alto. abobadado, coberto de telha branca, comcerto ar de higiene. A parte central, e a mais importante,era 
ocupada pela sala de espera. Ao fundo, separada dasala de espera por uma porta de correr, ficava a farmcia.
       Em cima havia dois consultrios: um tinha o nome doDr. Urquhart e no outro via-se numa placa nova um nome misteriosamente sugestivo: Dr. Manson.
       Foi para Andrew uma aguda sensao de prazer ver-seassim j identificado, com um gabinete prprio. No eragrande, mas tinha uma boa secretria e uma excelentemarquesa. 
Tambm se sentiu lisonjeado pelo nmero depessoas que estavam  sua espera. Na verdade, era tal amultido que achou melhor comear logo as consultas,antes mesmo 
de apresentar-se, como pretendia, ao Dr. Urquhart e a Gudge, o encarregado da farmcia.
       Sentou-se e fez sinal para que entrasse o primeirocliente. Era um homem que queria apenas um atestado,acrescentando, como esclarecimento, que tinha o joelhoferido. 
Andrew examinou-o, viu que havia de facto umacontuso no joelho e atestou que o cliente estava impossibilitado de trabalhar.
       Entrou o segundo. Pediu tambm um atestado por estarcom nistagmos. Terceiro caso: atestado, por bronquite.
       Quarto: atestado, contuso no cotovelo.
       Andrew levantou-se, ansioso por ter uma noo do servio. Esses exames para atestados tomavam muito tempo.
       Foi at  porta e perguntou:
       - Quem mais precisa de atestado? Os que precisaremfaam o favor de levantar-se.
       Havia talvez quarenta homens  espera. Todos se levantaram.
       Andrew pensou rapidamente. Teria de gastar o diaquase todo para examin-los com ateno. No era possvel! 
       Com relutncia, decidiu adiar para a outra vez umexame rigoroso dos casos.
       Mesmo assim, s s dez e meia  que se livrou do ltimocliente. Ento, quando levantou os olhos, viu entrar no consultrio, pisando rijo, um homem de estatura 
mediana, velhote, tez avermelhada, barbicha grisalha e agressiva.
       Curvou-se um pouco, atirando a cabea para a frente comar belicoso. Usava calas de pano grosso e casaco de flanela, com os bolsos cheios com o leno, o 
cachimbo, umama e uma sonda de borracha. Desprendia-se dele umcheiro de remdio, cido fnico e tabaco forte. Antesmesmo que o outro pronunciasse qualquer palavra, 
Mansoncompreendeu que era o Dr. Urquhart.
       - C os diabos, homem! - exclamou Urquhart, sem lheapertar a mo e mesmo sem se apresentar. - Onde se meteu nestes ltimos dois dias? Tive de aguentar sozinhotodo 
o trabalho. No faz mal, no faz mal! No vamosfalar mais nisso. Afinal de contas, o colega j est aqui eparece, graas a Deus, que  so de corpo e esprito. 
Fumacachimbo?
       - Fumo.
       - Graas a Deus por isso tambm! Sabe tocar violino?
       - No.
       - Nem eu to-pouco. Mas sei faz-los bem bonitos. Tambm colecciono porcelanas inglesas. O meu nome j foicitado num livro. Eu lhe mostrarei tudo quando 
for a minha casa. Fica aqui mesmo ao lado da clnica, como jdeve ter observado. E agora venha comigo para conhecerGudge.  um pobre diabo. Mas sabe lidar com 
as drogas. 
       Andrew acompanhou Urquhart atravessando o salo deespera, at a farmcia, onde Gudge o cumprimentou comum gesto sombrio de cabea. Era um homem comprido,magro, 
cadavrico. Na cabea apenas alguns fios de cabelobem preto e um bigode comprido da mesma cor. Vestiaum casaco de alpaca, esverdeado pela velhice e pelas manchas 
de remdio, deixando ver os pulsos descarnados e asomoplatas de quem estava s portas da morte. O ar eramelanclico, sardnico, fatigado. Gudge tinha o aspecto 
dohomem mais desiludido de todo o universo.
       Quando Andrew entrou estava ele a atender o seu ltimo fregus. Passava uma caixa de plulas pelo guichcomo se fosse veneno para ratos.
       Parecia dizer: Leve ou deixe ficar, pouco importa. De qualquer maneira tem de morrer.
       - Bem! - disse Urquhart animadamente quando fez as apresentaes. - Agora, que j viu Gudge, j conhece oque h de pior. Devo preveni-lo de que ele s acredita 
emleo de rcino e Charles Bradlough. Quer saber mais alguma coisa dele?
       - Estou preocupado com o nmero de atestados que tivede passar. Alguns dos sujeitos que me procuraram pareciam perfeitamente aptos para o trabalho.
       - Ah! O Leslie permitia esses abusos. A noo que tinha de exame mdico era tomar o pulso durante cincosegundos contados no relgio. No se incomodava commais 
coisa alguma.
       Andrew respondeu precipitadamente:
       - Que se pensar de um mdico que d atestados comoquem d cigarros?
       Urquhart fitou-o com ar sisudo e disse, quase com rudeza:
       - Veja l como vai agir. Essa gente  bem capaz deprotestar se se opuser aos seus desejos.
       Pela primeira e ltima vez naquela manh, Gudge resmungou uma interjeio sombria:
       - Isso  porque metade desses senhores  s como pros.
       Durante todo o dia, enquanto ia fazendo as suas visitas, Andrew no deixou de pensar nos atestados. A sua ronda de mdico no era fcil. No conhecia a vizinhana, 
noestava habituado s ruas, e mais de uma vez teve de voltar a lugares por onde j havia passado. Alm disso, a suazona, ou pelo menos grande parte dela, ficava 
na encostadaquele morro Mardy ao qual Tom Kettles se referira.
       E isso queria dizer um nunca acabar de subir e descer ladeiras.
       Antes do trabalho nocturno, as meditaes de Manson obrigaram-no a uma resoluo desagradvel. No podiade forma alguma passar um atestado por mera condescendncia. 
Dirigiu-se  clnica de testa franzida, apreensivo,mas resoluto. A multido era ainda mais numerosa que de manh.
       E o primeiro cliente a entrar foi um homenzarro, a estourar de gordura, que cheirava fortemente a cerveja edava a impresso de que nunca trabalhara um 
dia completo em toda a sua vida. Devia ter uns cinquenta anos.
       Os seus olhinhos de porco piscavam para Andrew.
       - Atestado - disse ele sem cerimnia.
       - Atestado de qu? - perguntou Manson. 
       - Stagmo - estendeu a mo... - chamo-me Chenkin.Ben Chenkin. 
       J a maneira de falar irritou Andrew. Mesmo num exame ligeiro, convenceu-se de que Chenkin no tinha nistagmo. Sabia bem, sem precisar da sugesto de Gudge, 
quealguns desses velhos operrios arranjavam essa histriade stagmo para arrancar indemnizaes a que no tinham direito, vivendo desse expediente durante anos 
e anos. Em todo o caso, trouxera consigo, naquela noite, ooftalmoscpio. No tardaria a tirar a limpo a questo.!
       Levantou-se da cadeira.  
       - Dispa-se. 
       Desta vez foi Chenkin quem perguntou:
       - Para qu? 
       - Vou examin-lo. 
       Ben Chenkin ficou de mau humor. No se lembrava dealguma vez ter sido examinado durante os sete anos declnica do Dr. Leslie. De m vontade, resmungando, 
tirouo casaco, o leno que enrolava o pescoo e a camisa demalha de listas azuis e vermelhas, deixando  mostra umtorso cabeludo e adiposo.
       Andrew fez um longo e minucioso exame, particularmente dos olhos, estudando ambas as retinas com a suapequenina lmpada elctrica. E ento, secamente:
       - Vista-se, Chenkin.
       Sentou-se e comeou a redigir um atestado.
       - Ainda bem! - zombou o velho Ben. - Logo vi queno nos ia deixar ficar mal.
       - O seguinte, por favor! - chamou Andrew.
       Chenkin quase arrebatou da mo de Andrew o impressocor-de-rosa e retirou-se do consultrio com passadas triunfantes. Cinco minutos depois estava de volta, 
lvido, mugindocomo um touro, abrindo caminho por entre os homenssentados nos bancos.
       - Olhem o que ele me fez! Deixem-me entrar! Ento! Que quer isto dizer? - Agitava o atestado na cara de Andrew.
       Manson fingiu que lia o papel. Estava ali o que elemesmo escrevera: Atesto que Ben Chekin est a sofreros efeitos de abuso do lcool, mas est perfeitamente 
aptopara trabalhar A. Manson, mdico.
       - E ento? - perguntou Andrew.
       - Stagmo! - berrou Chenkin. - Atestado de stagmo. No se faa tolo. H quinze anos que eu tenho. 
       - Agora no tem.
       Formou-se um grande grupo diante da porta aberta doconsultrio. Andrew percebeu que Urquhart estava a espreitar curiosamente da outra sala, enquanto Gudge, 
deliciado, observava, o tumulto, l do guich da farmcia.
       - De uma vez por todas: vai dar-me ou no um atestado de stagmo? - gritou Chenkin.
       Andrew perdeu a pacincia.
       - No, no dou - gritou tambm. E saia j daqui antesque o ponha fora da porta.
       Ben bufava. O homem parecia disposto a arrasar omdico, mas depois baixou os olhos, deu meia volta e retirou-sedo consultrio, mastigando palavres ameaadores.
       No momento em que ele se afastou, Gudge saiu da farmcia e arrastou-se na direco de Andrew. Esfregava asmos num contentamento melanclico.
       - Sabe quem  o homem que acaba de pr na rua?  Ben Chenkin. O filho dele  um tipo de peso na direco.
       O caso Chenkin produziu enorme sensao. A novidade correu logo por toda a rea de Manson. Alguns diziam queera bem feito que Ben fosse apanhado na sua 
intrujicee dado como apto para o trabalho. Mas a maioria estavado lado de Ben. Todos os que tinham vantagens com essascompensaes em dinheiro por incapacidade 
para o serviomostravam-se particularmente irritados com o novo mdico.
        Quando saa para fazer as suas visitas, Andrewnotava os olhares torvos que lhe atiravam. E  noite, naclnica, teve de enfrentar manifestaes de impopularidadeainda 
mais graves.
       Se bem que em teoria cada assistente tivesse a suazona, aos trabalhadores cabia o direito de livre escolha domdico. Cada homem possua um carto. Pedir 
esse cartoa um clnico e entreg-lo a outro equivalia a uma troca demdico. Foi essa a humilhao que comeou para Andrewnaquela semana. Todas as noites, homens 
que ele anteriormentenunca vira entravam no seu consultrio, algunsachavam mais cmodo mandar as mulheres para dizer,sem levantar a vista: Se no lhe faz diferena, 
doutor,quero levar o meu carto.
       Era intolervel a afronta, a humilhao de levantar-separa tirar aqueles cartes de uma caixa sobre a secretria.
       E cada carto que restitua significava dez xelins subtrados aos seus honorrios.
       Na noite de sbado, Urquhart convidou-o para ir  suacasa. O velho, que tinha passado a semana inteira comar de quem pede desculpa na fisionomia carrancuda, 
comeou a exibir os tesouros amontoados nos seus quarentaanos de clnica. Tinha talvez uns vinte violinos amarelos,pendurados nas paredes, todos fabricados por 
ele. Isso,porm, nada era perante o primor e a variedade da suacoleco de antigas porcelanas inglesas.
       Era uma coleco soberba Spode, Wedgwood, Crown,Derby e, ainda melhor do que tudo isso, a antiga Swansea. Havia de tudo ali. Os pratos e xcaras, os bules 
e jarrosenchiam todos os cantos da casa e invadiam a prpriacasa de banho. Ao fazer a toilette, Urquhart podia contemplar com orgulho um servio de ch original, 
com desenhos de salgueiros.
       A porcelana constitua, de facto, a paixo da vida de Urquhart. Era um velho e experiente mestre na arteastuciosa de adquiri-la. Onde quer que visse uma 
lindapea como costumava dizer, tudo fazia para a obter.
       Se era na casa de um doente, comeava a fazer visitassobre visitas com dedicao pouco vulgar, sempre com osolhos fitos na pea cobiada, numa espcie de 
persistnciaambiciosa at a boa dona de casa, desesperada, declarar:
       - Parece que o doutor est muito interessado naquelapea. No sei a graa que lhe acha. Mas se quer podelev-la.
       Nessa altura, Urquhart esboava uma recusa pr-formamas logo a seguir, sobraando o trofu embrulhado numJornal, ia para casa com a alegria estampada no 
rosto ecolocava carinhosamente a nova conquista nas suas prateleiras.
       O velho era um tipo inconfundvel na cidade. Dizia tersessenta anos, mas provavelmente j passara dos setentae talvez estivesse roando os oitenta. Rijo 
como um carvalho,o seu nico meio de conduo era a sola dos sapatosVencia a p distncias incrveis, praguejava com friaassassina contra os clientes e no entanto 
tinha enternecimentosfemininos. Vivia sozinho desde que perdera amulher, havia onze anos. Quase se alimentava s de conservas.
       Naquela noite, depois de exibir vaidosamente a suacoleco, disse de repente a Andrew com ar ofendido:
       - Que diabo, homem! No quero qualquer dos seusclientes. J tenho bastantes por minha prpria conta. Mas,que hei-de fazer, se eles me vm importunar? Nem 
todospodem ir  clnica Leste.  muito longe.
       Andrew corou. No sabia que dizer. 
       - O doutor precisa de ter mais cuidado - continuouUrquhart num tom diferente: - Eu sei, eu compreendo. O senhor quer deitar abaixo as muralhas de Babilnia. 
Eu tambm fui assim. Mas, seja como for, v devagar,com jeito, olhe com ateno antes de dar o salto. Boasnoites. Cumprimentos  sua senhora.
       Com as palavras de Urquhart soando-lhe nos ouvidos, Andrew fez todos os esforos para se conduzir com a maior prudncia. Mas, mesmo assim, um desastre ainda 
maiorno tardou a deparar-se-lhe.

05
       Na segunda-feira seguinte foi  casa de Thomas Evans,em Cefan Row. Evans, um britador da pedreira de Aberalaw, tinha entornado uma chaleira de gua ferventesobre 
o brao esquerdo. Era uma queimadura, muito extensa,com aspecto mais grave no cotovelo. Ao atender odoente, Andrew verificou que a enfermeira do distrito,que 
estava nas proximidades na ocasio do acidente, j havia feito um curativo com leo de linhaa, continuandodepois o seu giro.
       Andrew examinou o brao, disfarando a repugnncia produzida pelo unguento asqueroso. Furtivamente olhou agarrafa do leo de linhaa, tapada com uma rolha 
depapel de jornal. Dentro havia um lquido esbranquiado,onde quase se podiam ver cardumes de bactrias.
       - A enfermeira Lloyd fez um servio bem feito, no verdade, doutor? - disse Evans nervosamente.
       Era um rapago robusto, de olhos escuros. A mulher,que estava perto, observava atentamente o mdico e tambm parecia nervosa.
       - Um servio muito bem feito - concordou Andrewcom grande mostra de entusiasmo. - Eu dificilmente fariamelhor.  claro que se trata apenas do primeiro curativo,de 
emergncia. Agora devemos experimentar um pouco decido pcrico.
       Sabia que se no aplicasse depressa um anti-spticoseria quase certa uma infeco no brao. E nesse caso,pensava ele, s um milagre poder salvar a articulaodo 
cotovelo.
       Evans e a mulher, desconfiados, fitavam Andrew, enquanto ele, com escrupulosa delicadeza, limpava o braoe o enrolava em gaze embebida em cido pcrico.
       - Pronto. No sente o brao mais  vontade?
       - Com franqueza, no sei - disse Evans. - Tem a certeza, doutor, de que isto assim est bem?
       - Absoluta! - Andrew sorriu tranquilizadoramente. -Deixe que a enfermeira e eu tomemos conta disso.
       Antes de sair deixou um bilhete para a enfermeira do distrito violentando a sua vontade para mostrar-se atencioso, cheio de considerao pelas suas susceptibilidades.
       Agradecia-lhe o esplndido tratamento de emergncia e perguntava-lhe se, como precauo contra uma possvel septicemia, no se importaria de continuar com 
as aplicaes de cido pcrico. Fechou o sobrescrito com todo ocuidado.
       Na manh seguinte, quando chegou  casa do doente,as suas ligaduras embebidas em cido pcrico tinham sidoatiradas e o brao estava novamente enrolado com 
outra ligadura impregnada de leo de linhaa. A enfermeira dodistrito estava l a tratar do brao, preparada para a luta:
       - Tenho interesse em saber que histria  essa, Dr. Manson? Acha, ento, que o meu trabalho no presta?
       Era uma grossa mulher, de meia-idade, cabelos grisalhos e mal arrumados, cara atormentada. Custava-lhe afalar, de to ofegante.
       Andrew desanimou. Fez um grande esforo para dominar-se.  Forou um sorriso.
       - Venha c, enfermeira Lloyd. No me interprete mal. Porque no conversamos sobre o assunto na sala da frente?
       A enfermeira levantou a cabea e dirigiu os seus olhares para Evans e a mulher, que, com uma garotinha detrs anos agarrada  saia, estavam escutando, alarmados,os 
olhos muito abertos.
       - No, nada disso. Falaremos sobre o caso aqui mesmo.Nada tenho que ocultar. A minha conscincia est tranquila. Nasci e fui criada em Aberalaw, aqui frequentei 
aescola, casei-me, tive filhos, aqui perdi o meu marido e aquitenho trabalhado durante vinte anos como enfermeira dodistrito. E nunca algum me disse que no 
aplicasse leode linhaa numa queimadura ou numa chaga.
       - Oua, enfermeira - argumentou Andrew - leo delinhaa talvez seja muito recomendvel em certos casos. Mas aqui h o risco de contractura. - Distendeu o 
braodela para demonstrar a explicao. -  por isso que queroque a senhora experimente o meu mtodo.
       - Nunca ouvi falar nessa droga. O velho Dr. Urquhartno a emprega. Era o que estava a dizer ao Sr. Evans. E eu no confio nessas novidades de uma pessoa 
que estaqui h uma semana!
       Andrew sentiu um n na garganta. Ficou abalado, constrangido, ao pensar em novos aborrecimentos, em toda a repercusso da cena, pois a enfermeira era uma 
pessoaperigosa para se ter como inimiga. Iria de casa em casa,dizendo em todas elas o que lhe vinha  cabea. Mas eleno podia, no devia comprometer o doente 
com aqueletratamento antiquado.
       - Se no quer fazer o curativo, enfermeira, virei aqui,de manh e  noite, e f-lo-ei eu mesmo.
       - Faa ento. Pouco me importa! - respondeu a enfermeira Lloyd, quase a chorar. - E Deus queira que TomEvans escape com vida.  E seguidamente precipitou-sepela 
porta fora.
       Num silncio de morte, Andrew tirou novamente openso do leo de linhaa. Gastou perto de meia hora alimpar e tratar o brao ferido. Quando saiu prometeu 
voltar s nove horas.
       Na mesma noite, ao entrar no consultrio, a primeirapessoa a aparecer foi a Sr.a Evans, muito plida, os olhosamedrontados evitando os dele.
       - Desculpe, doutor...  gaguejou ela.  Custa-me incomod-lo.  Mas posso tirar o carto de Tom?
       Andrew desanimou. Levantou-se sem dizer palavra, procurou o carto de Tom e entregou-o  mulher.
       - O doutor compreende... J no precisa de aparecer lpor casa.
       Ele respondeu, desalentado:
       - Compreendo, Sr.a Evans. - E quando ela j estava porta no resistiu a perguntar: - O leo de linhaa estl de novo?
       Engasgada, ela afirmou com a cabea e saiu.
       Depois do trabalho da clnica, Andrew, que costumava marchar para casa a toda a pressa, arrastou-se aborrecidamente para Vale View. Que triunfo, pensava 
com amargura, para o mtodo cientfico! E que sou eu, afinal?
       Honesto ou desastrado? Desastrado ou estpido, estpidoe desastrado!.
       Ficou muito taciturno durante o jantar. Depois, em companhia de Christine, foi para a saleta, agora confortavelmente mobilada. Sentaram-se juntos no sof, 
ao p do fogoreanimador. Andrew deixou-se ficar com a cabea encostada ao ombro de Christine.
       - Oh! Minha querida - murmurou. - Estou a estragaro nosso comeo de vida.
       Quando Christine o consolou, acariciando-lhe a testa, Andrew tinha os olhos hmidos.

06
       O Inverno veio antes de tempo e inesperadamente, comuma forte nevada. Aberalaw ficava to alto que em meados de Outubro, antes mesmo de as rvores perderem 
asfolhas, apareceram as primeiras geadas. De noite a nevecomeou a cair em flocos abundantes e macios. Andrewe Christine viram, ao acordar, uma imensa brancura 
cintilante.
       Uma piara de potros da montanha entrara poruma brecha da cerca desmantelada que limitava o terrenoe juntara-se no fundo. L em cima, nos montes, onde haviagrandes 
pastagens, esses animais selvagens vagueavam emgrande nmero, fugindo  aproximao do homem. Mas,quando a neve caa, a fome obrigava-os a descer at scercanias 
da cidade. 
       Durante todo o Inverno, Christine alimentou os potros.
       No comeo fugiam dela, tmidos e assustados, mas no fimj vinham comer  mo. Um, especialmente, tornou-se seuamigo. Era o mais pequeno de todos, um animal 
de crinaemaranhada e olhos travessos, a que dera o nome de Moreninho.
       Os potros comiam de tudo, pedaos de po, cascas debatata e de ma, at mesmo bagao de laranja. Uma vez,por brincadeira, Andrew ofereceu ao Moreninho 
uma caixade fsforos vazia. O potro mastigou-a e lambeu os beioscom a satisfao de um gastrnomo saboreando caviarEmbora muito pobres, tendo de suportar muitas 
necessidades, Christine e Manson conheciam a felicidade. Andrew s tinha moedas no bolso, mas a dvida  Dotaoestava quase liquidada e as prestaes da moblia 
iamsendo pagas regularmente. com toda a sua fragilidade eexperincia aparentes, Christine tinha as qualidades deuma mulher de Yorkshire. Era uma perfeita dona 
de casa. E com efeito, conseguia trazer Vale View como um brincoapenas com a ajuda de Jenny, filha de um mineiro davizinhana, que vinha fazer o servio diariamente, 
recebendo somente alguns xelins por semana. Embora quatroquartos ainda continuassem vazios e discretamente fechadosa chave, Christine fez do casaro um lar. E 
quandoAndrew voltava, cansado, quase vencido por um longo diade trabalho, encontrava sempre na mesa, para restauraras suas foras, a comidinha quente que ela 
preparara.
       O servio da clnica era exaustivo. No, infelizmente,porque fossem muitos os clientes, mas por causa da neve,das ladeiras ngremes que devia galgar para 
atingir ospontos mais elevados da sua zona, as longas distnciasentre as casas que tinha de visitar. Era difcil e fatiganteandar a p quando a neve se derretia 
e as ruas ficavamenlameadas, antes que comeasse a gear pesadamente durante a noite. Muitas vezes Andrew voltava para casacom a bainha das calas to molhada 
e suja que Christine comprou para ele umas polainas. Quando chegavae se sentava numa cadeira, derreado, ela ajoelhava-se etirava-lhe as polainas e os sapatos 
grossos, calando-lheos chinelos. No era um servio que lhe prestava, era umacto de amor.
       A sua clientela continuava desconfiada, distante. Todosos Chenkin numerosos, pois os casamentos na mesmafamlia eram comuns naquela regio formavam um sbloco 
hostil. A enfermeira Lloyd agia como inimiga abertae declarada. Arrastava-o pelas ruas da amargura quando sesentava para tomar ch nas casas que visitava, tendo 
semprea escut-la um bando de mulheres do bairro operrio.
       Alm disso, Andrew tinha de sufocar mais um motivode irritao crescente. Parecia-lhe que o Dr. Llewellynabusava com aquela histria de o chamar a toda 
a hora para aplicar anestsicos. Andrew tinha horror a esse servio.
        Era um trabalho mecnico, que exigia certo tipoespecial de temperamento, uma ndole que certamente noera a sua. No se incomodava de forma alguma em atender 
os seus prprios clientes. Mas quando se viu chamadotrs vezes por semana para atender a casos que anteriormente no havia examinado, comeou a sentir que estavacarregando 
nos ombros um fardo que no lhe pertenciasuportar. No entanto no ousou arriscar uma palavra deprotesto, com medo de perder o emprego.
       Certo dia de Novembro, porm, Christine notou quealguma coisa fora do habitual abalara o marido. Naquelanoite ele chegou sem se anunciar alegremente. E, 
emboraprocurasse fingir despreocupao, ela percebeu logo pelaruga de apreenso entre os olhos e por outros pequeninosindcios que Andrew recebera um golpe inesperado.
       Durante a ceia Christine no fez qualquer comentrioe depois comeou a ocupar-se com alguns trabalhos decostura, junto da lareira. Sentado ao lado dela, 
mordendoa ponta do cachimbo, Manson desabafou num repente:
       - Tenho repugnncia em queixar-me, Chris! E tambmno gosto de te dar aborrecimentos. S Deus sabe as coisasque guardo comigo mesmo!
       Como abria o corao mulher todas as noites, o que disse era muito engraado. Mas Christine no sorriu quando ele continuou:
       - Conheces o hospital, minha querida. Lembras-te deque fomos l na noite da nossa chegada. Deves lembrar-tede como gostei dele e fiquei encantado com as 
oportunidades que podia ter ali para os meus trabalhos. Penseiuma poro de coisas a esse respeito, no foi assim, querida?
       - No tinha grandes ideias sobre o nosso hospitalzinhode Aberalaw? Sim, eu sei que tinhas.
       E ele, num tom aborrecido:
       - Para que ter iluses? Aquilo no  o hospital deAberalaw.  o hospital de Llewellyn.
       Ela ficou calada, com ar preocupado, esperando QueAndrew continuasse.
       - Tive um caso esta manh, Chris! - Agora falava precipitadamente no auge da excitao. - Repara bem no queeu disse: tive. Era de facto um caso de pneumonia 
aindano comeo. Um dos brocadores da mina de antracite. Jte falei muitas vezes como estou profundamente interessadono estudo do aparelho respiratrio dessa gente. 
Tenhoa certeza de que h ali um vasto campo de pesquisas,pensei comigo mesmo: aqui est o meu primeiro caso dehospital. Uma verdadeira oportunidade para observaorealmente 
cientfica. Telefonei a Llewellyn e pedi-lhe paraver o caso comigo, de modo a poder lev-lo para a enfermaria.
       Manson parou, respirou profundamente e continuoucom precipitao:
       - Pois bem. L veio Llewellyn, com limousine e tudo. Sem favor nenhum, foi irrepreensvel no exame. De facto,o homem  competente. Confirmou o diagnstico, 
depoisde apontar um ou dois pormenores que me tinham escapado e concordou em levar o doente para o hospital.
       Comecei a agradecer-lhe, dizendo como me seria agradvelir  enfermaria e contar com as facilidades do hospitalpara aquele caso especial. - Parou mais uma 
vez com afisionomia dura. - Nessa altura, Llewellyn lanou-me umolhar muito amvel, Chris. E disse: No precisa de seincomodar, Manson. Agora o caso fica por 
minha conta. No podemos permitir que vocs, assistentes, andem deum lado para o outro pelas enfermarias. E olhou paraas minhas polainas: ...mais com essas botas 
horrveis... Ai, Chris!...
       E Andrew concluiu, numa exclamao sufocada:
       - Oh, no interessa repetir o que ele disse. Sei bemonde quis chegar. Eu posso entrar pela cozinha da casados mineiros, com a minha roupa ensopada e as 
botassujas, examinando os doentes sob uma luz fraca, tratando-os em ms condies. Mas quando chega a hora do hospital... Ah! Ali sou admitido apenas para ministrar 
o ter -foi interrompido pela campainha do telefone. -Olhandocom simpatia para o marido, Christine levantou-se e foiatender. Andrew podia ouvir o que dizia no 
hall. Quandovoltou, tinha um ar hesitante.
       -  o Dr. Llewellyn quem est ao telefone. Eu... custa-me dizer-te, querido. Ele quer que vs amanh de manhao hospital. s onze horas.  para uma anestesia.
       Andrew no respondeu. Desanimado, apoiou a cabeanos punhos cerrados.
       - Que devo responder, querido? - murmurou Christine ansiosamente.
       - Diz-lhe que v para o inferno! - Mas logo depoispassando a mo pela testa: - No, no. Diz que l estareis onze horas. - Sorriu amargamente. - s onze 
em ponto.
       Quando ela voltou trazia uma xcara de caf quente,um dos seus recursos eficazes para combater as crises dedepresso do marido.
       Ao beber o caf, Andrew sorriu-lhe um tanto envergonhado.
       - Isto aqui contigo  uma felicidade, Chris! Se o trabalho tambm corresse bem... Reconheo que nada h deestranho no facto de Llewellyn me conservar afastadodas 
enfermarias. Em Londres  a mesma coisa.  assim emtodos os hospitais, em toda a parte.  o sistema. Mas porque h-de ser assim, Chris? Mas por que razo tem ummdico 
de deixar de lidar com os doentes quando vopara o hospital? Perde o contacto to completamente que como se perdesse o doente. Isso faz parte do nosso maldito 
sistema de clnica geral e de especialistas.  errado,absolutamente errado! Meu Deus! Porque estou aqui afazer uma conferncia? Como se tu no tivesses j bastantes 
preocupaes por tua conta!  Quando penso nasesperanas com que comecei aqui! Em tudo o que ia fazer! E, em vez disso, uma coisa depois da outra, tudo a correrao 
contrrio do que esperava!
       Mas no fim da semana recebeu uma visita imprevista.
       J muito tarde, quando ele e Christine se dispunham a irpara a cama, retiniu a campainha da porta. Era Owen, osecretrio da direco.
       Andrew empalideceu. Interpretou a visita do secretriocomo o mais temido de todos os acontecimentos, o resultado daqueles meses de esforos fracassados. 
Queria adireco que ele se demitisse? Estaria para ser expulso,atirado com Christine para o olho da rua, como um objectointil? Sentiu o corao confrangido 
ao ver a cara delgadae acanhada do secretrio, mas de repente expandiu-se,aliviado, alegre, quando Owen tirou do bolso um cartoamarelo.
       - Desculpe esta visita to fora de horas, Dr. Manson,mas fiquei at tarde no escritrio e no tive tempo de oprocurar na clnica. Tenho andado a pensar 
se interessariaao doutor a minha ficha mdica.  de certo modo estranhoque eu, como secretrio da direco, no me tenha aindapreocupado em dar o meu carto a 
algum. A ltima vezque tive de consultar um mdico fui a Cardiff. Mas agora,se me aceitasse, gostaria muito de fazer parte da sua lista.
       Andrew quase no podia falar. J tivera de restituir, contrariado, tantos cartes, que receber agora um cartonovo e logo do secretrio era para estourar 
de alegria.
       - Obrigado, Sr. Owen... Eu... Encantado de t-lo como cliente.
       Christine, que ficara no hall, no resistiu a intervir.
       - No quer entrar, Sr. Owen? Faa favor...
       Embora declarasse no querer incomod-los, o secretrio parecia disposto a ir para a sala de visitas. Sentado numa cadeira de braos, os olhos fitos pensativamente 
nalareira, aparentava extraordinria tranquilidade. E aindaque em nada se distinguisse, pelo fato e pela linguagem,de um trabalhador comum, tinha a quietude contemplativa, 
uma fisionomia cujos traos lembravam os de umasceta. Por alguns momentos deu a impresso de estar aordenar as ideias e depois disse:
       - Estou satisfeito por ter oportunidade de poder contar com o doutor. Sei bem que algumas contrariedadeso tem atingido neste comeo de vida aqui. Mas no 
percaa coragem. Essa gente  um pouco rude, mas no fundo boa. Depois de algum tempo, vir, cair-lhe- nos braos.
       E continuou, antes que Andrew pudesse responder:
       - J ouviu falar no caso de Tom Evans? No? O braodele piorou muito. A tal droga com cuja aplicao o doutorno concordava deu exactamente o resultado 
que receava. O cotovelo ficou ancilosado e torcido. E, com o brao inutilizado, o homem perdeu o emprego na mina. E o piorainda no foi isso: como foi em casa que 
ele se queimou,no recebe um chavo de indemnizao por acidente detrabalho.
       Andrew sussurrou uma palavra de pesar. No guardava rancor contra Evans, mas somente impresso de tristezapor um caso to simples ter dado to mau resultado 
semnenhuma necessidade.
       Owen ficou de novo silencioso. Depois comeou a contarna sua voz tranquila um pouco da histria das suas primeiras lutas. Aos catorze anos j trabalhava 
no fundo deuma mina, frequentando a escola nocturna e procurandoeducar-se pouco a pouco. Aprendeu dactilografia e estenografia e afinal conseguiu o emprego de 
secretrio na Sociedade.
       Andrew estava a compreender que durante toda a suavida Owen se dedicara a melhorar a sorte dos trabalhadores.
        Amava o servio da Sociedade porque era umaexpresso do seu ideal, e queria mais do que mera assistncia mdica. Queria habitaes melhores, maior higiene,condies 
mais progressivas e estveis, no s para osmineiros como tambm para todos os que deles dependiam.
       Citou o ndice de mortalidade em consequncia de parto entre as mulheres dos trabalhadores, e o ndice de mortalidade infantil. Trazia na ponta da lngua 
todos os nmeros, todos os factos.
       Mas ele no s falava como tambm ouvia. Sorriuquando Andrew contou a sua proeza por ocasio da epidemia do tifo em Blaenelly. O secretrio mostrou-se profundamente 
interessado pela ideia de que os mineirosestavam muito mais sujeitos a doenas dos pulmes doque os outros trabalhadores do subsolo.
       Animado pela presena de Owen, Andrew mergulhouno assunto com grande entusiasmo. Em consequncia demuitos exames cuidadosos, comeou a chamar-lhe a atenoa 
grande percentagem de trabalhadores das minas deantracite que sofria de forma insidiosa de doenas pulmonares.
        Em Blaenelly muitos dos brocadores que o procuravam queixando-se de tosse ou de um pouco de inflamaonos bofes, eram de facto casos incipientes ou mesmo 
javanados de tuberculose pulmonar. Estava a notar amesma coisa em Aberalaw. E comeava a perguntar a simesmo se no haveria alguma relao directa entre otrabalho 
e a doena.
       - Est a perceber onde quero chegar? - perguntou com animao. - Esses homens trabalham envoltos em poeirade pedra nos files duros. Os pulmes ficam entupidos. 
Ora tenho as minhas suspeitas de que isso  muito prejudicial.  Os brocadores, por exemplo, so os que esto maissujeitos a esse precalo. Pois bem, as doenas 
pulmonaresdesenvolvem-se neles com maior intensidade do que... digamos., nos carregadores, por exemplo. Pode ser que estejaem erro. Mas no creio. E o que mais 
me entusiasma que... bem!  um campo de investigao que ainda estvirgem. No h a menor meno a esse respeito na nomenclatura de doenas profissionais do 
Ministrio do Trabalho.  Quando esses homens ficam incapacitados para oservio, no recebem um tosto de indemnizao!
       Owen levantou-se da cadeira, inclinou o corpo para afrente, com uma grande satisfao espalhada no rostoplido.
       - Os meus parabns, doutor. Isso  o que se chamafalar! H muito tempo que no ouo uma coisa que tantome interesse.
       Continuaram em conversa animada sobre o assunto. Jera tarde quando o secretrio se levantou para se retirar. Pedindo desculpas pelo tempo que fizera perder, 
incita Andrew,de todo o corao, para que prosseguisse nas suaspesquisas, prometendo ajud-lo em tudo o que estivesseao seu alcance.
       Mesmo depois de Owen sair ficou ainda a pairar aimpresso viva da sua sinceridade.
       E Andrew pensou, como j o fizera na reunio dadireco em que lhe fora concedido o emprego, que aquelehomem era um verdadeiro amigo.
       A notcia de que o secretrio confiara o seu carto aAndrew espalhou-se rapidamente por toda a zona, o quecontribuiu de certo modo para deter a onda de 
impopularidade do novo mdico.
       Sem falar da vantagem material, a visita de Owentambm contribuiu para que Manson e Christine ficassemem melhor disposio de esprito. At ento o casal 
viviainteiramente  margem da vida social da cidade. E, emboraChristine nada lhe dissesse, havia momentos durante aslongas ausncias de Andrew em que se sentia 
muito s. Asesposas dos funcionrios mais graduados da Companhiaestavam demasiadamente compenetra- das da sua prpriaimportncia para fazer visitas s mulheres 
de simplesmdicos assistentes. A esposa de Llewellyn, que prometera imorredoura amizade e deliciosas excurses de automvel a Cardiff, deixara o carto numa hora 
em que Christine noestava em casa e nunca mais dera sinal de vida. Por suavez, as mulheres dos Drs. Medley e Oxborrow, da clnicaLeste, tinham-se revelado criaturas 
muito pouco interessantes.
        A primeira era uma mulherzinha esbranquiadae insignificante e a segunda uma maadora insuportvel,que passou uma hora inteira, contada pelo relgio, a 
falarsobre misses na frica. Alis, no parecia haver espritode solidariedade nem convvio social entre os mdicosassistentes ou entre as suas famlias. A atitude 
que assumiam na cidade era de indiferena, de fraqueza e atmesmo de humildade.

07
       Uma tarde de Dezembro, quando voltava para casa pelocaminho das traseiras, que seguia ao longo da encosta domorro, Andrew viu aproximar-se um jovem franzino, 
masdesempenado, pela sua idade mais ou menos. Reconheceu-oimediatamente. Era Richard Vaughan. O seu primeiroimpulso foi atravessar para o outro lado, a fim de 
nose encontrar com o homem que vinha na sua direco.
       Mas resmungou, obstinado: Porque iria para o outrolado? Ele pode julgar-se importante, mas eu no fao caso.
       Desviando o olhar, preparou-se para passar por Vaughan.
       Mas, com surpresa, ouviu o outro cham-lo numtom amigo, meio divertido.
       - Ol! O senhor no  a fera que obrigou Ben Chenkin a voltar para o trabalho? No foi o senhor?
       Andrew parou, olhou-o atento e desconfiado, com uma expresso que queria dizer: Que julga? No o fiz intencionalmente!.
       Se bem que o tivesse atendido com bastante polidez,Andrew resmungava intimamente que no estava dispostoa ser tratado como um protegido pelo filho de EdwinVaughan. 
Os Vaughan eram virtualmente os donos daCompanhia de Aberalaw, e possuam, alm disso, todas asaces das minas secundrias. Eram ricos aristocratas, inacessveis.
       Ao ir viver para uma propriedade perto de Brecon, o velho Edwin passara ao filho a direco de todosos negcios. Casado havia pouco tempo, Richard mandaraconstruir 
para sua residncia um palacete de arquitecturaModerna, que dominava a cidade.
       Observando Andrew, enquanto passava os dedos pelobigode aparado, disse:
       - Gostaria de ver a cara do velho Ben.
       - Pois nenhuma graa lhe achei.
       Perante essa demonstrao do rgido orgulho escocs, Vaughan torceu o lbio por trs da mo que alisava obigode e disse com ar muito natural: 
       - Parece que o senhor  o meu vizinho mais prximo.Minha mulher tenciona visitar a sua. Ela j voltou da Sua, onde foi passar algumas semanas.
       - Obrigado! - respondeu Andrew secamente, despachando-o.  noite, contou o caso a Christine, ironicamente.
       - Tanta amabilidade! Qual ter sido a sua inteno? Nem com o prprio Llewellyn  assim... Quando o encontra na rua mal lhe concede um cumprimento de cabea. 
Talvez julgue que consegue com as suas amabilidades queeu mande mais alguns homens para o trabalho dessasminas horrveis. 
       - Ora, no sejas assim, Andrew - protestou Christine-  um defeito que tens. s desconfiado, demasiadamente. Desconfiado, com toda a gente.
       - Parece-te que eu no tenho motivos para desconfiardele? Todo empertigado, nadando em dinheiro, uma amabilidade artificial espalhada na cara de macaco. 
E aquelahistria: Minha mulher... foi passar algumas semanas Sua... E tu aqui a trabalhar tanto nesta nossa casinhapobre! Qual! No sei porque a mulher desse 
senhor querer aproximar-se de ns, querida. E se fizer isso - tomoude repente um tom altivo - tem muito cuidado; no adeixes tratar-te com ares protectores.
       Christine respondeu com as palavras mais sacudidasque ele ouvira naqueles meses de ternura!
       - Podes crer que sei perfeitamente como devo proceder.
       Contra as previses de Andrew, a Sr.a Vaughan visitou Christine e pareceu demorar-se mais tempo do que o exigido pela delicadeza convencional. Quando Manson 
regressou a casa,  noite, encontrou a mulher muito alegre, umtanto alvoroada, com a aparncia de quem passara umatarde agradvel. Mostrou-se cheia de reticncias 
s gracinhas irnicas do marido, mas confessou que a visita foraum sucesso. Ele troou:
       - Naturalmente exibiste as pratas da famlia, a porcelana mais fina, o samovar dourado... Ah! E com certezaos doces foram da Confeitaria Parry!
       - No. Comemos po com manteiga - respondeu ela nomesmo tom. - O ch veio no bule de loua.
       Andrew levantou as sobrancelhas, sarcstico:
       - E ela gostou?
       - Julgo que sim.
       Depois dessa conversa, Andrew sentiu qualquer coisaque o espicaava intimamente, uma emoo que podia jter experimentado, mas ainda no analisara. Dez 
diasmais tarde ficou muito abalado quando a Sr.a Vaughantelefonou para convidar o casal para jantar em sua casa.
       Christine estava na cozinha, a preparar um bolo, e foiele quem atendeu ao telefone.
       - Sinto muito - disse. - Receio no podermos comparecer.  Tenho trabalho na clnica todas as noites at quases nove horas.
       - Mas no no domingo, certamente - a voz dela eracordial, encantadora. - Venham jantar no prximo domingo. Est combinado ento. Ficamos  vossa espera.
       Foi com Christine que ele estourou:
       - Esses tais teus amigos cheios de embfia queremimpingir-nos um jantar. No podemos ir! Estou com um grande palpite de que vou ter um caso muito urgente 
nanoite de domingo!...
       - Ora ouve o que vou dizer-te, Andrew!
       Os olhos dela tinham adquirido um brilho desusadoquando tomara conhecimento do convite, e era severamenteque passava uma lio ao marido.
       - Deves acabar com essas tolices. Ns somos pobres etoda a gente tem disso conhecimento. Usas fatos coadose eu trabalho na cozinha. Mas isso no tem importncia. 
Afinal de contas, s um mdico, um bom mdico, e eu soua tua mulher. - A expresso de Christine suavizou-se porum momento. - Ests a ouvir o que digo? Sim, talvez 
sejauma surpresa para ti, mas fica sabendo que tenho comigo,bem guardadinha na gaveta, a minha certido de casamento. Os Vaughan tm muito dinheiro, mas isso  
apenas um detalhe. De resto  gente boa, inteligente e encantadora. Ns vivemos aqui numa felicidade maravilhosa. Mas,querido, tambm devemos ter relaes. Porque 
no havemosde ser amigos deles, se eles querem ser nossos amigos? E no fiques envergonhado de ser pobre. Esquece essa histria de dinheiro, de posio social 
e tudo o mais e aprendea aceitar as pessoas como elas realmente so!
       - Est bem - resmungou ele.
       Na noite de domingo l foi com uma fisionomia inexpressiva, mas aparentemente dcil. Observou apenas, falandopor entre dentes, quando seguiam na alameda 
bemcuidada que conduzia  porta do palacete, ao lado de umnovo campo de tnis:
       - Provavelmente no me deixam entrar quando viremque no estou em traje de rigor.
       Ao contrrio do que esperava, foram muito bem recebidos. A cara feia e ossuda de Vaughan sorriu hospitaleiramente por cima de uma mesinha de ch que ele 
quasederrubou, no se sabe porqu. A Sr.a Vaughan acolheu-oscom simplicidade que nada tinha de afectada. Havia maisdois convidados: o Prof. Challis e a mulher, 
que estavama passar o fim de semana na companhia dos Vaughan.
       Depois de um cocktail como nunca tinha saboreado nasua vida, Andrew reparou no luxo da sala, toda atapetada,com flores, livros e mveis antigos de rara 
beleza. Christine conversava despreocupadamente com o casal Vaughane a Sr.a Challis, uma velha bem-humorada, que tinha rugasem torno dos olhos. Sentindo-se isolado, 
pouco seguro,Andrew aproximou-se manhosamente de Challis, que, apesar da barba branca, esvaziava alegremente o terceiroclice de vermute.
       - O meu jovem e brilhante doutor quer ter a bondadede proceder a uma investigao? - disse, sorrindo, a Andrew -  uma pesquisa sobre a funo precisa da 
azeitonanum clice de Martini. Devo adverti-lo desde j de quetenho a minha opinio formada. Mas que pensa o doutordo assunto?
       - Ora... - Andrew gaguejou. - Eu... No sei bem...
       - Eis a minha teoria. - Challis tivera pena dele. - Trata-sede um ardil imaginado pelos donos de bares e criaturaspouco hospitaleiras como o nosso amigo 
Vaughan. - Sob as sobrancelhas negras e abundantes os olhos piscavam maliciosamente. - Uma explorao do princpio deArquimedes. Pela simples aco do deslocamento, 
tm,esperana de poupar o gin!
       Andrew estava to preocupado com o prprio acanhamento que nem pde sorrir. No tinha prtica de salese nunca estivera numa sala to luxuosa. No sabia 
o quefazer com o copo vazio, com a cinza do cigarro e atmesmo, como naquele momento, com as prprias mos.
       Foi um alvio quando se encaminharam para o jantar. Mas a tambm se viu numa posio desvantajosa. A refeio era muito simples, mas esplendidamente servida. 
Um prato de sopa, salada de alface tenra, galinha, ecarne muito macia, de aroma delicado e raro. Andrewficou junto da Sr.a Vaughan.
       - A sua mulher  encantadora, Dr. Manson - comentou,ela, calmamente, quando se sentaram.
       Era uma criatura alta, esbelta, elegante, com uma aparncia muito distinta. Nada tinha de bonita, mas os olhoseram grandes e inteligentes e as maneiras 
de distinonatural. A boca, com os cantos ligeiramente repuxados,tinha uma mobilidade que parecia sugerir requinte, o deesprito e de raa.
       Comeou a falar a Andrew sobre o trabalho do mdico, dizendo que o marido ouvira muitos elogios  sua competncia. Esforou-se gentilmente por p-lo  vontade, 
perguntandode modo interessado o que achava que deviafazer-se para melhorar o exerccio da medicina na regio.
       - Bem... eu no sei bem... - e entornou desastradamente um pouco de sopa. - Suponho... Gostaria que seempregassem mtodos mais cientficos.
       Acanhado, engasgado at com o seu assunto predilecto com o qual prendia a ateno de Christine durantehoras e horas Andrew no desviou os olhos do prato. 
Felizmente, para seu alvio, a Sr.a Vaughan entabulouconversa com Challis, que estava do outro lado.
       Challis j ento identificado como professor de Metalurgia em Cardiff, lente da mesma cadeira na Universidadede Londres e membro da afamada Junta de Pesquisassobre 
o Trabalho de Mineiros e Metalrgicos era umconversador alegre e brilhante. Falava com o corpo, comas mos, com a barba, discutindo, rindo, berrando, gargalhando, 
ao mesmo tempo que absorvia em profuso comidae bebida. Era uma caldeira a acumular presso. Mas a suaconversa era interessante e os circunstantes pareciamapreci-la. 
Andrew, no entanto, no queria atribuir valor  conversa.
       E ficou apenas a ouvir, de m vontade, quando elese desviou para a msica e os mritos de Bach, passando,num dos seus prodigiosos saltos, para a literatura 
russa. De nariz torcido, ouviu citarem os nomes de Tolstoi,Tchekov, Puchkin...
       Futilidades, dizia irritado consigo mesmo. Tudo futilidades para entreter. Este barbaas pensa que  algummuito superior. Gostaria de v-lo as voltas 
com uma traqueotomia... l no fundo de uma cozinha do Cefan Row. Servir-lhe-ia de muito o tal Puchkin...
       Christine, porm, estava verdadeiramente encantada.
       Observando-a de lado, Andrew viu a mulher rindo para Challis e ouvia-a tomar parte na discusso. No procuravaexibir-se, era perfeitamente natural. Uma ou 
duas vezesreferiu-se ao seu trabalho de professora na escola de Blaenelly.
       Andrew ficou espantado por ver como respondiabem ao professor, com que presteza e espontaneidade faziavaler as suas opinies. Comeou a contempl-la como 
se avisse pela primeira vez e sob uma nova luz. Parecia conhecer a fundo aqueles sujeitos da Rssia, resmungavaele intimamente, e o mais engraado  que nunca 
falacomigo acerca deles .
       Um pouco mais tarde, quando Challis bateu de leve namo de Christine, num gesto de aprovao, Andrew irritou-se e resmungou com os seus botes: Porque 
noencolhe este animal a patinha? E porque no vai bater namo da mulher que lhe pertence?.
       Por mais de uma vez surpreendeu o olhar de Christinea procurar estabelecer com ele uma correspondnciaIntima. Nalgumas ocasies, ela dirigiu a conversa 
em suadireco.
        Meu marido est muito interessado nos trabalhadoresdas minas de antracite, professor Challis. Iniciou umasrie de pesquisas sobre inalao de p.
       - Ah! Sim? - soprou Challis, lanando para Mansonum olhar cheio de curiosidade.
       - No  assim, querido? - Christine encorajava-o. - Ainda uma noite destas me falaste a esse respeito.
       - No sei ainda - rosnou Andrew. - Provavelmenteno chegarei a resultados satisfatrios. Talvez mesmo op nada tenha a ver com esses casos de tuberculose.
       Estava furioso consigo mesmo,  claro. Talvez esse talChallis pudesse ajud-lo. No  porque precisasse de assistncia.
        Isso no! Mas o facto de estar ligado  Junta dePesquisas sobre o Trabalho de Mineiros e Metalrgicos talvez lhe proporcionasse uma oportunidade interessante.
       Por qualquer razo incompreensvel, a sua raiva incidiu sobre Christine. Ao encaminharem-se para casa ele manteve um silncio ensimesmado. No mesmo silncio, 
acompanhou-a at ao quarto de dormir.
       Conservou-se na mesma atitude intencionalmente bisonha enquanto se despiam. E, no entanto, esse momentoera habitualmente aproveitado para dilogos e comentrios. 
Com os suspensrios cados e uma escova de dentesna mo, ele costumava ento comentar os acontecimentosdo dia.
       Quando Christine comeou:
       - Passmos uma noite muito agradvel, no foi, querido?  
       Ele respondeu com irnica aquiescncia:
       - Oh! Uma noite maravilhosa!
       Na cama, anichou-se na beira do colcho, longe dela.
       E, percebendo um leve movimento de Christine para se aproximar, comeou a roncar ruidosamente.
       Na manh seguinte persistia entre ambos a mesma sensao de constrangimento. Ele passou o dia a trabalharcom aspecto fechado numa estupidez que o fazia 
diferentede si mesmo. Pelas cinco horas da tarde, quando tomavamch, tocou a campainha da porta da frente. Era o chauffeur dos Vaughan com uma pilha de livros 
e um granderamo de narcisos.
       - Da parte da Sr.a Vaughan, minha senhora - disse ele sorrindo e levando a mo ao bon ao retirar-se.
       Christine foi para a saleta com os braos cheios e a fisionomia radiante.
       - Olha, meu querido - exclamou alvoroada. - No  ocmulo da gentileza? Todas as obras de Trollope, emprestadas pela Sr.a Vaughan. Sempre tive vontade de 
ler todaa obra deste autor! E que flores lindas, lindas!
       Ele levantou-se, empertigado e zombeteiro:
       - Muito bonito! Livros e flores da dama do castelo! Naturalmente precisas dessas coisas para te ajudar a suportar a vida na minha companhia! Eu sou to desinteressantepara
 ti!... No perteno ao nmero desses papagaiosfaladores que parecias apreciar tanto ontem  noite! Eu no conheo a prosopeia russa! Sou apenas umdesses tais 
mdicos assistentes, muito ordinrios, que andampor a!
       - Andrew! - O rosto de Christine estava plido. - Como podes dizer essas coisas!
       - No  a pura verdade? Eu vi muito bem, enquanto suportava com sacrifcio aquele maldito jantar. Eu tenhoolhos na cara. Vejo que j ests cansada de mim. 
S prestopara andar por a atolado na lama, encostando a cabeaem lenis sujos, apanhando pulgas. Sou demasiadamentebruto para o teu gosto requintado.
       Na face plida de Christine os olhos estavam sombriose dolorosos, mas disse cem firmeza:
       - Como podes falar dessa maneira?! Se eu gosto de ti porque s assim como s! Nunca poderia gostar de outrapessoa!
       - Est a ver-se! - resmungou ele, e saiu violentamenteda sala.
       Durante uns cinco minutos errou pela cozinha, de umlado para outro, mordendo os lbios. De repente deu meiavolta, precipitou-se na saleta, onde ela continuava 
de cabea baixa, desamparada, com os olhos perdidos no fogodo fogo. Andrew tomou-a ardentemente nos braos.
       - Chris, minha amada! - Gritou, num impulso de arrependimento. Querida, querida! Perdoa-me, pelo amor deDeus! Nada sentia do que disse. Sou um idiota, desvairadopelo 
cime. Adoro-te.
       Abraaram-se louca, apaixonadamente. O perfume dos narcisos flutuava no aposento.
       - Tu no sabes - soluou ela. - Tu no sabes que euno posso viver sem ti?
       Mais tarde, quando ela se sentou, com o rosto encostadoao dele, Andrew disse estendendo o brao para apanharum livro:
       - Quem  esse tal Trollope? Queres-me explicar? Eusou um tipo to ignorante!

8
       O Inverno passou. Andrew tinha agora mais um incentivo com o seu trabalho sobre a inalao do p. Paracomear, planeou e levou a efeito um exame sistemticode 
todos os trabalhadores da mina de antracitte inscritosna sua lista.
       Eram mais agradveis que nunca as noites que passavam juntos, Christine e ele. Christine ajudava-o, passandoa limpo as suas notas, perto do fogo, sempre 
alimentadopelo melhor carvo. Uma das vantagens da zona era quepodiam ter sempre o carvo que quisessem a preo mdico.
       Nas longas palestras que tecia com Christine, Andrewficava assombrado com a extenso dos conhecimentos damulher e a sua familiaridade com os livros - coisas, 
alis,que ela nunca procurava ostentar. Alm disso, Andrewcomeou a descobrir nela uma agudeza de instinto, umaintuio que tornava sempre excepcionalmente exactas 
assuas opinies sobre literatura, msica, e sobretudo ocarcter das pessoas.
       - Sim, senhora! - procurava arreli-la. - S agora que principio a conhecer a minha mulherzinha. Se estcansada, poderemos dispor de meia hora, para lhe 
daruma trepa no piquet.
       Tinham aprendido o jogo com os Vaughan.
       Quando os dias se tornaram mais longos, Christineps-se a tratar do jardim abandonado sem falar nisso aAndrew. Jenny, a criada, tinha um tio-av, de quem 
muitose orgulhava, como seu nico parente. Era um velho mineiro aposentado, que se tornou ajudante de Christine,com um pequeno ordenado. Andrew encontrou-os l 
embaixo, no leito do riacho, iniciando uma ofensiva contraas latas velhas atiradas para ali.
       -  l de baixo! - gritou Andrew da ponte. - Queests fazendo a? A dar cabo da minha pescaria?!
       Ela respondeu  troa com um gesto animado decabea.
       - Espera e vers.
       Em poucas semanas, Christine tirou toda a lataria enferrujada e desentupiu as passagens obstrudas. O leitodo riacho estava limpo, as margens sem ervas e 
bem tratadas.  entrada do valado construiu-se um novo murofeito com pedras apanhadas aqui e alm. John Roberts,jardineiro de Vaughan, decidira aparecer de vez 
emquando, trazendo bolbas e estacas e dando conselhos. Foicom sensao de triunfo que Christine levou Andrew pelobrao para lhe mostrar os primeiros narcisos.
       No ltimo domingo de Maro, Denny veio visit-los de surpresa. Correram ao seu encontro de braos abertos, desorientando-o no alvoroo das boas-vindas. Foi 
umgrande prazer para Manson ver de novo aquela figuraatarracada, aquelas sobrancelhas ruivas. Depois de mostrarem a Denny toda a casa, de o regalarem com o quehavia 
de melhor e de instal-lo na poltrona mais confortvel da saleta, pediram-lhe animadamente notcias daterra.
       - Page apagou-se - anunciou Phillip. - Sim, o pobre,homem morreu h coisa de um ms. Outra hemorragia. E para ele foi um bem! - Tirou o cachimbo com a habitual 
expresso de cinismo falseando no olhar. - Blodwene o seu amigo Rees parece que esto de casamento tratado.
       - Bodas de ouro, para comear - disse Andrew com acentuado azedume. - Pobre Edward!
       - Page era boa pessoa. E competente - comentou Denny. - Sabe o horror que eu tenho a esta palavra clnico... e a tudo que fica por trs dela. Mas Page carregouo 
fardo com decncia.
       Houve um silncio. Ficaram pensando em EdwardPage, o Edward Page que durante tantos anos se arrastarasobre as escrias de Blaenelly, sempre a sonhar com 
ailha de Capri, os seus passarinhos, a luz do seu sol.
       - E que nos conta de si, Phillip? - perguntou Andrewafinal.
       - Eu sei l... Estou a ficar inquieto. - Denny sorriu amargamente. - Blaenelly no parece a mesma depois quevocs saram de l. Parece-me que estou decidido 
a fazeruma viagem a qualquer parte. Talvez me torne mdico debordo... se houver um cargueiro vagabundo que precise demim.
       Andrew ficou calado, entristecido mais uma vezpensar naquele homem inteligente, cirurgio de verdadeiro valor, que gastava ingloriamente a sua vida numaespcie 
de sadismo contra si mesmo. Contudo, Denny estaria realmente esbanjando a sua vida? Conversaravrias vezes com Christine sobre Phillip, tentando decifrar o enigma 
da sua carreira. Sabiam vagamente que secasara com uma mulher de situao social superior  suae que ela procurara amold-lo s exigncias de uma clientela aristocrtica 
para a qual de nada valia fazer operaes durante quatro dias da semana se o cirurgio nopassasse os outros trs em festas e caadas. Depois decinco anos de 
esforos da parte de Denny, a recompensaque ela lhe deu foi abandon-lo displicentemente por outro homem. No era de admirar, portanto, que Dennytivesse fugido 
para a provncia, desprezando convencionalismos e odiando ortodoxias. Talvez voltasse um dia  civilizao.
       Conversaram a tarde toda e Phillip s se retirou noltimo comboio. Mostrou-se interessado com as explicaes de Andrew sobre as condies da clnica de 
Aberalaw.
       E quando este aludiu, indignado,  questo da percentagem que Llewellyn arrancava do salrio dos assistentes, Phillip disse com um sorriso intencional:
       - Julgo que o senhor no tolerar isso por muitotempo!
       Quando o amigo partiu, Andrew foi pouco a pouco,  proporo que os dias passavam, tomando conscincia dovcuo, do estranho vcuo que se formara em torno 
doseu trabalho. Em Blaenelly, com Phillip perto dele, sempre havia sentido um lao comum, um propsito definidoque era partilhado entre eles. Mas em Aberalaw 
no haviaesse lao, nenhum propsito de unio sentia entre oscolegas mdicos.
       O Dr. Urquhart, seu companheiro da clnica Oeste, eraum bom homem, mesmo com todo aquele modo desabrido de falar. Todavia, era um velho, escravo da rotinaabsolutamente 
sem interesse. Embora a longa experincia o habilitasse a farejar pneumonia no momento em queenfiava o nariz no quarto do doente, embora fosse hbilna aplicao 
de ligaduras e emplastros e um mestre emespremer furnculos, embora gostasse de demonstrar, umavez por outra, que podia fazer algumas pequenas operaes, era, 
no entanto, desoladoramente antiquado de muitos pontos de vista. Encarnava perfeitamente, aos olhosde Andrew, o velho tipo de bom mdico de aldeia definido por 
Denny: um doutor experiente, consciencioso, esperto, sentimentalizado pelos doentes e pelo pblico emgeral, mas que passa vinte anos sem abrir um livro demedicina 
e est quase sempre perigosamente atrasado nos seus conhecimentos. Ainda que Andrew estivesse semprepronto para uma discusso sobre assuntos mdicos comUrquhart, 
o velho nunca dispunha de tempo para conversar sobre negcios. Quando terminava o servio dirio,engolia a sua sopa de conserva preferia a de tomate,polia o 
seu novo violino, passava revista s suas velhasporcelanas, e em seguida escapulia-se para o Club Manico a fim de jogar xadrez e fumar.
       Os dois assistentes da clnica Leste eram igualmente desalentadores. O Dr. Medley, o mais velho, era um homemde cerca de cinquenta anos, de fisionomia inteligente 
e sensvel, mas infelizmente surdo como uma porta.
       No fora aquele defeito, que de certo modo divertia certa gente da terra, Charles Medley teria tido, sem dvida,uma situao muito superior  de simples 
assistente naquela regio mineira. Como Andrew, ele era um clnicopor excelncia, notvel no diagnstico, mas no conseguiaouvir uma palavra do que lhe diziam 
os doentes. No havia dvida de que tinha muita prtica em compreenderas palavras pelo movimento dos lbios, mas estava sempreatemorizado porque a sua surdez 
levava-o muitas vezes aenganos humorsticos. Causava d ver os seus olhinhos cansados acompanhando, numa espcie de investigao desesperada, o movimento da boca 
do seu interlocutor.
       Porque estava sempre com medo de cometer um errograve, s receitava doses mnimas de qualquer remdio. No se retirava da actividade profissional porque 
tinha avida atrapalhada e sustentava muita gente da famlia. Desde que enviuvara havia-se tornado uma criatura inutilizada, estranha e pattica, num constante pavor 
de queo Dr. Llewellyn e a direco lhe tirassem de repente o emprego.
       O outro assistente, o Dr. Oxborrow, era um tipo bemdiverso do pobre Medley. Andrew no gostava tanto dele.
       Oxborrow era um gordo de dedos grossos e de cordialidadeespasmdica. Manson pensou muitas vezes que o seucolega, com um pouco mais de agressividade, daria 
umptimo bookmaker. Era Oxborrow, acompanhado pelamulher, quem tocava no harmnio porttil, levado por elemesmo nas tardes de sbado para a cidade vizinha deFernley 
era o motivo por que desaparecia aos sbadosde Aberalaw. Ali, na praa principal, subia a um estradozinho atapetado e realizava uma sesso religiosa ao arlivre.
       Oxborrow era um evangelizador. Como idealista, acreditava numa potncia suprema que dirige o mundo. Andrew poderia ter admirado aquele fervor. Mas Oxborrow 
Deus do Cu!  era emotivo ao ponto de desorientaruma pessoa. Chorava de repente e rezava de modo aindamais desconcertante. Uma vez, quando se viu a braoscom 
um parto difcil, que exigia mais do que a sua habilidade, caiu subitamente de joelhos aos ps da cama e, desfeito em lgrimas, implorou ao Senhor que fizesse 
um milagre para salvar a pobre mulher. Urquhart, que detestava Oxborrow, contou a Andrew essa histria. Foi Urquhart quem, chegando nesse momento, avanou para 
oleito e terminou o parto com sucesso, tirando a crianaa ferros.
       Quanto mais considerava os seus colegas assistentes eo mtodo que seguiam no trabalho tanto mais desejavaAndrew reuni-los num entendimento geral. Na situaoexistente 
no havia unidade, esprito de cooperao emuito menos solidariedade entre eles. Integrado no sistema de concorrncia estabelecido geralmente no exerccio da medicina 
em todo o pas, lutavam uns com os outros, procurando cada qual conseguir o maior nmero possvel de clientes. A consequncia eram desconfianasterrveis e sentimentos 
hostis. Por exemplo, quando umdoente de Oxborrow transferia o seu carto para o consultriode Urquhart, Andrew via este ltimo tomar dasmos do homem o frasco 
do remdio receitado pelo colega,tirar-lhe a rolha, cheir-lo com desprezo e explodir emseguida:
       - Era isto que Oxborrow lhe estava a dar?! O diabo ocarregue! Estava a envenen-lo aos poucos!
       Entretanto, aproveitando-se da falta de coeso, oDr. Llewellyn ia tirando calmamente o seu quinho doordenado de todos os assistentes. Andrew andava indignado, 
ansioso por estabelecer uma combinao diferente,instituir um novo e melhor entendimento, que permitisseaos assistentes segurana e auxlio recprocos sem alimentarem 
a ganncia de Llewellyn. Mas os seus prpriosaborrecimentos, a conscincia de ser ainda um novato nolugar e, acima de tudo, os mal-entendidos em que se vira envolvido 
no comeo da actividade na sua prpria zona, aconselhavam-lhe prudncia. S depois do seu encontrocom Boland  que se decidiu a fazer a grande tentativa.

09
       Num dos primeiros dias de Abril, Andrew deu por umacrie num dente, e como consequncia foi procurar, numatarde da semana seguinte, o dentista da Sociedade. 
Aindano se encontrara com Boland e no sabia quais as suashoras de consulta. Quando chegou  praa onde Bolandtinha instalado o pequenino consultrio, achou 
a portafechada com este letreiro a tinta vermelha: Sa parafazer uma extraco. Em caso de urgncia, procure-me emcasa.
       Depois de um momento de hesitao, Andrew decidiuir at  residncia do dentista para marcar uma hora.
       Depois de se informar do caminho com um dos rapazes estacionados  porta da Sorveteria do Vale, avanou paracasa de Boland.
       Era uma pequena vila, um pouca afastada, na partealta do lado leste da cidade. Quando Andrew atravessoua entrada suja que servia a frente da casa ouviu 
marteladas sonoras. Olhando pela porta escancarada de umbarraco de madeira, quase em runas, que ficava ao ladoda casa, viu um homem robusto e ruivo, que em 
mangasde camisa, atacava violentamente com um martelo acarrosserie desconjuntada de um automvel. Entretantoo homem dera pela sua presena.
       - Ol! - disse ele.
       - Ol - respondeu Andrew um pouco contrafeito.
       - Que deseja o senhor?
       - Marcar uma hora com o dentista. Sou o Dr. Manson.
       - Faa o favor de entrar - disse o homem, acenando-lhe hospitaleiramente com o martelo. Era Boland.
       Andrew entrou no barraco, que estava atravancadocom as peas soltas de um carro incrivelmente velho. No meio do barraco estava o chassis do automvel apoiado 
em caixotes. Naquele momento o chassis parecia ter sido serrado ao meio. Os olhos de Andrew divagaram entre Boland e aquele extraordinrio espectculo de engenharia. 
 
       -  essa a extraco? 
       -  sim! - confirmou Con. - Quando consigo uma folga no consultrio venho  garage e trato um pouco do carro. -Alm de falar com sotaque irlands muito carregado,Con 
empregava com incontido orgulho as palavras garagee automvel para significar o barraco em escombros e oveculo em frangalhos. - O senhor no compreender o 
que estou agora a fazer - continuou - a no ser que tenha, como eu, temperamento de mecnico. H cinco anos que possuo este carro e note bem, ele j estava com trs 
anos de uso quando o comprei. O  senhor no  acreditar  vendo  o  automvel agora todo desmantelado. Mas a verdade  que corre como um danado. Contudo,  muito 
pequeno, Manson; agora pequeno de mais para a minha famlia. Assim, estou tratando de o aumentar. Cortei-o ao meio, como est a ver, e neste ponto aqui vou colocar 
um enxerto de dois ps de comprimento. Espere e ver quando a obra estiver pronta, Manson! - Foi  procura do casaco. -O automvel ficar to grande que poder conduzir 
um batalho. - Vamos agoraao consultrio. Obturarei o seu dente.
       No consultrio dentrio, que estava to desarrumadocomo a garage e, para falar com franqueza, igualmentesujo, Con obturou o dente sem deixar de perorar. 
Falavatanto e com tal violncia que o bigodo ruivo estava sempreorvalhado de perdigotos. A cabeleira revolta, que desdeh muito precisava dos cuidados do barbeiro, 
invadia acara de Andrew quando o dentista se curvava sobre ocliente para colocar a massa de obturao que havia preparado na ponta dos dedos oleosos. Nem sequer 
se dera aoincmodo de lavar as mos. Isso no tinha importnciapara Con.
       Era um sujeito descuidado, impetuoso, de temperamento alegre e alma generosa. A medida que ia conhecendo Boland, mais Andrew ia ficando seduzido pela sua 
simplicidade,pelo seu bom humor, pela sua rudeza e imprevidncia.
       Em seis anos de trabalho em Aberalaw no conseguira economizar um centavo, mas arrancava da vida o mximoprazer. Tinha a mania da mecnica, fazia constantesgazetas 
no trabalho do consultrio e adorava o automvel O prprio facto de Con possuir um automvel j eramotivo de brincadeira. Mas Con gostava imenso de brincadeiras, 
mesmo quando o prejudicavam. Contou a Andrewque em certa ocasio, ao ser chamado para extrair ummolar estragado de um membro importante da direco sara de casa 
com a convico de que levava o ferro dentrodo bolso, mas quando deu por isso estava a arrancar odente com uma turqus de seis polegadas.
       Feita a obturao, Con atirou com os instrumentos para dentro de um frasco de compota cheio de lisol, pois eraessa a sua humorada noo de anti-sepsia e 
convidouManson para tomar ch em sua casa.
       - Venha, venha! - insistiu hospitaleiramente. Venha conhecer a minha gente. Estamos justamente na hora doch: so cinco horas.
       A famlia de Con estava realmente a tomar ch quandoeles entraram. Mas j estava demasiadamente acostumadas excentricidades de Boland para ficar embaraada 
como facto de trazer um estranho. Numa sala quente e desarrumada, a mulher de Con estava sentada  cabeceira damesa, dando de mamar a uma criana. Junto dela, 
Mary,de quinze anos, quieta, tmida.
       -  a nica de cabelos pretos e a predilecta do pai- disse Con ao apresent-la, explicando ainda que ela jestava a ganhar um bom ordenado como empregada 
deJoe Larkins, um bookmaker da Praa. Ao lado de Mary,Terence, de doze anos, e noutros lugares da mesa mais trscrianas que comearam num berreiro jovial quando 
o paiapareceu.
       Havia em toda a famlia - excepto talvez na tmida e concentrada Mary - uma alegria imprevidente que encantou Andrew. A prpria sala falava com jovial acento 
irlands.
        Em cima do fogo e por baixo de uma fotografia colorida do papa Pio X, enfeitada com ramos de qualquerarbusto, secavam as fraldas do beb. A gaiola do 
canrio,pouco limpa mas com muitos gorjeios, estava em cima doaparador, ao lado do espartilho da Sr.a Boland que otirava do corpo para ficar mais  vontade e 
de uma latade biscoitos aberta. Seis garrafas de cerveja preta, chegada pouco antes da loja, estavam sobre a cmoda, na companhia da corneta de Terence; num canto 
viam-se brinquedos quebrados, um par de botas velhas, um patim enferrujado,uma sombrinha japonesa, dois livros de missa jmeio estragados e um volume de Photo-bits.
       Mas, ao tomar o ch, Andrew ficou fascinado pela Sr.a Boland. No podia desviar os olhos dela. Plida, sonhadora, imperturbvel, ps-se a ingerir silenciosamente 
inmeras xcaras de ch preto, enquanto as crianas brigavamem torno e o beb ia mamando calmamente no seufarto seio. Ela sorria, balanava a cabea, cortava 
popara os filhos, lambuzava as fatias com manteiga, punhach na xcara, bebia e dava de mamar, tudo com umaespcie de tranquilidade distrada, como se longos 
anos de barulho, sujeira e desordem e estouvamentos de Cona tivessem levado finalmente a um plano de divino alheamento das coisas, onde permanecia isolada e imune.
       Andrew quase deixou cair a xcara quando, fitando-oda outra ponta da mesa, ela lhe dirigiu a palavra, numavoz suave, como a desculpar-se:
       - H muito tempo que estou para fazer uma visita sua senhora, doutor. Mas ando to ocupada...
       - Pelo amor de Deus! - Contorcia-se a rir. - Ocupada! Essa  boa! Ela no tem um vestido decente.  o quequer dizer. Tinha dinheiro para o comprar, mas, 
que diabo!, o Terence ou um destes catraios tambm precisavade um par de sapatos. No tem importncia, minha velha. Esperemos at que o carro fique pronto e ento 
apareceremoscom toda a elegncia. - Voltou-se para Andrew comabsoluta naturalidade. - Vivemos muito apertados, Manson.  o diabo! Graas a Deus, nunca falta para 
comer,mas s vezes os cobres no do para os trapos. Essa genteda direco  muito sovina. E, o que ainda  pior, o tirano ainda leva a sua fatia dos nossos 
proventos!
       - Quem? - perguntou Andrew, espantado.
       - Llewellyn! Tira um quinto dos nossos ganhos, tantodo meu como do seu.
       - Mas porque tem de ser assim?
       - Oh! L uma vez na vida examina um cliente meu. Durante os ltimos anos extraiu em doentes meus doisquistos dentrios. E  ele quem tira alguma radiografiaquando 
 preciso. Mas  um sujo! - As crianas tinhamido brincar para a cozinha, de modo que Con pde falarsem papas na lngua. - Quero que ele e a sua carroa vopara 
o inferno. A limousine com todas as suas pinturas. Deixe-me contar-lhe, Manson. Uma vez, quando eu subiao morro Mardy, atrs do automvel dele, resolvi pisar oacelerador. 
Ah! Jesus! Se o doutor visse a cara do homemquando teve de engolir a poeira que levantei!
       - Oua, Boland - disse Andrew, com vivacidade. - Essapouca vergonha de Llewellyn nos roubar um quinto donosso ordenado  uma explorao miservel. Porque 
notentamos acabar com isso?
       - Como?
       - Porque no tentamos acabar com isso - repetiu Andrew, levantando a voz. Sentiu o sangue ferver ao somdas suas prprias palavras. -  uma injustia flagrante. 
Vivemos a trabalhar fortemente, procurando fazer a nossavida... Oua, Boland, o senhor  justamente o homem deque eu precisava encontrar. Quer acompanhar-me nestaquesto? 
Reuniremos os outros assistentes. Faremos umafrente nica...
       O olhar de Con animou-se pouco a pouco.
       - Quer dizer com isso que pretende lutar com Llewellyn?
       - Isso mesmo.
       Con estendeu-lhe a mo, num gesto expressivo.
       - Manson, meu filho - declarou solenemente. - Estamos aliados desde este momento.
       Andrew correu para casa a comunicar a Christine arotura das hostilidades, cheio de animao, ansioso porcombater.
       - Chris! Chris! Encontrei um homem que  uma jia. Um dentista, de cabelos cor de fogo, completamente maluco... Isto , igual a mim. Isso j tu sabes! Ouve, 
minhaquerida, vamos fazer uma revoluo.  Ria animadamente.
       - Oh! Meu Deus! Se o velho Llewellyn soubesse o quelhe estamos a preparar!
       Andrew no necessitou de recomendao de prudnciade Christine para agir com cuidado. Estava resolvido aproceder acertadamente em todas as coisas. Comeou, 
portanto, no dia seguinte com uma visita a Owen.
       O secretrio mostrou-se interessado e objectivo. Disse aAndrew que a histria da percentagem para Llewellyn forauma combinao amigvel entre o mdico-chefe 
e o seusassistentes, a que a direco fora estranha.
       - Veja, Dr. Manson - concluiu Owen. - O Dr. Llewellyn  um homem muito inteligente e prestigiado pormuitos ttulos. Consideramos uma sorte t-lo junto de 
ns. Mas ele recebe uma bela remunerao da Sociedade comosuperintendente mdico, mas foram os senhores assistentesquem foram de opinio de que ele devia ganhar 
mais...
       Pois vamos acabar com isso, disse Andrew consigomesmo. E saiu satisfeito. Telefonou a Oborrow e a Medleye conseguiu que acedessem a comparecer em sua 
casa naquela noite. Urquhart e Boland comprometeram-se a nofaltar. E, pelo que pudera apreender de anteriores conversas, Andrew sabia que nenhum deles gostava 
de perderum quinto dos seus honorrios. Uma vez reunidos, a coisaandaria por si mesma.
       O passo seguinte era falar a Llewellyn. Depois de reflectir sobre o assunto, chegara  concluso de que seria umaatitude pouco correcta no avisar o mdico 
do que pretendia fazer. Naquela tarde teve de ir ao hospital para agircomo anestesista. Quando observou Llewellyn no decursoda operao um difcil e complicado 
caso abdominalno pde reprimir o sentimento de admirao. Llewellynera extraordinariamente competente. E no s competentecomo suave. Era a excepo, a nica 
excepo, que paraDenny vinha apenas confirmar a regra. Fazia tudo muito bem. Nada havia que o desorientasse. Desde os regulamentos de sade pblica, que sabia 
de cor, at  mais moderna tcnica radiolgica, todo o conjunto das suas mltiplasobrigaes encontrava Llewellyn esplendidamente apto epreparado para executar.
       Depois da operao, enquanto Llewellyn lavava as mos Andrew avanou para ele, tirando bruscamente o avental 
       - Desculpe-me melindrar a sua modstia, Dr. Llewellynmas no posso deixar de lhe manifestar a minha admirao pela maneira como tratou daquele tumor. Foi 
realmente magistral.
       - Alegra-me muito a sua opinio, Manson. E, a propsito, o senhor est a progredir considervelmente na aplicao de anestsicos.
       - No, no - mastigou Andrew. - Nunca serei hbilnesta coisa.
       Houve uma pausa. Llewellyn continuou a ensaboar calmamente as mos. Andrew, a seu lado, tossiu nervosamente. Agora, que chegara o momento, achava quase impossvel 
expressar-se. Mas conseguiu dizer:
       - Oua, Dr. Llewellyn. Sinto-me no dever de o avisar. Ns outros, assistentes, achamos injusto ter de lhe pagaruma percentagem dos nossos ordenados.  uma 
coisa difcil de dizer mas... Estou resolvido a propor que suspendama contribuio. Vai haver uma reunio, hoje  noite, emminha casa. Prefiro que o senhor tome 
conhecimento antesagora do que mais tarde. Eu... eu quero que o senhor compreenda que sou leal para consigo.
       Antes que Llewellyn pudesse responder, e sem o olhar, Andrew deu meia volta e saiu. Dissera aquilo muito mal. Mas de qualquer modo, estava dito. Quando os 
assistenteslhe comunicassem a resoluo, Llewellyn no poderia queixar-sede ter sido tratado traioeiramente.
       A reunio em Vale View estava marcada para as novehoras da noite. Andrew mandou vir algumas garrafas decerveja e pediu a Christine que preparasse sanduches. 
Depois desses preparativos ela saiu calmamente, a fim depassar uma hora em casa dos Vaughan. Tomado de impacincia, Andrew marchava de um lado para outro do hallprocurando 
concentrar as ideias. Comearam ento a chegar os interessados: primeiro Boland, logo a seguirUrquhart, e por fim Oxborrow e Medley, os quais vieramjuntos.
       Na sala de visitas, servindo cerveja e oferecendo sanduches, Andrew procurou criar um ambiente cordial.
       Como Oxborrow era o que lhe inspirava menos simpatia, dirigiu-se a ele em primeiro lugar.
       - Sirva-se  vontade, Oxborrow! Ainda h mais ldentro!
       - Obrigado, Manson. - A voz do evangelista era glacial. - Eu no bebo lcool de qualquer maneira que seapresente.  contra os meus princpios.
        Com os diabos! - disse Con com o bigode branco daespuma de cerveja.
       Como entrada aquilo no parecia auspicioso. Enquanto mastigava sanduches, Medley estava atento e desconfiado, manifestando no rosto a ansiedade concentrada 
dosurdo. A cerveja j comeava a excitar a beligerncianatural de Urquhart. Depois de o encarar uns momentos,desfechou subitamente esta frase:
       Agora que estamos juntos, Dr. Oxborrow, talvez ache conveniente explicar como foi que Tudor Evans, de GlynTerrace, 17, passou da minha lista para a sua.
       - No me recordo do caso - respondeu Oxborrow, quefazia estalar distraidamente as juntas dos dedos.
       - Mas recordo-me eu! - explodiu Urquhart. - Foi umdos clientes que o senhor me furtou, com todo o seu ar dereverendo da medicina. E h mais...
       - Colegas! - exclamou Andrew, alarmado. - Por favor,por favor! Como poderemos chegar a alguma coisa depositivo se comearmos a brigar uns com os outros? 
Lembrem-se do motivo por que estamos reunidos aqui.
       - Mas porque estamos aqui? - perguntou Oxborrow efeminadamente. Eu devia estar a atender um cliente.
       De p, encostado ao fogo, com ar sisudo e concentrado, Andrew aproveitou imediatamente a ocasio para nodeixar fugir a oportunidade de entrar na questo:
       - Pois o motivo  este, senhores! - Tomou flego. - Eusou o mais novo dos que se encontram aqui e estou hpouco tempo neste emprego, mas... espero que me 
desculpem. Talvez por ser novo  que me vejo forado aencarar certos assuntos. So coisas a que os senhores jesto habituados desde h muito tempo. Parece-me, 
emprimeiro lugar, que o nosso sistema aqui est todo errado. Passamos o tempo a desprestigiar-nos e a estragar a nossareputao, combatendo-nos uns aos outros 
sem considerarmos a nossa situao como membros da mesma sociedade mdica, com maravilhosas oportunidades para trabalharmos juntos. Todos os colegas que conheo 
preguejam que o mdico passa uma vida de co. Queixam-se de que trabalham de mais, tm as pernas cansadas, no dispemde um minuto de descanso, comem  pressa, 
sempre ocupadssimos com as chamadas. Qual  a origem disso?  queno pensam em organizar a nossa profisso. Para explicaro que quero dizer, tomemos um exemplo: 
chamadas noite! Os senhores sabem que todos ns vamos para acama com um medo horrvel de ser acordados no melhordo sono, para ir ver um doente. Estraga-nos as 
noites sa admisso da possibilidade de ter de sair. Suponham agora como seria confortvel a certeza de no sermoschamados durante a noite. Um de ns ficaria incumbidode 
atender todas as chamadas nocturnas durante umasemana, em troca do sossego e do sono garantidos parao resto do ms. Cada um de ns faria o seu turno. Noseria 
excelente? Pensem como seria tranquilo o trabalhode todos durante o dia.
       Fez uma pausa observando as caras inexpressivas dos colegas.
       - No concordo - zombou Urquhart. - Macacos memordam! Antes passar uma noite inteira sem pregar olhodo que deixar ir para as mos desta raposa velha que 
eOxborrow um dos meus doentes. Hi! Hi! Quando ele pedeemprestado, no paga.
       Andrew interveio febrilmente.
       - Deixemos ento isso de lado at nova reunio, pelomenos, j que parece no se chegar a acordo. Mas numponto somos todos unnimes. E  por isso que estamosaqui. 
Essa tal percentagem que pagamos ao Dr. Llewellyn. - Calou-se. Todos agora olhavam para ele, interessadosna questo que dizia respeito  algibeira. - Sabemos queisso 
 injusto. J falei a Owen sobre o assunto. Ele dizque  assunto que no diz respeito  direco, mas simum caso para ser tratado por ns.
       -  de facto assim - explicou Urquhart. - Lembro-meda ocasio em que isso foi estabelecido. Foi h coisa deuns nove anos. Nessa poca havia aqui dois azelhas 
comoassistentes. Um na clnica Leste e o outro c do meu lado. Atrapalhavam a vida de Llewellyn com as suas complicaes. Um belo dia chamou-nos e disse que no 
estava disposto a prestar-nos mais auxlio, a no ser que fizssemosum acordo com ele. Foi assim que a histria comeou. E  assim que continua ainda hoje.
       - Mas o ordenado que recebe da direco j o compensa muito bem do seu servio. E ainda recebe um dinheirodos outros empregos. O homem est podre de rico.
       - Eu sei, eu sei - disse Urquhart com impacincia. - Mas pondere, Manson, que o homem  utilssimo para ns.  o mesmo Llewellyn de sempre. E ele sabe isso 
muito bem. Se resolver no nos prestar o seu auxlio ficaremos emmuito maus lenis.
       - Mas porque temos de lhe pagar? - insistiu Andrew implacvelmente.
       - Silncio! Silncio! - exclamou Con, enchendo maisuma vez o copo.
       Oxborrow lanou um olhar ao dentista.
       - Se me permitem que exponha a minha opinio, eu concordo com o Dr. Manson em que  uma violncia odesconto que sofremos no ordenado. Mas a verdade  queo 
Dr. Llewellyn  um homem de alta posio, com muitosttulos prestigiosos, que com o seu nome d uma grandedistino  Sociedade. Alm disso, ele no se nega a 
tomarconta dos nossos casos mais difceis.
       Andrew, surpreendido, fitou o colega.
       - O senhor deseja entregar a outro os seus casosdifceis?
       - Naturalmente - disse Oxborrow com petulncia. - Porque no?
       - Pois no est certo que faa isso - berrou Andrew. - Eu fao questo de os conservar, de os tratar at ao fim!
       - Oxborrow tem razo - sussurrou Medley inesperadamente. -  a primeira regra da prtica da medicina, Manson. O senhor compreender isso quando tiver mais 
idade. Passar a outro os casos complicados, ver-se livre deles!
       - Isso  o diabo,  o diabo! - protestou Andrew, esquentado.
       A discusso continuou, mas sem cordialidade, durantetrs quartos de hora. Por fim, Andrew, com o sangue aferver, encontrou uma oportunidade para exclamar:
       - Ns temos de andar para a frente. Esto a ouvir-me? J estamos metidos nisto. Llewellyn sabe que estamos atratar do assunto. Eu mesmo o avisei hoje de 
tarde.
       - Como? - A exclamao saiu ao mesmo tempo deOxborrow, Urquhart, e at de Medley. - Est a dizer, doutor, que preveniu o Dr. Llewellyn?
       Meio levantado da cadeira, Oxborrow lanou a Andrewum olhar estupefacto.
       -  claro que sim! Ele saberia mais cedo ou mais tarde. Mas o senhor no v que basta apenas unirmo-nos, formarmos uma frente nica para vencer pela certa?
       - Oh diabo! - Urquhart estava lvido. - O senhor temuma coragem!  O colega conhece a influncia de quedispe o Llewellyn. Manda em toda a parte. Teremosmuita 
sorte se no formos todos para o olho da rua. Imaginem eu, com a minha idade, ter de arranjar outroemprego! - Seguiu na direco da porta. - O senhor um bom sujeito, 
Manson. Mas ainda  muito jovem. Boasnoites.
       Medley levantara-se tambm apressadamente. A expresso do seu olhar denunciava a sua inteno de ir directamente ao telefone a fim de declarar a Llewellyn, 
desfazendo-se em desculpas, que ele, Llewellyn, era um mdicoextraordinrio e ele, Medley, podia servir-lhe de capacho.
       Oxborrow tambm estava de p. Em dois minutos a sala esvaziou-se. S ficaram Con, Andrew e o resto da cerveja.
       Terminaram a bebida em silncio. Ento Andrew lembrou-se de que ainda havia seis garrafas na dispensa.
       Esvaziaram as seis garrafas e comearam a falar. Disseram coisas sobre a origem, a famlia e o carcter de Oxborrow,Medley e Urquhart. Trataram especialmente 
de Oxborrowe do seu harmnio. Nem ouviram Christine entrar e subiras escadas. Conversavam de corao aberto, como irmosmiseravelmente trados.
       Na manh seguinte Andrew comeou o seu trabalho demau humor e com uma terrvel enxaqueca. Na Praacruzou com o automvel de Llewellyn. Andrew levantou acabea 
cumprimentando-o num tom contrafeito de desafio,mas Llewellyn dirigiu-lhe o melhor dos seus sorrisos.

10
       Durante uma semana Andrew andou irritado com aderrota, num desnimo cheio de azedume. Na manh dedomingo, habitualmente dedicada a um longo e agradvelrepouso, 
desabafou subitamente:
       - No  o dinheiro, Chris!  uma questo de princpio. Quando penso nisso...  de endoidecer! Porque no possodeixar que as coisas continuem assim? Porque 
no gostode Llewellyn? Ou, melhor, porque gosto dele agora e detesto-oda a bocado? Diz-me sinceramente, Chris. Porqueme rojo a seus ps? Serei invejoso? Que 
ser?
       A resposta dela surpreendeu-o:
       - Sim, acho que s invejoso.
       - Como?
       - No me atormentes os ouvidos, querido. Pediste-meque te falasse com sinceridade. s invejoso, terrivelmenteinvejoso. E porque no havias de ser? Nunca 
tive a pretensode querer um santo para marido. Esta casa  bemclara e no preciso que tragas um resplendor em voltada cabea.
       - Continua - rosnou - Andrew. Mostra-me todos osmeus defeitos, j que comeaste. Desconfiado! Invejoso! Devias ter notado isso antes de casar. Ah! E tambmdemasiadamente 
novo, pelo que vejo. O octogenrioUrquhart tambm me censurou essa circunstncia.
       Houve uma pausa, durante a qual esperou a resposta paraprosseguir na discusso. Depois disse irritadamente:
       - Porque havia de ter inveja de Llewellyn? Porque ele  extraordinariamente hbil no seu trabalho,sabe muito, e... principalmente porque tem todos osttulos 
de primeira ordem. Enquanto eu tenho apenas este, muito insignificante: formado em Medicina por uma universidade escocesa. Deus do Cu! Agora sei o que pensas de 
mim. - Furiososaltou da cama e comeou a andar s voltas pelo quarto,de pijama. - Afinal, que importncia tm os ttulos? Umafantasia! O que vale  o mtodo, 
a habilidade clnica. Euno acredito nessas fantasias que eles impingem nos livros. Creio  no que ouo nas pontas do meu estetoscpio. E seno sabes, fica sabendo 
que eu ausculto realmente. Estoua comear a descobrir coisas interessantes na minha investigao sobre a antracite. Talvez lhes faa uma surpresaqualquer dia, 
minha cara senhora. Diabo! As coisas vobem quando um cidado se levanta num domingo paraouvir a mulher dizer que ele no sabe coisa alguma!
       Sentada na cama, Christine agarrou o estojo e comeoua tratar das unhas, esperando que ele se acalmasse.
       - Eu no disse isso, Andrew. - A calma dela aindamais o exasperou. - S quis dizer... Querido, no devesser assistente at ao fim da vida. Tu queres ter 
quem teoua, quem preste ateno aos teus trabalhos, s tuasideias... Oh! Compreendes bem o que quero dizer. Setivesses um ttulo de real mrito um M.D.(1) ou... 
oM.R.C.P.(2), isso ajudar-te-ia muito na tua carreira.
       
(1) Vide nota da p. 145
(2) M. R. C. P. - abreviatura de Member of the Royal Colleges of Physicians.  um ttulo mdico que s pode ser conquistado mediante curso de provas.  (N. do T.)
       
       - O M.R.C.P. - repetiu ele inexpressivamente. Depoispensou: Ah! Ela tem estas ideias na cabea. O M.R.C.P. Oh! Tirar um ttulo desses numa clnica de operrios! 
Deveria aniquil-la com o sarcasmo. E como respostaaos seus pensamentos: - No compreendes que eles sconcedem esses ttulos s testas coroadas da Europa?!
       Bateu com a porta e foi  casa de banho, para fazera barba. Cinco minutos depois reapareceu com uma facerapada e a outra ainda com sabo. Estava arrependido,excitado.
       - Achas que eu posso fazer isso, Chris?! Tens toda arazo. Precisamos de novos ornatos para a nossa placase quisermos ir para diante. Mas o M.R.C.P.... 
 o maisdifcil dos exames de medicina, de todos os pontos devista. E...  de matar! Bem... Ainda assim... Tenho detomar informaes...
       Sem acabar de expressar o que pensava atirou-se pelaescada abaixo e correu ao Almanaque Mdico. Voltou desolado, no auge da decepo.
       - Naufragou tudo! - resmungou, desanimado. Tudopor gua abaixo! Eu disse-te que era impossvel. H umaprova preliminar de lnguas. Quatro idiomas. Latim, 
francs,grego e alemo. E duas dessas lnguas so obrigatrias. Isso antes de comear o diabo do exame propriamentedito. Eu no sei lnguas. Todo o latim que sei 
... Ora,One. E quanto ao francs...
       Christine no respondeu. E Andrew nada mais disse.
       Ficou junto da janela, contemplando carrancudamente a paisagem. Por fim voltou-se, de testa franzida, ar preocupado, disposto talvez a no desistir.
       - E porque no poderia eu... com mil demnios! Chris... porque no poderia eu aprender essas lnguaspara o exame?
       Espalhando no cho os artigos de toilette de que seestava a servir ela saltou da cama e abraou-o apertadamente.
       - Oh! Era isso que eu queria que dissesses, querido! Isso, sim,  que mostra bem o teu valor. Eu posso... Euposso talvez auxiliar-te. No te esqueas de 
que a tuavelha mulher  uma professora aposentada!
       Passaram o dia todo fazendo planos alvoroadamente. Atiraram Trollope, Tchekov e Dostoiewski para um dosquartos vazios. Dispuseram a saleta para campo de 
operaes.
       E, naquela noite, Manson foi  escola na companhia dela. A mesma coisa aconteceu na noite seguinte... e na seguinte...
       s vezes Andrew sentia todo o sublime humorismo dasituao e ouvia, vindo de muito longe, o riso zombeteirodos deuses. Assentado a uma mesa nua junto da 
mulher,numa longnqua cidadezinha mineira de Gales, a repetircom ela: caput-capitis, ou Madame, est-ll possible que?... E l vinham declinaes, verbos irregulares, 
leituras emvoz alta de Tcito...
       De vez em quando recostava-se subitamente na cadeira,com certa vaidade.
       - Ah! Se Llewellyn pudesse assistir a isto!... Que carafaria! E pensar que isso  apenas o princpio, que hei-deconquistar mais tarde todos os ttulos mdicos!
       No fim do ms seguinte, pacotes de livros comeavama chegar periodicamente a Vale View, vindos da filial deLondres da Livraria Mdica Internacional. Andrew 
retomou os estudos no ponto onde os deixara ao sair da universidade.
        Descobriu ento que os abandonara antes dotempo. Ficou impressionadssimo ao verificar o avanoda bioqumica na teraputica. Travou conhecimento comglndulas 
suprarrenais, ureia no sangue, metabolismo basal e a falibilidade do exame de albumina. Quando essapedra angular dos seus dias de estudante caiu na terra,gemeu 
em voz alta:
       - Chris! Sou um ignorante. E todas essas matrias me matam!
       Tinha de atender ao trabalho da clnica. S dispunhadas noites para estudar. Sustentado por caf bem forte epor uma toalha molhada em torno da cabea, continuoua 
batalhar, estudando at de madrugada. Quando caa nacama, exausto, s vezes no conseguia dormir. Noutrasocasies, quando adormecia era para acordar de repente,encharcado 
em suor, num pesadelo, com a cabea atordoada com termos, frmulas e algumas imbecilidades pretensiosas do seu francs que ainda no passava das bases.
       Fumava de mais, emagreceu, o rosto adelgaou. MasChris estava a seu lado, constante e silenciosa, procurando oportunidade para ele falar, desenhar diagramas, 
explicarnuma lngua cheia de termos difceis e extraordinria, aespantosa, a impressionante aco selectiva dos canalculos renais. Ela tambm admitia que o marido 
gritasse,gesticulasse e, quando os nervos se destrambelhavam, quedissesse disparates.
       As onze horas, quando Christine trouxe o caf, Andrew estava com vontade de discutir.
       - Porque no me deixas em paz? Que xaropada  essaque trazes a? Cafena...  uma droga venenosa. Sabes queme estou a matar, no sabes? E tudo por tua causa. 
sterrvel! Terrivelmente rude. s uma autntica carcereira,andando para cima e para baixo a vigiar o preso! Nuncahei-de conseguir esse amaldioado ttulo. H 
centenas desujeitos das clnicas elegantes de Londres e dos grandeshospitais a tentar a mesma coisa. E eu... eu, de Aberalaw! Ah! Ah! - Era um riso histrico. 
- Eu, assistente da velhae querida Sociedade de Auxlios Mdicos! Oh! Meu Deus! Estou to cansado e tenho a certeza de que me vo arrancar de casa esta noite para 
esse parto nos confins doCefan Row e...
       Christine era melhor combatente do que ele. Possuao senso do equilbrio que os sustentava nessas crises. Tinha tambm os seus nervos, mas sabia domin-los. 
Fezsacrifcios, recusou todos os convites dos Vaughan, deixoude ir aos concertos no Temperance Hall. Fosse qual fossea hora a que se deitasse estava sempre de 
p desde cedo,arranjada, com o primeiro almoo de Andrew pronto paraquando ele descesse, arrastando-se, sem a barba por fazer,o primeiro cigarro do dia entre 
os lbios.
       De repente, quando j haviam decorrido seis meses depreparao para os exames, a tia de Christine, que moravaem Bridlington, adoeceu com uma flebite e escreveu 
pedindo-lheque fosse v-la. Ao mostrar a carta ao marido,declarou imediatamente que era impossvel deix-lo. Mas,curvando-se sobre o prato de presunto com ovos, 
ele resmungou :
       -  preciso que vs, Chris! Quero que vs. Estudandodesta maneira eu me arranjarei melhor sem ti. Com osnossos nervos destroados demos ultimamente para 
noszangarmos. Desculpa... mas... parece-me que  a melhorcoisa a fazer.
       Ela partiu, contra vontade, no fim da semana. Antesde um dia passado, Andrew compreendeu o erro. ComChristine ausente a casa era um tormento. Embora tudofizesse 
de acordo com as instrues cuidadosamente determinadaspor Christine, Jenny era uma calamidade permanente. Mas no era a comida de Jenny, no era o cafrequentado, 
nem a cama mal feita que o irritavam. Era aausncia de Christine. Era saber que ela no estava emcasa, no poder cham-la, no sentir a sua presena. Surpreendia-se 
a olhar tristemente para os livros, perdendohoras e horas com ela no pensamento.
       Ao fim de quinze dias Christine telegrafou prevenindoque ia voltar. Andrew desprezou tudo e preparou-se para receb-la. Nada havia que prestasse, que produzisse 
o efeitodesejado para o momento da recepo. O telegrama nolhe dera muito tempo, mas ele pensou com rapidez e correu cidade para fazer extravagncias. Comprou 
primeiro umramo de rosas. Na peixaria de Kendrick teve a sorte deencontrar uma lagosta fresquinha. Arrebatou-a apressadamente,antes que a Sr.a Vaughan a quem 
Kendrick davapreferncia para essas preciosidades pudesse telefonarpara lhe tomar a conquista. Comprou gelo em quantidadee verduras ao homem do lugar e, finalmente, 
sempre trepidante, encomendou uma garrafa de Moselle, que Lampert, o merceeiro da Praa, lhe garantira ser excelente.
       Depois do ch disse a Jenny que podia retirar-se, poisj sentia o olhar da criadinha, cheia de curiosidade, voltadopara ele. Ps-se ento a trabalhar e 
preparou amorosamenteuma salada de lagosta. Transformou o balde dezinco da despensa, cheio de gelo, numa excelente vasilhapara refrescar o vinho. Para as flores 
apresentou-se-lheuma dificuldade imprevista, pois Jenny havia fechado oguarda-loua, onde estavam guardadas as jarras, e pareciater escondido a chave. Mas venceu 
at mesmo esse obstculo,colocando metade das rosas no jarro da gua e o restanteno copo dos dentes, da casa de banho. Isso dava atuma curiosa impresso de variedade.
       Finalmente acabou os preparativos: as flores, a comida, o vinho no gelo. Andrew passava revista a tudo comintensa alegria. Depois do trabalho nocturno do 
consultrio, por volta das nove e meia, correu para a estao, afim de esperar Christine.
       Era como se estivesse de novo apaixonado, com o corao dos primeiros dias. Foi com ternura que a conduziu sua festa de amor. A noite estava quente e silenciosa,a 
Lua brilhava no alto. Andrew esqueceu todas as complicaesdo metabolismo basal. Disse a Christine que poderiamsupor estar na Provena, ou noutro qualquer lugarsemelhante, 
onde houvesse um castelo esburacado sobreo rio. Acrescentou que ela era uma garota bonita einteressante e que ele tinha sido muito grosseiro com ela,mas que da 
por diante, at ao fim da vida, seria um capacho  no vermelho, pois ela no gostava dessa cor,estendido no seu caminho. Pronunciou ainda mais frasesromnticas, 
mas no fim dessa semana j lhe pedia quelhe trouxesse as chinelas.
       Agosto apareceu poeirento e abrasador. Chegado ao fimdo seu programa de estudo, Andrew viu-se a braos coma necessidade de recapitular os exerccios prticos, 
especialmente de histologia. E era aparentemente uma dificuldade intransponvel na situao em que se achava. FoiChristine quem pensou no Prof. Challis e na sua 
posiona Universidade de Cardiff. Quando Andrew lhe escreveu,Challis respondeu imediatamente, afirmando, com muitasfrases, que poderia contar com a sua influncia 
junto daseco de patologia. Encontraria ali, na pessoa do Dr. Glyn-Jones, acrescentava ele, um companheiro de primeira ordem. Conclua a carta pedindo afectuosamente 
notcias de Christine. 
       - Devo-te isto, Chris! Sempre vale alguma coisa ter bons amigos. E quase que perdi a oportunidade de me encontrar com Challis no querendo ir, naquela noite, 
acasa dos Vaughans. O velho  fanfarro, porm decentssimo! Mas, de qualquer modo, tenho horror a pedir favores. E que histria  essa de te mandar recomendaes 
tomeigas?
       No meado do ms apareceu em Vale View uma motocicleta, marca Red Indian, em segunda mo. A mquinaera baixinha, fora de moda, mas o proprietrio anteriorgarantia 
ser muito veloz. Na poca morta do Vero haviatrs horas durante a tarde que Andrew podia considerarvirtualmente como suas. E todos os dias, logo depois doalmoo, 
um blide vermelho corria pelo vale, na direcode Cardiff, que ficava a uma distncia de trinta milhas.
       E todos os dias, por volta das cinco da tarde, o mesmoblide vermelho, um pouco mais empoeirado, vinha nadireco oposta, parando em Vale View.
       Durante algumas semanas foi aquele esforo. Correrias dirias de sessenta milhas, num calor de rachar, com umahora apenas de intervalo para trabalhar entre 
os espcimes e as lminas de Glyn-Jones, segurando s vezes omicroscpio com as mos ainda trmulas das vibraesdo guiador. Para Christine a parte mais inquietante 
detoda aquela aventura era v-lo partir com fisionomiamorta de cansao e esperar ansiosamente o primeiro sinaldo seu regresso, temendo nesse interim que pudesse 
acontecer alguma coisa ao marido, curvado sobre o guiadordaquela mquina infernal.
       Embora andasse sempre acelerado, ele encontravatempo para trazer, de vez em quando, alguns morangosde Cardiff. Guardavam a fruta para depois do trabalhono 
consultrio.  hora do ch Andrew aparecia sempresujo de poeira e com os olhos vermelhos, conjecturandopreocupadamente se o seu duodeno no iria ficar inflamadopor 
causa da gua da cisterna que bebera no caminho,perguntando a si mesmo se no poderia atender antes das consultas nocturnas as duas chamadas recebidas durante 
a sua ausncia.
       Mas realizou afinal a ltima viagem. Glyn-Jones jnada mais tinha para mostrar-lhe. Conhecia de cor todasas lminas e todos os espcimes. S restava agora 
inscrever-see pagar as pesadas taxas de exames.
       No dia 15 de Outubro, Andrew tomou sozinho o comboiopara Londres. Christine levou-o  estao. Agora, que estava em vsperas do grande acontecimento, dominava-ouma 
estranha tranquilidade. Os anteriores esforos, comtodas as reaces histricas, tinham levado o crebro aum estado que lhe dava a impresso de que tinha a cabeaoca, 
de que nada sabia.
       No entanto, na manh seguinte, quando comeou a fazera prova escrita do exame, que se realizava na Faculdadede Medicina, surpreendeu-se a desenvolver o 
questionriocom verdadeiro automatismo. Escreveu, escreveu, sem olharpara o relgio, enchendo folhas e folhas a ponto de sentira cabea estonteada.
       Tomara um quarto no Museum Hotel, onde Christinee ele tinham ficado na sua primeira visita a Londres. O hotel era modestssimo, mas a comida infame, proporcionando 
a oportunidade para que a sua digesto perturbada redundasse numa dispepsia. Obrigou-se a uma dietamais rgida, tomando somente leite. O seu almoo consistia 
apenas num copo de leite, tomado numa confeitariado Strand. No intervalo das provas vivia num verdadeiroatordoamento. Nem lhe passava pela cabea a ideia de sedistrair. 
Quase no saa  rua. S uma vez, por acaso,deu um passeio de autocarro para desanuviar o crebro.
       Logo depois das provas escritas comearam as prticase orais. Andrew sentiu-se ainda mais amedrontado diantedestas ltimas do que das primeiras. com ele 
concorriamuns vinte candidatos, todos mais velhos do que ele equalquer deles com ar inconfundvel de confiana e boasituao. O candidato que estava a seu lado, 
por exemplo,um tal Harrison, com quem conversara uma ou duas vezes,era formado por Oxford, tinha um cargo no hospital dogoverno e consultrio num dos bairros 
de nomeada.
       Quando Andrew comparou as maneiras encantadoras e odesembarao de Harrison com o seu provincianismo desajeitado, compreendeu serem muito diminutas as suas 
possibilidades de provocar boa impresso nos examinadores.
       Na prova prtica, efectuada no hospital da zona sulde Londres, foi muito bem, segundo imaginava. O casoque teve de desenvolver era bronquite num rapazito 
decatorze anos. Como conhecia intimamente assuntos pulmonares fora realmente bofejado pela sorte. Tinha a impresso de ter feito uma boa prova, mas quando comeoua 
oral a sorte pareceu mudar completamente. As provasorais na Faculdade de Medicina tinham as suas peculiaridades.
        Durante dois dias cada candidato era arguido pordois professores sucessivamente. Se ao fim da primeirasesso o candidato fosse considerado incompetente, 
era-lheentregue um bilhete, em termos polidos, avisando-o de queno devia voltar no dia seguinte. Na perspectiva dessefatal aviso, Andrew ficou apavorado quando 
lhe coube porsorteio para primeiro examinador um homem sobre quemouvira falar com viva apreenso: o Dr. Maurice Gadsby.
       Gadsby era um homem franzino e chupado, com olhinhos midos e bigode preto retorcido. Recentemente eleitopara a congregao, nada tinha da tolerncia dos 
examinadores mais velhos. Pelo contrrio, parecia disposto areprovar todos os candidatos que perante ele compareciam.
       Encarou Andrew de testa enrugada e ps seis lminasna sua frente. Cinco dessas lminas foram identificadas correctamente pelo examinando, que no conseguiu 
identificar a sexta. E foi exactamente nesta que se concentroua ateno de Gadsby. Durante cinco minutos perseguiuAndrew. Era, ao que parecia, um vulo de um 
parasitaobscuro da frica Ocidental. Depois disso, displicentemente, sem manifestar interesse, passou o candidato aooutro examinador, sir Robert Abbey.
       Andrew levantou-se e atravessou a sala, plido e decorao opresso. Toda a lassido, toda a inrcia que experimentara no comeo da semana tinham desaparecidoagora. 
Sentia um desejo quase desesperado de ser bemsucedido. Mas estava certo de que Gadsby o reprovaria.
       Levantou os olhos e viu Robert Abbey a contempl-lo comum sorriso amvel, meio divertido.
       - Que h? - perguntou Abbey inesperadamente.
       - Nada, Sr. Professor - murmurou Andrew. - Pareceque no me sa bem com o Dr. Gadsby. S isso.
       - No se preocupe. Lance uma vista de olhos para estesespcimes. E depois diga-me qualquer coisa sobre eles.
       Abbey sorria encorajadoramente. Era um homem de cercade sessenta anos, cara raspada, compleio um tanto rude,testa alta, boca larga e bem humorada. Embora 
Abbeyfosse talvez nessa poca um dos trs mdicos mais ilustresda Europa, havia conhecido muitas provaes e dificuldades no comeo da sua vida profissional. 
Vindo da aldeianatal, apenas com o esteio de uma reputao provinciana,teve de enfrentar em Londres toda a espcie de preconceitos e oposies. Enquanto fitava 
Andrew e dissimuladamente observava o seu fato mal feito, a camisa pobre, ocolarinho mole, a sua gravata ordinria com o n muitomal dado, a expresso de esforo 
no rosto fatigado, voltaram  memria de Abbey os dias da sua juventude provinciana. Instintivamente, o seu corao inclinou-se paraaquele candidato, diferente 
dos outros. Percorrendo a notados resultados j obtidos verificou com satisfao que asclassificaes do rapaz, especialmente na prova prtica,estavam acima da 
mdia.
       Entretanto, com os olhos fitos nos recipientes de vidrodiante dele, Andrew ia mastigando melancolicamente osseus comentrios sobre os espcimes.
       - Basta - disse Abbey subitamente. Tomou um espcime  era de um aneurisma de aorta ascendente e comeou a interrogar Andrew de modo amigvel. As perguntas,simples 
no comeo, foram-se tornando mais complicadase mais difceis, at chegarem finalmente a abranger umnovo tratamento especfico, por inoculao da malria.Mas a 
atitude simptica de Abbey deixou Andrew  vontadee respondeu bem.
       Por fim, pondo de lado o espcime, Abbey perguntou:
       - Sabe alguma coisa sobre a histria do aneurisma?
       - Ambrose Pare - respondeu Andrew, e Abbey j comeara a fazer um sinal de aprovao -  o pretenso descobridordo aneurisma!
       Abbey fez uma cara de espanto.
       - Como pretenso, Dr. Manson? Foi precisamente Pare quem descobriu o aneurisma.
       Andrew ficou vermelho e depois empalideceu quando desenvolveu o assunto:
       - Bem, Sr. Professor,  de facto o que dizem os livros. Encontrar isso em qualquer deles. Eu mesmo medei ao trabalho de verificar tal afirmao em seis 
obras Respirou apressadamente. Mas, por acaso, estive a lerCelsus, para repassar o meu latim... que precisava de factode ser repassado, Sr. Professor... e deparou-se-me 
a palavra aneurismus. Celsus conhecia o aneurisma. Ele descreve-ominuciosamente. E isso foi uns treze sculos antes dePare!
       Houve um silncio. Andrew levantou os olhos, preparado para receber uma censura afvel. Abbey encarava-ocom uma expresso estranha nas feies simpticas.
       - Dr. Manson - disse afinal. - O senhor  o primeiro candidato nesta sala de exames que me diz qualquer coisade original, de verdadeiro, e que eu ignorava.
       Andrew ficou de novo vermelho.
       - Diga-me mais uma coisa.  uma questo de curiosidade pessoal. Que considera o senhor como princpio dominante, quero dizer... Qual a ideia fundamental 
que lheacode ao esprito quando est no exerccio da sua profisso?
       Houve uma pausa durante a qual o crebro de Andrew funcionou desesperadamente. Por fim com a impresso deque ia estragar todo o bom efeito que tinha produzido,respondeu 
um pouco ao acaso:
       - Creio... Creio... O que afirmo sempre a mim mesmo que coisa nenhuma devo considerar como definitiva.
       - Obrigado, Dr. Manson.
       Quando Andrew deixou a sala, Abbey pegou na pena. Sentia-se jovem outra vez e perigosamente sentimental. Pensou: Se ele me tivesse dito que a medicina  
um sacerdcio, que s cogitava em curar os enfermos de socorrer a humanidade sofredora, palavra de honra que mevingaria dessa decepo dando-lhe um zero. Mas, 
contentecom a resposta, Abbey traou em frente do nome de Andrew a nota mxima - o famoso 100 de que nunca houveraexemplo. E, sem dvida, se pudesse passar da 
conta como pensava no seu foro ntimo, gostaria de dobraraquele nmero.
       Algum tempo depois, Andrew desceu a escada com osoutros candidatos. Em baixo, ao lado de uma mesinhaforrada de couro, um porteiro de libr levantara-se 
comuma pilha de sobrescritos.  medida que os candidatosiam passando entregava um deles a cada um. Harrisonque seguia ao lado de Andrew, rasgou o sobrescrito 
apressadamente. A expresso alterou-se-lhe. Disse devagar:
       - Parece que no me querem c amanh. E depoiscom um sorriso forado: - E o senhor como foi tratado?
       Os dedos de Andrew tremiam. Quase no podia ler.
       Atordoado, ouviu Harrison felicit-lo. As suas esperanas ainda se podiam manter. Foi at  leitaria e bebeu umcopo de leite pasteurizado. E pensava, no 
auge da tensonervosa: Se depois de tudo isso eu no passar... eu... atirar-me-ei para debaixo de um carro.O dia seguinte foi de arrasar os nervos. Mais de metadedos 
candidatos j tinha sido eliminada e constava que orestante tambm j estava condenado. Andrew no faziaa menor ideia se estava bem ou mal. Sabia apenas que acabea 
lhe doa horrivelmente, que os ps estavam geladose que sentia um vazio dentro de si.
       Afinal terminaram as ltimas provas. s quatro datarde Andrew saiu da sala, exausto, melanclico, endireitando nervosamente o casaco. Ento, percebeu que 
Abbeyestava ali, em frente do fogo do hall. Fez meno depassar, porm Abbey, no sabia porqu, estava de moestendida, sorrindo, falando, dizendo-lhe... dizendo-lhe 
quefora aprovado.
       Graas a Deus! Tinha passado! Conquistara o ttulo!
       Sentiu-se outra vez cheio de vida, maravilhosamente cheio de vida. A dor de cabea desaparecera. Todo o cansao desaparecera. Todo o cansao passara. E quando 
correupara o posto do correio mais prximo, o corao cantava,cantava loucamente. Fora aprovado, ganhara o ttulo,tendo sado no da zona elegante de Londres, 
mas de umaremota cidade mineira. Todo ele era exaltao esfuziante.
       Afinal de contas sempre valera a pena o grande esforo, aquelas noites interminveis, aquelas correrias loucas aCardiff, aquelas horas fatigantes de estudo. 
E corria pelasruas, dando encontres a toda a gente, os olhos fuzilandonuma correria doida, na nsia de telegrafar a Christinea comunicar o milagre.

11
       J era perto da meia-noite quando o comboio chegou aAberalaw. Vinha com trinta minutos de atraso. Em todoo percurso do vale a locomotiva lutou com um terrvelvendaval. 
Quando desceu  plataforma quase foi arrastadopela violncia do furaco.
       A pequenina gare estava deserta. As rvores plantadasem frente da estao encurvavam-se como arcos, tremendoe assobiando ao sopro da ventania. E l em cima 
as estrelas brilhavam com fulgor mais distante.
       Andrew seguiu ao longo da Station Road. As rajadas,que o levavam a encolher o corpo, como que lhe excitavamo esprito. Cheio do seu triunfo, do seu contacto 
com oscorifeus das altas rodas mdicas, com as palavras de SirRobert Abbey a ecoarem-lhe nos ouvidos, queria chegar atoda a pressa junto de Christine, para lhe 
contar alegrementecomo tudo aquilo decorrera. O telegrama j lheantecipara a boa notcia; mas agora ele queria explicarnos mnimos pormenores toda aquela aventura 
emocionante.
       Quando, de cabea baixa, desembocava em TalgarthStreet, teve de repente a impresso de que corriam atrsdele. Um homem pisava fortemente mas o rudo dos 
seuspassos na calada ao perder-se no fragor do vendaval sugeria a ideia de um fantasma. Andrew parou instintivamente.
        Quando o homem se aproximou, viu que era FrankDavies, do servio de socorro do poo n. 3 da mina deantracite. Davies tinha sido um dos seus alunos no 
cursode Pronto-socorro que organizara na Primavera anterior.
       Davies tambm reconheceu logo o mdico.
       - Estava  sua espera, doutor. Ia agora  sua casa. O vento derrubou os postes telefnicos. Uma rajada maisforte abafou as suas ltimas palavras.
       - Que aconteceu? - gritou Andrew.
       - Houve um desmoronamento no poo n. 3. - Chegou-se mais para junto de Manson, pondo as suas mos emfunil para ser ouvido melhor. - Um trabalhador est 
sepultadol em baixo. No parece possvel arranc-lo de l.  o Sam Bevan. Est na sua lista.  melhor o doutor darum pulo at l, para socorrer o homem.
       Andrew deu alguns passos em companhia de Davies,mas de repente lembrou-se.
       - Preciso da minha maleta - berrou para o outro. - Corra  minha casa e v busc-la. Vou directamente aopoo n. 3. Olhe, Frank, diga a minha mulher onde 
fui.
       Precipitando-se pela margem da linha frrea e atravessando depois Roath Lane, quase que arrastado pelaventania, em menos de cinco minutos Andrew chegava 
aopoo n. 3. No posto de socorros encontrou  sua esperatrs trabalhadores e o subdirector, cuja fisionomia se desanuviouum pouco ao v-lo.
       - Boas noites, doutor. Estamos todos s voltas com atempestade. E ainda por cima tivemos um desmoronamento. Ningum morreu, graas a Deus, mas um dos rapazes 
ficou preso pelo brao. No podemos levant-lo nemuma polegada. E o tecto da galeria ameaa desabar.
       Dirigiram-se para a torre balouante do poo. Dois dostrabalhadores carregavam uma padiola com talas espalhadas. O outro levava uma caixa com material de 
pronto-socorro. Quando entraram no elevador de madeira umvulto apareceu do ptio, a correr. Era Davies, ofegante,com a maleta.
       - Andou ligeiro, Frank - disse Manson quando Davies,no elevador, se agachou a seu lado.
       Davies apenas abanou a cabea. No podia falar. Houveum rangido de cordas, um momento de ansiedade e agaiola foi descendo, at bater no fundo da galeria. 
Saramtodos um a um; o subdirector em primeiro lugar, depoisAndrew, Davies ainda com a maleta na mo e por fim ostrs mineiros.
       Andrew j havia percorrido galerias de mina. Estava acostumado s galerias altas dos jazigos de Blaenelly,grandes cavernas escuras e ressoantes, cavadas 
bem nofundo da terra, onde o minrio era arrancado do seu leito.
       Mas aquele poo n. 3 era uma mina velha com um longoe tortuoso caminho que ia dar aos trabalhos de minerao.
       A galeria era menos um corredor que uma furna apertadae baixa, tosca e gotejante, atravs da qual tinham de engatinhar muitas vezes, mesmo rastejar, numa 
distncia dequase meia milha. De repente a lanterna que trouxera osubdirector imobilizou-se logo adiante de Andrew e estecompreendeu que tinham chegado.
       Manson avanou um pouco, rastejando devagarinho.
       Trs homens, ligados, cada um puxando pela cintura oque estava na frente, faziam o que lhes era possvel paraarrancar do fundo de um buraco o operrio que 
jazianuma atitude confusa, o corpo torcido para um lado, umombro virado para trs, aparentemente perdido na massadas rochas desmoronadas em torno dele. Ao lado 
doshomens viam-se instrumentos espalhados, dois bornais demerenda amolgados, casacos abandonados.
       - Como se passam as coisas, rapazes? Perguntou o subdirector em voz baixa.
       - No h possibilidade de o arrancarmos dali - ohomem que respondeu voltou a cara suada e suja. - Jexperimentmos tudo.
       - Pois no continuem - disse o subdirector lanandoum olhar ansioso para o tecto da mina. - Aqui est odoutor. Afastem-se um pouco, rapazes, e deixem espaolivre. 
 melhor irem l para trs.
       Os trs homens afastaram-se do buraco e Andrew, aquem abriram caminho, avanou. Nesse instante pela suacabea perpassou a lembrana do seu exame recente, 
doprogresso da bioqumica, da terminologia pomposa, dasfrases cientficas. O exame no havia previsto uma contingncia semelhante.
       Sam Sevan no perdera os sentidos. Mas as suas feies estavam muito plidas sob a poeira produzida pelo desmoronamento. Esboou um fraco sorriso para Manson. 
       - Est a parecer-me que o doutor vai agora fazer uma demonstrao do servio de pronto-socorro  minha custa Bevan fora aluno do curso de socorro de emergncia 
emais de uma vez tinha sido requisitado para ajudar aoservio de curativos.
       Andrew chegou junto do sinistrado. A luz da lanternado subdirector, projectada por cima do seu ombro, correuas mos pelo corpo do ferido, que estava livre, 
menos oantebrao esquerdo, preso nos escombros ao comprido eesmagado sob o enorme peso da rocha que imobilizava ohomem. Estava ali como um prisioneiro.
       Andrew verificou imediatamente que o nico meio delibertar Bevan era amputar-lhe o antebrao. E o pobreSam, que o observava com os olhos aflitos onde se 
patenteavador, leu essa deciso no momento em que ela foraconsiderada inevitvel.
       - Faa o que tem a fazer, doutor - murmurou - mastire-me daqui depressa.
       - No se preocupe, Sam - disse Andrew. - Eu voufaz-lo adormecer. Quando acordar j estar na cama.
       Agachado na lama sob o tecto de dois ps apenas dealtura, ele tirou o casaco, dobrou-o e enfiou-o por debaixoda cabea de Bevan. Arregaou as mangas da 
camisa epediu a maleta. O subdirector entregou-a e cochichou aoouvido de Andrew.
       - Por amor de Deus, doutor, ande depressa. Este tectovai desabar em cima de ns de um momento para o outro.
       Andrew abriu a maleta. Sentiu imediatamente umcheiro forte de clorofrmio. Antes mesmo de mergulhara mo no bojo escuro da maleta e tocar num pedao de 
vidro j adivinhara o que acontecera. Na pressa de chegar  mina Frank deixara cair a maleta. Quebrara-se o frasco. O clorofrmio entornara-se; o mal era irreparvel. 
Umarrepio perpassou pelo corpo de Andrew. No havia tempopara mandar algum  superfcie e no tinha anestsico!
       Talvez durante trinta segundos ficou paralisado. E ento, automaticamente, procurou com os dedos a seringade injeco, encheu-a e aplicou a Bevan uma dose 
mximade morfina. No podia ficar  espera que o anestsicoproduzisse todo o efeito. Colocou a maleta inclinada demodo a ter os instrumentos ao alcance da mo, 
e disse,enquanto apertava o torniquete:
       - Feche os olhos, Sam!
       A luz era mortia e as sombras moviam-se numa confuso bruxuleante.  primeira inciso um gemido passouatravs dos dentes cerrados de Bevan. E gemeu outra 
vez.
       Ento, quando o bisturi tocou o osso, teve a sorte de desmaiar.
       Um suor frio inundava a fronte de Andrew quandopinou a artria da carne mutilada de onde jorrava osangue. No podia ver o seu trabalho. Sentia-se sufocadoali, 
naquele buraco muito abaixo da superfcie do solo,enterrado na lama. No havia anestsico, nem sala deoperaes, nem uma srie de enfermeiras para acorrer aoseu 
chamamento. No era cirurgio. Estava apenas a fazero que podia e talvez nem chegasse a um resultado satisfatrio. O tecto da mina ia desabar em cima de todos.
       Atrs dele ouvia a respirao opressa do subdirector. Decima escorriam gotas de gua muito fria que lhe caamno pescoo. Ardiam os dedos manchados de sangue, 
que trabalhavam febrilmente. Tinha a percepo do ranger daserra e da voz de sir Robert Abbey, de muito longe: Aoportunidade para a prtica cientfica... Oh! 
Deus doCu! Nunca chegaria a um resultado feliz!
       Enfim! O alvio foi to grande que quase soluou. Psum tampo de gase sobre o coto ensanguentado. Com aspernas a tremer disse:
       - Podem retirar o homem.
        distncia de uns metros numa clareira da galeria damina, com espao para ficar de p e quatro lmpadas emtorno dele, ultimou o trabalho. Ali era mais 
fcil. Limpou,ligou, ensopou a ferida com anti-sptico. Um dreno agora,depois as suturas. Bevan continuava sem sentidos, masembora fraca, a pulsao era normal. 
Andrew passou amo pela testa. Pronto!
       - Levem com cuidado a padiola. Cubram o homemcom esses cobertores.  Precisaremos de sacos de guaquente assim que sairmos daqui.
       Curvando a cabea nos lugares mais baixos, a lenta procisso comeou a vencer as sombras da furna. Os homens no tinham dado uns sessenta passos quando ecoouna 
escurido atrs deles um estrondo surdo e abafado.
       Era o ltimo rumor de um comboio entrando num tnel.
       O subdirector no olhou para trs. Disse apenas a Andrew,numa emoo a custo contida:
       - A est.  o resto do tecto que foi abaixo.
       A caminhada de volta durou cerca de uma hora. Tinhamde arrastar a padiola meio inclinada para um lado noslugares mais estreitos. Andrew j nem podia calculardesde 
quanto tempo estavam ali em baixo. Mas afinal chegaram todos  boca da mina.
       Subir, subir depressa, sair daquelas profundezas, eraa aspirao de todos. A chicotada fina do vento azorragou-lhes a cara quando saram do elevador. Numa 
espcie dextase, Andrew deu um longo suspiro. Ficou ao p daescadinha de sada, encostado ao corrimo. Estava escuroainda, mas tinham pendurado no ptio da mina 
umagrande lanterna de petrleo que crepitava e tremia emlabaredas incertas. Em redor da lanterna, Andrew viu umpequeno grupo de figuras expectantes. Havia muitas 
mulheres com xale na cabea.
       De repente, quando a padiola vinha lentamente atrsdele, Andrew ouviu algum gritar alucinadamente o seunome. A seguir os braos de Christine enlaaram-lhe 
opescoo. Abraada ao marido, soluava desesperadamente.
       De cabea descoberta, apenas com um casaco sobre acamisa de dormir, os ps sem meias enfiados em chinelinhas de casa, era uma figura quase irreal naquela 
escurido tempestuosa.
       - Que aconteceu? - perguntou ele, espantado, tentando afrouxar os braos de Christine para lhe poder ver o rosto.
       Ela, entretanto, no o queria largar. Agarrava-o freneticamente, como quem se est a afogar e murmurava entre soluos:
       - Disseram que o tecto da mina tinha desabado eque tu... que tu tinhas l ficado.
       A pele estava azulada, os dentes rangiam. Andrewlevou-a at ao fogo do posto de socorros, envergonhado,mas profundamente comovido. Tomaram ali cacau bemquente. 
Beberam os dois pela mesma xcara fumegante.
       E passou-se muito tempo antes que um deles se lembrassede falar sobre o novo e grande ttulo cientfico que Andrewconquistara.

12
       O salvamento de Sam Bevan no era coisa que causasse sensao numa cidade como Aberalaw, que j haviaconhecido, noutros tempos, os maiores desastres de 
minas.
       Contudo, foi motivo de grande prestgio para Andrew noseu distrito. Se tivesse voltado de Londres apenas com osucesso cientfico, seria saudado simplesmente 
com umnovo escrnio por mais uma dessas tolices modernistas.
       Mas pelo que se passara recebia cumprimentos e sorrisosde pessoas que antes nem pareciam dar pela sua presena.
       A verdadeira extenso da popularidade de um mdicopodia ser avaliada pela sua passagem pelos quarteiresoperrios. Agora, onde outrora era desfeiteado por 
tantasportas que se fechavam estrondosamente, Andrew encontrava todas elas escancaradas. Em mangas de camisa efumando cachimbo, os moradores conservavam-se  
entrada das portas de fisionomia radiante, prontos para lhedirigirem a palavra. As mulheres tambm estavam dispostas a convid-lo a entrar um instantinho. Quandopassava 
na rua, as crianas saudavam-no risonhamentepelo nome.
       O velho Gus Parry, chefe de turno de brocadores dopoo n. 2 e o mais antigo do distrito oeste, resumia paraos seus companheiros a nova corrente de opinio 
quandoficava parado olhando para a figura de Andrew que seafastava.
       - Ento, rapazes!  um sujeito metido com os livros,no h dvida. Mas tambm pode fazer coisas extraordinriasquando  preciso.
       Comearam a voltar cartes para o consultrio de Manson. A princpio aos poucos, mas depois, quando se verificouque no recebia mal os desertores arrependidos, 
emrepentina avalanche. Owen estava contente com o aumentode nomes da lista de Andrew. Um dia, ao procur-lo naPraa, comentou, sorrindo:
       - Eu no lhe disse? E agora?
       Llewellyn demonstrou grande satisfao pelo resultadodo concurso. Felicitou Andrew efusivamente pelo telefonee sub-repticiamente requisitou-o para servio 
dobrado nasala de operaes.
       - A propsito - observou ele, radiante, depois de umalonga sesso de aplicaes de ter - voc explicou aos examinadores que era assistente numa instituio 
de auxliosmdicos?
       - Mencionei o seu nome, Dr. Llewellyn - respondeuAndrew melifluamente, e isso foi o bastante para quetudo corresse bem.
       Oxborrow e Medley, da clnica Leste, fingiram ignoraro sucesso de Andrew. Mas Urquhart ficou realmente satisfeito, embora o seu comentrio tomasse a forma 
de umdespejar de injrias.
       - O Diabo que o carregue, Manson! Que pensa o senhor que est a fazer? Quer humilhar-me com os seustitulescos?
       A fim de homenagear o distinto colega, consultou-osobre um caso de pneumonia que estava a tratar e pediu-lhe que fizesse o prognstico.
       - Ela salva-se - disse Andrew e apresentou as razes cientficas.
       Urquhart abanou a velha cabea num gesto de dvida.
       - Nunca ouvi falar nesse tal soro polivalente ou nestesseus anticorpos ou nestas suas unidades internacionais. Ela, porm,  Powell pelo sangue e se aos 
Powell inchaa barriga quando esto com pneumonia, morrem sempreantes de oito dias. Conheo os antecedentes da famlia. Ela est com a barriga inchada, no est?
       O velho voltou ao assunto, com ar de sombrio triunfosobre o mtodo cientfico quando, ao fim de uma semana,a doente morreu.
       Denny, j ento no estrangeiro, no teve conhecimentodo novo ttulo de Andrew. Mas chegou ainda um ltimoe inesperado cumprimento. Era de Freddie Hamson, 
queenviou uma longa carta. Freddie tinha visto os resultadosdos exames no Lancet, felicitava Andrew pelo seu sucesso,convidava-o a ir a Londres, e por fim expunha 
minuciosamente as vitrias emocionantes que estava obtendo emQueen Anne Street, onde, como previra naquela noitepassada em Cardiff, brilhava agora a sua placa.
       -  uma vergonha termos perdido contacto com Freddie - declarou Manson. - Devo escrever-lhe mais amide. Tenho um palpite de que iremos v-lo outra vez. 
Bonitacarta, no  assim?
       - Sim, muito bonita - respondeu Christine secamente. - Mas parece que trata exclusivamente dele.
       Com a aproximao do Natal a temperatura tornou-semais baixa. Dias arrepiantes e gelados e noites silenciosase estreladas. O cho duro como ferro rangia 
sob os psde Andrew. O ar, muito claro, era como um vinho capitoso. Enquanto se esboava no seu esprito o novo passo que ia darna grande investida para o problema 
da inalao das poeiras.
        As descobertas entre os seus prprios clientes levarammuito longe as suas esperanas e obtivera agora a permissode Vaughan para estender o campo das pesquisa, 
procedendo a exames sistemticos de todos os trabalhadores nas trs minas de antracite. Era uma oportunidademaravilhosa. Pensou empregar como elementos de verificao 
os operrios que trabalhavam no fundo da minae os que labutavam  superfcie. Queria comear logo nocomeo do Ano Novo.
       Na vspera de Natal voltou do consultrio com a extraordinria sensao de bem-estar fsico e de antegozo espiritual. Ao passar pelas ruas no podia deixar 
de seaperceber dos preparativos da festa. Os mineiros daquelaregio tinham um grande culto pelo Natal. Desde a semanaanterior, enfeitava-se de bandeirolas de 
papel a sala dafrente de todas as casas, fechada  chave por causa dascrianas. Havia brinquedos escondidos nas gavetas dascmodas e acumulavam-se nas mesas bem 
ornamentadasas gulodices, os bolos, as laranjas, os biscoitos e os rebuados, tudo comprado com o dinheiro abonado nesta poca do ano pela Cooperativa.
       Christine tambm trabalhou com alegre disposio nassuas decoraes, e  noite, quando chegou a casa, Andrewnotou logo uma animao maior na fisionomia 
da mulher.
       - No fales! - exclamou ela com vivacidade, estendendo-lhe a mo. - Nem uma palavra! Fecha os olhos evem comigo!
       Ele deixou-se levar at  cozinha. Numa mesa amontoava-se uma poro de embrulhos mal feitos, alguns atde papel de jornal, mas todos com um cartozinho. 
Elecompreendeu imediatamente serem presentes e lembranasdos seus clientes. Alguns nem mesmo estavam embrulhados.
       - Olha, Andrew - gritava Christine. - Um ganso! edois patos! E que lindo bolo gelado! E uma garrafa devinho de cidra! Foram bem gentis! No  comovente 
queeles se lembrem de nos dar tudo isso!
       Ele nem podia falar. Sentia-se cativado pela demonstrao, por aquela prova comovedora de que a gente dodistrito comeava afinal a apreci-lo, a gostar dele. 
ComChristine encostada ao ombro, leu os bilhetes, todos escritoscom custo e eivados de erros, alguns rabiscados a lpisem velhos sobrescritos virados do avesso: 
Do seu clientegrato do Cefan Row n. 3; com os agradecimentos daSr.a Williams. De Sam Bevan viera esta jia de estilo:
       Obrigado por me ter salvo em tempo, para que eu possa gozar o Natal, doutor. E assim por diante...
       - Devemos guardar tudo isto, meu querido - disse Christine em voz baixa. - Vou lev-los para cima.
       Quando Andrew recobrou a verbosidade habitual, coma ajuda de um bom copo de vinho de cidra feito em casa,ps-se a andar de um lado para o outro da cozinha, 
enquantoChristine recheava o ganso. Andrew estava delirante.
       - Era assim que os honorrios deviam ser pagos, Chris. Nada de dinheiro, nada dessas contas amaldioadas, nadade pagamento a tanto por cabea, nada de ganncia. 
Pagamento em espcie. Compreendes-me, no , querida? O mdico trata do doente e o doente manda em troca algumacoisa que ele fez, que ele produziu. Carvo, por 
exemplo: um saco de batatas da sua horta, ovos, se cria galinhas. Esse  o meu ponto de vista. Assim, um mdico poderiater uma tica ideal! E a propsito dessa 
Sr.a Williams, quenos mandou os patos... Leslie encharcou-a de poes eplulas durante cinco anos bem puxados antes que eucurasse a sua lcera do estmago com 
uma dieta de cinco semanas. Que estava eu a dizer? Ah! Sim! V l! Se fossepossvel aos mdicos eleminarem a questo do ganho todo o sistema seria purificado...
       - Sim, querido. Se no  incmodo para ti, traz-me astaas de uva. Esto na prateleira de cima do guarda-loua.
       - Que diabo, mulher! No ouves o que te digo! Upa! Esse ganso deve ficar bastante gostoso.
       O dia de Natal amanheceu lindo. No azul distante, asmontanhas pareciam feitas de prolas, na brancura daneve. Depois de algumas consultas da parte da manhAndrew 
saiu para a sua volta com a agradvel expectativade no haver trabalho  noite na clnica. Era pequena alista de visitas a fazer. Preparavam-se grandes almoosem 
todas as casas, inclusive na sua. No se cansava dedar e receber boas-festas ao longo das ruas. E no podiadeixar de confrontar as recepes alegres de agora coma 
frieza geral com que era acolhida um ano atrs a suapassagem por aquelas mesmas ruas.
       Foi talvez esse pensamento que o fez parar, com estranha hesitao, em frente do n. 18 de Cefan Row. Detodos os antigos clientes - fora Chenkin - de quem 
noqueria saber, Tom Evans era o nico que no tinha voltadopara a sua clnica. Mas nesse dia, tomado de animao fora do comum, talvez arrastado pelo sentimento 
defraternidade humana, veio de repente ao seu esprito oimpulso de aproximar-se de Evans e desejar-lhe feliz Natal.
       Depois de bater na porta, abriu-a e foi entrando ato fundo da cozinha. Parou ali, com uma sensao de vergonha.
        A cozinha estava muito desprovida, quase vazia,e s havia fogo aceso numa das fornalhas do fogo. Sentado ali, numa cadeira de encosto desconjuntada, via-seTom 
Evans, com o brao inutilizado todo torcido parafora como uma asa. O aspecto curvado dos ombros erade quem estava abatido, sem esperana. Sobre os seusjoelhos 
estava sentada uma garota de quatro anos deidade. Ambos contemplavam distraidamente, em silncio,um ramo de pinheiro apoiado num balde velho. Ao pdaquela minscula 
rvore de Natal, que Evans tinha idobuscar a duas milhas de distncia, havia trs pequeninasvelas de sebo ainda por acender. Em baixo, o que constitua o banquete 
de Natal para a famlia: trs laranjaspequenas.
       De repente Evans voltou-se e viu Andrew. Teve um sobressalto e a vergonha e o ressentimento foram transparecendo aos poucos na sua fisionomia. Andrew compreendeu 
que era uma aflio para o homem ser surpreendido assim, sem emprego, com parte da mobliaempenhada, invlido, pelo mdico de quem rejeitara osconselhos. Ele presumia, 
 claro, que Evans no estavabem da vida, mas no suspeitava que a situao fosse tolamentvel. Sentiu-se desconcertado e constrangido, quisdar meia volta, retirar-se. 
Nesse momento, a Sr.a Evansentrou na cozinha pela porta do fundo, com um saco depapel debaixo do brao. Assustou-se tanto ao ver Andrew,que deixou cair o saco, 
e este, batendo no cho de pedra,rasgou-se todo e mostrou dois pedaos de peito de vaca, a carne mais barata que podia comprar se em Aberalaw.
       Olhando para a me a criana comeou a chorar.
       - Que h, doutor? - atreveu-se a dizer, finalmente, aSr.a Evans, com as mos nas ancas. - Ele fez alguma coisa?
       Andrew mordeu os lbios. Estava to emocionado esurpreso com a cena que s tinha vontade de sair dali omais depressa possvel.
       - Sr.a Evans... - no tirava os olhos do cho. - Eu seique houve um grande mal-entendido entre mim e o seumarido. Mas hoje  dia de Natal e... bem... eu 
desejava... - e concluiu atabalhoadamente. - Quero dizer, ficariaimensamente satisfeito se vocs quisessem ajudar-me acomer o almoo do Natal.
       - Mas, doutor... - a mulher hesitava.
       - Cala-te, mulher! - Evans interrompeu-a - orgulhosamente. - No vamos almoar fora. Se peito de vaca  tudoo que podemos ter, ento  peito de vaca que 
queremoscomer. No precisamos da caridade do prximo.
       - Que est o senhor a dizer? - exclamou Andrew, consternado. - Estou a convid-los como amigos.
       - Ah! O senhor no  melhor do que os outros! - respondeu Evans, amarguradamente. - Quando um sujeitoest na m de baixo s o que sabem fazer  atirar-lhe 
cara uns restos de comida. Fique com o seu maldito almoo. Ns no precisamos dele.
       - Tom, que  isso?! - protestou a Sr.a Evans.
       Andrew voltou-se para ela, acabrunhado, mas ainda disposto a levar por diante a sua inteno.
       - Procure convenc-lo, Sr.a Evans. Eu ficaria realmente desapontado se no viessem.  uma e meia. Ficamos espera.
       E antes que algum pudesse responder, virou as costase abandonou a casa.
       Christine nada disse quando Andrew contou precipitadamenteo que tinha feito. Se no tivessem ido  Sua,para os desportos de Inverno, seria quase certo 
que osVaughan viriam almoar com eles. E era numa tal ocasioque se lembrara de convidar um mineiro desempregadocom toda a sua famlia. Era nisso que Andrew estava 
apensar, de costas para a lareira, vendo Christine prepararnovos lugares na mesa.
       - Ests aborrecida, Chris? - perguntou ele, afinal.
       - Eu pensei que me tinha casado com o Dr. Manson -respondeu ela com um vislumbre de aspereza - e no comS. Bernardo. Na verdade, querido, s um sentimental 
incorrigvel.
       Os Evans chegaram exactamente  hora marcada, penteadssimos e endomingados, muito pouco  vontade, cheios de receio e de amor-prprio. Esforando-se nervosamentepor 
criar um ambiente de hospitalidade, Andrew tomouprecaues exageradas para que Christine mostrasse boacara e a reunio no fosse um fracasso desanimador.
       Olhando todo envergonhado para Andrew, Evans sentiu-semuito acanhado na mesa, por causa do brao doente.
       A mulher era obrigada a cortar a carne e a pr manteigano po para ele. Por pouca sorte, quando Andrew agarrouno galheteiro, a tampa do frasco da pimenta 
e uma boaquantidade de tempero caram no seu prato de sopa. Houveum silncio constrangedor, mas nisto a pequena Agnes,deu uma risadinha que no pde reprimir. 
Tomada depnico, a me virou-se para ralhar com ela, mas ao ver aexpresso de Andrew no prosseguiu. Da a momentostodos se puseram a rir.
       Perdendo o receio de ser tratado como um protegido,Evans revelou-se um ser humano entusistico jogadorde rugby e grande apaixonado pela msica. Trs anosantes 
tinha ido mesmo a Cardigan para cantar no Eisteddfod(1) dali. Orgulhoso de mostrar os seus conhecimentos, discutiu com Christine a oratria de Elgar, enquanto Agnes 
se entretinha com Andrew.
       
(1) Eisteddfod  o nome dado ao congresso de poetas e musicistas do pas de Gales, que se rene em vrias cidades para a conservao eprogresso do folclore tradicional 
daquela regio da Gr-Bretanha.
       
       Mais tarde, Christine levou a Sr.a Evans e a garotinhapara a outra sala. Houve um silncio de constrangimentoquando Andrew e Evans ficaram ss. Um pensamentocomum 
dominava o esprito de ambos, porm nem um nemoutro sabia como exprimi-lo. Finalmente, numa espciede arranque desesperado, Andrew disse:
       - Sinto muito o que aconteceu com o seu brao, Tom. Eu sei que ainda por cima o senhor perdeu o lugar quetinha na mina. No julgue que eu pretendo cantar 
vitria sua custa ou coisa parecida. Lamento profundamentetudo isso.
       - No lamenta mais do que eu - disse Evans.
       Houve uma pausa, e depois Andrew concluiu :
       - Interessar-me-ia saber se o senhor me autoriza a queeu fale ao Sr. Vaughan sobre o seu caso. Se lhe pareceque estou a meter-me na sua vida, calo-me! Mas 
a verdade que tenho certa influncia junto dele e poderia conseguircom certeza um emprego para si fora da mina. Um lugarde apontador, ou coisa assim...
       Parou, no ousando olhar para a cara de Evans. Destavez o silncio foi prolongado. Afinal, Andrew levantou osolhos, mas foi apenas para os baixar de novo 
no mesmoinstante. Corriam lgrimas pelas faces de Evans, todo oseu corpo tremia no esforo de no se deixar vencer pela emoo. Mas era intil. Estendeu na mesa 
o brao soe nele mergulhou a cabea.
       Andrew levantou-se e dirigiu-se  janela, onde ficoupor alguns minutos. Quando voltou Evans j se dominara. No pronunciou palavra, absolutamente nada, 
e os seusolhos evitaram os de Andrew numa longa reticncia, muitomais significativa do que qualquer expresso.
       s trs e um quarto a famlia de Evans partiu numadisposio que contrastava vivamente com o ar constrangido da chegada. Christine e Andrew entraram na 
saleta.
       - Sabes, Chris - filosofava Andrew - de toda a desgraa deste pobre homem, isto , o seu brao inutilizado,no  ele o culpado. No confiou em mim porque 
eu eranovato. Mas o amigo Oxborrow, que aceitou o seu carto,este devia saber. Ignorncia, ignorncia, pura e amaldioada ignorncia! Os mdicos deviam ser obrigados 
porlei a estar em dia com os progressos da medicina, o responsvel por isso tudo  o nosso sistema gangrenado. Devia haver cursos obrigatrios para mdicos depois 
de formados.  De cinco em cinco anos...
       - Meu querido! - protestou Christine do sof, sorrindopara o marido: - J estive assoberbada o dia inteiro coma tua filantropia. Contemplei o esvoaar das 
tuas asas deanjo. No me impinjas ainda por cima um sermo. Vemsentar-te aqui, ao meu lado, que eu tenho hoje um motivode facto importante para querer ficar assim 
sozinha contigo.
       - Ah, sim? - disse num ar de dvida. E depois indignado: - Espero que no estejas a lamentar-te. Achoque procedi correctamente. Afinal de contas...  Natal!
       Ela riu silenciosamente.
       - Oh! Meu querido, at te mostraste demasiadamentebom. Se tivesse havido logo depois uma tempestade deneve, sairias acompanhado do teu co S. Bernardo eagasalhado 
at ao pescoo... irias procurar algum que andasse perdido na montanha, bem tarde, altas horas da noite. 
       - Eu sei de algum que foi ao poo n. 3, bem tarde,altas horas da noite... - resmungou ele, com mordacidade- e essa pessoa no estava devidamente agasalhada.
       - Senta-te aqui - e ela estendia-lhe os braos. - Tenhouma coisa para te contar.
       Andrew ia sentar-se ao lado dela, quando, de repente,soou na rua o rudo estridente de uma buzina de automvel.
       - Bolas! - foi tudo quanto Christine achou para dizer.
       S uma buzina de automvel em toda Aberalaw tinhaaquele som. Era de facto Con Boland.
       - No contavas com eles? - perguntou Andrew, umtanto surpreendido. - Con disse que viria com a famliatomar ch connosco.
       - Est bem! - disse Christine, levantando-se e acompanhando-o  porta.
       Avanaram ao encontro dos Bolands, que estavam emfrente do porto, no carro remodelado. Con, ao volante,todo empertigado com um chapu de coco e umas luvasnovas 
e enormes, que subiam muito acima do pulso. A seulado, no banco da frente, Mary e Terence. As trs outrascrianas vinham atrs, ao lado da Sr.a Boland, que carregava 
nos braos o beb. Estavam todas to apertadas,apesar do alongamento do veculo, como sardinha emlata.
       De repente, a buzina comeou de novo: Krr-krr-krr....
       Ao virar-se para o lado de fora, Con apertara inadvertidamente o boto e este ficara preso interiormente. A buzinano parava: Krr-krr-krr... Atrapalhado, 
Con mexia numa coisa e noutra e praguejava. Abriam-se janelas na vizinhana, mas a Sr.a Boland continuava sentada com umaexpresso distrada no rosto imperturbvel, 
segurando obeb sonhadoramente.
       - Raios a partam! - exclamou Con, com as pontas erisadas do bigode roando o guarda-lama. - Vai-se abaixo abateria. Que ser? Curto-circuito ou qu?
       -  o boto, pap! - disse Mary com toda a calma.
       Enfiou a ponta da unha na parte inferior do boto dabuzina e levantou-o. A algazarra cessou.
       - Antes assim - suspirou Con. - Como vai, Mansonmeu filho? Que lhe parece esta dona-elvira? O comprimentofoi aumentado de uns dois ps pelo menos. No est 
estupendo?  Imagine que ainda h um pequeno defeito namudana. No conseguimos dar tudo na ladeira. 
       - Ns s parmos alguns minutos na subida, pap- disse Mary.
       - No tem importncia - disse Con. - Em breve o problema  estar resolvido, quando eu desmontar o carronovamente. Como tem passado, Sr.a Manson? Aqui estamos 
todos para lhes desejar as boas festas e tomar ch.
       - Entre, Con - Christine sorriu. - Estou encantadacom as suas luvas!
       - Presente de Natal c da senhora - respondeu Com, contemplandoas luvas enormes.  So sobras de fornecimento para o exrcito. A senhora acredita que ainda 
estoa liquidar essas coisas! Ah! Que tem esta porta?
       No conseguindo abrir a portinhola do carro, passouas pernas compridas por cima dela, pulou, ajudou as crianase a mulher a sarem do fundo do automvel, 
passourevista ao veculo tirando com o maior carinho um salpico de lama do pra-brisas e acompanhou a famlia entrada de Vale View.
       O ch foi muito cordial. Con estava animadssimo, todo envaidecido com a sua obra.  
       - Vocs no vo reconhecereste carro depois de pintado.
       A Sr.a Boland, sempre distrada, bebeu seis xcaras dech preto, bem forte. As crianas comearam pelos biscoitosde chocolate e terminaram com uma questo 
paraa conquista do ltimo bocadinho de po. Limparam tudoo que havia sobre a mesa.
       Depois do ch, enquanto Mary foi lavar os pratos,insistia em dizer que Christine parecia cansada Andrewtirou o beb dos braos da Sr.a Boland e ps-se a 
brincarcom ele no tapete, junto da lareira. Era o beb maisrechonchudo que alguma vez vira, um menino de Rubens,olhos enormes e solenes e dobras de gordura nas 
articulaes.
        Tentava teimosamente enfiar um dedo nos olhosde Manson. E todas as vezes que fracassava, uma expresso de majestoso espanto desenhava-se no seu rosto. 
Sentada com as mos no colo, Christine no se mexia. Contemplava o marido a brincar com o garotinho. 
       Mas Con e a famlia no podiam demorar-se mais. A noite aproximava-se e Con, preocupado com a bateria, tinha dvidas, que no chegou a confessar, sobre o 
funcionamento dos faris. Quando se levantaram para sair,ele convidou com solenidade:
       - Venham assistir  partida.
       Novamente Andrew e Christine vieram ao porto, enquanto Boland enchia o carro com a sua prole. Depoisde dois solavancos, o motor obedeceu e, fazendo-lhes 
umcumprimento triunfante com a cabea, Con encaixou ochapu de coco de modo petulante e ajeitou-se todo orgulhoso na direco.
       Nesse momento quebrou-se a parte que Boland ligaraao chassis. O carro deu um estalo e desabou. Carregadocom a famlia inteira de Con, o veculo alongado 
artificialmente afundou-se como um animal de carga que casseno mximo do esforo. As rodas saltaram fora, ante osolhares estupefactos de Andrew e Christine. 
Houve umrudo de peas que se desconjuntam, uma invaso deinstrumentos partindo da caixa de ferramentas e o arcabouo do carro repousou ao nvel da rua. Um pouco 
antesera um automvel e um pouco depois era uma gndolade carrocel de feira. Na proa via-se Con com o volanteBarrado; na r, a Sr.a Boland segurando o beb. A 
Sr.a Boand ficou com a boca aberta, com os olhos perdidos nolago. Era irresistvel o pasmo da cara de Con diantedaquela repentina perda de nvel.
       Andrew e Christine torciam-se a rir. Comearam e no podiam parar. Riram at ficar com o corpo dorido.
       - Cos diabos! - disse Con, erguendo-se, a coar acabea. Observando que nenhuma das crianas estava ferida, e que a mulher permanecia plida, mas imperturbvel,no 
seu lugar, passou revista aos escombros, examinando tudo desorientadamente.
       - Foi sabotage - declarou afinal, atirando olhares paraas janelas da casa fronteira, quando lhe ocorreu uma explicao. - Algum desses demnios daqui andou 
a mexer nocarro. - Nisto a fisionomia iluminou-se-lhe. Agarrou oindefeso Andrew pelo brao e apontou com melanclicoorgulho para a parte da frente em monte, sob 
a qual omotor ainda batia convulsivamente: - Est a ver, Manson! Ainda funciona!
       Arrastaram como puderam os restos do veculo para oquintal de Vale View, depois do que a famlia Bolandvoltou para casa a p.
       - Que dia! - exclamou Andrew quando se viram finalmente em sossego. - Nunca hei-de esquecer at ao fim daminha vida a cara de Boland!
       Estabeleceu-se silncio por um momento e depois, voltando-se para Christine, Manson perguntou:
       - Que tal passmos o Natal?
       Christine respondeu enigmaticamente:
       - Gostei de te ver a brincar com o pequenito do Con Boland.
       Ele encarou-a:
       - Porqu?
       Ela no olhou para o marido.
       - Foi isso que eu te quis dizer durante todo o dia. Oh! No foste capaz de adivinhar, querido?! Afinal de contasno acho que sejas um mdico to esperto 
como se dizpor a.

13
       De novo chegou a Primavera. E o Vero veio maiscedo. O jardim de Vale View era um tapete de cores toalegres que muitas vezes os mineiros paravam paraadmirar 
quando voltavam do trabalho. Essa alegria decores vinha principalmente dos canteiros floridos queChristine havia plantado no Outono anterior, pois agoraAndrew 
no consentia que ela executasse qualquer trabalho manual.
       - J fizeste o nosso ninho! - dizia-lhe com autoridade. - Agora deixa-te estar.
       O local que ela preferia era a extremidade do pequeninovale, onde podia escutar o murmrio, leve como uma carcia, do tnue fio de gua. Um salgueiro elevado 
formavauma discreta barreira contra a fileira de casas que ficavam do outro lado, numa posio sobranceira. O defeitodo jardim de Vale View era ser completamente 
aberto atodas as curiosidades. Bastava o casal pr o p do ladode fora para que se enchessem as janelas das casas fronteirase comeassem os comentrios: Vejam 
que coisa engraada! Venha ver, Fanny! Parece que o doutor e amulher esto a gozar o sol!. Uma vez mesmo, nos primeiros dias, quando Andrew passou o brao pela 
cinturade Christine ao deitarem-se sobre a relva da margem doriacho, ele viu de repente o reflexo de um binculo queda janela da casa do velho Glyn Joseph estava 
apontadona sua direco.
       - Que diabo! - resmungou Andrew irritando-se ao descobrir a indiscrio. - Aquele idiota est com o telescpioapontado para ns.
       Mas por baixo do salgueiro estavam completamente protegidos e ali Andrew exps a sua poltica.
       - Olha, Chris - disse ele, depois de observar o termmetro; com a mania das preocupaes, ocorrera-lhe a ideiade lhe tirar a temperatura. - Temos de nos 
manter calmos. No podemos proceder como se fssemos bem... pessoascomuns. Afinal de contas eu sou um mdico e tu s aminha mulher. J tenho assistido a isso centenas, 
ou pelomenos dezenas de vezes.  uma coisa muito simples. Umfenmeno da natureza, renovao da espcie, tudo isso,procura compreender. Mas no vs agora interpretar 
malo que te digo, querida.  claro que para ns isso  maravilhoso. Para falar francamente, j comeava a perguntara mim mesmo se no serias demasiadamente delgada, 
secom este teu jeitinho infantil no podias ter... Bem, estouencantado, mas no devemos cair em sentimentalismos. Isto , em tolices. No! No! Deixemos essas 
coisas parao Sr. Fulano e para a Sr.a Beltrana. Seria um tanto idiota,no te parece? Imagina, eu, um mdico, dando para ficartodo derretido diante dessas coisinhas 
que andas a fazerde tricot ou de crochet ou l o que seja... No! Olho paraelas e resmungo: Espero que esses trapinhos sejam bastantequentes! E j sabes... Todos 
esses palpites sobre acor dos olhos dela... ou dele, assim como quaisquer projectos quanto ao seu futuro pem-se de lado! - Calou-sefranzindo a testa, e depois 
um pensamento ntimo fez-lheaflorar ao rosto um sorriso. - No sei, Chris! Quem sabese ser realmente uma menina?!
       Christine chegou a chorar de tanto rir. Ria tanto queele levantou-se preocupado.
       - Acaba com isso, Chris... Olha que... olha que te podefazer mal!...
       - Ah!  Meu querido - e enxugava os olhos. - Comoidealista, como sentimental, s adorvel. Mas como mdico... mal empregado... com franqueza!... No posso 
admitir-te em casa!
       Andrew no compreendeu inteiramente o que ela quisdizer, mas sabia que estava a ser cientfico, e tratou deconter-se. De tarde, quando pensava que ela devia 
fazerum pouco de exerccio, levava-a a passear ao jardim pblico,uma vez que estavam terminantemente proibidas asexcurses  montanha. No jardim andavam de um 
ladopara outro, ouviam a filarmnica, observavam as crianados mineiros que faziam piqueniques por ali e por fimbebiam refrescos e sorvetes.
       Certa manh de Maio, muito cedo, ainda estava nacama, quando percebeu mesmo ensonado, um ligeiro movimento.
       Acordando teve a confirmao desse leve sinal devida, o primeiro movimento da criana dentro de Christine. Ficou estarrecido, quase no ousando acreditar, 
sufocadopor uma onda de contentamento, de xtase. 
       - E esta! - e um minuto mais tarde: - Afinal, sou um como tantosoutros, no fim de tudo. Deve ser por isso que se estabeleceua regra de que um mdico no 
deve assistir  sua prpriaesposa.
       Na manh seguinte achou j ser tempo de falar aoDr. Llewellyn, a quem, desde o princpio, ambos tinhamdecidido confiar o caso. Quando Andrew lhe telefonou,Llewellyn 
mostrou-se satisfeito e lisonjeado. Veio imediatamente para fazer um exame preliminar. Depois ps-sea conversar com Andrew na saleta.
       - Tenho prazer em ajud-lo, Manson disse aceitandoum cigarro. Sempre julguei que o senhor no gostavade mim ao ponto de pedir-me que lhe prestasse este 
servio. Creia-me, farei o melhor que me for possvel. A propsito, est actualmente um calor sufocante em Aberalaw. No lhe parece que sua mulher deve mudar de 
ares, enquanto lhe  possvel faz-lo?
       Que est a passar-se comigo?, perguntou Andrew asi mesmo quando Llewellyn se retirou. Comeo a gostardeste homem! Foi decente, decentssimo! Sabe ser 
simptico, tem tacto.  um feiticeiro no seu trabalho. Faz umano que pretendi estrangul-lo. Sou de facto um novilhoescocs muito rude, muito invejoso e quase 
intratvel.Christine no queria abandonar a sua casa, mas eleinsistia carinhosamente.
       - Eu sei que no me queres deixar, Chris! Mas  melhor. Temos de pensar em... oh! Em tudo. Talvez prefirasir para a praia ou talvez o Norte, em casa da tua 
tia. Masdeixa-te disso! Estou em condies de custear a deslocao,Chris. Estamos agora com uma vida desembaraada.
       J nada deviam  Dotao Glen e tinham pago a ltima prestao dos mveis e agora j dispunham de perto deCem libras depositadas no banco. Mas no era nisso 
queela pensava quando, apertando a mo do marido, lhe respondeu com convico:
       - Sim! Estamos em muito boas condies, Andrew.
       J que ele insistia na sua partida, resolveu visitar a tiaem Bridlington. Uma semana depois Andrew levou-a estao do Norte, com um grande abrao e uma 
cesta defruta para a viagem.
       Da por diante sentiu a falta de Christine muito maisdo que havia imaginado, de tal forma a camaradagem deambos j se tornara uma parte da sua vida. As 
suas conversas, discusses, arrufos, as horas que passavam juntosem silncio, o modo que ele tinha de a chamar assim que entrava em casa, e de esperar, de ouvido 
 escuta, pelasua alegre resposta s ento compreendeu quanto issosignificava para ele. Sem Christine, a alcova transformou-se num quarto estranho de hotel. As 
suas refeies, conscienciosamenteservidas por Jenny de acordo com o programa que Christine deixara estabelecido, eram engolidas pressa e sem prazer, com um livro 
verticalmente abertosobre a mesa.
       Divagando pelo jardim que ela preparara, Andrew ficou subitamente impressionado pelas condies deplorveis daponte. Isso ofendeu-o, pareceu-lhe um insulto 
 sua Christine ausente. J falara vrias vezes  direco sobre oassunto, explicando-lhe que a ponte estava a cair aos pedaos,mas os homens faziam sempre resistncia 
passivaquando se tratava de arranjos nas casas dos assistentes.
       Mas agora, num acesso de sentimentalismo, telefonou parao escritrio e insistiu energicamente por providncias.
       Owen ausentara-se alguns dias, em gozo de licena, mas oempregado garantiu a Andrew que a questo j fora resolvida pela direco, e estava entregue a Richards, 
o construtor. O trabalho ainda no comeara porque o homemestava ocupado noutra obra.
        noite ia  casa de Boland e por duas vezes foi visitaros Vaughans, que o obrigaram a ficar para o Bridge. Umavez, com grande surpresa, viu-se a jogar 
golf com Llewellyn. Escreveu cartas a Hamson e a Denny, que deixaraafinal Blaenelly e seguia viagem para Tampico como mdico de um navio-tanque. A sua correspondncia 
com Christine era um modelo de edificante discrio. Mas era principalmentecom o trabalho que procurava distrair-se.
       Os seus exames clnicos nos jazigos de antracite estavam nessa altura ainda no comeo. No podia intensific-losporque, alm das chamadas dos seus clientes, 
a nicaoportunidade que tinha para examinar os mineiros eraquando eles iam aos lavatrios, no cimo da mina, ao deixaro servio. E era impossvel demor-los por 
muito tempoquando, apressados, queriam retirar-se para jantar emcasa. Fazia apenas uns dois exames por dia, mas mesmoassim j novos resultados contribuam para 
o animar.
       Descobriu, sem se arriscar, no entanto, a uma concluso definitiva, que a frequncia de afeces pulmonares entreos mineiros de antracite era na verdade 
muito mais acentuada do que entre os outros trabalhadores que labutavamnas minas de carvo.
       Embora no confiasse em livros didcticos, mergulhouna literatura tcnica por uma questo de defesa prpria,pois no desejava descobrir mais tarde que estava 
apenasseguindo um caminho j trilhado por outros. Espantou-oa pobreza dessa literatura. S alguns raros investigadoresparecia terem dedicado maior ateno s 
afeces pulmonarescausadas por aquele gnero de trabalho. Zenkerhavia inventado um termo pomposo, pneumoconiosis, queabrangia trs formas de fibroses de pulmes 
devidas inalao do p.  claro que a antracose, a infiltrao negranos pulmes, encontrada nos trabalhadores de minas decarvo, j era conhecida havia muito 
e fora classificadacomo inofensiva por Goldman, na Alemanha, e Trotter,na Inglaterra. Havia alguns tratados sobre incidncia dasinfeces pulmonares em trabalhadores 
de ms de moinhos,particularmente em Frana, e em afiadores de facas emachados, como tambm em canteiros. Havia opiniescontraditrias de que as doenas ocasionadas 
pelo trabalhono cascalho vermelho do Rand, na frica do Sul a tuberculose dos pesquisadores do ouro provinha, indubitvel,mente, da inalao do p. Tambm se 
mencionava que osque trabalhavam no linho e no algodo, assim como os escolhedores de sementes, eram igualmente sujeitos a perturbaes crnicas do pulmo. Mas, 
fora disso, nada maishavia.
       Andrew, excitado, abandonou a leitura. Sentia-se napista de alguma coisa verdadeiramente inexplorada. Pensou nas multides de operrios que trabalhavam no 
fundodas grandes minas de antracite, como era ineficiente alegislao respeitante a causas de invalidez de que sofriamaqueles homens, na enorme importncia social 
daquelegnero de investigao. Que oportunidade, que maravilhosa oportunidade! Um suor frio humedeceu-lhe a testaao admitir de repente que algum poderia antecipar-se-lhe.
       Mas afastou essa ideia do seu esprito. Andando de umpara o outro lado na saleta, diante da lareira apagada,j muito depois da meia-noite, fixou subitamente 
a fotografia de Christine que estava na prateleira do fogo.
       Chris! Creio sinceramente que estou para fazer alguma coisa!Comeou a classificar cuidadosamente os resultados das suas observaes no ficheiro comprado 
exclusivamentepara esse fim. Embora nunca tivesse considerado, era defacto brilhante a sua capacidade clnica. No vestirio, sada da mina, perante os trabalhadores 
nus da cinturapara cima, ia sondando misteriosamente, com os dedos ecom o estetoscpio, a patologia obscura daqueles pulmes; num era um ponto fibroso, noutro 
um enfisema, adianteuma bronquite crnica classificada imprudentementede um pouco de tosse. Localizava escrupulosamente asleses nos diagramas impressos no 
verso de cada ficha.
       Fazia, ao mesmo tempo, colheitas de escarros de cadaindivduo observado e, trabalhando at s duas ou trsda madrugada no microscpio de Denny, esquematizou 
nasfichas os elementos obtidos. Descobriu em muitas dessasamostras de muco-pus, chamados na localidade de escarrobranco, partculas angulares e brilhantes de 
slica. Ficouespantado com o nmero de clulas alveolares existentese com a frequncia com que apareciam os bacilos de tuberculose.
        Mas o que mais prendeu a sua ateno foi a presena, quase constante, de slica cristalina nas clulasalveolares, os fagcitos por toda a parte. No lhe 
podiaescapar a emocionante ideia de que as leses dos pulmes,talvez mesmo nos casos de infeces coincidentes, dependiam fundamentalmente desse factor.
       Estavam nesse p as suas descobertas quando Christine voltou, no fim de Junho, e se lhe atirou aos seus braos.
       -  to bom estar de volta! Sim, diverti-me bastante,mas, oh! no sei... pareces plido, querido! Tenho aimpresso de que a Jenny no te tratou bem.
       A vilegiatura fizera-lhe bem, estava com bom aspecto, corada. Parecia preocupada com o marido, a sua falta deapetite, o vcio de fumar a toda a hora.
       Perguntou-lhe nervosamente:
       - Esse trabalho extraordinrio que ests a fazer quanto tempo ainda durar?
       - No sei. - Era no dia seguinte ao da chegada deChristine, um dia hmido, e ele mostrava-se inexplicavelmentemal-humorado. - Pode durar um ano ou talvez 
levecinco.
       - Bem, ento presta ateno. Eu no quero fazer peranteti o papel de missionrio. J basta um na famlia. Mas no te parece que, se se vai demorar tanto 
tempo, melhor trabalhar metodicamente, estabelecer um horrio, em vez de ficar at tarde, estragando a sade?
       - Nada sinto, absolutamente.
       Mas em algumas coisas ela no transigiu e insistiu especialmente. Mandou Jenny esfregar o soalho do laboratrio e levou para l uma cadeira de braos e um 
tapete.
       Era um quarto frio, mesmo naquelas noites quentes, e desprendia-se dos armrios de pinho um aroma adocicado! a resina que se misturava ao cheiro acre dos 
reagentesque Andrew empregava. Era ali que ela permaneciacosendo e fazendo tricot, enquanto o marido trabalhavana mesa. Curvado sobre o microscpio, ele esquecia 
completamente a sua presena, porm Christine continuavaali todas as noites e s onze horas levantava-se.
       - So horas de ir para a cama!
       - Est bem, mas... - E, olhando de relance a mulherquase sem tirar a vista do microscpio. - Sobe primeiro,Chris! Eu vou j.
       - Andrew Manson, ento pensas que vou para a cama sozinha no estado em que me encontro?
       Essa ltima expresso tornara-se um dito cmico paraeles. Ambos a empregavam por pilhria, a propsito detudo, como um remate para todas as questes. Ele 
nuncaresistia. Levantava-se com uma gargalhada, espreguiava-see guardava as lentes e as lminas.
       Em fins de Julho, uma erupo aguda de bexigas deu-lhe muito trabalho na clnica e no dia 3 de Agosto tevetanto que fazer, s voltas com uma lista excepcionalmentelonga 
de visitas, que o servio matinal do consultrio seprolongou at bem depois das trs da tarde. Quando vinhapara casa, cansado, ansioso por aquela mistura de almooe 
merenda que devia ser a sua refeio, viu o automveldo Dr. Llewellyn no porto do Vale View.
       A deduo que podia tirar daquela circunstncia produziu-lheum sobressalto e f-lo apressar o passo a caminhode casa, com o corao batendo aceleradamente, 
numapreviso ansiosa. Subiu os degraus da entrada de um pulo,abriu com precipitao a porta da frente e ali, no vestbulo, encontrou Llewellyn. Fitando-o com 
nervosa impacincia, Andrew gaguejou:
       - Ol, doutor. Eu... eu no esperava v-lo por aquito cedo.
       - No? - respondeu Llewellyn.
       Andrew sorriu. 
       - E ento? - No seu alvoroo no achouuma palavra mais prpria, mas a expectativa que se espalhava no rosto animado era bem clara.
       Llewellyn no sorriu. Depois de uma leve pausa, disse.
       - Venha aqui um momento, meu caro.
       E levou Andrew para a saleta.
       - Andmos  sua procura por a desde manh.
       A atitude de Llewellyn, a sua hesitao, a estranhasimpatia do tom da voz, foram como um duche geladocaindo sobre Andrew. Gaguejou:
       - Aconteceu alguma coisa?
       Llewellyn olhou atravs da janela, com a vista dirigidapara a ponte, como se procurasse a melhor, a mais piedosaexplicao. Andrew no aguentava mais, sufocado 
pelaagonia da incerteza.
       - Manson - disse Llewellyn com brandura hoje demanh... quando sua mulher atravessava a ponte... umadas pranchas cedeu. Ela est bem agora, perfeitamentebem. 
Mas, receio...
       Andrew compreendeu antes mesmo que Llewellyn conclusse.
       Sentiu uma agonia no corao.
       - Deve ser uma consolao para si - continuou Llewellyn, num tom de serena compaixo - saber que fizemostudo o que era possvel. Vim imediatamente, trouxe 
aenfermeira-chefe do hospital, passmos aqui toda a manh.
       Houve um intervalo de silncio. Um soluo veio da garganta de Andrew, e outro e mais outro. Cobriu os olhoscom as mos.
       - Por favor, meu amigo - suplicou Llewellyn. - Quempode evitar um acidente como este? Peo-lhe... Suba e vconsolar sua mulher.
       Cabisbaixo, segurando-se ao corrimo, Andrew subiu as escadas. Parou do lado de fora da alcova, quase sem respirao.
       Depois entrou cambaleando.

14
       Por volta do ano de 1927 o Dr. Manson, de Aberalaw,gozava de prestgio fora do vulgar. Por certo a clnica nodava para enriquecer. O nmero de trabalhadores 
inscritosna sua lista no era muito maior do que naqueles primeirose nervosos dias de trabalho na cidade. Mas todos os clientes tinham confiana absoluta no mdico.
       Receitava poucas drogas. Na verdade chegava ao pontode prevenir os doentes contra a mania dos remdios. Masquando os receitava era em doses alarmantes. 
Muitasvezes Gudge arrastou-se pela sala de espera com umareceita na mo:
       - Que quer dizer isto, Dr. Manson? Doses de sessentagros de K. Br. para Evans Jones! E a Farmacopeiarecomenda cinco.  o que tambm recomenda o livro da 
Carochinha!
       - Ponha sessenta, Gudge. Que diabo! Eu sei que o senhor gostaria de despachar o Evans Jones para o outro mundo...
       Mas o Evans epilptico no foi despachado para o outro mundo. Pelo contrrio, uma semana depois j era vistoa passear pelo jardim pblico, pois os ataques 
haviamdiminudo de intensidade.
       A direco devia tratar o Dr. Manson nas palminhas,porque a sua verba de remdios, no obstante as receitasexplosivas, ficava sempre abaixo da metade da 
verba deoutro qualquer assistente. Mas, que pena! Manson custava direco trs vezes mais por outros motivos, e por causadisso muitas vezes havia m vontade 
contra ele. Empregava vacinas e soros, por exemplo, coisas caras de quemuitos nunca tinham ouvido falar, como declarou exactamenteEd. Chenkin. Defendendo-o, 
Owen citou aquele msde Inverno em que Manson, utilizando vacinas de Bordete Gengou, evitara a tempo que uma furiosa epidemia decoqueluche invadisse o seu distrito, 
enquanto as crianasde todo o resto da cidade iam sendo vtimas da doena.
       Ento, Ed, Chenkin replicou: Como podemos saber seisso se deve a esse tal modernismo? Como?! Quando eu oapertei o prprio doutor declarou que ningum podia 
tera certeza absoluta!
       Se contava com muitos amigos leais, Manson tambmtinha detractores. Havia na direco quem nunca lhe perdoassea sua exploso, aquelas palavras irritadas 
que berroupara eles, por causa da ponte, quando se reuniramem sesso plenria. Compadeceram-se da Sr.a Manson edo prprio doutor quando da crise por que tinham 
passadomas no podiam considerar-se responsveis. A direconunca fazia as coisas precipitadamente. Owen estava defrias nessa poca e Len Richards, a quem fora 
confiadoo servio, tivera o tempo tomado pelas casas novas dePows Street. Era absurdo acus-los.
       Com o decorrer do tempo, Andrew teve muitas discusses acaloradas com a direco, porque teimava em agirde moto-prprio e a direco no estava de acordo. 
Almdisso havia uma certa m vontade religiosa contra ele.
       Embora Christine fosse frequentemente  igreja, Andrew quase nunca aparecia por l. O Dr. Oxborrow foi o primeiroa chamar a ateno para o caso. Dizia-se 
que Andrewtroara da doutrina da imerso total na cerimnia dobaptismo. De facto, ele tinha um inimigo mortal entre agente da capela; nada mais nada menos do 
que o reverendo Edwal Parry, pastor de Sinai.
       Na Primavera de 1926, o bom Edwal, recm-casado,entrou sorrateiramente no consultrio de Manson, j bemtarde, com um ar que, embora perfeitamente cristo, 
erado homem mais cativante do mundo.
       - Como vai, Dr. Manson? Passava por aqui. Normalmente consulto-me com o Dr. Oxborrow; ele faz parte do meu rebanho de fiis, como sabe, e tambm fica muito 
mo, na clnica Leste. Mas o senhor  um mdico modernode todos os pontos de vista. O doutor est sempre a parde tudo o que representa novidade cientfica. E 
eu teriaprazer se me permitir que eu lhe pague o que entenderem receber um conselho seu...
       Edwal simulou um leve rubor sacerdotal, como se mostrasse candura em face das coisas terrenas.
       - Acontece, doutor, que minha mulher e eu no queremos filhos por enquanto, pois os meus rditos ainda sodiminutos. E como...
       Manson encarou o ministro de Sinai com frio desdme disse pausadamente:
       - O senhor devia lembrar-se de que muitas pessoasmesmo auferindo a quarta parte do que o senhor ganha,cortariam um brao para ter um filho. Para que se 
casouento? - O sangue ferveu-lhe nas veias. - Ponha-se daquipara fora... depressa! Rua, seu padreca imundo. Rua!
       Enfiado, com uma cara estranha, Parry foi-se embora.
       Talvez Andrew tivesse falado com excessiva violncia. MasChristine nunca mais poderia ter filhos em consequncia daquela queda fatal. E ambos haviam desejado 
tanto uma criana!...
       No dia 19 de Maio de 1927, ao voltar para casa, Andrewperguntava a si mesmo por que razo continuavam ele e Christine em Aberalaw depois da morte do filho. 
A resposta era simples: o trabalho sobre inalao de p. Issoabsorvia o esprito de Andrew, fascinava-o, prendia-o sminas.
       Ao passar revista ao que tinha feito, tomando em considerao as dificuldades que fora obrigado a enfrentar, maravilhava-se de no ter demorado mais tempo 
a completar as suas investigaes. Aqueles primeiros examesque realizara... Como pareciam velhos, antiquados! Antiquados no tempo... e na tcnica.
       Aps uma completa inspeco clnica sobre as condiespulmonares de todos os trabalhadores da sua zona e desistematizar todos os elementos recolhidos, teve 
Manson aprova plena da preponderncia acentuada das afeces pulmonares entre os mineiros de antracite. Verificou, porexemplo, que noventa por cento dos casos 
de pulmofibrosado eram de trabalhadores das minas de antracite.
       Apurou tambm que o ndice de mortalidade por afeces pulmonares entre os trabalhadores mais idosos era quasetrs vezes maior do que entre os trabalhadores 
de todasas outras minas de carvo. Organizou uma srie de quadros que indicava a percentagem de incidncia da doenapulmonar entre as vrias categorias de trabalhadores 
deantracite.
       Seguidamente tratou de demonstrar que o p de slica descoberto nos exames dos escarros era encontrado semprenas galerias das minas de antracite. No s 
demonstraraIsso de modo concludente como fizera ainda mais. Expondolminas de vidro, em que espalhou blsamo do Canad,durante alguns perodos, em diferentes 
pontos da mina,obtivera elementos sobre as variaes das concentraesde p, elementos que aumentavam rapidamente duranteas exploses e as perfuraes.
       Tinha agora uma srie de animadoras equaes relacionando as sucessivas concentraes de p de slica na atmosfera com a acentuada incidncia de afeces 
pulmonares.
        Mas isso no era suficiente. Tinha de provar agoraque o p era malfico, que destrua o tecido do pulmo, eno um mero incidente, incuo afinal. Precisava 
de executar uma srie de experincias patolgicas em cobaiascom o fim de estudar a aco do p de slica nos seuspulmes.
       Embora estivesse cada vez mais entusiasmado, a surgiam as suas verdadeiras dificuldades. J tinha uma diviso disponvel para as experincias: o laboratrio. 
Erafcil conseguir algumas cobaias e bem simples o equipamento preciso para o trabalho. Mas embora fosse considervel o seu esprito de iniciativa, ele no era, 
e nuncaseria, um patologista. A conscincia desse facto deixava-oexasperado, mas mais decidido que nunca. Preguejava contra um sistema que o forava a trabalhar 
isolado earrastou Christine para as suas experincias, ensinando-lhe a fazer cortes de tecidos para os exames, a partemecnica do trabalho, que, em qualquer circunstncia, 
elasempre fazia melhor do que ele. Depois disso construiu uma cmara de p muito rudimentar.
       - Durante um certo nmero de horas, todos os dias,uns animais ficavam expostos ali s concentraes depoeiras, enquanto outros ficavam de fora para serviremde 
elementos de comparao. Era um trabalho enervanteque exigia um feitio mais paciente do que o dele. Por duasvezes se avariou o seu pequenino ventilador. Numa fasecrtica 
das experincias fez uma confuso medonha comtodo o sistema de controle e viu-se obrigado a recomeartudo. Mas, apesar dos enganos e de todas as contrariedadesconseguiu 
provar, com os espcimes obtidos, em etapassucessivas, a deteriorao dos pulmes e a introduo defibriosis em consequncia da poeira. Foi um momento de grande 
alvio, deixou de ralharcom Christine e durante alguns dias foi uma pessoa tratvel. 
        Logo uma outra ideia o assaltou e o mergulhou notrabalho novamente. Todas as investigaes tinham por base a suposiode que o dano causado aos pulmes 
resultava da destruio mecnica, pelos cristais de slica, duros e cortantes,que eram inalados. Mas agora, subitamente, conjecturavase no haveria qualquer aco 
qumica alm da mera irritao fsica provocada pelas partculas. Andrew no eraum qumico, mas nessa altura j estava to profundamente mergulhado na obra que 
no podia admitir uma derrota.
       Iniciou uma nova srie de experincias.
       Adquiriu slica coloidal e injectou-a sob a pele de umdos animais. Resultou da um abcesso. Abcessos tais, verificou ele, podiam ser produzidos pela injeco 
de solues aquosas de slica amorfa, que fisicamente no erairritante. Ao mesmo tempo, numa concluso vitoriosa,verificou que a injeco de uma substncia mecanicamenteirritan
te tal como partculas de carvo no produziaabcesso. O p de slica era quimicamente activo.
       A excitao e a alegria que sentiu iam-lhe dando caboda cabea. Os resultados iam muito alm de todas as suas esperanas. Coligiu febrilmente todos os elementos 
e redigiu em forma compacta o resultado de trs anos de investigaes.
        Meses antes, j havia decidido no somentepublicar as suas pesquisas, mas envi-las tambm comtese, com vista  conquista do grau de M. D.(1). Quando acpia 
dactilografada voltou de Cardiff, tornada num lindofolheto de capa azul-celeste, leu, radiante, o trabalho, saiucom Christine para o levar ao correio e depois 
disso mergulhou numa depresso desesperadora.
       
(1) Doutor em Medicina. - Ver nota na p. 152.
       
       Sentia-se extenuado e inerte. Teve conscincia, mais nitidamente que nunca, de que no era um homem delaboratrio, que a parte melhor e mais valiosa do seutrabalho 
era a daquela primeira fase de pesquisas clnicas.
       Recordou-se, com um agudo sentimento de culpa, que muitas vezes tratara mal a pobre Christine. Durante algunsdias sentiu-se deprimido e inquieto. E no entanto, 
no meiodaquelas sensaes contraditrias, havia momentos em quecompreendia, exultante, ter realizado alguma coisa deinteresse real.


1
15
       Ao chegar a casa, numa tarde de Maio, Andrew traziao esprito to preocupado, ainda nessa fase estranha dedepresso que persistia desde que enviara a tese, 
que nemnotou a expresso de angstia de Christine. Acenou-lhedistraidamente, foi ao andar superior lavar o rosto e depoisdesceu para o ch.
       S quando, terminada a merenda, acendeu um cigarro, observou de repente a expresso da mulher. Perguntou,ao estender-se para apanhar o jornal da tarde :
       - Que  isso? Que aconteceu?
       Christine pareceu examinar por um momento a colher de ch.
       - Tivemos hoje umas visitas... ou melhor, tive... quando saste depois do almoo.
       - Ah! E quem foi? Uma delegao da direco, cinco homens de linclusive Ed. Chenkin. E acompanhado por Parry; sabes quem , o pastor de Sinai, e um homem 
chamado Davies.
       Estabeleceu-se um silncio pesado. Andrew aspirou umalenta baforada do cigarro e baixou o jornal para encararChristine.
       - Que queriam eles?
       Ela manifestou claramente no olhar o vexame e a inquietao de que estava possuda em resposta ao seu tom inquiridor.
       Falou precipitadamente.
       - Chegaram c por volta das quatro da tarde. Perguntaram por ti. Eu disse que no estavas. Ento, Parry respondeu que no tinha importncia. O que eles 
queriam eraentrar. Naturalmente fiquei perturbada. No sabia se queriam esperar por ti ou o que poderia ser. Ento, Ed. Chenkinafirmou que esta casa era da direco 
que eles representavame que em nome dela podiam e queriam entrar. - Deteve-se sem flego. - Eu no me mexi donde estava. Estava indignada, tonta. Mas tive coragem 
para lhes perguntar porque queriam entrar. Parry disse ento que chegara ao seu conhecimento e ao da direco, mesmo porquetoda a gente j sabia, que estavas 
a fazer experincias comanimais. Vivisseco, como teve o arrojo de dizer. E porcausa disso queriam examinar o teu gabinete de trabalhoe haviam trazido com eles 
o Sr. Davies, da Sociedade Protectora dos Animais.
       Andrew no se moveu nem deixou de a fitar.
       - Continua, querida - disse calmamente.
       - Bem, eu procurei det-los, mas foi intil. Invadirama casa, todos os sete; atravessaram o hall e entraram nolaboratrio.  Assim que viram os porquinhos 
da ndia, Parry soltou um gemido. Oh! Os pobres animais, toinocentes!. Deram busca a tudo, examinaram os teus trabalhos,o microscpio, tudo quanto havia. Depois 
Parry disse: No consentirei que esses pobres bichinhos continuem a ser torturados por mais um minuto que seja. Antes priv-los da vida e das suas dores do que 
deix-losaqui. Agarrou na maleta que Davies trouxera e enfiounela os porquinhos. Eu tentei explicar-lhe que no haviatortura, nem vivisseco, nem qualquer daquelas 
asneiras,e quando aqueles cinco porquinhos no fossem maisprecisos para experincias, d-los-amos aos filhos de Boland e  pequena Agnes Evans. Mas nem ao menos 
mequiseram escutar. E ento... retiraram-se.
       Houve um silncio. Andrew estava agora muito corado. Levantou-se.
       - Nunca me foi dado conhecer um desaforo to grandeem toda a minha vida. Que pena teres-te visto obrigadaa suportar essa inconvenincia, Chris! Mas obrig-los-ei 
apagar bem caro o que fizeram!
       Reflectiu um momento e dirigiu-se depois ao hall para telefonar. Mas precisamente o telefone tocou quando alichegou. Tirou o auscultador do descanso.
       - Alo! - disse furioso, mas em seguida a voz abrandou ligeiramente. Era Owen quem falava do outro lado dalinha. - Sim,  Manson quem fala. Oua c, Owen...
       - J sei, j sei, doutor - Owen teve pressa em interromper Andrew. - Passei a tarde toda procurando comunicarconsigo. Oua. No me interrompa. No devemosperder 
a cabea. Temos de procurar enfrentar uma traiomuito reles, doutor. No diga mais pelo telefone. Euvou j para a.
       Andrew voltou para junto de Christine.
       - Pelo que ele deu a entender - bufava de raiva,quando contou  mulher a conversa do telefone - pareceque ns  que merecemos censura.
       Ficaram  espera da chegada de Owen. Andrew caminhava de um lado para outro tomado de impacincia eindignao; Christine, continuava a costurar, com a inquietao 
nos olhos.
       Owen chegou, mas nada havia de tranquilizador na suafisionomia. Disse logo, antes de dar tempo a que Andrew falasse:
       - Doutor, tirou uma licena?
       - Uma... qu? - Andrew encarou-o espantado. - Que espcie de licena?
       A expresso de Owen parecia agora mais perturbada.
       - Devia ter pedido uma licena no Ministrio do Interior para fazer experincias em animais: sabia disso?
       - Mas com seiscentos diabos! Eu no sou patologista,nunca serei. No exploro um laboratrio. Precisei apenasde fazer algumas experincias muito simples, 
relacionadascom o meu servio clnico. No tnhamos aqui mais doque uma dzia de animais, no era Chris?
       Owen no olhava para Andrew.
       - Devia ter tirado essa licena, doutor. H um grupol na direco que lhe quer arranjar uma complicao porcausa disso! - Continuou apressadamente: - Calcule, 
doutor, um homem como o senhor, que est a procurar fazeruma obra progressiva, que tem a honestidade de dizer oque pensa, ficar assim sujeito a uma trapalhada 
dessas... Bem, de qualquer maneira  bom que o doutor fique sabendoque uma malta daqui est danada para o apunhalarpelas costas. Mas havemos de dar uma volta nisso. 
Vai haver mais uma zaragata l na direco, o doutorser chamado a comparecer perante eles ou coisa parecida. Mas o doutor j tem tido os seus dares e tomares comeles 
e sair-se- bem como das outras vezes.
       Andrew explodiu.
       - Vou preparar uma contra aco. Vou process-lospor... violao de domiclio. No, nada disso. Vou process-los pelo roubo dos meus porquinhos da ndia. 
Querorecuper-los seja como for.
       Owen torceu a cara, num gesto quase cmico.
       - Infelizmente no poder recuper-los, doutor. O reverendo Parry e Ed. Chenkin acharam que deviam livraros bichinhos da misria da vida. E, num sentimento 
depiedade, afogaram os porquinhos com as suas prpriasmos.
       Owen retirou-se e na noite seguinte Andrew recebeuuma comunicao para comparecer perante a direco dentrode uma semana.
       O caso suscitou muita celeuma, incendiou os espritoscomo fasca em barril de plvora. Desde que o solicitadorTrevor Day fora acusado de envenenar a mulher 
com arsnico nunca mais Aberalaw tinha estado to interessadapor um caso to excitante, to escandaloso, que tantosabor tivesse a feitiaria. Formavam-se partidos, 
haviadiscusses violentas. Na capela Sinai, Edwal Parry anunciavaatroadoramente os castigos terrveis que, neste e no outro mundo, estavam reservados aos que torturavam 
animais e criancinhas. No outro extremo da cidade, o reverendoDavid Walpole, o gordo pastor da igreja anglicana,que tinha sobre Parry a mesma opinio que tem 
um bommuulmano sobre a carne de porco, cacarejava sobre oprogresso e os laos que uniam a igreja liberal de Deuse a cincia.
       At mesmo as mulheres tomaram partido. A Sr.aMyjanwy Bensusan, presidente da seco local da Ligade Resistncia das Senhoras de Gales, discursou peranteuma 
multido reunida em comcio no Temperance Hall.
       Era um facto que Andrew melindrara certa vez Myjanwyao recusar-se a assumir a presidncia na reunio anualda Liga. Mas os motivos que a inspiraram eram, 
de qualquer modo, indiscutivelmente puros. Depois do comcio enas noites seguintes jovens senhoras adeptas da Liga, quenormalmente s apareciam em pblico nos 
dias de festacvica, passaram a distribuir nas ruas folhetos de combate horripilante vivisseco com a gravura de um co horrorosamente estripado.
       Na noite de quarta-feira Con Boland telefonou paracontar uma histria engraada.
       - Como passa, Manson, meu filho? De cabea levantada?  Antes assim! Tenho uma histria curiosa para lhecontar... A nossa Mary voltava do emprego, hoje  
noitequando no caminho de casa foi abordada por uma dessasfeministas idiotas. Queria impingir-lhe um panfleto, essasidiotices sobre crueldade que andam para a 
a espalharcontra si. O senhor sabe... Ah! Ah; sabe o que fez a atrevida da Mary? Arrancou-lhe das mos o panfleto e rasgou-oem pedacinhos. Depois levantou a mo, 
pespegouuns bons socos na tromba da imbecil, arrancou-lhe o chapu e disse... Ah! Ah!... Calcule o que a Mary disse: Se de crueldade que anda  procura a tem 
uma simplesamostra.
       Outros amigos to leais como Mary tambm originaram questes ao defender Andrew. Embora a sua zona o apoiasse firmemente, l pelosstios da clnica leste 
havia uma chusma de adversrios.
       Discusses renhidas travavam-se nas tabernas entre os partidrios e os inimigos do mdico. Na noite de tera-feira apareceu no consultrio Prank Davies, um 
tantodeteriorado. Vinha informar Andrew de que tinha partidoa cara a dois clientes de Oxborrow, por dizerem que Andrew era um carniceiro sanguinrio!
       Depois disso, o Dr. Oxborrow acelerava o passo ao cruzar com Andrew na rua, virando a cara para o outrolado. Sabia-se que ele apoiava abertamente as diatribes 
doreverendo Parry contra o colega indesejvel. Ao voltardo Clube Manico, Urquhart andou a conversar com umtruculento puritano, cujo comentrio mais inocente 
foi oseguinte: Um mdico tem o direito de assassinar as pobres criaturinhas de Deus?.
       Urquhart aventava poucos comentrios da sua autoria.Mas certa vez, sem perceber, com a sua miopia, o semblante contrafeito, nervoso, de Andrew, declarou:
       - Com mil diabos! Se eu tivesse a sua idade tambm me divertiria com um trabalhinho desse gnero. Masagora... Oh! Diabo! Acho que estou velho.
       Andrew no podia deixar de pensar que Urquhart estava enganado. Estava muito longe de divertir-se comtrabalhinho. Sentia-se cansado, irritado, apreensivo. 
Perguntava a si mesmo, mal-humorado, se ia gastar toda asua vida a bater com a cabea nas paredes. Contudo, embora estivesse abatido, tinha um desejo desesperado 
dejustificar-se, de ser clara e altivamente desagravado diantedaquela scia de intrigantes.
       A semana passou e na tarde de sbado a direco reuniu-se na mxima fora para, como se explicava na convocao, proceder a uma sindicncia disciplinar 
ao Dr. Manson. No faltava de facto qualquer membro da direco e, em frente, na Praa, estavam reunidos vrios gruposde curiosos. Quando entrou no edifcio e 
subiu as escadas,Andrew sentia o corao bater com violncia. Dizia intimamente que devia mostrar-se calmo e inflexvel. No entanto, quando se sentou na mesma 
cadeira que haviaocupado anteriormente na situao de candidato, estavaofegante, com os lbios secos, nervosssimo.
       A sesso comeou, no com uma orao como seria de esperar do esprito altrusta com que a oposio conduziraa sua campanha, mas com um discurso inflamado 
de Ed. Chenkin.
       - Vou expor todos os elementos que constituem estaquesto - disse Chenkin, levantando-se de repente aosmeus colegas desta direco. Ps-se a desfiar os 
motivosluma lengalenga estridente e sem gramtica. O Dr. Manson no tinha o direito de se entregar quele trabalho,fazia-o nas horas em que estava sendo pago 
para prestarservios  sociedade. Alm disso, a vivisseco ou coisa muito parecida estava sendo feita sem a autorizao necessria, o que constitua uma infraco 
muito sria  lei!
       Owen apressou-se a acrescentar, em aparte:
       - A respeito deste ltimo ponto, devo advertir a direcode que, se for apresentada denncia pelo facto de oDr. Manson no ter requerido a licena, as responsabilidadesde
sse facto recairo sobre a Sociedade de AuxliosMdicos.
       - Que est a dizer? - perguntou Chenkin.
       - Como ele  nosso assistente - sustentou Owen- somos legalmente responsveis pelos actos do Dr. Manson.Ouviu-se um murmrio de aprovao a estas palavras. 
Disseram mesmo: Owen tem razo! No queremos complicaes com a Sociedade. Isso tem de ser resolvido entre ns.
       - Pois ento no nos preocupemos com essa malditalicena - rosnou Chenkin, ainda de p. - As outras acusaes j chegam para comprometer qualquer pessoa.
       Ateno! Ouam!. Era algum que clamava l dofundo. E que queriam dizer aquelas histrias de ir tantasvezes a Cardiff de motocicleta naquele Vero de 
h trsanos atrs?.
       Ele no receita remdios. Era a voz de Len Richards.
       Espera-se uma hora inteira no consultrio e sai-se de lsem um frasco de remdio.
       Silncio! Silncio! - berrava Chenkin. Quando conseguiu impor silncio prosseguiu com a perorao. - Todosestes factos so muito graves. Mostram que o Dr. 
Mansonnunca trabalhou honestamente para os Auxlios Mdicos. Alm de muita coisa que ainda poderia acrescentar, odoutor no passa atestados satisfatrios aos homens. 
Masno nos afastemos do ponto principal. Temos aqui umassistente contra o qual toda a cidade se levantou porqueele incorreu num caso que na verdade deve considerar-secomo 
de polcia, um homem que transformou a nossa propriedade num matadouro. Camaradas! Juro pelo Todo-Poderoso que vi sangue no soalho com estes meus olhosque a terra 
h-de comer. Este homem  nada menos queum louco. E agora, pergunto-lhes: camaradas, vamos admitir isto? No, digo eu. No, devem dizer vocs. Camaradas,eu sei 
que represento o pensamento de cada um e de todosquando digo que neste lugar e neste mesmo instante temosde exigir o pedido de demisso do Dr. Manson.
       Chenkin circunvagou os olhos pelos seus colegas e sentou-se entre estrondosos aplausos.
       - Talvez deva permitir-se ao Dr. Manson que exponhao caso - disse Owen calmamente, e voltou-se para Andrew.
       Houve um silncio. Andrew permaneceu sentado aindapor um momento. A situao era pior do que pensara. Vl algum confiar nesta gente, reflectia com amargura. 
Aqueles homens no eram os mesmos que lhe sorriramcom simpatia quando lhe concederam o emprego?. Fervia-lhe o sangue. No queria, absolutamente, pedir a demisso.
       Levantou-se. No era orador e tinha bem conscinciadisso. Mas era agora um homem ferido no seu moral.
       O seu nervosismo transformara-se numa furiosa indignao diante da ignorncia, da intolerante estupidez daacusao de Chenkin e da aprovao com que os 
outrosa tinham recebido. Comeou:
       - Parece que ningum disse coisa alguma a respeitodos animais que Ed. Chenkin afogou. Isto  que  crueldade, se querem empregar o termo. Crueldade intil. 
O queeu estava a fazer, no, no era crueldade! Porque levamvocs, trabalhadores, para o fundo da mina ratos brancose canrios?  para que eles denunciem a presena 
dosgases txicos. Vocs sabem todos disso. E quando essesratos morrem pelos efeitos do gs, vocs classificam issode crueldade? No, vocs no consideram assim. 
Vocsadmitem que esses animais sejam empregados para salvara vida dos trabalhadores, talvez para salvar a vida devocs mesmos.
       Pois era isso que eu procurava fazer por vs. O trabalho que realizei era a investigao da causa das doenaspulmonares que vocs adquirem devido s poeiras 
dasgalerias das minas. Vs sabeis todos que os que contraemdoenas do peito no recebem indemnizaes quando issoacontece. Durante os trs ltimos anos gastei 
quase todasas minhas horas vagas no estudo do problema de inalao.
       Descobri alguma coisa que pode melhorar a condio dovosso trabalho, que pode dar-vos um tratamento mais justo, que pode conservar melhor a vossa sade 
do que todasessas plulas e xaropes de que Len Richards falava ainda h pouco! Ento eu no posso utilizar para isso umadzia de porquinhos da ndia? Vocs acham 
que no valea pena?
       Talvez no acreditem em mim. Cheios de prevenese de desconfianas como esto, pensaro que estou a mentir. Podem pensar at que estive a gastar o meu 
tempo,o vosso, como disseram, numa srie de experincias idiotas.
        Estava to fora de si que esqueceu a sua firmedeciso de no dramatizar. Metendo a mo no bolso interior do casaco tirou a carta que havia recebido no 
comeoda semana. 
       - Mas isto vos mostrar o que outras pessoaspensam a respeito do meu trabalho, pessoas que tm capacidade para julgar. Dirigiu-se a Owen e entregou-lhe 
a carta. Era um ofciodo secretrio do Senado da Universidade de St. Andrew comunicando-lhe que, em vista da sua tese sobre inalaode p, era-lhe conferido o 
grau de doutor em Medicina.
       Com a fisionomia resplandecente, Owen leu o ofcio dactilografado a tinta azul num papel encorpado. Depoiso ofcio foi passando lentamente de mo em mo. 
E foicom desgosto que Andrew observava o efeito produzidopelo comunicado do Senado. Embora estivesse desesperadamente ansioso por justificar a sua conduta, chegou 
quasea lamentar o impulso que o levara a apresentar aquelaprova. Se eles no acreditavam na sua honesta maneirade proceder sem o apoio de um atestado oficial, 
era porquedeviam estar muito prevenidos contra ele. Com cartaou sem ela compreendeu tristemente que os homens estavam resolvidos a fazer dele um bode expiatrio.
       Sentiu-se aliviado quando, depois de mais algumas observaes, Owen disse:
       - Agora  talvez melhor que nos deixe a ss. Doutor,faa o obsquio...
       Esperando noutra casa, enquanto o caso era submetidoa votao, Andrew comeou a dar pontaps nos prprios calcanhares, fervendo de exasperao. Era um soberbo 
ideal aquele grupo de trabalhadores a organizar os servios Mdicos da comunidade para benefcio dos seus companheirosde trabalho. Mas era somente um ideal. Os 
homens eramdemasiadamente desconfiados, suficientemente estpidospara executar esse plano de modo eficiente. Arrast-lospara o bom caminho era o sacrifcio perptuo 
de Owen.
       De resto estava convencido de que naquela ocasio nema boa vontade de Owen poderia salv-lo.
       Mas quando Andrew entrou novamente na sala o secretrio estava risonho, esfregando as mos de contentamento. Outros membros da direco tambm o olhavamde 
modo mais favorvel, pelo menos sem hostilidade. E,levantando-se imediatamente, Owen disse:
       - Tenho o prazer de declarar-lhe, Dr. Manson... possomesmo dizer-lhe que me sinto pessoalmente encantado aodeclarar-lhe... que a direco decidiu por maioria 
pedirao doutor que continue no cargo.
       Triunfara, levara afinal todos de vencida. Mas, passadoo primeiro instante de satisfao, a conscincia da vitriano o fazia exultar. Houve uma pausa. 
Os homens esperavam evidentemente que ele exprimisse a sua gratidoe o seu contentamento. Mas nada disso aconteceu. Sentiu-se cansado de toda aquela histria 
to mal interpretada,farto da direco, de Aberalaw, de medicina, de p deslica, de porquinhos da ndia e de si mesmo.
       Disse finalmente:
       - Obrigado, Sr. Owen. Alegra-me saber que, depois detudo que procurei fazer aqui, a direco no exige a minharetirada. Mas sinto muito. No posso permanecer 
em Aberalaw por mais tempo. Concedo  direco um ms deprazo, a comear de hoje.
       Falou friamente. Depois deu meia volta e retirou-seda sala. Houve um silncio de sepulcro. Ed. Chenkin foi o primeiro a voltar a si.
       - Deste estamos livres - exclamou, meio embaraado, quando Andrew j estava longe.
       Mas Owen surpreendeu todos eles com o primeiro acessode clera que alguma vez havia manifestado naquela salada direco.
       - Cala essa boca, que no sabes o que dizes, Ed. Chenkin. - Bateu a rgua na mesa com ameaadora violncia. - Perdemos o homem melhor que tivemos.

16
       Andrew despertou no meio daquela mesma noite resmungando:
       - Sou doido, Chris? Abandonar o nosso meio de vida,um emprego to bom! Afinal de contas, j estava a atender ultimamente alguns clientes particulares. E 
Llewellyntem sido muito decente. No te contei? Deu a entenderque me autorizaria a atender consultas no hospital. E osmembros da direco no so maus, exceptuada 
a gentede Chenkin. Acredito que mais tarde a direco nomear-me-iamdico-chefe e em lugar de Llewellyn quando este seaposentasse.
       Deitada ao lado do marido, no quarto s escuras, Christine confortava-o tranquila, ajuizadamente.
       - No querias realmente que ficssemos numa clnica mineira de Gales para o resto da vida, meu querido. Temossido felizes aqui, mas  tempo de pensarmos 
em mudarde vida.
       - Mas ouve, Chris - dizia ele, preocupado. - Ainda notemos recursos suficientes para instalar uma clnica. Precisamos de arranjar mais algum dinheiro antes 
de comearvida nova.
       Ela respondeu, sonolenta.
       - Que tem o dinheiro a ver com isso? De resto nsvamos gastar tudo quanto temos... ou quase tudo... numaestao de repouso. No compreendes que andamos 
mourejandonestas velhas minas h quase quatro anos?
       A coragem dela contagiou-o. Na manh seguinte, omundo parecia alegre.  hora do caf, em que revelouforte apetite, Andrew disse:
       - Tu no s m pessoa, Chris. Em vez de te levantares solenemente e declarares que esperavas agora grandes coisas de mim, que era a hora de eu mostrar ao 
mundo oque valho, tu apenas...
       Ela no o ouvia e protestou num tom despreocupado:
       - Que marido desalmado! Faz-me o favor de no amachucares o jornal! Eu pensava que eram s as mulheresque faziam isso. Assim, como poderei eu ler a minha 
secode jardinagem?
       - No leias isso. -  porta beijou-a sorrindo. - Pensaem mim.
       Sentia-se disposto a aventuras, preparado para aproveitar as oportunidades da vida. Alm disso, o lado prudente do seu esprito no deixava de levar em 
conta certascoisas que pesavam no activo do seu balano. Tinha o seuM. R. C. P., um honorfico M. D. e mais de trezentas librasno banco. Com tudo isso a apoi-lo, 
certamente no iriampassar fome.
       Ainda bem que a sua inteno estava to firmemente radicada. Processara-se na populao da cidade uma reviravolta de sentimento. Agora, que se retirava por 
sua iniciativa,toda a gente queria que ele ficasse.
       O resultado manifestou-se uma semana depois, quando Owen chefiou uma comisso que foi a Vale View a fim depedir ao doutor que reconsiderasse a sua deciso. 
Andrewfoi inflexvel. De resto nessa altura a impopularidade deEd. Chenkin estava a tomar formas violentas. Era vaiadonos quarteires operrios. Por duas vezes 
foi seguido damina at casa por uma orquestra de assobios, manifestaopejorativa habitualmente reservada pelos trabalhadores aos furadores de greves.
       Em comparao com todas essas vitrias estrondosasna localidade chegava a parecer bem pequeno o efeitoproduzido pela tese de Manson no resto do mundo. Noentanto, 
conquistara com ela o grau de doutor em Medicina, o trabalho foi publicado no Journal of IndustrialHealth, na Inglaterra, e, em separata, nos Estados Unidos,pela 
Associao Americana de Higiene. Mas, acima de tudo,Andrew apreciava trs cartas que tinha recebido.
       A primeira era de uma firma de Brick Lane informandoque lhe seriam enviadas muitas amostras do Pulmo-Syrop,especfico infalvel para os pulmes, conforme 
comprovavam centenas de valiosos atestados, muitos dos quais firmados por mdicos eminentes. A firma esperava que eleviesse tambm a recomendar Pulmo-Syrop, que 
acrescentava a carta tambm curava o reumatismo.
       A segunda era do Prof. Challis; uma carta entusisticade congratulaes e louvores, que terminava convidandoAndrew a visitar o Instituto de Cardiff em qualquer 
diadaquela semana. No ps-escrito, Chalis sugeria: Vejase pode vir quinta-feira. Mas na desorientao daquelesltimos dias, Andrew no pde responder ao convite. 
Naverdade, no soube onde ps a carta e com o tempo foi-seesquecendo de a ela responder.
        terceira carta respondeu imediatamente, pois Andrew pulara de alegria ao receb-la. Era uma carta invulgar,cheia de estmulos. Viera do Orgo e atravessara 
o Atlntico para chegar s suas mos. Manson leu e releu asfolhas dactilografadas e, entusiasmado, passou-as depoisa Christine.
       - Que coisa agradvel, Chris! Esta carta americana...
        de um homem chamado Stillman, Robert Stillman, deOrgo... Provavelmente nunca ouviste falar nesse nome,mas eu j ouvi... A carta est cheia de apreciaes 
correctssimas a respeito do meu trabalho sobre inalao. Melhor,muito melhor do que a de Challis... Oh! Diabo! Eu deviater respondido ao professor! Quem me escreveu 
compreendeuperfeitamente a finalidade das minhas pesquisas. Defacto o homem at me corrige num ou noutro ponto. Parece que o agente da aco destrutiva na slica 
 serecita. Eu no sabia qumica suficientemente para atingir esseresultado. Mas  uma carta maravilhosa, congratulatria... e de Stillman!
       - Ah! ? - disse ela, como quem procura saber. - algum mdico estrangeiro?
       - No, a  que est a importncia do caso.  um verdadeiro cientista! Mas dirige uma clnica para tuberculososperto de Portland, Orgo. Olha est tudo 
explicadoaqui no alto do papel de carta. Nem todos reconhecemainda o seu valor, mas na especialidade  um homem tonotvel como Spahlinger. Eu te direi quem ele 
 quandohouver tempo.
       O apreo que dedicava  carta de Stillman foi demonstrado pelo facto de sentar-se  mesa para responder emacto contnuo.
       Os dois esposos estavam agora assoberbados com os preparativos para a viagem turstica, com o trabalho deencaixotar a moblia e remet-la para Cardiff, o 
localmais conveniente e com as melanclicas obrigaes dasvisitas de despedidas. A sada de Bleanelly fora uma arrancadaabrupta, herica. Mas ali, em Aberalaw, 
tiveram depassar por penosas provaes. Tiveram que jantar com osVaughan, os Bolands, at mesmo com os Llewellyns. Andrewcomeou a sofrer a dispepsia do adeus, 
bem sintomtica desses jantares de despedida. Quando chegou o diada viagem, Jenny, debulhada em lgrimas, veio anunciar,para consternao do casal, que ia haver 
um bota-forasolene na estao.
        ltima hora, como se aquela informao no bastassepara os preocupar, Vaughan apareceu, esbaforido.
       - Desculpe-me vir perturb-lo numa hora como esta,doutor, mas oua, Manson, que fez o senhor a Challis? Acabo de receber uma carta do velhote. O seu trabalhodeixou 
o homem embatucado... Alis tenho a impressode que a Junta dos Mineiros e Metalrgicos tambm estperdida por si. O certo  que Challis me pediu que lhefalasse. 
Ele quer avistar-se consigo em Londres, sem falta. Diz que  um assunto importantssimo.
       Andrew respondeu com certa impacincia.
       - Vamos gozar umas frias, homem de Deus. As nossasprimeiras frias de verdade, depois de tantos anos. Comovou eu procur-lo?
       - Deixe-me ento o seu endereo. com certeza ele lhe escrever.
       Andrew olhou, meio vacilante, para Christine. Tinham combinado guardar segredo do lugar para onde iam, evitando aborrecimentos, correspondncia, intromisses. 
Apesar disso deu a informao a Vaughan.
       Partiram a toda a pressa para a estao. Viram-se logo cercados pela multido da zona, que os esperava ali. Apertos de mo, gritaria, pancadinhas nas costas, 
abraos efinalmente um salto para o estribo da carruagem com ocomboio j em movimento. Quando puseram a cabea defora pela janela da portinhola, os amigos que 
enchiama plataforma comearam a cantar ruidosamente um hinode despedida.
       - Deus do Cu! - disse Andrew, esfregando os dedos entorpecidos. - Esta foi a ltima penitncia!
       Mas osolhos dele brilhavam e um minuto depois j confessava:
       - No quereria perder esta manifestao por coisa nenhuma deste mundo. Que boa gente! E pensar que h umms atrs metade dessa gente andava a querer beber-meo 
sangue! No pode negar-se a evidncia: a vida  umacoisa muito engraada.  Sentou-se ao lado de Christine,fitando-a com bom humor. - E fique sabendo, Sr.a Manson; 
embora a senhora no seja uma mulher velha, esta a sua segunda lua-de-mel!
       Chegaram de noite a Southampton e seguiram logopara bordo do navio em que deviam atravessar a Mancha.
       Na manh seguinte viram o Sol levantar-se por trsde Saint-Malo e uma hora mais tarde a Bretanha recebia-os.
       O trigo amadurecia, as cerejeiras estavam carregadasde frutos; cabras erravam pelas pastagens floridas. FoiChristine quem teve a ideia daquele lugar, para 
entrar emcontacto com a verdadeira Frana - no a Frana dasgalerias de pintura, dos palcios, das runas e dos monumentos histricos. Nada do que os guias tursticos 
estavamrecheados.
       Pararam em Vale Andr. Ao hotelzinho que escolheram chegava o murmrio do mar e o cheiro dos campos. O quarto de dormir no era encerado, mas muito limpo,e 
o caf da manh fumegava num bule azul de louagrosseira. Ficaram a preguiar o dia todo.
       - Oh! Meu Deus! - Andrew no se cansava de repetir. - Isto  estupendo, minha querida. No quero mais, nuncamais, defrontar uma pneumonia lombar.
       Bebiam cidra, comiam lagostas, camares, pastis ecerejas. De noite Andrew jogava bilhar com o dono dohotel. Algumas vezes conseguia perder s por cinquentapontos 
numa partida de cem.
       - Tudo era admirvel, estupendo, delicioso... - Andrew no poupava os seus adjectivos. - Tudo, menos os cigarrosgostaria de acrescentar.
       Um alegre ms inteiro passou bem depressa. E desdeento, cada vez com maior frequncia e sempre com inquietao, Andrew comeou a apalpar a carta fechada 
queficara no bolso do casaco havia mais de uns quinze dias. A carta at j estava manchada pelo sumo de cereja epelos restos de chocolate.
       - Vamos a isso! - opinou finalmente Christine, certamanh. - Manteremos a nossa palavra! Abre a carta.
       Andrew rasgou cuidadosamente o sobrescrito. Leu acarta estirado no cho. Foi-se sentando devagarinho. Leu-ade novo. E, em silncio, passou-a s mos de 
Christine.
       - Era do Prof. Challis. Informava que, em vista das suas investigaes sobre a inalao de p, a Junta de Pesquisassobre o Trabalho de Mineiros e Metalrgicos 
resolverafazer um estudo completo do assunto, a fim de apresentaruma memria  comisso parlamentar. Perante essa deciso, a Junta teria de indicar um mdico oficial 
que seocupasse exclusivamente da questo. Em face das suasrecentes pesquisas, a Junta decidira unanimemente e semhesitaes oferecer-lhe o cargo.
       Quando Christine leu olhou, encantada, para o marido:
       - Eu no te disse que ia acontecer uma coisa boa? - Sorriu. - Isso  magnfico!
       Ele atirava pedrinhas, nervosamente, a uma lata vazia abandonada na praia.
       - Deve ser trabalho clnico - pensava em voz alta. - No pode ser outra coisa. Eles sabem que eu sou um clnico.
       Ela observava-o com um sorriso cheio de inteno.
       - Naturalmente, querido, ainda no te esqueceste danossa combinao: seis semanas, no mnimo, aqui, ociosos. Isso no deve interromper as nossas frias.
       - No, no. - E consultando o relgio: - Terminaremos as nossas frias, mas... de qualquer modo... - deu umpulo e levantou-se alegremente. - Um passeiozinho 
at estao do telgrafo s nos pode fazer bem. E eu gostariade saber se existe l um guia para nos elucidar sobre anossa volta.

TERCEIRA PARTE
    

1
       A Junta de Pesquisas sobre o Trabalho de Mineiros eMetalrgicos, indicada comummente pelas iniciais J.M.M., estava instalada num grande e imponente edifcio 
cinzento,a pouca distncia dos jardins de Westminster, convenientemente situada entre o Ministrio do Comrcio e o departamento de Minas, que de quando em quando 
entravamem disputa feroz para firmar o seu predomnio sobre aJunta.
       Na luminosa manh do dia 14 de Agosto, Andrew galgou apressadamente os degraus da entrada do edifcio,exuberante de sade e de entusiasmo, com a expresso 
deum homem disposto a conquistar Londres.
       - Sou o novo mdico - disse ao porteiro, que usavauniforme do departamento do Trabalho.
       - Sim, doutor... Pois no, doutor - respondeu o porteiro com ar paternal. Andrew gostou de verificar que eraesperado. - O doutor precisa de avistar-se com 
o nosso prezado Sr. Gill Jones! Acompanhe o nosso novo mdico aogabinete do Sr. Gill.
       O elevador subiu vagarosamente, deixando entrever corredores pintados de verde e muitos andares, nos quaisse viam outros contnuos com o uniforme do departamentode 
Trabalho. Depois Andrew foi levado a um amplo gabinete, muito arejado, onde apertou a mo do Sr. Gill, quese levantou da sua mesa e ps de lado o exemplar doTimes. 
       - Venho assumir o meu cargo um pouco atrasado- declarou Andrew, falando forte. - Minha mulher e eu chegmosontem de Frana. Mas j estou inteiramente prontopara 
comear.
       - Muito bem. - Gill era um homenzinho jovial, deculos, fato azul-escuro e gravata da mesma cor, presa poruma argola de ouro a um colarinho do gnero quase 
clerical.
       Olhava para Andrew com ar de simpatia afectada.
       - Queira sentar-se! Quer tomar uma xcara de ch ouum copo de leite quente? Costumo tomar qualquer coisapor volta das onze horas. E...  verdade, est quase 
nahora...
       - Oh! Nesse caso... - disse Andrew com hesitao. Edepois, animando-se: - Talvez possamos conversar sobreo trabalho enquanto...
       Cinco minutos depois um contnuo apareceu com umaxcara de ch e um copo de leite.
       - Creio que deve estar  sua vontade, Sr. Gill. Estfervido, Sr. Gill.
       - Obrigado, Stevens. - Quando o contnuo saiu, Gillvoltou-se para Andrew com um sorriso. - Voc h-de teroportunidade de ver como este homem  prestvel. 
Fazumas torradinhas com manteiga deliciosas.  uma coisadifcil: arranjar serventes e contnuos de jeito. Temosaqui gente de todas as reparties: Ministrio 
do Interior,departamento de Minas, Ministrio do Comrcio. Eu mesmo Gill - pigarreou, com discreto orgulho - sou funcionriodo Almirantado.
       Enquanto Andrew se servia de leite e aguardava com impacincia informaes sobre o servio, Gill discorria prazenteiramente sobre o tempo, a Bretanha, o montepiodo 
funcionalismo e a eficcia da pasteurizao. Depois,levantando-se, levou Andrew para a sala que lhe fora reservada.
       Era tambm um gabinete bem arejado, tranquilo, debons tapetes, com uma linda vista para o Tamisa. Umbezouro azulado zumbia nostlgicamente, batendo deencontro 
 vidraa.
       - Reservei esta sala para o senhor - disse Gill amavelmente. - Est bem arranjadinha. Repare... H um bomfogo, para o Inverno. Fao votos para que fique 
beminstalado aqui.
       - Com efeito  um gabinete maravilhoso! Mas...
       - Deixe-me apresentar-lhe agora a Sr.a Mason.
       Gill bateu numa porta de comunicao e abriu-a. ASr.a Mason, de certa idade, mas bonita, com aspecto asseadoe bem vestida, estava sentada a uma mesinha 
de trabalho. Levantou-se afastando o Times.
       - Bons dias, Sr.a Mason.
       - Bons dias, Sr. Gill.
       - Sr.a Mason, apresento-lhe o Dr. Manson.
       - Bons dias, Dr. Manson.
       Andrew sentiu-se um pouco estonteado com todos esses cumprimentos, mas logo serenou e aderiu  conversa.
       Cinco minutos mais tarde, ao retirar-se, bem disposto,Gill disse a Andrew como a anim-lo.
       - Mandar-lhe-ei algumas pastas.
       As pastas chegaram pelas mos amveis de Stevens. Alm dos seus predicados de fornecedor de leite e torradas,Stevens era o melhor portador de processos da 
repartio. Entrava a toda a hora no gabinete de Andrew sobraandodocumentos. Colocava-os com todo o carinho sobre a mesa,numa caixinha de metal com uma etiqueta: 
Entrada.
       E  procura do que poderia levar, os olhos dirigiam-seansiosamente para outra caixinha com a etiqueta: Sada.
       Cortava o corao de Stevens encontrar vazia a caixinhada Sada. Quando isso acontecia, retirava-se de cabeabaixa, desolado.
       Confuso, atnito, irritado, Andrew examinou apressadamente toda a papelada: muitas das actas das ltimasreunies da J.M.M., coisas indigestas, estpidas, 
sem importncia. Ento, recorreu com impacincia  Sr.a Mason.Mas a Sr.a Mason, que viera, como explicou, do Departamento de Pesquisas sobre Carnes Congeladas, 
bem poucosesclarecimentos pde dar. Explicou-lhe que o horrio eradas dez da manh s quatro da tarde. Falou-lhe aindada equipa de hquei da Repartio.   claro 
que me refiroao pessoal feminino, Dr. Manson. A Sr.a Mason era acapit do grupo. Por fim, perguntou-lhe se podia continuara ler o Times. E o olhar dela aconselhava-o 
a ter calma.Mas Andrew no tinha calma. Revigorado pelas friasansioso por trabalhar, comeou a andar de um lado parao outro da sala, sobre os macios tapetes. 
Ps-se a contemplar exasperadamente o quadro animado do rio. Iam e vinham rebocadores. Longas filas de barcaas de carvo arrastavam-se contra a corrente. Depois 
marchou para ogabinete de Gill.
       - Quando  que comeo?
       Gill sobressaltou-se diante do imprevisto da pergunta.
       - Meu caro colega, voc surpreendeu-me. Eu pensei quelhe tinha dado trabalho bastante para um ms. - Olhouo relgio. - Venha da.  hora do almoo.
       Depois de saborear o seu linguado frito enquanto Andrew defrontava uma costoleta, Gill explicou que a prximasesso da Junta no se realizaria, nem poderiamesmo 
realizar-se, antes de 18 de Setembro, porque o Prof.Challis estava na Noruega, o Dr. Maurice Gadsby na Esccia, Sir William Dewar, presidente da Junta, na Alemanha, 
enquanto o seu chefe, Sr. Blades, andava porFlinton com a famlia.
       Foi com a cabea numa grande confuso, que Andrewvoltou naquela tarde para junto de Christine. Os mveisainda estavam no armazm e, como tinham muito tempopara 
procurar casa, alugaram por um ms um pequenoapartamento mobilado em Earls Court.
       - Custa a acreditar, Chris! Eles ainda nada prepararam para eu fazer. Tenho de passar um ms inteiro a beber leite, a ler o Times e as actas das sesses, 
sem esquecer  claro, longas conversas sobre hquei com a querida Sr.a Mason.
       - Prefiro que reserves a conversa para a querida que a tua mulher. Oh! Meu querido, isto aqui  adorvelpara quem vem de Aberalaw. Dei um passeiozinho 
hojede tarde at Chelsea. Vi l a casa de Carlyle e a GaleriaTate. Projectei passeios to lindos para ns. Podemos irde barco at Kew. E os jardins, querido? 
No ms que vem,Kreisler dar concertos no Alberts Hall. E devemos ver oMemorial, para descobrir porque  que toda a gente ridele. E h uma pea nova no New-York 
Theatre Guild. Tambm seria esplndido se eu fosse encontrar-me contigona cidade para almoarmos juntos. - E estendeu-lhe amozinha vibrante. Poucas vezes Andrew 
a vira to animada. - Querido, vamos jantar fora. H um restauranterusso nesta mesma rua. Parece bom. E depois, se no estiveres muito cansado, poderemos...
       - Olha l - protestou ele, quando Christine o arrastavapara a porta. - Eu pensava que tu eras o membro ajuizadoda famlia. Mas parece-me, de facto, Chris, 
que depoisdo meu primeiro dia de trabalho, devo ter uma noite divertida.

2
       Na manh seguinte leu toda a papelada que estava emcima da mesa, rubricou-a, e por volta das onze horas jestava passeando pela jaula, sem nada para fazer. 
Masa jaula era demasiadamente pequena para o conter. Impacientemente, saiu a explorar o edifcio. Era to interessante como um necrotrio sem cadveres. Mas, 
ao subirao ltimo andar, encontrou-se de repente num grandesalo guarnecido de alguns aparelhos de laboratrio. E ali,sentado sobre um caixote, via-se um rapaz 
metido numabata branca, comprida e suja, que tratava desconsoladamente das unhas, enquanto o cigarro amarelava aindamais a mancha de nicotina no canto do lbio.
       - Ol! - disse Andrew.
       Houve uma pausa. Depois o outro respondeu, sem interromper a sua ocupao:
       - Se se perdeu no caminho, o elevador  na terceiraporta  direita.
       Andrew encostou-se  mesa de trabalho e tirou umcigarro do bolso. Depois perguntou:
       - O senhor no serve ch aqui?
       Pela primeira vez o rapaz levantou a cabea. (Os cabelos, negros e acamados  fora de brilhantina formavamum contraste singular com a gola levantada da 
sua batamanchada).
       - Apenas para ratos brancos - respondeu com ar sisudo. As folhas de ch so muito nutritivas para eles. 
       Andrew riu, talvez porque o autor da graa era umrapazola mais moo do que ele.
       - Chamo-me Manson.
       - Estava com esse receio. Veio, ento, juntar-se  legiodos esquecidos, hem? - Uma pausa. - Eu sou o Dr. Hope. Mas o meu nome nada quer dizer.
       - De que se ocupa aqui?
       - S Deus sabe...  o tal do Billy aos Botes, querodizer Dewar! Sento-me aqui algumas vezes e fico a pensar. Mas geralmente fico apenas sentado. Uma vez 
por outra,mandam-me pedaos de minrio despedaados e perguntam-mea causa da exploso.
       - E o senhor responde qual foi? - indagou Andrew polidamente.
       - No - disse Hope, rudemente. - Dou palpites aoacaso, por bambrrio.
       Sentiram-se mais  vontade depois da vulgaridade dafrase e foram almoar juntos. No caminho Hope explicouque s graas ao bom tempo  que ainda estava com 
acabea em boas condies. Tambm explicou outras coisasa Manson. Era pesquisador nos laboratrios de Cambridge,onde se salientara - resmungou - pelas suas frequentes 
demonstraesde falta de tacto. Fora emprestado  Junta,em vista de insistentes pedidos do Prof. Dewar. Nada tinha que fazer alm de simples trabalhos mecnicos, 
que qualquer prtico de laboratrio podia executar. Achava que acabaria zuca por causa da negligncia e da inrcia dajunta, que ele apelidara sarcsticamente 
de Paraso dosManacos. Era um exemplo bem tpico da obra de pesquisas no pas, orientada por um grupo de ilustres medalhes, to inchados de vaidade com as 
suas prprias teorias e to ocupados em se combaterem mutuamente quenada podia levar para a frente com um rumo determinado.
       Hope era puxado daqui para acol, tinha de fazer o quelhe mandavam e no o que queria, e era to interrompidono trabalho que nunca passou seis meses na 
mesma tarefa.
       Traou para Andrew um rpido esboo dos maiorais doParaso dos Manacos. A Sir William Dewar, o caducomais indomvel nonagenrio que presidia  Junta, puseraa 
alcunha de Billy dos Botes, por causa da propenso deSir William para deixar desabotoadas certas partes essenciais de seu vesturio. O velho Billy dos Botes 
era presidente de quase todas as comisses cientficas da Inglaterra, conforme explicou Hope. Alm disso fazia palestraspela rdio, no programa essencialmente 
popular: Cincia para Crianas.
       Havia mais o Prof. Whinney, vulgarmente conhecidoentre a estudantada como o Cavalo; Challis, que no eramau sujeito quando lhe no dava para representar 
o papeldramtico de Pasteur-Rabelais; e o Prof. Maurice Gadsby.
       - Conhece Gadsby? - perguntou Hope.
       - J me encontrei com esse cavalheiro. - E Andrewcontou a histria do exame.
       - O nosso Maurice  assim mesmo - comentou Hope amargamente. -  um autntico furo. Mete-se em tudo. Qualquer dia entrar para a Royal Apothecaries(1). Noresta 
dvida de que o cavalheiro  inteligente. Mas nose interessa pelas pesquisas cientficas. S se preocupacom a prpria pessoa. - Hope riu-se subitamente. - Robert 
Abbey conta uma boa a respeito dele.  Gadsby queriaentrar para o Rumpsteak Club.  um desses clubes paradar jantares que existem em Londres.  s de gente bem 
como se supe. Pois bem, Abbey, que  um cidado prestvel, prometeu fazer o que lhe fosse possvel pelo Gadsbys Deus sabe porqu. Dias depois Gadsby encontrou-se 
comAbbey. Ento? Entrei? perguntou ele. No, disse AbbeyNo entrou. Deus do Cu!, exclamou Gadsby. No mediga que fui reprovado?!, Foi reprovado, 
disse Abbey. Escute, Gadsby! J viu alguma vez na sua vida um pratode caviar?.
       
(1) A Royal Society of Apothecaries  a instituio mdica mais tradicionale prestigiosa da Inglaterra. (N. do T.)
       
       Hope inclinou o corpo, explodindo numa gargalhada.
       Um momento depois acrescentava:
       - Abbey tambm faz parte da Junta.  um homemdecente. Mas  demasiadamente sabido para vir aqui muitasvezes.
       Aquele foi o primeiro dos muitos almoos que Andrewe Hope comeram juntos. Apesar das suas graas de estudantee da inclinao natural para nada tomar a srio,Hope 
era um rapaz de valor. A sua irreverncia era saudvel.
        Andrew compreendeu que ele ainda havia de triunfarna vida. E, com efeito, nos momentos de seriedade, Hopeconfessou muitas vezes o ansioso desejo de retomar 
o trabalhoda sua inclinao, que a si mesmo impusera, sobreo isolamento dos fermentos gstricos.
       De vez em quando, Gill acompanhava-os ao almoo.
       Hope definia-o com uma frase bem caracterstica:  umpobre diabo!. Embora envernizado por trinta anos de funcionalismo, Gill era de baixa condio social. 
Trabalhavana repartio como uma pequenina mquina bem lubrificada, que girava com facilidade. Chegava de Sunburytodas as manhs, sempre pelo mesmo comboio, e, 
quandoo servio na repartio no o impedia, tomava sempre omesmo comboio de volta. Tinha em Sunbury esposa, trsfilhas e um jardinzinho onde cultivava rosas. 
Parecia umalegtima encarnao do perfeito saloio. No entanto debaixodessa aparncia existia um Gill autntico, que amava oInverno de Yarmouth e passava l sempre 
as suas frias de Dezembro, que sabia quase de cor um livro chamadoHadji Baba,- uma verdadeira Bblia para ele e que,membro havia quinze anos da Sociedade Protectora 
dosAnimais, se dedicava com certo orgulho a tratar dospinguins do Jardim Zoolgico.
       Uma vez por outra Christine tambm comparecia aoalmoo. Gill desdobrava-se em amabilidades para mantera aura de cortesia do funcionalismo. O prprio Hope 
procedia com admirvel gentileza. Confessou a Andrew oabalo que sofrera nas suas convices de celibatrio desdeque encontrara a Sr.a Manson.
       Os dias passaram. Enquanto Andrew esperava a reunioda Junta, o casal ia descobrindo Londres. Fizeram umaviagem de barco a Richmond. Foram a um teatro chamadoOld 
Vic. Travaram relaes com as gatas de HampsteadHeath, conheceram o encanto de um cafzinho, servidonum quiosque,  meia-noite. Passearam pela zona operria.
       Foram remar na Serpentine. Perderam as iluses sobre oSono... Quando j no precisavam de consultar os mapasda cidade antes de tomarem o metropolitano, 
comearama sentir-se londrinos de facto.
       Na tarde de 18 de Setembro reuniu-se afinal, com apresena de Andrew, o conselho director da J. M. M.
       Ao lado de Gill e de Hope, compreendendo os sorrisos zombeteiros que o ltimo lhe dirigia, Andrew observavaa entrada dos figures no salo de cornijas douradas:
       Whinney, o Dr. Lancelot Dodd-Canterbury, Challis, Sir Robert Abbey, Gadsby e o prprio Billy dos Botes, William Dewar.
       Antes de entrar, Abbey e Challis conversaram comAndrew. Abbey pronunciou duas ou trs palavras muitosimples, o professor um jorro abundante de frases gentise 
congratulatrias pela sua nomeao. Ao passar, Dewarvoltou-se para Gill, exclamando na vozinha estridente quelhe era to peculiar:
       - Onde est o nosso novo mdico, Sr. Gill? Onde esto Dr. Manson?
       Andrew levantou-se, espantado com o tipo de Dewar,que deixava mesmo a perder de vista a descrio de Hope.
       Billy era pequenino, curvado e cabeludo. Usava fato velho,o colete cheio de ndoas, os bolsos do sobretudo esverdeado atulhados de papis, panfletos e memorandos 
deuma dzia de sociedades diferentes. Billy no tinha desculpa, pois possua muito dinheiro e filhas, uma delascasada com um par da Cmara milionrio. Mas a verdade 
que parecia ento, como sempre, um macaco velho emal tratado.
       - Havia um Manson comigo na universidade, em 1880- guinchou com ar benevolente,  guisa de cumprimento.
       - Era este aqui - murmurou Hope que no resistiu tentao de gracejar.
       Billy ouviu.
       - Como pode o senhor saber, Dr. Hope? - perguntou,fixando-o por cima das lunetas de aros de metal, penduradas na ponta do nariz.  Nesse tempo nem o senhorestava 
ainda nos cueiros. Hi! Hi! Hi! Hi!
       Afastou-se, dando risadinhas, para o seu lugar  cabeceira da mesa. Nenhum dos colegas j sentados deu pelasua presena. Ignorar orgulhosamente a presena 
dos companheiros fazia parte da estratgia dos membros desteconselho. Isso, porm, no perturbou Billy. Tirando dobolso um mao de papis, bebeu um copo de gua 
dagarrafa, tomou um martelinho que estava na sua frentee bateu uma pancada estrondosa na mesa.
       - Senhores, meus senhores! O Sr. Gill vai proceder leitura da acta.
       Gill, que agia como secretrio do conselho, leu rapidamente a acta da sesso anterior, enquanto Billy semprestar a menor ateno a essa cantilena, ora folheavaos 
papis, ora piscava o olho com simpatia para Andrew,a quem vagamente associava ao Manson de 1880 da universidade.
       Quando Gill terminou, Billy empunhou logo o martelo.
       - Senhores!  com especial satisfao que vemos hojeaqui o nosso novo mdico. Recordo-me de que, ainda porvolta de 1904, salientei a necessidade de a Junta 
dispordos servios de um clnico permanente como valioso assistente para os patologistas que de vez em quando conseguimos pescar, senhores, hi! hi!, que de 
vez emquando conseguimos pescar no Instituto de Pesquisas. E digo isto com a maior considerao pelo nosso jovemamigo Hope, de cuja bondade, hi! hi!, de cuja bondade 
temos abusado tanto. Lembro-me agora muito bemde que ainda em 1889...
       Sir Robert Abbey interveio:
       - Tenho a certeza, senhores, de que interpreto o sentirde todos os membros da Junta ao felicitar o Dr. Manson,de todo o corao, pelo seu trabalho sobre 
a silicose. Seassim me posso expressar, considero-o um trabalho muitopaciente e original de investigao clnica e que, comoa Junta se d conta, pode ter efeito 
decisivo sobre a nossalegislao industrial.
       - Muito bem!  Muito bem! - trovejou Challis, apadrinhando o seu protegido.
       - Era isso mesmo que eu ia dizer, Robert - resmungouBilly, com rabujice. - Para ele, Abbey era ainda um rapaz,quase um estudante, cujas interrupes deviam 
ser contrariadas docemente. Quando decidimos na ltima reunioque essas pesquisas deviam ser continuadas, o nomedo Dr. Manson imediatamente se imps por si mesmo. 
Foi ele quem levantou essa questo e a ele se devem dartodas as oportunidades para o prosseguimento do seu trabalho. Senhores, entendemos que tratando-se de umacoisa 
em favor de Andrew - piscou-lhe o olho intencionalmente- que ele deve visitar todas as minas de antracitedo pas e mais tarde, se for possvel, estender a sua 
visitaa todas as minas de carvo. Tambm desejamos que eledisponha de todos os elementos para o exame clnico dostrabalhadores das indstrias mineiras. Ns conceder-lhe-emostod
as as facilidades, inclusive os apreciveis servios bacteriolgicos do nosso amigo Dr. Hope. Em suma, senhores, nada h que no desejemos fazer para que onosso 
novo inspector clnico conduza esse assunto importantssimode inalao de poeira at s ltimas conclusescientficas e sociais.
       Andrew respirou fundo e furtivamente. Era esplndido muito melhor do que poderia esperar. Iam dar-lhecarta branca, apoi-lo com a imensa autoridade da Junta,deix-lo 
entregue s investigaes clnicas. Eram uns anjos, todos eles. E Billy era o prprio arcanjo Gabriel.
       - Mas, senhores - cacarejou Billy subitamente, tirandodos bolsos nova papelada. - Antes que o Dr. Mansonse dedique a este problema, antes que possamos sentir-nos 
vontade para lhe permitir que concentre os seus esforos nesse ponto, julgo que ele deve tratar de outra questo mais instante.
       Uma pausa. Andrew sentiu o corao apertar-se-lhe,sentindo-se desanimado quando Billy continuou:
       - O Dr. Bigsby, do Ministrio do Comrcio, chamou-mea ateno para a alarmante discrepncia que existe nas especificaes dos equipamentos industriais de 
pronto-socorro. H, na verdade, uma definio da lei vigente, mas vaga, pouco satisfatria. No existem, por exemplo, padres exactos quanto ao tamanho e peso 
das ligaduras equanto ao comprimento, o material e o tipo das talas. Ora, senhores, isso  um assunto importante e que respeitadirectamente ao Conselho. Lamento 
profundamente queo nosso mdico se veja obrigado a proceder a uma investigaocompleta e apresentar um relatrio sobre a matriaantes de dedicar-se ao problema 
da inalao.
       Silncio. Andrew correu os olhos desesperadamente emtorno da mesa. Dodd-Canterbury estirava as pernas e fitava o tecto. Gadsby desenhava diagramas no bloco 
depapel. Whinney franzia a testa. Challis inchava o peito,para tomar a palavra. Mas foi Abbey quem disse:
       - Mas, Sir William, isso  um assunto que diz respeitoao Ministrio do Comrcio ou ao departamento de Minas.
       - Ns temos de estar  disposio de qualquer dessas entidades - guinchou Billy. - Ns somos... Hi! Hi! O rgo que elas tutelam.
       - Sim, eu sei. Mas, afinal de contas, isso... essa questode ligaduras  uma coisa de certo modo trivial e o Dr. Manson...
       - Afirmo-lhe, Robert, que est muito longe de ser trivial. Ser discutida no Parlamento por estes dias. Aindaontem Lord Ungar me tocou no assunto.
       - Ah! - exclamou Gabdsby, levantando a cabea. - SeUngar se interessa, temos de o atender.
       Gadsby estava sempre pronto para adular pessoas como Ungar, cuja simpatia desejava obter.
       Andrew foi forado a intervir.
       - Desculpe-me, Sir William - disse um pouco desorientado. Eu...  eu imaginei que o meu trabalho aqui seriaclnico. H um ms que estou inactivo,  espera 
de comeare agora, se o que eu tenho a fazer...
       Estacou circunvagando um olhar pelos membros daJunta. Foi Abbey quem o ajudou.
       -  muito justo o ponto de vista do Dr. Manson. HQuatro anos que ele investiga pacientemente o seu assuntoe agora, quando se lhe proporcionavam todas as 
facilidades para o desenvolver, no est certo que ele v calculardimenses de ligaduras.
       - Se o Dr. Manson tem sido to paciente durante quatro anos, Robert - apitou Billy - pode ter ainda mais umpouco de pacincia. Hi! Hi!
       - De facto - trovejou Challis. - Talvez possa tratar deSilicose nas horas vagas.
       Whinney preparou-se para falar.
       - Agora - cochichou Hope a Andrew - o Cavalo vairelinchar.
       - Senhores - disse Whinney. - H muito tempo queando a pedir  Junta que investigue o problema da fadigamuscular relacionada com o calor das fornalhas. 
Comosabem,  um assunto que me interessa profundamente eque, para falar francamente, no tem merecido dos senhoresa devida ateno, apesar da sua importncia. 
Agoraj que o Dr. Manson vai ser afastado do caso da inalao,parece-me admirvel a oportunidade para se levar a efeitoesse relevante problema da fadiga muscular...
       Gadsby olhou para o relgio. 
       - Tenho um encontromarcado em Harley Street dentro de trinta e cinco minutos.
       Whinney voltou-se, irritado, para Gadsby. O Prof. Challis, seu colega, apoiou-o com um estrondoso:
       - Que impertinncia intolervel!
       Parecia iminente um conflito.
       Mas por trs das suas, a cara amarelada e conciliadora de Billy vigiava a reunio. No estava perturbado. Havia quarenta anos que presidia a sesses idnticas. 
Bemsabia que todos o detestavam e queriam v-lo pelas costas. Mas no se ia embora, nunca se retirava. O seu vastocrnio estava recheado de problemas, dados, notas, 
frmulas obscuras, equaes; cheio de fisiologia e qumica, defactos e hipteses um imenso sepulcro cavernoso, povoado de fantasmas de gatos arrebentados, iluminado 
porluz polarizada, e todo revestido de cor-de-rosa pela gratalembrana de que, quando menino, Lister lhe dera palmadinhas na cabea. Disse com toda a candura: 
       - Devo declarar  assembleia que j tomei a iniciativade prometer a Lord Ungar e ao Dr. Bigsby que os auxiliaramos nas suas dificuldades. Seis meses devem 
bastar,Dr. Manson. Talvez um pouco mais. E no ser destitudode interesse. Contactar com muitas pessoas e coisas, meu caro. Lembre-se do que disse Lavoisier 
sobre a gota degua. Hi! Hi! E agora, quanto ao exame patolgico dosespcimes de Wendower, feito em Julho ltimo pelo Dr. Hopes... 
       Quatro horas a sesso estava terminada. Andrewficou a discutir o caso com Gill e Hope no gabinete doprimeiro. A impresso que a Junta lhe causou comeavaa 
inspirar-lhe certa discrio pessoal. E talvez contribussempara isso os dias que iam passando. No barafustounem explodiu em comentrios irritados. Contentou-se 
simplesmente em espetar com uma pena do governo umafolha de papel do governo numa mesa do governo.
       - Isto no  to mau como parece - animava-o Gill. - Bem sei que ter de viajar por todo o pas, mas issoat pode ser agradvel. Deve levar a sua esposa. 
ParaBuxton, por exemplo. Fica no centro de toda a zona carbonfera de Derbyshire. E ao fim de seis meses o senhorpoder dar incio ao seu trabalho sobre antracite.
       - Nunca mais se lhe poder dedicar - Hope arreganhou os dentes. - Ser medidor de ligaduras para o restoda vida!
       Andrew tomou o chapu.
       - O defeito que o senhor tem, Hope, ... ser demasiadamente moo.
       Foi para casa encontrar-se com Christine. Esta resolvera tirar o melhor partido da situao. Compraram porsessenta libras um automvel Morris em segunda 
mo epartiram na segunda-feira seguinte para a grande investigaosobre socorros de emergncia. Estavam radiantesquando o carro atingiu a estrada para o Norte. 
Depoisde caricaturar o Billy dos Botes na direco do volante,Andrew observou:
       - Ora espiga! Quero l saber do que disse Lavoisiera respeito da gota de gua. Estamos juntos, Chris! Isso  oque importa.

3
       A misso era idiota. Consistia na inspeco de materialde pronto-socorro nas diferentes instalaes das minas decarvo do pas: talas, ataduras, algodo, 
desinfectantes,torniquetes, etc. Nas minas ricas o equipamento era bom. Nas pobres, o equipamento era mau. A inspeco em subterrneosno era novidade para Andrew. 
E fez centenas deinspeces arrastando-se por milhas de galerias no fundodas minas de carvo para examinar uma caixa de ataduras,cuidadosamente colocada ali meia 
hora antes. Nos poos insignificantes do inspito Yorkshire ouviu cochichos do gnero: Corre, Georgie, e diz a Alex que v farmcia... ou ento: Sente-se, 
doutor; dentro de umminuto tudo estar preparado para o doutor ver. EmNothingham animou o pessoal de uma ambulncia ondeno se consentia o lcool, afirmando-lhes 
que ch frio eraum estimulante superior  aguardente. Em todos os lugares era a favor do whisky. Mas na maioria dos casosfazia o servio com cuidados escrupulosos.
       O casal tomava acomodaes num centro estratgicoDali Andrew corria o distrito de automvel. Enquanto omarido inspeccionava Christine ficava cosendo, longe 
dele.
       Tiveram muitas aventuras, principalmente com donas de penses. Fizeram amigos, sobretudo entre os inspectoresde minas. Andrew no se admirava quando essa 
gente,rude e simplria, ria loucamente da sua misso. O piorera que Andrew ria com eles.
       Em Maro voltaram para Londres, venderam o carrocom um prejuzo de dez libras apenas sobre o preo decompra, e Andrew ps-se a organizar o relatrio. Tinhadecidido 
dar aos membros da Junta um trabalho que valesse o dinheiro gasto, com estatsticas sobre o material,pginas de quadros comparativos, mapas e grficos quemostrassem 
como subia a curva das ligaduras quando caaa curva das talas. Estava resolvido, explicou a Christine, mostrar  Junta como fizera um trabalho bem feito ecomo 
aproveitara bem o tempo que durara a inspeco.
       Ao fim de um ms, quando j passara para as mos deGill um rascunho do relatrio, Andrew teve a surpresade receber uma comunicao do Dr. Bigsby para que 
oprocurasse no Ministrio do Comrcio.
       - Ele est encantado com o seu relatrio - anunciavaGill, todo animado, acompanhando Andrew ao longo deWhitehall. - No deve deixar perder esta oportunidade. 
Sim, senhor! Meu caro colega,  inegvel que isto  umcomeo esplndido para si. Nem faz ideia como Bigsby importante. Tem toda a administrao da indstria nobolso.
       Levaram bastante tempo a chegar  presena do Dr. Bigsby. Tiveram de esperar, de chapu na mo, em duasantecmaras, at serem admitidos no seu gabinete. 
Maseis enfim o Dr. Bigsby, corpulento e cordial, com um fatocinzento e polainas de tom mais escuro, colete de abotoadura dupla, e cheio de autoridade aparatosa.
       - Sentem-se, senhores. A propsito do seu relatrio,Manson, estive a ler o rascunho e, embora seja cedo parame pronunciar, devo dizer-lhe que me deu boa 
impresso. Altamente cientfico.  Grficos excelentes. De trabalhosassim  que precisamos neste departamento. Agora, comoestamos em via de uniformizar os equipamentos 
de fbricas e minas, acho que o senhor deve conhecer os meuspontos de vista. Antes de mais vejo que recomenda ligaduras de oito centmetros como o tipo conveniente. 
Ora,eu prefiro ligaduras de seis centmetros e meio. Concorda comigo, no  verdade?
       Andrew irritou-se; deviam t-lo predisposto a isso as polainas.
       - Na minha opinio, pelo menos para as minas, achoque as ligaduras mais largas so melhores. Mas, que diabo! Que diferena  que isso faz?
       - Hem? Como? - Bigsby corou at  raiz dos cabelos. - No faz diferena?
       - Absolutamente nenhuma.
       - Mas o senhor no v... no compreende que  todoo princpio da estandardizao que est em jogo? Se sugerimos seis centmetros e meio e o senhor recomenda 
oito, pode resultar da uma srie de complicaes.
       - Pois eu recomendo oito centmetros - disse Andrew friamente.
       Os plos de Bigsby arrepiaram-se visivelmente. 
       -No posso compreender a sua atitude. H muitos anosque nos esforamos para a adopo de ligaduras de seiscentmetros e meio. Est a parecer-me que o senhorno 
sabe quanto este assunto...
       - Sim, eu sei! - Andrew tambm perdeu a pacincia. - O senhor j esteve no fundo de uma mina? Eu j! Jfiz uma operao sangrenta, estirado numa poa de 
gua, luz de uma lanterna e num lugar onde no se podiaestar de p. E posso garantir-lhe que uma diferena dedois centmetros e meio nas suas ligaduras no vale 
umcaracol.
       Saiu do edifcio mais apressadamente do que havia entrado. Desanimado, Gill torcia as mos e lamentava-sepor todo o caminho.
       Ao chegar ao seu gabinete, Andrew ps-se  janela, contemplando, de sobrolho carregado, o trfego do rio, asruas cheias de movimento, os autocarros, os elctricos 
passando estrondosamente sobre as pontes, o burburinhoda multido, o desenrolar palpitante da vida. 
       No tenhojeito para vegetar aqui, - pensava, num acesso de impacincia. - Nasci para viver l fora... l fora.
       Abbey deixou de comparecer s reunies da Junta. Challis deixara-o desalentado, quase num estado de terror. Ao acompanh-lo para almoar preveniu-o de que 
Whinneyestava a empenhar-se fortemente para conseguir que elefosse designado para a investigao sobre fadiga muscularantes de tratar da questo da silicose. 
Andrew pensouesforando-se desesperadamente para achar graa: Se forassim, depois das ligaduras o melhor que tenho a fazer ficar cliente do Museu Britnico.
       Ao voltar para casa, surpreendeu-se a olhar com invejaas placas de metal fixadas nas grades diante das portasdas residncias dos mdicos. Parava, via um 
cliente atocar  campainha da porta e entrar... E ento, prosseguindo melancolicamente o seu caminho, ficava a imaginar a cena, as perguntas do mdico, o exame 
com o estetoscpio, toda a excitante cincia do diagnstico. Tambmera mdico. No era de facto? Pelo menos, durante umcerto tempo...
       Pelos fins de Maio precisamente, e nessa disposio deesprito, subia ele a Oakley Street, por volta das cincoda tarde, quando viu de repente uma multido 
reunidaem torno de um homem estendido na calada. No meioda rua estava uma bicicleta arrebentada e mais adianteum camio atravessado.
       Momentos depois Andrew j estava no meio da multido, observando o homem atropelado. Junto dele ajoelhava-se um polcia. O homem sangrava abundantementede 
uma ferida profunda nas virilhas.
       - Deixe-me passar. Sou mdico.
       O polcia, que se esforava inutilmente por fixar um torniquete, voltou o rosto perturbado.
       - No consigo estancar o sangue, doutor. A ferida muito profunda.
       Andrew viu que era impossvel aplicar o torniquete. A ferida era muito profunda, atingindo o vaso ilaco e ohomem desfazia-se em sangue.
       - Levante-o - disse ao guarda. - Ponha o homem de peito para cima.
       Ento, fechando a mo direita, inclinou-se e empurrou a barriga do homem na direco da aorta. Todo o peso doseu corpo, assim transmitido  grande artria, 
deteve imediatamentea hemorragia. O polcia tirou o qupi e limpou a testa. Cinco minutos mais tarde, a ambulnciachegava. Andrew acompanhou-a. Na manh seguinte 
telefonou para o hospital. Comode costume em casos idnticos, o cirurgio de serviorespondeu bruscamente:
       - Sim, sim, o homem est a passar bem. Quem faz apergunta?
       - Oh! - murmurou Andrew, da cabina do telefone publico.  Ningum.
       E esta palavra, pensou com amargura, sintetizava exactamente o que ele era: ningum, nada fazia, no tinhafuturo. Suportou a situao at ao fim da semana, 
eento, calmamente, sem comentrios, entregou a Gill, paraque o transmitisse  Junta, o seu pedido de demisso.
       Gill ficou desconcertado, mas reconheceu que j receavaesse melanclico desfecho. Pronunciou algumas palavrasde consolao e ao terminar:
       - Afinal de contas, meu caro colega, eu compreendoque o seu lugar ... Bem, para empregar uma expressodo tempo de guerra, o seu lugar no  na retaguarda,mas... 
sim, na linha da frente... com os que combatem.
       Hope interps-se:
       - No ligue importncia ao que diz esse amador depinguins e de roseiras. O senhor tem sorte. Eu farei omesmo se conservar o juzo... Assim que terminar 
os trsanos do contrato!
       A Andrew nada constou sobre as actividades da Junta quanto  inalao das poeiras at que, meses depois,Lord Ungar levantou a questo, dramaticamente, no 
Parlamento, declarando-se baseado em documentao mdicaproduto das investigaes do Dr. Maurice Gadsby.
       Gadsby foi aclamado pela imprensa como um grande cientista e um benfeitor da Humanidade, e nesse ano asilicose foi classificada como doena de origem industrial.

QUARTA PARTE
    

1
       Comearam em busca de uma clnica. Uma verdadeiramontanha russa. As esperanas subiam ao cu, para carem logo depois no mais profundo abismo. Estimuladopela 
conscincia de trs derrotas sucessivas pois era assim que considerava a sada de Blaenelly, de Aberalawe da J. M. M., Andrew aspirava a uma desforra. Mas,embora 
aumentado pela rigorosa economia dos ltimosmeses de ordenado burocrata, todo o seu dinheiro no iaalm de seiscentas libras. O casal no saa das agnciasmdicas 
e no deixava passar qualquer oportunidade vislumbrada nas colunas do Lancet. Mas a quantia era insuficiente para a compra de um consultrio londrino.
       Andrew e Christine lembravam-se da primeira tentativa: o Dr. Brent, de Cadogan Gardens, retirava-se daactividade profissional e oferecia consultrio e clientelasubstancial
 para mdico de reputao firmada. Receandoque algum se lhes antecipasse para arrebatar-lhes a pechincha, fizeram a extravagncia de tomar um txi ecorreram 
para o Dr. Brent. Era um homenzinho de cabeabranca, agradvel, com ares quase humildes.
       - Sim - disse enfaticamente o Dr. Brent. - A clnica ptima. A casa tambm  bonita. Quero apenas sete millibras pelo trespasse. Tenho um arrendamento 
por quarentaanos e a renda  apenas de trezentas libras anuais. Quanto  clnica... O preo do costume... isto , a rendacorrespondente a dois anos. Que tal, Dr. 
Manson?
       - Muito justo! - Andrew concordou, com ar sisudo. Tambm me dar uma boa recomendao para os clientes,no  assim? Obrigado, Dr. Brent. Vamos pensar no 
caso.
       Pensaram sobre o negcio enquanto tomavam chnuma modestssima confeitaria.
       - Sete mil libras! - Andrew soltou uma gargalhada. Atirou o chapu para a nuca. Franziu a testa e fincou oscotovelos na mesinha de mrmore. - Isto est 
terrvel,Chris! Esses velhos agarram-se  situao com unhas edentes. E para os sacar de l s com muito dinheiro. A culpa  da nossa organizao mdica. Mas se 
o sistema esse, tenho de me conformar. Vers! Para o futuro tambm vou tomar a srio essa questo de dinheiro!
       - No faas isso - disse ela, sorrindo. - Temos sidomuito felizes na nossa pobreza.
       Andrew resmungou:
       - No dirs a mesma coisa quando tivermos de mendigar pela rua: uma esmolinha, por amor de Deus!
       Confiando nos seus ttulos mdicos, contentava-se comum dispensrio barato, sem luxo. Queria livrar-se da tirania do sistema de cartes. Mas, passadas semanas, 
jaceitava com prazer qualquer coisa que lhe fornecesse ummeio de existncia. Viu clnicas em Talse Hill, Islington,Brixton e at em Cambden Town, onde lhe mostraram 
umconsultrio com um buraco no tecto. Depois de discutirmuito com Hope, que considerava o caso um suicdio porcausa da insignificncia do capital, Andrew j estava 
decididoa alugar uma casa e pr uma placa na porta espera que os clientes aparecessem.
       Mas ao fim de dois meses, quando j estavam no augedo desespero, a Providncia teve compaixo deles e levousuavemente para o alm o Dr. Foy, de Paddington. 
Quatrolinhazinhas no Medical Journal que noticiavam o factocaram sob os olhos de Andrew. Embora sem esperana. 
       Foram ao n. 9 do Chesborough Terrace. Viram a casa. Era um casaro sepulcral, cor de chumbo, com um pequenogabinete lateral como dispensrio e, nos fundos, 
uma garagem de tijolos. Verificaram pela escriturao que o Dr. Foy fazia perto de quinhentas libras por ano, provenientesprincipalmente de consultas, com remdios 
a uma mdiade trs xelins e seis pence. Falaram com a viva, que lhesassegurou timidamente ser muito boa a clnica do defunto. Fora mesmo excelente durante uma 
certa poca. No faltavam, ento, os clientes distintos, que entravam pelaporta da frente. 
       Agradeceram e saram sem animao.
       - Apesar de tudo, no sei... - Andrew reflectia, preocupado. - So muitas as desvantagens. Tenho horror adispensrios. A zona no  boa. No notaste todas 
essaspenses horrveis aqui perto? Em compensao, poucomais adiante, a vizinhana  decente. E a casa  deesquina. A rua tem movimento. O preo est de acordocom 
os nossos recursos. Um ano e meio de prazo para opagamento... Ela foi correcta, incluindo na venda a mobliado consultrio e do dispensrio. E tudo em condiespara 
se comear a trabalhar.  a vantagem de uma vagapor motivo de morte. Que te parece, Chris? Ou agora oununca mais. Devemos tentar?
       Christine fitou-o longamente, sem se decidir. Londresj perdera para ela todo o encanto da novidade. Gostavado campo, e ali, naquele ambiente desagradvel, 
sentiacrescer a vontade de voltar para a provncia. Mas se eleestava resolvido a fazer clnica em Londres no tinhacoragem para o dissuadir. Acabou por concordar...
       - Se queres assim, Andrew...
       No dia seguinte Manson ofereceu ao procurador daviva Foy seiscentas libras em lugar das setecentas ecinquenta pedidas. A oferta foi aceite e o cheque foi 
entregue.
       E no sbado 10 de Outubro o casal tirou a mobliado depsito e entrou na posse da nova residncia.
       No domingo ainda estavam assoberbados com a arrumao e bastante apreensivos com a nova vida. Andrewaproveitou a ocasio para impingir um dos seus sermes,raros, 
mas insuportveis, que o transformavam num verdadeirofrade.
       - Chris, tudo aqui  contra ns. Gastmos o ltimovintm que possuamos. Temos de viver com o que ganhamos. E s Deus sabe o que poderemos ganhar. Mas temosde 
avanar. Trata de apertar, Chris; economiza...
       Passou pelo desgosto de a ver desatar a chorar, muitoplida, no meio da grande e sombria sala da frente, aindadesarrumada.
       - Por amor de Deus! - soluava Christine. - Deixa-mesozinha aqui. Economiza! Eu no economizei sempre odinheiro? Eu custo-te alguma coisa?
       - Chris! - exclamou ele, espantado.
       Ela continuou freneticamente:
       - Que diabo de casa!  uma coisa que no compreendo. Esta cave, estas escadas, esta porcaria...
       - Isso no tem importncia! O que interessa  a clnica.
       - Podamos arranjar uma clinicazinha na provncia,em qualquer lugar.
       - Ah! Sim! E com um jardinzinho na frente da casa. Era s o que faltava!
       Ao fim e ao cabo, Andrew pediu desculpas pelo sermo.
       Depois, de brao dado, foram estrelar ovos na inspitacave. Para a divertir Andrew disse que aquilo no era umacave, mas um trecho do tnel de Paddington. 
Ela forou-sea sorrir a essa tentativa de humorismo, mas na verdades prestara ateno ao encanamento roto da copa.
       No dia seguinte Andrew abriu o dispensrio s novehoras em ponto. No abriu mais cedo para que no pensassemque estava com muita pressa. O corao batia-lheexcitadamente 
com uma ansiedade maior, muito maior,do que naquela manh, quase esquecida, em que Mansonatendeu as primeiras consultas em Blaenelly.
       Passou meia hora. A expectativa era grande. Como opequeno dispensrio, cuja entrada dava para a rua lateralestava ligado por um corredorzinho ao resto da 
casa, podia observar dali o consultrio propriamente dito, queocupava a sala da frente do andar trreo. No estava malmobilado: a secretria do Dr. Foy, um sof, 
um pequenogabinete. Segundo explicara a viva, ali eram atendidosos clientes distintos, que entravam pela porta da frente,tinha, assim, uma dupla clientela. 
E Andrew esperava oprimeiro cliente com a mesma ateno nervosa com que opescador aguarda o peixe no anzol.
       Contudo, ningum apareceu. Eram quase onze horas enem sinal de cliente. Junto dos carros em fila do outrolado da rua, os chauffeurs tambm esperavam fregueses.
       Ao lado da do Dr. Foy, toda amachucada, brilhava noporto a placa do novo mdico.
       De repente, quando j estava desanimado, retiniu a campainha da porta do dispensrio e entrou uma velhaembuada num xale. Bronquite crnica, percebeu logoAndrew, 
pela respirao opressa, antes mesmo que ela pronunciasse palavra. Suavemente, muito suavemente, elef-la sentar e auscultou-a. Era uma velha cliente doDr. Foy. 
Falou-lhe. Preparou-lhe o remdio num cubculo,que fazia de farmcia, a meio caminho do corredor, entreo dispensrio e a sala da frente. Voltou com o remdio.
       E ento, quando j se preparava, todo trmulo para lhedizer o preo, a mulher pagou espontaneamente a consulta: trs xelins e seis pence.
       Que emoo nesse momento! Que alegria! Que estranho alvio! Como brilhavam na palma da mo aquelas moedazinhas de prata! Dir-se-ia o primeiro dinheiro queganhava 
em toda a sua vida. Fechou o dispensrio, correupara Christine e atirou-lhe as moedas para o colo.
       - A primeira cliente, Chris. Afinal de contas, a velhaclnica talvez no fosse to m como isso. De qualquermaneira, o almoo est garantido!
       Nenhum doente havia para visitar, pois o velho mdico, falecido havia quase um ms, no deixara substituto at chegada de Andrew. Devia esperar at que 
surgissemnovas chamadas. Nesse interim, percebendo, pelos modosde Christine, que ela queria enfrentar sozinha os seusafazeres domsticos, Manson aproveitou a 
hora vaga, antesdo almoo, num passeio pelo bairro, distribuindo prospectos, observando as barbearias, a longa srie de pensesbaratas, os estbulos transformados 
em garagens, e asmelanclicas praas arborizadas. Ao voltar a esquina daNorth Street surgiu aos seus olhos um aspecto caractersticodas zonas pobres e srdidas: 
casas de penhoresquiosques, tabernas.
       Reconheceu que o bairro era velho e decadente. Masembora sombrio e sujo, apresentava aqui e ali indcios devida nova: um grupo de boas residncias em construoalgumas 
lojas bonitas, escritrios e, no fundo de Gladstone Place, a famosa Casa Laurier. At ele, que nadaconhecia de modas femininas, j ouvira falar na CasaLaurier. 
E se ainda duvidasse do seu prestgio, ali estava, para atest-lo, a longa fila de automveis de luxo ao longodo imponente edifcio de mrmore. Parecia estranho 
quea Casa Laurier ficasse to fora de mo, entre aquelesprdios velhos. No entanto, a sua presena ali era toindiscutvel como a do polcia no meio da praa.
       Depois do almoo completou a primeira excurso pelobairro visitando os colegas da vizinhana. Fez ao todooito visitas. S trs mdicos lhe deixaram boa 
impresso: o Dr. Ince, de Gladstone Place, um homem moo; oDr. Reeder, de Alexandra Street; e um velho escocs chamado McLean, da esquina da Royal Crescent. Sentiu-se, 
porm, um tanto diminudo pelo tom com que disseram: Ah! Foi a clnica do pobre do Foy que o colega arranjou?. Porqu este arranjou?, perguntava a si mesmo, 
meio zangado. E dizia com os seus botes que dentro de seis meses talvez eles o tratassem de outro modo. Embora j tivesse trinta anos e conhecesse a vantagem damodstia, 
tinha pela piedade alheia o mesmo horror queo gato tem por gua fria.  noite apareceram trs clientes no dispensrio. Doisdeles pagaram os trs xelins e seis 
pence da consulta. O terceiro prometeu voltar no sbado para lhe pagar. Ganharaa soma de dez xelins e seis pence no primeiro dia declnica.
       Mas o dia seguinte nada rendeu. E o outro apenas setexelins. Quinta-feira foi um bom dia. Na sexta, uma consulta somente. A manh de sbado passou em branco,mas 
 noite o dispensrio rendeu dezassete xelins e seispence, muito embora no tivessem voltado na segunda-feirapara pagar os clientes a quem fiara.
       No domingo, sem nada dizer a Christine, Andrew ps-sea examinar tristemente a semana decorrida. Teria feito umerro crasso tomando aquela clnica falida, 
enterrando assuas economias naquele casaro mal assombrado? Porqueno avanava? Estava com trinta anos. Sim... j passarados trinta... Alm do grau de mdico, 
possua dois ttulosimportantes: doutor em Medicina, com distino, e membro do Royal College of Physicians. Era competente etinha a recomend-lo um bom trabalho 
de investigaoclnica. No entanto, ali estava todo atrapalhado, ganhandoapenas o suficiente para no morrer de fome. A culpa do sistema profissional, pensava, 
indignado. J no para o nosso tempo. Devia existir uma organizao melhor, uma oportunidade para todos. Devia haver mesmo afiscalizao do Estado. Mas, lembrando-se 
do Dr. Bigsby e da Junta, resmungou com raiva: Que diabo, isso tambm no serve.  a burocracia, a morte da iniciativa individual. Morreria sufocado ali. Mas devo 
vencer, que diabo!
       - Tenho de vencer!
        Era a primeira vez que se impunha assim o aspecto financeiro da carreira mdica. E para o convencer das necessidades materiais nada mais eficiente se poderia 
aconselhar do que esses verdadeiros protestos do estmago (era dele mesmo o eufemismo) que sentia em muitos dias da semana.

2
       A pouca distncia de casa, na rua principal, por onde Passavam os autocarros, havia uma pequena pastelaria,dirigida por uma mulherzinha gorducha, alem 
naturalizada, que dizia chamar-se Smith, mas que era evidentementeSchmidt, a julgar pelo sotaque. Era um local bemtpico o estabelecimento de Frau Schmidt, com 
o seuestreito balco de mrmore abarrotado de arenques fritosfrascos de azeitonas, chucrute, vrias qualidades de enchidos, pastis, salames e um delicioso queijo 
chamado Libtauer. Alm disso tinha a vantagem de ser muitobarato. J que o dinheiro andava to escasso na casa domdico e o fogo da cozinha estava em runas, 
Andrewe Christine visitavam com frequncia a casa de FrauSchmidt. Nos dias bons comiam frankfurters e apfelstrudel; nos dias de crise, o almoo consistia num prato 
dearenques com batatas cozidas. Por vezes entravam napastelaria, depois de examinarem com olhos gulosos amontra dos comestveis, e saam de l com qualquer coisaboa 
dentro de um saco de corda.
       Frau Schmidt no tardou em travar relaes com osnovos fregueses. Demonstrava especial simpatia por Christine. Sob a massa revolta dos cabelos louros, a 
cara gordae lustrosa da alem desabrochava num sorriso diante deAndrew. E apertando os olhinhos, dizia-lhe cheia de interesse :
       - Tudo correr bem. O doutor vencer. Tem uma boa mulherzinha. Pequenina, como eu. Mas  boa. Espere ever. Eu lhe arranjarei clientela!
       A situao tornou-se ainda mais sria para Andrew e Christine porque o Inverno chegou pouco depois. As ruas mergulhavam no nevoeiro, ainda aumentado, ao que 
parece, pelos fumos da grande estao ferroviria que ficavaperto. Trataram de suportar a provao de bom humor,procurando convenser-se de que os seus transes 
de vidaeram divertidos. Mas em Aberalaw nunca haviam tidodias to difceis.
       Christine fez os arranjos que pde no casaro frio ehmido. Caiou os tectos, fez novas cortinas para a salade espera, forrou de papel o quarto de dormir. 
Pintando-asde novo, conseguiu transformar por completo as portasestragadas da sala de visitas, no andar trreo.
       As chamadas que recebia uma vez por outra proporcionaram a Andrew o conhecimento das penses da vizinhana.
       O dinheiro desses clientes no era fcil de receber. Era, em regra, uma gente miservel e mesmo suspeita,acostumada  prtica do calote. Mas o mdico tratava 
decaptar a simpatia das donas da penso, umas criaturasmagras e estranhas Ficava a conversar nos corredoressombrios. Dizia: No supus que estivesse tanto frio! 
Deviater trazido o sobretudo. Ou ento:  desagradvel andara p. O meu carro est agora na oficina.
       Fez-se amigo do sinaleiro que regulava o trnsito daesquina da casa de Frau Schmidt. Chamava-se DonaldStruthers. Descobriram imediatamente afinidades, poistanto 
o polcia como Andrew eram de Fife. Struthers prometeu ajudar o patrcio no que fosse possvel, observandohumoristicamente:
       - Pode ficar certo, doutor: se houver aqui algum atropelamento, no deixarei de o mandar chamar.
       Uma bela tarde, um ms depois de ter iniciado a suaaco profissional, Andrew saiu e correu todas as farmcias do bairro, procurando com ares importantes 
umaseringa Voss, tipo especial, de 10 c.c., que bem sabia nopoder encontrar em nenhuma delas. Era um meio de seapresentar como o novo importante mdico da zona. 
Aovoltar leu na cara de Christine uma boa nova.
       - H uma cliente  tua espera no consultrio - murmurou ela.  Veio pela porta da frente.
       A fisionomia de Andrew alegrou-se. Era o primeirocliente distinto que lhe aparecia. Talvez fosse o comeode melhores tempos. E todo agitado, entrou apressadamente 
no consultrio.
       - Boas tardes! Em que posso ser-lhe til?
       - Boas tardes, doutor. Venho recomendada pela Sr.aSmith.
       Levantou-se para o cumprimentar. Era gorda, robusta simptica. Trazia um casaquinho de peles e uma bolsagrande. Manson percebeu logo que se tratava de uma 
dessasmulheres suspeitas que frequentavam o bairro.
       - Ah! Sim! - disse ele, perdendo um pouco da animao.
       - Oh! Doutor - sorria a mulher, um tanto acanhada- O meu amigo acaba de me dar uns lindos brincos deouro. E a Sr.a Smith, de quem sou freguesa, disse-me 
queo doutor poderia furar-me as orelhas. O meu amigo temeque se eu mesma o fizer provoque alguma infeco.
       Andrew deu um longo suspiro. Ver-se obrigado a chegara tal ponto. Disse, afinal:
       - Est bem. Vou furar-lhe as orelhas.
       Fez o trabalho cuidadosamente, desinfectando a agulha, esfregando os lbulos com cloreto de etilo e at mesmocolocando os brincos. 
       - Oh! Doutor, que encanto! - E mirando-se no espelhinho da bolsa: - Nada senti. O meu amigo vai ficar contentssimo. Quanto , doutor? 
       Havia uma taxa fixa para os clientes distintos, embora a distino no fosse muito fixa. Foy cobrava sete xelinse seis pence. Foi quanto Andrew pediu. 
A mulher tirou da bolsa uma nota de dez xelins. Achavao mdico um cavalheiro muito amvel, educado e bonito. Sempre havia apreciado o tipo moreno, como o dele. 
Aoreceber o troco, notou que ele parecia esfomeado.
       Noutra poca Andrew teria ficado a andar nervosamentede um lado para outro, com a impresso de quetambm se estava a prostituir com um servio to inferior.
       Mas nada disso fez quando a mulher saiu. Sentia em si mesmo uma estranha humildade. Com a nota amarrotadana mo, foi  janela e ps-se a observar a cliente, 
at queela desapareceu remexendo as ancas, balouando a bolsa,orgulhosa dos brincos que levava nas orelhas. No meio dessa luta desesperada, Manson sentia profundamentea 
falta de bons amigos, de bons companheiros.
        Assistiu  reunio de uma sociedade mdica do bairro,mas no se divertiu muito. Denny ainda estava fora. Dando-se bem em Tampico, resolvera ficar, como 
cirurgioda Companhia de Petrleo Novo Sculo. No podia contarcom ele, pelo menos nos tempos mais prximos. Hope,por sua vez, fora mandado para Cambridge, onde, 
comoexplicou humoristicamente num postal, estava a contarcorpsculos, por encomenda do Paraso dos Manacos.
       Frequentemente sentia vontade de entrar em contactocom Freddie Hamson. Algumas vezes chegou mesmo aprocurar na lista o nmero do seu telefone. Mas desistiasempre 
de pedir ligao. Ainda no vencera. Ainda noestava devidamente instalado na vida, pensava consigomesmo. E essa ideia neutralizou o primeiro impulso. Freddie 
morava ainda na Queen Anne Street, embora noutracasa. De dia para dia, Andrew pensava cada vez mais emHamson, a conjecturar a que deveria ele o seu triunfo, a 
recordar os velhos tempos de estudante. Uma vez noresistiu. A tentao era demasiadamente forte. Telefonou.
       - J te esqueceste de mim com certeza - rosnou, jmeio preparado para ouvir os protestos do amigo. - Quemfala  Manson, Andrew Manson. Fao clnica aqui, 
emPaddington.
       - Manson! Tu, esquecido! Que ideia  essa, meu amigo? - Freddie estava atacado de lirismo. - Mas, homem deDeus, porque no me telefonaste h mais tempo?
       - Oh! Ainda no estamos devidamente instalados.
       Andrew sorria, animado pela cordialidade de Freddie.
       - Alm disso, com aquele emprego na Junta, tivemos deviajar por toda a Inglaterra. Sou agora um homem casado,sabes...
       - Eu tambm! Ouve, velho amigo; vamos aproximar-nosde novo. O mais depressa possvel. Fao questo disso. Tu, aqui em Londres. Estupendo! Deixa-me ver o 
livro denotas. Olha: pode ser quinta-feira? Queres vir jantar connosco?
       - Sim, sim. Ser ptimo. Ento, at quinta-feira, meuvelho! Entretanto pedirei a minha mulher que escrevaum bilhete  tua.
       Christine no demonstrou entusiasmo quando Andrewlhe falou no convite.
       - Vai tu s, Andrew - sugeriu ela, depois de uma pausa.
       - Ora! Isso  absurdo! Freddie quer que conheas amulher dele. Eu sei que no aprecias, mas talvez hajaoutras pessoas, outros mdicos provavelmente. Podemosver 
coisas novas, querida. Alm disso, no nos temos distradoultimamente. Ele falou em smocking. Ainda bemque comprei um para aquela festa em Newcastle. E tu,Christine? 
Precisas de arranjar um vestido que sirva.
       - Preciso de arranjar um novo fogo de gs - respondeu, um tanto amuada. 
       Aquelas ltimas semanas tinhamsido bem duras para ela. Perdera um pouco da sua frescura, que sempre fora o seu maior encanto, e, por vezes,como naquele 
momento, o seu modo de falar era impaciente e fatigado.
       Mas na noite de quinta-feira, quando se dirigiram para Quenn Anne Street, ele notou como Christine parecia interessante no seu vestidinho. Era o mesmo vestido 
brancoque comprara para a festa de Newcastle, mas modificara-ocom tanto jeito que dava a impresso de ser ainda maisnovo, mais elegante. Penteado tambm de modo 
diferente,muito liso, o cabelo negro emoldurava graciosamente orosto plido. Andrew bem notou isso quando ela lhe endireitoua gravata. Quis mesmo dizer-lhe que 
estava linda, mas esqueceu-se de se manifestar pois de repente tevereceio de se atrasar.
       No entanto no chegaram tarde, mas cedo, to cedoque s ao fim de trs minutos, origem de um certo constrangimento,  que Freddie apareceu, alegre, de braosabertos, 
explicando que chegara naquele momento do hospitale que sua mulher no tardaria a descer. Ofereceu-lhes aperitivos, batendo nas costas de Andrew, convidando-os 
a sentar-se. Freddie engordara bastante desdeaquele encontro em Cardiff. A papada da prosperidadesaa-lhe do colarinho. Mas os olhos conservavam o mesmobrilho 
e no havia um s fio de cabelo fora do lugar, nacabea inundada de brilhantina. Todo ele irradiava sadee boa vida.
       - Podem crer! - Ergueu o copo. -  um encanto paramim encontr-los de novo. Desta vez temos de cultivar asnossas relaes. Que achas isto aqui, meu velho? 
Lembras-te do que eu disse naquele jantar em Cardiff? E a propsito,que jantar horrvel, hem? Garanto que o de hoje sermelhor. Eu disse que havia de vencer em 
Londres. Ocupoaqui a casa toda,  claro. No apenas um apartamento. Comprei-a no ano passado. E que dinheiro me custou! - Apertou o lao da gravata, todo cheio 
de si. - No  precisodizer por quanto isso me saiu nem mesmo explicarque sou um mdico vitorioso. Mas no me incomodo que fiques sabendo, meu velho.
       Tudo ali parecia realmente muito caro, no havia dvida: uma confortvel moblia moderna, fogo de luxo,bom piano, um ramo artificial de magnolias de madreprola 
numa grande jarra branca. Andrew j se preparavapara exprimir a sua admirao quando entrou a Sr.a Hamson: alta, fria, com o cabelo negro apartado ao meio.
       - O vestido marcava uma diferena gritante do de Christine.
       - Vem, querida - acolheu-a Freddie com carinho,mesmo com deferncia, e apressou-se a encher e oferecer-lhe um clice de Xerez. Decorreu tempo suficiente 
paraque ela beberricasse displicentemente o aperitivo antes queaparecessem os outros convidados: o casal Charles Ivory,o Dr. Paul Fredman e a mulher. Quando estes 
chegaram,fizeram-se as apresentaes e houve risinhos e troca depalavras entre os Ivory, Fredman e Manson. Pouco depoisera servido o jantar.
            O aspecto da mesa era de luxo refinado. Era como um Mostrurio opulento que Andrew tinha visto na montrade Labin & Benn, os famosos joalheiros de Regent 
Street. At os candelabros. A comida era irreconhecvel: no sesabia se era peixe ou carne, mas tinha um sabor admirvel.
       E serviu-se champanhe. Depois de duas taas, Andrew tornou-se mais comunicativo. Comeou a conversar coma Sr.a Ivory, que se sentara  sua esquerda. Era 
umamulher esguia, vestida de preto, portadora de uma soberbacoleco de jias. Os olhos azuis, grandes e salientes, voltavam-se de vez em quando para ele numa 
expressoquase infantil.
       O marido era o grande cirurgio Charles Ivory, explicouela, sorrindo, quando Andrew lhe fez a pergunta. Elapensava que toda a gente conhecia Charles. Morava 
emNew Cavendish Street, logo ao virar da esquina. Numacasa prpria. Era agradvel residir to perto do casalHamson. Charles, Freddie e Paul Fredman eram to bonsamigos! 
Todos trs scios do Sackville Clube. Ficou espantada quando Andrew confessou no ser scio. Pensavaque toda a gente tinha de pertencer ao Sackville. E ps-sea 
conversar com o outro vizinho da mesa.
       Manson voltou-se ento para a Sr.a Fredman,  suadireita. Achou-a mais gentil e agradvel, com uma peleaveludada, quase como a de uma oriental. Encorajou-a 
afalar tambm acerca do marido. E dizia consigo mesmo:
       Preciso de informar-me acerca desses senhores. Parecemto prsperos e triunfantes... Paul, explicou a Sr.a Fredman, era mdico. O casalmorava num palacete 
de Portland Place, mas Paul tinhaconsultrio em Harley Street. A clientela era magnfica, explicava to afectuosamente, que nem parecia gabarolice, composta principalmente 
por hspedes do Plaza Hotel. Naturalmente, o Dr. Manson, conhecia o Plaza, aquelehotel, novo e elegantssimo, que d para o Parque.  conhecidssimo, mesmo porque 
est sempre cheio de celebridades. Paul era praticamente o mdico oficial do Plaza. E sotantos os milionrios americanos e astros de cinema. Sim. tudo o que  
importante se hospeda no Plaza. E isso estupendo para o Paul.
       Andrew gostou da Sr.a Fredman. Ficou a ouvi-la at quea Sr.a Hamson se levantou. Ento apressou-se amavelmentea afastar a cadeira da vizinha de mesa.
       - Charuto, Manson? - perguntou Freddie, com ar de entendido no assunto, quando as senhoras se retiraram. - Hs-de gostar destes. E aconselho-te a no desprezareseste 
brande.  de 1894. Posso garantir a qualidade.
       Com o charuto aceso e um pouco de brande num copobojudo na sua frente, Andrew arrastou a cadeira parajunto dos outros. Era exactamente isso que ele desejava,uma 
palestra de mdicos bem animada, assuntos profissionaise nada mais. Esperava que Hamson e os seus companheiros se decidissem a falar. E de facto falaram bastante.
       - A propsito - disse Freddie. - Encomendei hoje, naCasa Glickert uma das novas lmpadas de irradiao.  um pouco puxada de preo. Custou-me quase oitentaguinus. 
Mas vale a pena.
       - Safa!... - exclamou Fredman, pensativo. Era magrode olhos negros, com fisionomia inteligente de judeu. - Deve render bastante para compensar o custo.
       Andrew apertou o charuto entre os dedos preparando-se para discutir.
       - Essas lmpadas no me parecem famosas. Deves terlido, naturalmente, o artigo de Abbey no Medical Journal,sobre o mito da helioterapia. Essas lmpadas 
de irradiaoabsolutamente nenhum raio infravermelho contm.
       Freddie olhou-o espantado e depois sorriu.
       - Mas contm a grande vantagem de se cobrar trsguinus de cada cliente por aplicao. Alm disso, do pele um tom bronzeado muito apreciado.
       - Oua, Freddie - interrompeu Fredman. - Eu sou contrrio  aquisio de aparelhagem dispendiosa. Tem de serpaga muito antes que comece a render qualquer 
coisa. Alm disso envelhece depressa, passa de moda. com franqueza, caro colega, nada h to vantajoso como a velhainjeco.
       - E o colega sabe com certeza aproveit-la bem - disse Hamson.
       Ivory juntara-se ao grupo. Era volumoso, mais velhoque os outros, plido, bem escanhoado, com o desembaraode um homem mundano.
       - A propsito, encomendei hoje uma srie de injecesDoze. Mangans, claro. Vejam o que eu fiz.  uma coisaque rende actualmente. Disse ao cliente: o senhor 
 umhomem de negcios. Esta srie de injeces vai-lhe custarcinquenta guinus, mas se quer pagar adiantado custam-lhe quarenta e cinco. O cliente entregou-me 
o chequeimediatamente.
       - Que espertalho me saiu! - comentou Freddie. -Pensei que o colega fosse cirurgio.
       - E sou de facto - Ivory balanou a cabea. - Amanhvou fazer uma raspagem na Casa de Sade Sherrington.
       - No se deve sair disso - murmurou Predman distrado, tirando baforadas do charuto e voltando ao assunto. - No se deve sair disso.  interessante. Numa 
clnica degente bem os remdios por via gstrica esto completamentepostos de lado. Se eu receitasse para um hspededo Plaza... por exemplo, uma soluo de arsnico, 
noganharia com isso mais do que um miservel guinu. Massabem o que fao? Aplico a mesma coisa hipodrmicamente. Esta coisa de esterilizar a agulha, esfregar 
a pelecom algodo embebido em lcool e todo o restante cenrio uma coisa que impressiona. O cliente acha isso cientficoe convence-se de que o mdico  o melhor 
do mundo.
       Hamson declarou com convico:
       - Acreditem que  bem bom para os mdicos que o tratamento por via gstrica esteja fora de voga nas zonas elegantes. Veja-se o caso do nosso amigo Charlie. 
Suponhamos que ele receita mangans... ou mangans e ferro,o bom remdiozinho dos velhos tempos.  o que convmao doente, mas que ganharia o Charlie com isso? 
Nadamais de trs guinus. No entanto se aplicar a mesmadroga numa dzia de injeces ganha cinquenta guinus...
       - Oh! Desculpe, Charlie, quero dizer... quarenta e cinco.
       - Menos doze xelins - murmurou Fredman jovialmente. - Desconte o custo das ampolas.
       A cabea de Andrew estalava. Espantava-o, pela sua novidade, aquele argumento em favor da abolio dos remdios em frascos. Tomou mais um gole de brande 
parafortalecer o nimo.
       - E ainda h mais - acrescentou Fredman. - O pblicono sabe o preo das injeces. Quando v uma caixa deampolas num consultrio de mdico, a cliente pensa 
logo: Isto deve custar um dinheiro.
       - Repare - disse Hamson, piscando o olho para Andrew -repare como Fredman emprega quase sempre nofeminino a palavra cliente. A propsito, Paul, ouvi falarna 
caada de ontem. Dummett quer organizar um grupode caa, se voc, o Charles e eu o acompanharmos.
       Durante uns dez minutos ficaram conversando sobre caadas, golfe e automveis. Ivory comprara um carro novo,feito de encomenda para ele. Andrew escutava, 
fumava,bebia brande. J estavam todos bem bebidos. Um poucotranstornado, Andrew tinha a impresso de que eramtodos companheiros ptimos, magnficos. No o excluamda 
conversa. Pelo contrrio, davam sempre a entender,por uma palavra ou por um olhar, que ele fazia parte dogrupo. Na companhia de gente to distinta at se esqueceude 
que o seu almoo tinham sido apenas arenques de escabeche e quando se levantaram, Ivory bateu-lhe afectuosamente no ombro:
       - Vou mandar-lhe o meu carto, Manson. Ser paramim um prazer examinar um caso na sua companhia...
       - Em qualquer ocasio.
       Voltando  sala de visitas, encontraram ali uma atmosfera que, pelo contraste, parecia cerimoniosa. Mas o Freddie, numa animao tremenda, mais radiante 
que nunca,mos nos bolsos o peitilho da camisa a luzir imaculadamente, achou ser ainda muito cedo e que deviam terminara noite juntos, no Embassy.
       - Receio - Christine lanou um olhar furtivo para Andrew- que no possamos ir.
       - Que tolice, querida! - Andrew sorriu, um tanto afogueado. - No podemos pensar em ser desmancha-prazeres.
       Via-se logo que Freddie era conhecidssimo no Embassy. Instalados numa mesa de canto, ele e os companheiros faziam vnias e dirigiam sorrisos para todos os 
lados.
       Champanhe de novo. Dana. Esses senhores, sabem levara vida, pensava Andrew, um tanto tocado pela bebida,muito expansivo. Oh! Bonito! Bonito isto que 
esto atocar! Quem sabe... quem sabe se Christine no gostariade danar?.
       No txi, ao voltar para casa afirmou alegremente:
       - Companheiros de primeira ordem, Chris! Noite magnfica! No concordas?
       Ela respondeu numa voz seca e decidida:
       - Foi uma noite horrorosa!
       - Hem? Como?
       - Gosto de Denny e Hope... So os que me parecemteus colegas, Andrew... Mas estes, estes superficiais, estesfteis...
       - Mas que  isso, Chris?... Que achaste ruim?
       - Oh! Ento no deste por coisa alguma? - respondeuela, numa fria gelada: - Tudo. A comida, a moblia, oassunto das conversas.  dinheiro, dinheiro o tempo 
todo. No reparaste talvez como a Sr.a Hamson olhou para omeu vestido. Deu a entender que gasta mais num s tratamentode beleza do que eu com os meus fatos duranteum 
ano inteiro. Chegou a ser engraada a cena na salade visitas quando percebeu que eu no sou algum. Ela,sim,  filha de Whitton... O Whitton do whisky! Nempodes 
imaginar o que foi a conversa antes de vocs voltareml de dentro. Mexericos de alta-roda, quem tinhaido passar o fim de semana na casa de campo de Fulano,qual 
o ltimo aborto da sociedade, o que disse o cabeleireiro... E nem uma s palavra sobre coisas decentes. Ora! Ela at insinuou que estava a ser gentil... os termos 
sodela... com o chefe da orquestra de dana do Plaza.
       Era tremendo o sarcasmo da sua voz. Confundindo-ocom inveja, Andrew disse com a voz meio espapaada:
       - Hei-de arranjar muito dinheiro para ti, Chris! Comprars uma poro de vestidos caros.
       - No preciso de dinheiro - disse ela, com energia. E detesto os vestidos caros.
       - Mas...  querida. - Aproximou-se, meio embriagado,dela. - 
       - No te chegues! - O tom assustou-o. - Eu gosto deti, Andrew, mas no quando ests bbado.
       Ele encolheu-se no canto, desconcertado, furioso. Eraa primeira vez que ela o repelia.
       Pagou o txi e entrou em casa  frente dela. Ento,sem uma palavra, subiu ao quarto mal mobilado. Tudoparecia feio e triste ao voltar de ambientes to luxuosos.
       O comutador da luz estava avariado. Toda a instalaoda casa era defeituosa.
       Que diabo! - pensava, ao atirar-se para a cama. - Preciso de sair desta situao. Christine ver! Quero ganhardinheiro. Que posso fazer sem dinheiro?.
       Pela primeira vez o casal dormiu em quartos separados.

3
       Na manh seguinte, quando se encontraram,  hora do pequeno almoo, Christine procedeu como se todo o incidente estivesse esquecido. Andrew percebeu que 
ela seesforava por tornar-se mais agradvel que nunca. Intimamente lisonjeado, mostrou-se, no entanto, ainda mais rabujento e carrancudo. Uma mulher precisa 
de vez emquando que se lhe ensine o seu verdadeiro lugar, pensavaele, fingindo-se muito absorvido na leitura dos jornais.
       Mas, depois de receber algumas respostas secas, Christine mudou subitamente de atitude. Perdeu o ar amvel, encolheu-se num canto da mesa, em silncio, ausente, 
semolhar para o marido. Terminada a refeio, Andrew levantou-se e saiu da sala, resmungando com os seus botes Que teimosinha! Hei-de dar-lhe uma lio!No 
consultrio, procurou logo o Anurio Mdico. Tinhamuita curiosidade de obter informaes mais precisas sobreos amigos da vspera. Folheou apressadamente as folhas 
procurando primeiro ver o que havia sobre Freddie. Aliestava: Frederick Hamson, Queen Anne Street, formadoem Medicina e Farmcia, assistente da clnica externa 
noHospital de Walthamwood.
       Andrew franziu a testa, perplexo.
       Hamson na noite anterior falara muito sobre a suanomeao para um hospital. Nada como um lugar dehospital, dizia ele, para nos elevar at s esferas 
maiselegantes da clnica mdica,  uma coisa que inspira confiana  clientela. E no entanto, o hospital de Freddieno era para gente pobre? No ficava em Walthamwood,um 
dos subrbios mais distantes e modestos? Mas nopodia haver enganos. Era isso mesmo. Folheava a ediomais recente do Anurio. Comprara-o apenas h um ms.
       J sem tanta pressa, Andrew procurou ver o que haviasobre Ivory e Fredman. E depois ficou com o grosso volumevermelho sobre os joelhos, desorientado, sem 
saber o quepensar. Paul Fredman, assim como Freddie, no tinhaoutro ttulo seno o de formado em Medicina. Nem aomenos fora aprovado com distino, como o outro. 
E nenhum cargo de hospital tinha. E Ivory? O Dr. CharlesIvory, de New Cavendish Street, s possua o ttulo mais modesto da hierarquia cirrgica: Membro do ColgioReal 
de Cirurgies. E nunca exercera cargos de hospital. No seu curriculum constava ter praticado durante aguerra nos hospitais de sangue. E nada mais.
       Preocupadssimo, Andrew levantou-se e colocou o livrona estante. Uma repentina deciso lia-se na sua fisionomia. No se podiam comparar os seus prprios 
ttulos comos daqueles cientistas que o haviam deslumbrado navspera. Tambm podia fazer o mesmo que eles. E melhorat. Apesar do protesto exasperado de Christine, 
estavamais resolvido que nunca a vencer, a subir na vida. Maspara isso devia antes de tudo procurar ligar-se a umhospital. Mas a um hospital da cidade, um hospital 
importante de Londres, e no a uma Santa Casa de 3.ordem, como a de Walthamwood. Sim! Um grande hospital! Esse devia ser o seu objectivo imediato. Mas como?
       Meditou sobre o assunto durante trs dias. Depois foiprocurar Sir Robert Abbey. Ia nervoso, trmulo. No gostava de pedir favores. Era a coisa que mais 
lhe custavaneste mundo. E especialmente quando se via recebido pelasolicitude to acolhedora de Abbey.
       - Ol! Como vai o nosso ilustre especialista de ligaduras? No se sente envergonhado perante mim? Ouvidizer que o Dr. Bigsby est com hipertenso. Sabe algumacoisa 
a esse respeito? E que quer de mim? Discutir comigoum lugar de membro da Junta?
       - Ora, nada disso, Sir Robert. Estive a pensar... Isto... O senhor quer ajudar-me a conseguir uma nomeaopara a clnica externa de um hospital?
       - Upa! Isso  muito mais difcil do que um empregona Junta. Sabe que h por a milhares de mdicos a pretender a mesma coisa? Todos procuram uma nomeaopara 
um hospital. E o senhor naturalmente quer um lugaronde possa prosseguir nos seus trabalhos sobre pulmes... E isso torna o caso ainda mais difcil.
       - Bem... eu... sei...
       - O Hospital Vitria, para doenas do peito.  o quelhe serve. Um dos mais antigos hospitais de Londres. Talvez possa fazer uma diligncia nesse sentido, 
mas eu nadaprometo. Vou ver apenas o que posso fazer.
       Abbey conservou-o com ele at  hora do ch. s quatro. tarde, invariavelmente, tinha o costume de beber duas chvenas de ch sem leite nem acar e tambm 
sembolos nem torradas. Era um ch especial que tinha gostoa flor de laranjeira. Abbey discorreu sobre vrios assuntos, desde as tijelas de Khanghsi at s reaces 
da pelede Von Pirquet. Mas, acompanhando Manson at  portadisse-lhe:
       - Sempre em desacordo com os compndios? No deixede discordar... E veja l! Em nome de Galeno lhe peo: no tome atitudes de mdico de salo, nem mesmo 
se forpara o Hospital Vitria. - Piscou o olho intencionalmente. - Foi isso que me estragou.
       Andrew saiu deslumbrado. Sentiu-se to feliz que atse esqueceu de conservar a atitude retrada perante Christine. Ao chegar a casa desabafou logo:
       - Estive com Abbey. Ele vai ver se consegue colocar-meno Hospital Vitria.  para doentes do peito. Isso equivale praticamente a uma boa clientela.  - A 
alegria que brilhounos olhos dela f-lo sentir-se de repente envergonhado,comezinho. - Tenho andado ultimamente de muito mauhumor, Chris! Parece que temos andado 
s avessas. Mas... Vamos acabar com isso, querida.
       Christine correu para o marido, garantindo que a culpaera dela. Mas, por motivos misteriosos, ele considerou-seo nico culpado. S num escuso escaninho 
do seu esprito que conservava a firme inteno de confundi-la, muitobreve, com a importncia do seu sucesso material.
       Andrew entregou-se ao trabalho com energias redobradas, sentindo que as coisas no tardariam a mudar numsentido feliz. Por outro lado, a clientela estava 
a aumentarde modo impressionante. No era a espcie de clientelaque desejaria, dando apenas trs xelins e meio por consultae cinco por visita. Contudo, era clientela 
de facto. A genteque vinha ao consultrio ou que o chamava ao domiclioera to pobre que s em ltimo caso recorria a um mdico.
       Encontrou assim casos de difteria em quartos miserveise sem ar por cima de antigos estbulos, febres reumticasem caves hmidas, pneumonias em guas-furtadas 
de casasde hspedes. As cenas mais trgicas foram a desses apartamentos de uma nica diviso onde velhos sem famliae indigentes vivem sozinhos, esquecidos de 
amigos e parentes,cozinhando a sua pobre comida num bico de gs,infelizes, afastados do mundo, desamparados. 
       Conheceu opai de uma actriz afamada, cujo nome brilhava nos anncios luminosos da Shaftesbury Avenue. Era um velhinho de setenta anos, paraltico, abandonado 
num ambientesrdido. Visitou tambm uma velha fidalga descarnada,faminta e grotesca. Mostrou-lhe, toda orgulhosa, uma fotografia em que ostentava trajes da corte 
e falou-lhe dotempo em que passava por aquelas mesmas ruas dentrode uma soberba carruagem. Uma noite teve de correr parasalvar a vida de um pobre diabo que, na 
misria e nodesespero, apelara para o suicdio, preferindo a intoxicaopelo gs ao horror do asilo da mendicidade. Andrew quasesentiu remorsos por no o ter 
deixado morrer.
       Muitos casos eram urgentes: operaes de emergncia,que exigiam transferncia imediata para um hospital.
       E era a que Andrew encontrava o maior obstculo. Nada mais difcil neste mundo do que um lugar no hospital,mesmo para os casos mais urgentes, mais perigosos. 
E aindapor pouca sorte era quase sempre a altas horas da noiteque apareciam tais casos. Ao voltar para casa, depois deos atender com um sobretudo por cima do 
pijama, umcachecol enrolado ao pescoo, chapu ainda na cabea,tomava o telefone e ia ligando para os hospitais. Um atrsdo outro, pedindo, implorando, ameaando. 
Mas era sempre a mesma recusa, curta, s vezes insolente:
       - Doutor, quem? Quem? No! No! Sentimos muito! No h lugar! Tudo ocupado!
       Ia para junto de Christine, lvido, praguejando.
       - No esto cheios, nada disso. H uma grande quantidade de leitos vagos no S. Joo para os recomendadosdos mdicos da casa. Mas se no conhecem o mdicorespondem 
sempre negativamente. Com franqueza tenhoganas de torcer o pescoo a um desses sujeitos! No  uminferno, Chris?! Tenho um caso de hrnia estranguladae no consigo 
uma cama num hospital. E o diabo  quemuitos devem estar de facto repletos. E isto em Londres! Isto no prprio corao deste maldito imprio britnico. no que 
d o nosso sistema de hospitais de beneficncia.E um desses filantropos de uma figa declarou h poucosdias num banquete que esse sistema era a coisa mais maravilhosado 
mundo. Isto significa o asilo de mendicidadepara o pobre diabo. E ainda tem de encher a papeleta... Quanto ganha? Qual a sua religio?  filho legtimo? E odesgraado 
com peritonite! Bem, Chris! Mostra-te umaboa alma e liga por favor para a Assistncia.
       Por maiores que fossem as dificuldades de Andrew, pormais que ele clamasse contra a imundcie e a misria quetinha tantas vezes de combater, a resposta 
de Christineera sempre a mesma:
       - Mas, de qualquer maneira, isso  que  trabalho deverdade. E, na minha opinio, isso  o que vale.
       - ... mas no me livra dos percevejos - resmungavaele, entrando num banho para limpar o corpo e a alma.
       Ela ria, porque voltara  antiga felicidade. Embora custa de imenso trabalho conseguira dar graa  casa. O casaro resistiu quanto pde, mas acabou por 
ficar vencido, limpo, lustroso, submisso  vontade de Christine.
       Havia um novo fogo de gs, novos quebra-luzes. A poltrona de repouso fora forrada de novo. O corrimo daescada brilhava como os botes do fardamento de 
umguarda real. Depois de muitos aborrecimentos com criadas, pois naquele bairro preferiam trabalhar nas casasde penso, por causa das gorjetas, teve sorte afinal 
comEmily, viva de quarenta anos, asseada e activa, que secontentava com pouco por se fazer acompanhar de umafilha de sete anos. Com a ajuda da criada, Christineatacou 
a cave. Agora o antigo tnel de caminho de ferroera ao mesmo tempo uma sala confortvel e um bomquarto de dormir, que tinha forrado a papel, e uma moblia laada, 
adquirida a prestaes. Ali se instalaram comodamente Emily e a filha, a pequena Florie, que comeou a frequentar diariamente a escola. E em paga daqueleconforto 
e sossego, depois de tanto tempo de incertezase privaes, a criada fazia tudo o que era possvel paraagradar aos patres.
       As primeiras flores da Primavera que alegravam a salade visitas reflectiam com o seu colorido a ventura do larde Christine. Ia adquiri-las por alguns cobres 
no mercadodo bairro aquando das compras pela manh. Tornou-seconhecida dos vendedores ambulantes e dos lojistas deMussleburg Road. Ali podia comprar barato frutas, 
mariscos e legumes.
       Christine devia lembrar-se mais da sua posio de mulher de um mdico. Mas, qual histria! No pensava nissoe muitas vezes vinha para casa carregada com 
as comprasnuma bolsa grande de corda. No caminho parava na casade Frau Schmidt para dar dois dedos de conversa com aalem e comprar uma fatia de queijo Libtauer 
que Andrewtanto apreciava. Algumas vezes ia passear de tarde nopequeno parque do bairro. Os castanheiros que comeavama mostrar as suas primeiras folhas e os 
patos que sobrenadavam na gua do lago um pouco agitada pela brisa podiam representar a continuao da vida do campo queela sempre amara.
       Certas noites Andrew olhava-a com um ar estranho eciumento demonstrando o seu aborrecimento por ter passado o dia todo sem a ver.
       - Onde andaste o dia todo, enquanto eu estive ocupado? Se comprar um carro sers tu quem o guiar. Ser umbom processo de te conservar junto de mim.
       Andrew ainda esperava os clientes distintos, que no apareciam. Aguardava ansioso qualquer resposta de Abbeysobre a nomeao. Irritava-se porque nada resultara 
dareunio na casa de Freddie. No ntimo sentia-se magoadoporque nunca mais tivera notcia de Hamson e dos seusamigos.
       Foi nesse estado de esprito que se sentou no gabinetede consultas pobres numa das ltimas noites de Abril. Eram quase nove horas e Andrew j estava para 
se retirarquando entrou uma mulher jovem. Olhou, hesitante, parao mdico.
       - No sei se devia entrar por aqui... ou pela porta dafrente.
       - Tanto faz - sorriu ele com azedume. - A diferena apenas no preo. Entre, faa favor. Que deseja?
       - No me importo de pagar como cliente da outraentrada.  
       Aproximou-se com ar grave e sentou-se numapoltrona. Devia ter uns vinte e oito anos, concluiu Andrew. Compleio robusta, vestido verde-escuro, pernasgrossas, 
cara larga, simples, mas circunspecta. Ao v-la pensava-seinstintivamente que aquela criatura no era parabrincadeiras.
       - No falemos de remuneraes. Conte-me o que sente.
       -Bem, doutor! - ela ainda parecia querer impor-se  considerao do mdico.  Foi a Sr.a Smith, da pastelaria,quem me recomendou o doutor. Conheo-a h muito 
tempo. Trabalho na Casa Laurier, aqui perto. O meu nome Cramb. Mas devo avis-lo de que j consultei muitos mdicos do bairro.  Tirou as luvas.  So as minhas 
mos.
       Andrew examinou-as. As palmas das mos estavamcobertas de uma dermatite avermelhada, um tanto parecidacom psoriasis. Mas no era psoriasis. As extremidadesno 
estavam serpiginosas. Tomado de sbito interesse,Manson pegou numa lente e observou mais atentamente.
       Durante o exame ela continuava a falar na sua voz sria,convincente:
       - O doutor nem pode calcular como esta doena meprejudica no trabalho. Daria tudo para me ver livre disto. J experimentei pomadas de todas as espcies. 
Mas nenhuma deu o menor resultado.
       - No! No podiam dar. - Ele largou a lente, sentindotoda a emoo de um diagnstico difcil, mas positivo. - Esta doena de pele  muito rara, Sr.a Cramb. 
De umtratamento local nada resulta.  proveniente do sangue ea nica cura reside no regime alimentar.
       - Nada de remdio? - O ar confiante transformou-seem dvida.  - Nunca me disseram isso anteriormente.
       - Pois digo-lhe eu agora.
       Riu e tomando o bloco de papel, escreveu a dieta mencionando particularmente uma lista de alimentos que deviaevitar a todo o transe. A cliente concordou 
com o tratamento, mas com reservas.
       - Bem!  claro que vou experimentar, doutor. Eu experimentotudo. - Pagou-lhe religiosamente a consulta, parou ainda um pouco vacilante e depois retirou-se. 
Andrew esqueceu-a imediatamente.
       Ao fim de dez dias voltou. Desta vez entrou pela portada frente. Ao entrar no consultrio havia na sua expressotanto fervor que Andrew fez esforo para 
no sorrir.
       - Quer ver as minhas mos, doutor?
       - Pois no. - Agora ele j sorria. - Espero que no lamentea dieta.
       - Lament-la! - Estendeu-lhe as mos, num gesto de gratido. - Veja! Completamente curadas. Nem o menorsinal. O doutor no pode calcular o que isto representapara 
mim. No sei como lhe agradecer... Que inteligncia!
       - Nada de extraordinrio  - disse ele, com naturalidade. - Se sou mdico, tenho de saber essas coisas. Podeir sossegada. Evite os alimentos de que lhe 
falei e nuncamais ter essa doena nas mos.
       A Sr.a Cramb levantou-se.
       - E agora, doutor, permite que lhe pague?
       - A senhora j me pagou. - Tinha a confortvel impressode representar um bonito papel. - Bem gostaria deaceitar os trs xelins, ou mesmo sete, por tratar-se 
decliente distinta. Mas era irresistvel a tentao de valorizar a vitria da sua competncia.
       - Mas, doutor... - Ainda insistindo ela consentiu queo mdico a acompanhasse at  porta. Chegada a, paroupara a ltima efuso! - Talvez possa demonstrar-lhe 
deoutra maneira a minha gratido.
       Olhando espantado para a cara de lua-cheia da Sr.aCramb, um pensamento malicioso faiscou um instante noesprito de Andrew. Mas limitou-se a inclinar-se 
num ltimocumprimento e fechou a porta. Esqueceu-a outra vez. Estava cansado, j meio arrependido de ter recusado o dinheiro e alm disso no tinha a menor ideia 
do que umasimples caixeira poderia fazer a seu favor.
       Mas era porque no sabia do que a Sr.a Cramb eracapaz.

4
       As empregadas da Casa Laurier haviam alcunhadoMarta Cramb de Half-Back. Parecia estranho que umapessoa to corpulenta, to insexuada e sem atractivosdesempenhasse 
funo importante numa loja de tantoluxo, que vendia por preos fabulosos vestidos elegantssimos, a mais fina roupa branca e as peles mais preciosas.
       Contudo, a Half-Back era uma admirvel vendedora, apreciadssima pelas suas freguesas. Na verdade, a Casa Laurier adoptara orgulhosamente um sistema de 
venda especial.
        As veteranas de maior prestgio organizavam a suaprpria clientela, um grupo de freguesas que ficava entregue aos seus cuidados. Tinham o privilgio 
de as servir,estudar e vestir, reservando para elas as mais interessantesnovidades da estao. E com a sua ardente sinceridade aHalf-Back era uma criatura particularmente 
indicada paraas cativar.
       Era filha de um solicitador de Kettering. Muitas das empregadas da Casa Laurier pertenciam a boas famliasde pequena classe mdia, tanto da provncia como 
dossubrbios mais afastados. Considerava-se uma honra entrarpara o grande armazm, vestir o seu uniforme verde-escuro.
       No existiam na Casa Laurier os trabalhos pesados e asms condies de vida que as caixeirinhas londrinas tmgeralmente de suportar. As empregadas comiam 
muitobem, viviam com todo o conforto e eram vigiadas com omaior cuidado. O Sr. Winch, o nico elemento masculinoda loja, insistia principalmente nesse ltimo 
ponto. Muitorespeito com as empregadas!
       A Half-Back inspirava-lhe especial estima e muitas vezes mandava cham-la para tranquilas e ajuizadas conferncias.
        Era um velhinho cor-de-rosa, maternal, que haviamais de quarenta anos lidava com artigos da moda. Osdedos j estavam gastos de tanto apalpar fazendas. 
A espinha encurvara-se por tantas e to respeitosas reverncias,mas embora to maternal, o Sr. Winch era a nica ilhade calas naquele vasto e ondulante mar 
de saias. Via commaus olhos os maridos que entravam na companhia dasesposas para observar os manequins. Tinha conscinciados seus privilgios de soberano. Era 
uma instituio quaseto notvel como a Casa Laurier.
       A cura da Sr.a Cramb produziu grande sensao entreo pessoal da loja. O primeiro resultado no se fez esperar.
       Tomadas de estranha curiosidade, algumas caixeiras caram no consultrio de Andrew, a pretexto de pequenasdoenas. Num risinho irnico, explicavam umas 
as outrasque tinham querido ver como era o doutor da Half-Back.
       Pouco a pouco, foi aumentando cada vez mais o nmerode empregadas da Casa Laurier que aparecia no consultriode Manson. Todas podiam tratar-se na clnica 
da Caixados Empregados do Comrcio. A lei obrigava-as a inscreverem-se nos servios de assistncia mdica da classe. Mas,com o orgulho de empregadas da Casa Laurier, 
desprezavam esses socorros para proletrios. No fim de Maio jno era raro ver-se uma meia dzia de raparigas na saletade espera de Manson, todas elegantes, jovens, 
lbios pintados, vestidas no estilo das clientes da casa. Isso determinou sensvel aumento dos proventos da clnica. E tambm um comentrio humorstico de Christine.
       - Meu querido, que fazes com essas coristas bonitas? Confundiro elas a porta do consultrio com a porta dacaixa do teatro?
       Mas a gratido da Sr.a Cramb - Oh! O xtase daquelasmos curadas! - estava apenas no comeo da sua expresso.
        At ento, o mdico mais ou menos oficial da CasaLaurier tinha sido o Dr. McLean, homem idoso e de confiana. Era quem se chamava num caso de emergnciacomo, 
por exemplo, quando a menina Twig, da seco decostura, se queimou gravemente com um ferro de engomar.
       Mas o Dr. MecLean estava para abandonar a clnica e oseu companheiro de consultrio, o Dr. Benton, no eraidoso nem de confiana. Mais de uma vez o Sr. 
Winchfranziu a testa, irritado, ao notar as olhadelas que o Dr. Benton atirava disfaradamente para as caixeirinhas maisbonitas, derretendo-se em amabilidades. 
O velhinho e amenina Cramb juntavam-se de vez em quando para conferenciarsobre esses assuntos. Enquanto o Sr. Winch, comas mos nas costas, concordava sisudamente, 
abanando acabea, a Half-Back discorria sobre a inconvenincia deBenton e sobre o outro mdico de Chesborough Terrace,que era muito srio, sem pretenses profissionais, 
competentssimo,mas incapaz de uma leviandade. Nada foi decidido.
       O Sr. Winch fazia tudo com muita calma. Mas haviaum claro de promessa nos seus olhos quando abandonoua conferncia para saudar uma duquesa.
       Na primeira semana de Junho, quando Andrew j sentia vergonha de haver menosprezado no princpio os bonsofcios da senhora, caiu-lhe nas mos outra estrondosaprova 
dos esforos da menina Cramb.
       Uma carta muito amvel e minuciosa - uma falta de formalidade como seria uma simples chamada telefnicano seria prprio de quem a escrevera, como Andrew 
veioa compreender mais tarde pedia-lhe que fosse, tera-feira, isto , no dia seguinte, de preferncia s onzehoras, pontualmente, ao n. 9 de Parks Gardens, 
onde oesperava a menina Winfred Everett.
       Fechando mais cedo o consultrio, Andrew foi fazeressa visita com uma nova onda de esperana. Pela primeira vez fora chamado fora daquela pobre e desagradvelvizinhana, 
onde at ento contava a sua clientela: ParkGardens era um atraente conjunto de palacetes, nada modernos, mas amplos e de categoria, com linda vista parao Hyde 
Park. Manson tocou a campainha do n. 9, nervosoe esperanado, com a curiosa convico de ser essa finalmente a sua oportunidade.
       Uma velha criada recebeu-o. A sala para onde foimandado entrar era espaosa, com mveis antigos, livrose flores, fazendo-lhe recordar a sala de visitas 
da Sr.a Vaughan.
        No mesmo momento convenceu-se de ser a sua previso justificada. Quando apareceu a Sr.a Everett, Andrewvoltou-se e encontrou o olhar dela, firme e perscrutador,a 
examin-lo demoradamente, com uma expresso de simpatia.
       Era uma mulher de cinquenta anos, bem feita, de cabelos escuros e fisionomia plida, vestida de modo severo,com ar de completa suficincia. Comeou imediatamentenuma 
voz pausada:
       - Fiquei sem o meu mdico... infelizmente, porquetinha muita confiana nele. A menina Cramb recomendou-me o senhor. Ela  uma pessoa muito sria e confiona 
sua palavra. Tirei informaes. O doutor tem muitosttulos. - Calou-se a observ-lo de alto a baixo, e sem disfarar. Media-o, pesava-o. Via-se que era uma mulher 
bemalimentada, que tinha muito cuidado consigo, que noadmitia junto dela um dedo que no fosse devidamente inspeccionado at  ponta da unha. Continuou, depois, 
discretamente: Julgo que o senhor me convm. Costumotomar uma srie de injeces nesta poca do ano. Soumuito sujeita  febre dos fenos. O senhor conhece naturalmentetudo 
o que diz respeito  febre dos fenos, no verdade?
       - Conheo sim - respondeu. - Que injeces costumatomar?
       Ela disse o nome de um preparado muito conhecido.
       - Era o que me receitava o outro mdico. Tenho muitaf nessas injeces.
       - Ah! Isso?! - Irritado, Andrew esteve a ponto de dizer-lhe que nada valia, absolutamente, o remdio de confianado seu mdico de tanto prestgio. Tornara-se 
popular graas  exclusivamente  propaganda bem organizada dosfabricantes e  ausncia de plen em muitos Veres naInglaterra. Mas fez um esforo e dominou-se. 
Entraramem luta as convices e a ambio. Pensou, num ntimodesafio: Se deixo perder esta oportunidade, depois detantos meses, sou um verdadeiro idiota. E 
em voz alta:
       - Julgo que ningum sabe dar to bem essas injecescomo eu.
       - Muito bem. E agora o preo. Nunca paguei ao Dr. Sinclair mais de um guinu por visita. Se lhe convm assim,estamos combinados.
       Um guinu por visita! Trs vezes mais que o mximoque conseguira cobrar at ento! E coisa ainda maisimportante: era o seu primeiro passo para essa clientelada 
alta-roda que desde tantos meses vinha a desejar. Sufocou mais uma vez o agora leve protesto das suas convices.
       Que mal havia se as injeces eram incuas? A escolha era dela, no dele. No admitia agora o fracasso. Estavacansado de ser um doutorzinho de trs xelins. 
Queria subir,vencer. E venceria, fosse como fosse.
       Voltou, no dia seguinte, s onze em ponto. Ela avisara-o,com o seu tom severo, que no devia chegar atrasado. Noqueria que lhe prejudicassem o passeio 
de antes do almooAndrew deu-lhe a primeira injeco. E da por diante visitava a senhora duas vezes por semana, continuando otratamento.
       Era pontual, cuidadoso e sempre muito discreto. Chegoua ser divertido o modo como ela foi pouco a pouco entregando-seao mdico. Era uma criatura estranha 
essa talWinfred Everett. E que personalidade bem marcada! Embora muito rica, o pai fora um importante fabricante decutelaria em Sheffield e todo o dinheiro da 
herana ohavia aplicado em ttulos de confiana.  No gastava umvintm sem critrio. No era sovinice. Era talvez umaforma extravagante de egosmo. Fazia-se o 
centro do prprio universo, cuidava muito de si, conservando ainda aesbeltez e a frescura do corpo. Recorria a toda a espciede tratamentos que achava convenientes. 
Diligenciavapossuir o que houvesse de melhor. Comia pouco, mas scoisas muito boas, de primeira ordem. Quando na sextavisita de Andrew se decidiu a oferecer-lhe 
um copo dexerez, fez-lhe notar que se tratava de um Amontilado de1819. Os seus vestidos eram da Casa Laurier. A roupa decama era a mais fina que Manson j vira. 
E no entanto,apesar disso, ela nunca desperdiava um centavo. Eracontra os seus princpios. Nem seria de admitir que aSr.a Everett pagasse a um motorista de txi 
sem antesolhar cuidadosamente para o taxmetro.
       Andrew tinha razes para a considerar odiosa. Mas,embora parea estranho, o certo  que no a detestava. Ela desenvolvera o seu egosmo ao ponto de o transformarnuma 
filosofia. E era to sensvel! Fez-lhe lembrar amulher de um velho quadro holands, um Terborch, quetivera ocasio de admirar na companhia de Christine. Tinha 
a mesma corpulncia, a mesma tez macia, a mesma boca severa, mas sensual.
       Quando percebeu que ele, tal como dissera, realmentelhe convinha, a senhora tornou-se muito menos reservada. Estabelecera como regra que a visita do doutor 
devia durarvinte minutos, pois de outro modo julgaria no valerquanto custava em dinheiro. Mas no fim de um ms Andrew j se demorava uma boa meia hora. Ficavam 
conversando.
       Ele confessava-lhe a vontade que tinha de vencer. Ela estava de acordo. O mbito da conversa da Sr.a Everettno era muito extenso, mas ilimitado o mbito 
dassuas relaes, e as palavras gravitavam quase sempre sobreos seus conhecimentos da sociedade. Falou-lhe muitas vezesda sobrinha, Catherine Sutton, que vivia 
em Derbishire,mas vinha frequentemente  cidade, pois era casada como capito Sutton, deputado por Barnwell.
       - O Dr. Sinclair era o mdico do casal - observou ela, num tom de quem chega a fazer uma promessa: - Novejo razo para que o doutor no o substitua agora.
       Por ocasio da ltima visita ofereceu-lhe outro copodo precioso Amontilado e disse de modo muito gentil:
       - No gosto de receber contas. Deixe-me, por favor,pagar-lhe agora mesmo. - Estendeu-lhe um cheque, bemdobradinho, de vinte guinus. -  claro que o chamareibrevemente. 
Costumo tomar uma vacina antigripal quandochega o Inverno.
       Acompanhou-o at  porta do palacete e ficou ali porum momento, com um brilho seco na fisionomia, fazendoa tentativa do melhor sorriso que Andrew j lhe 
notaranos lbios. Mas foi s um instante. Fitando-o severamente,disse:
       - Quer seguir o conselho de uma mulher que podia sersua me? Procure um bom alfaiate. Procure o do capitoSutton. Rogers, em Conduit Street. O senhor confessou-meque 
deseja muito vencer e com esse fato no  possvel!
       Andrew foi para casa detestando-a, numa indignao interior. Amaldioava-a pela frieza com que dissera aquilo.
       Megera atrevida! Que tinha com isso?! com que direitolhe dava conselhos sobre a maneira de vestir? Pensariaque ele era um cachorrinho de sala? Era o que 
havia depior nesses compromissos com a sociedade, nessa submisso s convenes. Os clientes de Paddington pagavam-lheapenas trs xelins e meio, mas no exigiam 
que se transformasse num manequim. Da por diante s trataria dessagente. No estava disposto a sacrificar a personalidade!
       Mas essa disposio de esprito no perdurou. Era uma verdade incontestvel que ele no ligava a mnima importncia a essa questo de vestir. Contentava-se 
com umnico fato. Tirava-o do cabide, vestia-o, sentia-se bem agasalhado... e pronto! Nem pensava em elegncia. Christinetambm, embora muito asseada, nunca se 
incomodava comassuntos de indumentria. E o trajo de que mais gostavaera a saia e o casaquinho de l, que ela mesma fizera, detricot. Furtivamente, Andrew reconheceu 
o prprio desleixo do trajo. As calas eram apertadas, no fio e comjoelheiras. A bainha estava suja de lama. Que diabo!,pensava, ao examinar-se. A senhora afinal 
tem razo. Como poderei conseguir clientes de primeira ordem se meapresento desta maneira? Porque no me abre Christineos olhos?  a ela a quem compete, e no 
 velha Winnie. Qual foi o alfaiate que ela me indicou? Rogers, da Conduit Street. Com mil diabos! Parece-me que tenho de l ir.
       Quando chegou a casa, j estava animado outra vez. Exibiu o cheque a Christine.
       - V, minha mulherzinha! Lembras-te de quando volteia correr do consultrio para te mostrar as primeiras moedas choradas? Bolas!  o que sinto vontade de 
dizer agora. Bolas! Isto, sim,  que  de facto dinheiro, isto  que sohonorrios!  assim que deve ganhar um mdico com osmeus ttulos! Vinte guinus por conversar 
barato com aD. Winnie e lhe impingir incuamente umas injecezinhas de Eptone, de Glickert!
       - Que se passa? - perguntou ela, sorrindo. 
       E de repente desconfiada:
       - No era esse remdio que dizias nada valer?
       A fisionomia de Andrew modificou-se. Ficou macambzio, completamente desorientado. Christine pronunciaraas palavras que ele no queria escutar. Ficou furioso 
comChris.
       - Que diabo, Chris! Nunca ests satisfeita!
       Virou-lheas costas e retirou-se grosseiramente. Passou o restodo dia mal-humorado, intratvel. Mas no dia seguinteestava outro e dirigiu-se ento ao alfaiate 
da ConduitStreet.
       Sentia-se quase como um menino de escola quando,Quinze dias mais tarde, saiu vestindo um dos dois fatosque mandara fazer. Era um jaqueto cinzento-escuro. 
A conselho de Rogers, usava-o com um colarinho de pontasviradas e uma gravata escura que combinava com a cordo fato. No havia dvida: Rogers entendia do seu ofcioe 
tratou de caprichar no seu trabalho quando o freguscitou o nome do capito Sutton.
       Na manh em que ele apareceu to elegante, Christineno estava nos seus melhores dias. Tinha uma ligeirainflamao de garganta e enrolara um xale velho 
em voltado pescoo e da cabea. Ao servir-lhe o caf reparou noluxo do marido. De momento ficou to espantada que nemsoube o que dizer.
       - Que  isso, Andrew?! - exclamou afinal. - Que maravilha de elegncia! Tens algum encontro marcado?
       - Encontro marcado? Vou atender chamadas, ao meu trabalho, naturalmente! - E compreendendo que foraquase grosseiro: - Ento? Gostas do fato?
       - Gosto, sim - respondeu ela, mas no to rapidamente como desejaria. -  terrivelmente bem feito... - mas sorriu - d um pouco a impresso de que no s 
tumesmo!
       - Naturalmente preferias que eu parecesse um mendigo.
       Chris no respondeu; a mo, que erguia a xcara, contraiu-se tanto que as articulaes empalideceram. Ah!,pensou Andrew, toquei-a num ponto sensvel. 
Terminouo pequeno almoo e foi para o consultrio. Minutos depois ela foi procur-lo, com o xale aindaenrolado ao pescoo, o olhar hesitante, a desculpar-se.
       - Meu querido, no me interpretes mal, por favor! Fiquei encantada com o teu fato novo. Quero que tenhastudo, tudo o que h de melhor. Desculpa o que eu 
te disseh pouco, mas compreende... Estou acostumada contigo... Oh!  to difcil explicar! Eu sempre achei que tu... eagora faz-me o favor de no interpretares 
mal... Semprete considerei como uma pessoa que no liga a mnimaimportncia s aparncias e ao que os outros possampensar a tal respeito. Lembras-te daquela cabea 
de Epsteinque vimos? J no seria a mesma se... sim, se fosse enfeitada, posta no rigor da moda.
       Ele respondeu quase que sem pensar.
       - Mas eu no sou uma cabea de Epstein.
       Christine no respondeu, Andrew tornara-se ultimamente uma pessoa com quem era difcil conversar ouentender-se. Magoada pela sua incompreenso, no soubeque 
dizer. Hesitou um momento e retirou-se.
       Uns vinte dias mais tarde, quando a sobrinha daSr.a Everett veio passar algumas semanas em Londres,Manson teve a recompensa de seguir to ajuizadamenteo 
conselho da velha senhora. Sob um pretexto qualquer,a Sr.a Everett f-lo vir  sua casa. O exame foi severo,mas satisfatrio. Andrew teve quase a certeza de que 
foraaprovado e julgado digno de uma recomendao. No diaseguinte, recebeu a visita da Sr.a Button. A febre dos fenosparecia um mal de famlia. A sobrinha tambm 
desejavasubmeter-se ao tratamento da tia. E dessa vez a conscincia do mdico no se indignou quando injectou a intil Eptona da altrusta firma Glickert. Foi 
excelente a impresso que produziu  Sr.a Sutton e antes do fim do ms jrecebia outra chamada de uma amiga da Sr.a Everett, quemorava tambm em Park Gardens.
       Andrew andava satisfeitssimo da vida. Estava a vencer!
       No esforo e na ansiedade da busca do sucesso, no notavacomo os seus triunfos iam de encontro a tudo o que constitura outrora a sua crena. Deixava-se 
possuir pela vaidade. Sentia-se atento e confiante. Esqueceu-se de queaquela onda de sucesso, aquela clnica da alta-roda, proviera em primeiro lugar de uma alemzinha 
gorduchaque estava atrs do balco de uma pastelaria nas proximidades do vulgarssimo mercado Mussleburgh. E na verdade,antes que tivesse tempo de meditar em 
tudo isso, umaoutra mar de oportunidades maior e mais excitantesurgia na senda da sua ambio.

5
       Foi numa tarde de Junho, no perodo parado das duass quatro, quando normalmente nada de importante acontecia. Estava ele sentado no consultrio, a fazer 
balanodas receitas do ms anterior, quando de repente o telefonetocou. Deu um pulo na cadeira e tomou o auscultador.
       - Sim, sim!  o Dr. Manson quem fala.
       Atravs do fio ouviu uma voz angustiada e opressa.
       - Oh! Dr. Manson! Que alvio encontr-lo em casa! Quem fala aqui  o Sr. Winch... Winch, da Casa Laurier. Temos neste momento aqui na loja um aborrecimento. 
Trata-se de uma cliente. Pode vir? Pode vir imediatamente?
       - Estarei a dentro de cinco minutos.  Andrew desligou e foi a correr buscar o chapu. Um autocarro, com oqual esbarrou em frente da casa, aguentou com 
firmezaa impetuosidade do pulo. Ao fim de quatro minutos emeio, Andrew passou por uma das portas giratrias e viu-sedentro da Casa Laurier. Esperava-o, ansiosa, 
a meninaCrambs. Conduzido por ela, atravessou macias superfcies,sentindo os ps afundarem-se na agradvel sensao produzidapor tapetes verdes; passou diante 
de grandes espelhos de moldura dourada de limoeiro, nos quais se podiamver reflectidos um chapelinho pendurado no cabide, umlao de fita, uma capa de arminho. 
Quando seguiam comtoda a pressa, a menina Cramb explicou:
       - Trata-se da menina L Roy, Dr. Manson. Uma dasnossas clientes. No minha, graas a Deus; ela ocasionasempre aborrecimentos. Mas, Dr. Manson, o senhor 
esta ver que eu falei a seu respeito ao chefe da casa...
       - Muito obrigado - disse Andrew bruscamente. Aindasabia ser brusco de vez em quando. - Que aconteceu?
       - Parece que ela... oh! Dr. Manson... parece que elaest a dar espectculo num gabinete de provas.
       No cimo de uma larga escadaria, a menina Crambs entregou-o ao Sr. Winch, rosadinho e agitado, que o encaminhou precipitadamente:
       - Por aqui, doutor... por aqui... Espero que possa fazer alguma coisa...  uma contrariedade horrorosa...
       Num gabinete de provas, aquecido, luxuosamente atapetado no mais suave tom verde, com paredes forradasde verde e ouro, uma multido de raparigas falava peloscotovelos; 
via-se uma cadeira tombada de pernas para oar, uma toalha cada, gua entornada, um verdadeiro pandemnio.
        E ali, centro de toda aquela cena, a menina LRoy, a mulher do ataque, a mulher que fazia fitas. Estavaestirada no soalho, rgida, com as mos e os ps 
em crispaes espasmdicas. Da garganta rgida subiam-lhe porvezes uns grunhidos estrangulados, de arrepiar. 
       Uma das empregadas mais idosas comeou a chorarquando entraram Andrew e o Sr. Winch.
       - No tive culpa - soluava. - Lembrei apenas  menina L Roy que fora este o modelo escolhido por elamesma.
       - Oh! Meu Deus, meu Deus! - murmurava Winch. - Que coisa horrorosa! Devo... quer que eu mande vir umaambulncia?
       - No, por enquanto no - disse Andrew num tomestranho. Curvou-se para a menina L Roy. De olhos azuis,muito jovem, devia ter uns vinte e quatro anos; os 
cabelossedosos estavam completamente despenteados sob o chapelinho de lado. Junto dela via-se uma outra mulher, comexpresso preocupada nos olhos negros. Parecia 
sua amiga.
       - Oh! Toppy, Toppy! - murmurava a todo o momento.
       - Faam o favor de abandonar o gabinete - disse Andrew, de repente. - Prefiro que saia toda a gente, menos... os olhos fixaram a morena que estava ao lado 
- menosesta senhora daqui.
       As raparigas saram, um pouco aborrecidas. Teria sidoto interessante e divertido assistir ao tratamento da menina L Roy!... A Sr.a Cramb, at mesmo o 
Sr. Winch,tambm se retiraram. Nesse momento as convulses tornaram-se alarmantes.
       -  um caso extremamente grave - disse Andrew, destacando muito as palavras.
       A menina L Roy revirou os olhos para ele.
       - D-me uma cadeira por favor.
       A outra senhora ps de p, no centro da sala, a cadeira derrubada. Ento, vagarosamente e com o maior cuidado, levantando-a pelas axilas, Andrew ajudou a 
convulsa menina L Roy a esticar-se na cadeira. Segurou-lhe a cabeade modo a ficar bem esticada.
       - Olhe - disse com a maior gentileza. E logo de moaberta aplicou-lhe em plena face uma tremenda bofetada.Era o acto mais corajoso que praticara havia muitos 
mesese infelizmente alguns meses ainda passariam sem outraprova de igual bravura.
       A menina L Roy deixou de grunhir. O espasmo cessou. Acabaram-se os reviramentos de olhos. Fitou-o num espanto dorido e infantil. Sem lhe dar tempo a pensar, 
Mansonlevantou a mo novamente e esbofeteou-lhe a outra face.
       Era grotesca a angstia estampada na fisionomia da jovem. Vacilou, deu a impresso de que ia voltar aos grunhidose comeou ento a soluar.
       Voltando-se para a amiga, disse entre lgrimas:
       - Minha querida, quero ir para casa.
       Andrew dirigiu um olhar cheio de desculpas  outrasenhora, que agora o observava com um interesse forado vulgar.
       - Desculpe - murmurou. -  o nico processo.  umcaso grave de histeria, com espasmos convulsivos. Ela podiater-se magoado. E eu no tinha anestsico nem 
recursoalgum. E, seja como for, deu resultado.
       - Sim... deu resultado.
       - Deixe-a chorar  vontade - disse Andrew. -  umavlvula de segurana. Estar boa dentro de poucos minutos.
       - Espere, doutor, mesmo porque... - e com vivacidade- o doutor deve acompanh-la a casa.
       - Pois no - respondeu Andrew, no tom mais perfeitodo homem de negcios.
       Passados cinco minutos, a menina L Roy j estavaem condies de arranjar a cara, operao meticulosa,entrecortada por alguns soluos espaados.
       - No estou muito transtornada, no te parece, querida? - perguntou  companheira. De Andrew pareciaignorar a existncia.
       Logo depois abandonaram a sala. Foi verdadeiramente sensacional a passagem pelo grande salo de vendas, noandar trreo. Foram to grandes o alvio e a admiraodo 
Sr. Winch que ficou quase sem fala. No compreendia,nunca compreenderia como se dera o milagre, como odoutor restitura o movimento  paraltica toda ancilosada.
       Acompanhou-os  porta, balbuciando palavras de agradecimentoe felicitaes. Quando Andrew transps a estrada principal, atrs das duas mulheres, o Sr. Winch 
apertou-lhe a mo com fervor, derretendo-se em cumprimentos.
       Tomaram um txi e seguiram por Bayswater Road, na direco de Marble Arch. No houve a menor tentativade conversao. A menina L Roy estava amuada agora,como 
uma criana cheia de mimos que recebe um castigo.
       Ainda tinha estremecimentos. De vez em quando, as mose os msculos do rosto tinham pequenas crispaes nervosas.
       Observada agora mais serenamente, parecia muito delgada e quase bonita no seu tipo franzino. Estava muitobem vestida, mas, apesar disso, dava a Andrew a 
impressoexacta de uma franguinha depenada por cujo corpo passassem de vez em quando correntes elctricas. Ele prpriosentia-se nervoso, numa posio pouco feliz. 
No entanto,estava resolvido a aproveitar-se da situao criada, a extrair dela todas as vantagens.
       O automvel deu a volta por Marble Arch, seguiu aolado de Hyde Park e, dobrando  esquerda, parou  portade um palacete na Green Street. Entraram imediatamente.
       A casa deixou Andrew boquiaberto. Nunca imaginara ambiente com tanto luxo - o amplo vestbulo, o pequeno salo cheio de jades magnficos, quadros esplndidos 
em moldurasde alto preo, poltronas de laca vermelha e ouro,largos divs, tapetes macios e de tons discretos.
       Continuando a ignorar Andrew, Toppy Le Roy estirou-se num sof forrado de cetim, arrancou o chapelinho eatirou-o ao cho.
       - Toca a campainha, querida. Preciso de beber algumacoisa. Graas a Deus o pap no est.
       Surgiu logo um criado a servir aperitivos. Quando ocriado saiu, a amiga de Toppy observou Andrew pensativamente,num quase sorriso que apenas se esboou:
       - Acho, doutor, que lhe devemos uma explicao. O nosso conhecimento processou-se to precipitadamente. Sou Lawrence. Aqui, a Toppy, isto , a menina L Roy,teve 
uma contrariedade por causa de um modelo que mandara fazer especialmente para um baile de caridade. E... claro! Ela tem andado ultimamente esgotada.  umacriaturinha 
muito nervosa. Mas fique certo: embora aToppy se mostre um pouco contrariada ns estamos-lhemuito gratas por ter vindo connosco. E agora, quero maisum aperitivo.
       - Eu tambm - disse Toppy, ainda amuada. Quecriatura sem linha aquela caixeira da Laurier! Vou pedirao pap que telefone para l, exigindo que a mulher 
sejadespedida. No, no quero! - Quando beberricava o segundo aperitivo um sorriso de satisfao foi aos poucosalegrando-lhe a fisionomia. - Dei uma boa lio, 
no deiFrances? Fiquei de facto uma bicha! Oh! Meu Deus! Como tinha piada a cara da mam Winch! Era de rebentar a rir! 
       O pequeno molho de ossos contorcia-se numagargalhada. Olhou a cara de Andrew, sem m disposio.
       - Vamos, doutor! Ria tambm! O caso foi divertidssimo!
       - No! No o acho to divertido como isso - disse precipitadamente,na nsia de se explicar, de estabelecer asua posio, de a convencer de que estava doente. 
A menina teve realmente uma crise grave. Lamento ter sidoobrigado a trat-la como o fiz. Sem ter anestsico, s haviaaquele recurso. E se no procedesse assim, 
seria pior paraa menina. E no suponha, por favor, que eu considere fingidoaquele ataque. A histeria... sim, trata-se de um casode histerismo...  uma doena 
precisa, definida. No deverir-se.  uma consequncia do sistema nervoso doente. Veja, a menina est abatidssima. Todos os seus reflexoso demonstram. Est muito 
nervosa.
       - Tem toda a razo - concordou Frances Lawrence. - Tens abusado ultimamente, Toppy.
       - O doutor queria de facto dar-me clorofrmio? - perguntou Toppy, num espanto infantil. - Teria tido piada.
       - Falando do caso a srio, Toppy - disse a Sr.a Lawrence quero que te trates.
       - Ests falando como o pap - observou a jovem, perdendo o bom humor.
       Houve um silncio. Andrew terminara o aperitivo. Pso clice sobre a beira, delicadamente trabalhada, do fogo. Parecia-lhe j no ter razes para continuar 
ali.
       - Bem! - disse com ar importante. - Tenho de voltarao meu trabalho. Faa o favor de seguir o meu conselho,menina L Roy. Tome uma ligeira refeio, v para 
acama e... j que no lhe posso ser til em mais coisaalguma... procure o seu mdico amanh. Passe bem.
       A Sr.a Lawrence acompanhou-o ao vestbulo, mas deum modo to lento que ele viu-se obrigado a moderar apressa de homem ocupado de que ia animado. Era alta 
eesbelta, as espduas um pouco levantadas, cabea pequenae elegante. Alguns fios grisalhos nos cabelos escuros, lindamenteondulados, davam-lhe uma curiosa distino. 
Noentanto ainda era jovem. Andrew estava certo de que nodevia ter mais de vinte e sete anos. Era alta e delicada.
       Os punhos, principalmente, eram muito delgados. Na verdade, toda a sua figura flexvel lembrava a preciosa vibratilidadede um florete. Estendeu a mo ao 
mdico, fixando nele os olhos esverdeados e confusos, num rosto ondebrincava um leve sorriso cordial, cheio de simpatia.
       - Queria apenas dizer-lhe quanto admirei o seu novomtodo de tratamento. - Os seus lbios fizeram um movimento gracioso. - No o abandone por coisa alguma. 
Asseguro-lheum sucesso formidvel com a sua aplicao.
       Descendo a Green Street, para tomar o autocarro, Andrew ficou espantado ao ver que j eram quase cincohoras da tarde. A companhia das duas mulheres fizera-operder 
quase trs horas. Tinha o direito de apresentar umaconta substancial por esse facto. E no entanto, apesardessa edificante reflexo, to caracterstica dos seus 
novospontos de vista, sentiu-se confuso, num descontentamentoestranho. Teria realmente aproveitado bem a oportunidade?
       A Sr.a Lawrence parecia gostar dele. Mas nunca sepode confiar em gente daquela ordem. E que casa estupenda! De sbito uma fria exasperada o tomou. No sse 
esquecera de deixar carto, como at de dizer quemera. E ao sentar-se no autocarro cheio, ao lado de umvelho operrio de fato de trabalho, censurou-se a si mesmo,com 
irritao, por ter desperdiado aquela oportunidadenica.
       Na manh seguinte, pouco depois das onze, quandoAndrew se preparava para ir fazer algumas visitas nasimediaes de Mussleburgh Market, o telefone tocou 
eouviu-se a voz de um criado, solcita e solene:
       -  o Dr. Manson? Ah! A Sr.a L Roy deseja saber,doutor, a que horas vir c hoje. Ah! com licena, doutor,um momento! A Sr.a Lawrence quer-lhe falar.
       Andrew alvoroou-se, numa ansiedade palpitante, enquanto a Sr.a Lawrence lhe dizia, muito cordialmente, queesperava sem falta a sua visita.
       Quando pousou o auscultador, o mdico murmuravapara si mesmo, todo exultante: No perdi a oportunidadede ontem; no, de qualquer maneira, no a perdi.
       Desprezou as outras visitas, urgentes ou no, e foi directamente ao palacete de Green Street.
       A encontrou Joseph Le Roy, que o esperava com impacincia no pequeno salo ornado de jades Era um tiporobusto, calvo, muito empertigado. Mastigava o charuto,indcio 
de impetuosidade de um homem pouco habituadoa perder tempo. Num momento, os seus olhos apreenderama figura de Andrew. E essa rpida operao acabou porsatisfaz-lo. 
Disse ento com ar feroz, com um acentocolonial:
       - Oua, doutor. Estou com muita pressa. A Sr.a Lawrence fez uma trapalhada dos diabos, obrigando-o a viraqui esta manh. Vejo que o senhor  um homem inteligentee 
no transige com tolices.  casado, no  verdade? Isso agrada-me. E agora, tome a pequena aos seus cuidados. Ponha-a boa, forte; tire-lhe do corpo o diabo desse 
histerismo. No poupe coisa alguma. Eu posso gastar. At vista.
       Joseph Le Roy era da Nova Zelndia. Apesar do dinheiro,da casa na Green Street e da sua pequenina eextica Toppy, no era difcil acreditar na verdade: 
o seubisav fora um tal Michael Cleary, trabalhador rural muitoignorante das vizinhanas de Greymouth Harbour, a quemos companheiros tratavam familiarmente por 
Leary.
       Por certo, quando comeou a lutar pela vida, esse Joseph Le Roy no passava de Joe Leary, um rapazola cujoprimeiro emprego tinha sido o de ordenhador de 
vacasnas grandes estncias de Greymouth. Mas Joe nascera,como ele prprio dizia, para espremer tetas mais rendosas.
       E trinta anos mais tarde era Joseph Le Roy, que nos escritrios instalados no ltimo andar de um arranha-cuspusera a sua assinatura na escritura que incorporara 
todosos estbulos e estncias da ilha num grande consrcio delacticnios.
       Foi um negcio estupendo o Consrcio Cremogen.
       Nesse tempo o leite conservado era pouco conhecido, ainda no estava industrialmente organizado. E foi Le Roy quemviu as suas possibilidades, quem o lanou 
no mercadomundial anunciando o artigo como elemento nutritivoabenoado para crianas e doentes. A essncia do empreendimento estava, no nos produtos de Joe, 
mas na suaaudcia. As sobras do leite desnatado, que at ento sedesperdiavam ou se davam aos porcos em centenas degranjas de Nova Zelndia, passaram a ser vendidas 
emtodas as cidades do mundo nas latinhas de Joe, com osvistosos rtulos de Cremogen, Cremax e Cremfat, porpreo trs vezes superior ao do leite fresco.
       Jack Lawrence, co-director do Consrcio L Roy, eraquem dirigia os seus negcios na Inglaterra. Embora pareailgico, tinha sido oficial da guarda antes 
de se entregar s actividades comerciais. Contudo, a unio da Sr.aLawrence e de Toppy no resultara apenas dessas associaes de interesses materiais. Rica tambm 
e muitomais  vontade nas rodas elegantes de Londres poisToppy de vez em quando traa a origem dos seus antepassados, Frances alimentava uma afeio divertida 
pela garota mimada. Quando Andrew se dirigiu ao andar superior depois da conversa com Le Roy, ela esperava-o emfrente da porta do quarto de Toppy.
       Nos dias seguintes tambm Frances Lawrence apareceu hora da visita do mdico servindo de agente de ligaocom a doena caprichosa e cheia de exigncias, 
pronta asalientar qualquer melhora no estado de Toppy, insistindocom ela para que se submetesse ao tratamento, perguntandoa Andrew quando voltava novamente.
       Grato  Sr.a Lawrence, Manson ainda era, no entanto, bastante tmido para estranhar que pudesse interessar-sepor ele, mesmo assim to levemente, uma fidalga 
comoaquela, que se confessava muito exigente na escolha derelaes e que ele bem sabia ser exclusivista, antes mesmode ver o seu retrato nas pginas elegantes 
das revistasilustradas. A sua boca rasgada e um tanto displicenteexprimia sempre desdm acerca das pessoas que no eramda sua roda ntima. Todavia, qualquer que 
fosse a razo,nunca se mostrara hostil para com ele. Andrew sentiaum desejo extraordinrio, maior do que o da simples curiosidade,de aprofundar-lhe o carcter, 
a personalidade. Tinha a impresso de tudo ignorar da verdadeira Sr.a Lawrence.
        Era uma delcia observ-la nos seus movimentos harmoniosos quando girava pelo quarto. Estava sempre vontade, mas muito atenta a tudo quanto fazia. E, apesarda 
graciosa naturalidade da conversa, mantinha o espritovigilante no fundo dos olhos repletos de simpatia, mastambm de reserva.

6
       Uma nova ideia comeava a formar-se no esprito deAndrew sem que ele mesmo tivesse conscincia da suaorigem. Sem se expandir com Christine, que ainda sepreocupava 
com o equilbrio do oramento caseiro na basede xelins e pence, comeou a perguntar a si mesmo, comimpacincia, como  que um mdico poderia conseguiruma clnica 
da alta-roda sem dispor de um automvelvistoso. Era ridculo ir a p a Green Street, de maletana mo, com poeira nos sapatos, tendo de fazer frentesem um carro 
ao ar superior do porteiro. Havia uma garagemde tijolo no fundo da casa, o que reduzia considervelmente a manuteno do automvel, e no faltavamfirmas especializadas 
em fornecer carros aos mdicos, instituies admirveis que no se importavam de dilatar gentilmenteos prazos de pagamento.
       Trs semanas mais tarde parou  porta do n. 9 de Chesborough Terrace um coup castanho, de capota convertvel, novo em folha e todo reluzente. Largando 
o volante,Andrew galgou num pulo os degraus da entrada da casa.
       - Christine - chamou, esforando-se por no revelar navoz a animao e o entusiasmo. - Christine! Vem veruma coisa!
       Queria produzir uma grande impresso. E de factoconseguiu o seu fim.
       - Deus do Cu! Ela juntou as mos.  nosso? Masque beleza!
       - No  uma beleza? Cuidado, querida! No ponhas asmos na pintura. s capaz... s capaz de deixar a marcano verniz! - Sorria-lhe como nos velhos tempos. 
- Umarica surpresa, hem, Chris! Tirar a carta e comprar o carro,tudo sem te dizer coisa nenhuma. Muito diferente do nossovelho Morris, hem? Entre no carro, minha 
senhora, paraeu fazer uma demonstrao. Corre que  uma maravilha.
       Christine no se cansava de admirar o carrinho quandoo marido a levou, mesmo sem chapu, para uma boa voltapelas imediaes. Alguns minutos depois j estavam 
deregresso. Ficaram de p, na calada, pois Andrew aindano se resolvia a perder de vista o tesouro. E eram toraros agora os momentos de intimidade, de compreensoe 
felicidade que passavam juntos que ela no queria perder aquele.
       - Isso vem facilitar o teu trabalho de atender as chamadas, querido. - E ento timidamente. - Se pudssemossair um pouco, dar uns passeios ao campo, de 
vez emquando... Nos sbados, por exemplo... Oh! Seria delicioso.
       - Naturalmente - respondeu ele distrado. - Mas ocarro  sobretudo para as minhas visitas. No podemos irpor a ao acaso, enchendo o carro de lama. - E 
Andrewpensava no efeito que o cupzinho vistoso produziria naclientela.
       Contudo, o efeito que o carro produziu foi alm da sua expectativa. Na tera-feira da semana seguinte, ao sair pelaporta envidraada atrs das grades de 
ferro do n. 172 deGreen Street, deu de cara com Freddie Hamson.
       - Ol, Hamson - disse, com toda a naturalidade. Nopde conter uma onda de satisfao ao notar a fisionomiade Hamson. -Freddie no o reconheceu imediatamente.
       E quando viu afinal que era mesmo Andrew, a sua expresso, ao passar por vrios graus de surpresa, aindatraa um embarao visvel.
       - Como? Ol, Andrew! Que fazes por aqui?
       - Visitando um cliente - respondeu o outro, voltandoa mo para trs, na direco do n. 172. - Trato a filhade Joe L Roy.
       - Joe Le Roy!
       S essa exclamao dizia tudo a Manson. Com ar de proprietrio, ps a mo na portinhola do automvel novo- Para onde vais? Queres que te deixe em algumlugar?
       Freddie retomou rapidamente o seu domnio. Perturbava-se poucas vezes e nunca por muito tempo. Sem dvida, em meio minuto, a sua opinio sobre Manson, tudoo 
que pensava sobre a sua utilidade, passou por uma vertiginosae inesperada reviravolta.
       - Sim - sorriu, num tom de camaradagem - ia paraBentinck Street, para a casa de sade da Sherrington. Ia a p para fazer exerccio. Mas irei contigo.
       Houve um silncio de alguns minutos enquanto corriampela Bond Street. Hamson dava tratos  imaginao. Recebera Andrew efusivamente, quando lhe apareceu 
em Londres, na esperana de que a clnica de Manson pudessefornecer-lhe de vez em quando umas consultas de trsguinus. Mas agora a transformao do velho colega 
deturma, o automvel, e acima de tudo o nome de Joe LeRoy que para ele tinha uma significao infinitamente maior do que para Andrew mostraram-lhe o seu erro.
       Era preciso no esquecer tambm os ttulos de Andrew, muito apreciveis, teis, utilssimos. Enxergando longe,astucioso, Freddie viu uma base melhor, muito 
mais proveitosa para uma cooperao entre Andrew e ele. Deviaagir cuidadosamente pois Manson era um diabo cheio demelindres e desconfianas.
       - Porque no vens comigo ver a Ida? - disse ele. -  uma pessoa que convm conhecer, embora mantenhaa pior casa de sade de Londres. Homem, sei l. Provavelmente 
no  pior do que as outras. Mas em compensaocobra muito mais.
       - Ah, sim?
       - Vem... Vem ver a minha cliente.  inofensiva, avelha Raeburn. Ivory e eu estamos a fazer umas experincias  custa dela. Em assuntos de pulmes s um 
barra,no  o que consta? Vem v-la. Isso dar-lhe- muito prazer. E so cinco guinuzinhos que ganhas.
       - Como? Queres dizer... Mas que tem ela nos pulmes?
       - Nada de notvel. - Freddie sorriu. - No te mostresto impressionado! Ela est, provavelmente, com um poucode bronquite senil. E gostar de te ver!  
como ns fazemos aqui. Ivory, Freedman e eu. Deves entrar tambm nacombinao, Manson. No podemos falar disso agora. Noh tempo; j c estamos. Mas ficars 
espantado quandoa coisa comear.
       Andrew parou o carro em frente da casa indicadapor Hamson. Era uma moradia vulgar que evidentementeno tinha sido construda para casa de sade. Na verdade,dando 
para uma rua movimentadssima, de intenso trfego, era difcil acreditar que algum pudesse estar aliem sossego. Parecia precisamente um local destinado aprovocar 
e no a debelar uma crise nervosa. Andrewfalou nisso a Hamson quando subiram os degraus da entrada.
       - Eu sei, meu velho, eu sei. - Disposto a mostrar-secordial, Freddie concordava. - Mas so todas assim. Nestepedacinho do West End h uma poro delas. 
Compreendes que nessa questo de casas de sade devemos cuidartambm das nossas prprias convenincias. O ideal seriaque elas ficassem afastadas, em lugares tranquilos, 
mas...,por exemplo..., que cirurgio se dignaria viajar dez milhaspor dia para ver um doente durante cinco minutos? Deixaestar que com o tempo ficars a conhecer 
bem esses pequeninos albergues do West End que tm o nome de casasde sade.  Freddie parou no vestbulo estreito, onde entrara com Andrew.  Em todas elas h trs 
cheiros caractersticos: anestsicos, cozinha e excremento. Uma sequncialgica... Perdoa-me a piada, meu velho. E agora vamosver Ida.
       Com ar de quem j conhece a casa, dirigiu-se para um gabinete muito acanhado, no andar trreo, onde estavasentada, junto de uma pequena secretria, uma mulherzinha 
de uniforme de cor de malva e com um gorro branco,muito engomado na cabea.
       - Bons dias, Ida, - saudou Freddie num acento intermdio de adulao e familiaridade. - Contando os lucros?
       Ela levantou os olhos e, ao v-lo, sorriu com bom humor.Era baixa, robusta e extremamente corada. Mas era toespessa a camada de p de arroz que o rosto, 
vermelho elustroso, tomava um tom de malva, quase da cor do uniforme.
       Vinha dela uma nota de vitalidade grosseira e ruidosa,de risonha esperteza, de disposio para viver. Osdentes eram postios e mal colocados. O cabelo, 
grisalho. Dava de certo modo a impresso de que devia usar umvocabulrio imprprio e que tinha todos os requisitos paragerente de um cabar de segunda ordem.
       No entanto a casa de sade de Ida Sherrington era amais elegante de Londres. Metade da aristocracia haviaj por l passado, damas da sociedade, figures 
do Turf,diplomatas e advogados famosos. Bastava abrir um jornalpara se ficar sabendo que mais uma brilhante estrela doteatro ou do cinema acabava de deixar o 
apndice na casahospitaleira de Ida. O uniforme de todas as enfermeirasera do mais delicado tom de malva. O despenseiro, quecuidava da adega, tinha o ordenado 
de duzentas libraspor ano e o chefe da cozinha ganhava o dobro. Em compensao, os doentes tinham de pagar preos quase proibitivos.
       No era raro cobrar-se a diria de seis guinuspor um quarto. Como se isso no bastasse, vinham osextraordinrios, a conta da farmcia (s vezes bem puxada), 
da sala de operaes e da enfermeira especial quefazia o servio nocturno. Mas se algum reclamava a resposta de Ida era ornamentada de vez em quando compalavrinhas 
de calo. Tinha tambm as suas dificuldadescom partilhas e percentagens a conceder e frequentementedava a impresso de ser ela a explorada.
       Ida tinha um certo fraco pelos mdicos jovens erecebeu Manson de muito boa cara quando Freddie lhedisse :
       - Olha bem para ele. H-de mandar muito em brevetantos clientes que a Ida poder encher com eles o PlazaHotel.
       - O Plaza Hotel  que est a encher a minha casa!
       E abanou a cabea de modo significativo.
       - Ah! Ah! - Freddie soltou uma gargalhada. - Essa muito boa. Devo cont-la ao velho Freedman. Paul vaiachar graa. Vem, Manson. Vamos l acima.
       O elevador apertado, onde s diagonalmente podia entrar a maca, levou-os ao quarto andar. O corredor eraestreito. Viam-se bandejas do lado de fora das portas. 
As flores das jarras murchavam na atmosfera pesada equente. Entraram no quarto da Sr.a Raeburn.
       Era uma mulher de mais de sessenta anos. Recostadanas almofadas esperava a visita do mdico com um papelna mo. Escrevera ali algumas impresses sentidas 
durante a noite, assim como as perguntas que pretendiafazer. Andrew no teve dvida em classific-la como umcaso de hipocondria da velhice. O tipo que Charcot 
chamava malade au petit morceau de papier.
       Sentado na beira da cama, Freddie falou com a cliente, tomou-lhe o pulso, nada mais do que isso escutou oque ela disse, tranquilizou-a. Preveniu-a de que 
o Dr. Ivoryapareceria de tarde, com o resultado de alguns examesdo maior valor cientfico. Apresentou-lhe o colega, Dr. Manson, especialista de pulmes, e pediu-lhe 
que se deixasse examinar. A Sr.a Reaburn ficou lisonjeada. Gostavaextraordinariamente dessas coisas. Havia dois anos queestava aos cuidados de Hamson. Era rica, 
no tinha parentese passava o tempo ora nos hotis familiares mais selectos, ora nas casas de sade do West End.
       - Ora graas! - exclamou Freddie quando deixaram oquarto. - Nem podes fazer ideia da mina de ouro que estavelha tem sido para ns. J arrancmos dela uma 
fortuna.
       Andrew no respondeu. No se sentia muito bem naquela atmosfera. A velha nada tinha nos pulmes e s oolhar de gratido que ela dirigiu a Freddie tirara 
ao actoo seu carcter de completa desonestidade. Procurou convencer-se.
       - Porque havia de querer endireitar o mundo?
       Nunca seria um xito na vida se continuasse intolerante, intransigente nas suas convices. E a inteno de Freddietinha sido to boa, dando-lhe uma oportunidade 
paraexaminar a cliente...
       Despediu-se de modo muito cordial antes de entrar nocarro. E no fim do ms, quando recebeu, com os melhores agradecimentos da Sr.a Reaburn, um lindo cheque 
de cinco guinus, Andrew j estava apto a rir-se dos seus escrpulos idiotas. Tinha tomado gosto ao recebimento de cheques.
       E, para cmulo de satisfao, os cheques estavam a chegar cada vez em maior nmero.
       A clientela, em aumento prometedor, comeava agoraa expandir-se em todas as direces, de forma rpida, impressionante, e Andrew sentia-se cada vez mais 
envolvido na torrente do sucesso fcil. Era de certo modo vtimada sua prpria actividade. Fora sempre muito pobre. Nopassado s tivera decepes com o seu obstinado 
individualismo.  Podia agora achar uma justificao para simesmo nessas demonstraes impressionantes de xito material.
       Pouco depois da chamada de emergncia  Casa Laurier, teve uma conferncia agradabilssima com o Sr.Winch, e da por diante ainda mais frequentes foram 
asconsultas das caixeirinhas e at das chefes de seco.
       Procuravam-no principalmente por motivos triviais. Contudo, era de admirar como reapareciam com frequnciaas pequenas que o visitavam uma vez. Andrew tinha 
modosto acolhedores, to simpticos e efusivos...
       As receitas subiam verticalmente. Andrew diligencioupara que a fachada da casa fosse pintada de novo. Graasa uma dessas firmas que vendem equipamentos 
e aparelhos de consultrio (todas sempre dispostas a ajudar osjovens mdicos a aumentar os seus rditos), conseguiureformar o gabinete da parte da frente e o 
dispensriodo lado, adquiriu um novo div, um fauteil de rodas deborracha e vrios armrios elegantes, com espelhos esmaltados de branco.
       A evidente prosperidade da casa pintada de novo, do automvel, do equipamento moderno e luzidio no tardoua espalhar-se pela vizinhana, trazendo de novo 
muitosdos antigos clientes distintos do Dr. Poy, que se tinhamafastado quando o velho mdico e o seu consultrio entraram em decadncia.
       Tinham acabado para Andrew os dias em que ficavana expectativa esperando doentes que no vinham. Togrande era a frequncia na clnica nocturna que tinhade 
se desdobrar para atender a tudo. Tocava a campainhada porta da frente, batia a sineta da porta do dispensrio. Gente  espera nas duas salas e o doutor a desdobrar-sede 
um lado para o outro. Era imprescindvel tomar providncias.
        Andrew viu-se forado a pensar num plano paraeconomizar tempo.
       - Chris, ouve - disse certa manh. - Pensei agoranuma coisa que me poder ajudar muito nessas horasde aperto. Tu sabes...  Quando acabo de examinar umdoente 
do dispensrio tenho de vir aqui dentro para prepararo remdio. Gasto geralmente com isso uns cincominutos. Perco um tempo enorme que poderia aproveitarpara despachar 
um desses clientes distintos que ficara espera no consultrio. Compreendes onde quero chegar? Para o futuro incumbir-te-s da parte da farmcia.
       Ela olhou-o com um espantado franzir de sobrancelhas:
       - Mas eu nada entendo de preparao de remdios.
       Andrew sorriu, tranquilizador.
       - No faz mal, querida. Tenho sempre preparadas algumas frmulas excelentes. Todo o teu trabalho ser apenasencher os frascos, colar os rtulos e embrulhar.
       - Mas... - A confuso estampava-se nos olhos de Christine. - Oh! Eu quero ajudar-te, Andrew... mas... parece-terealmente...
       - No compreendes que isso  indispensvel? - O seuolhar fugiu do dela. Foi com irritao que acabou debeber o caf. - Bem sei que em Aberalaw eu costumavadizer 
uma srie de tolices contra os remdios. Tudo teorias! Agora... agora sou um homem prtico. Alm disso,essas raparigas da Casa Laurier so todas anmicas. Umbom 
fortificante s lhes pode fazer bem. 
       Antes que elapudesse responder, o som da campainha do dispensriof-lo abandonar a sala.
       Noutro tempo, Christine teria discutido, defendido energicamente o seu ponto de vista. Mas agora ps-se apenas ameditar, com melancolia, sobre a transformao 
que sofrera a vida de ambos. Ela j no tinha influncia nele,j no o conduzia. Era ele quem ia na frente.
       Christine comeou ento a passar no cubculo da farmcia essas horas amargas de trabalho, aguardando queAndrew ordenasse, num tom seco, enquanto se movimentava 
apressadamente, entre os clientes distintos e osdoentes pobres. Ferro! Magnesia, Carminativo ouqualquer outra coisa. Quando ela o prevenia de que a soluo 
de ferro tinha acabado, rosnava Andrew com impacincia: Ento outra coisa qualquer! com os diabos! Seja o que for.
       Muitas vezes o servio nocturno ia alm das nove emeia. Depois de encerrado, faziam a escrita do volumosoCaixa do Dr. Foy, que ainda estava com mais de 
metadedas pginas em branco quando Manson adquirira a clnica.
       - Meu Deus! Que dia, Chris! - exclamava, triunfante. - Lembras-te daquela primeira consultazinha de trs xelinse meio que me provocou uma alegria infantil? 
Pois bem,hoje... hoje fizemos mais de oito libras. E dinheiro vista.
       Arrumava o dinheiro - pesadas pilhas de prata e algumas notas - numa caixinha de charutos que o Dr. Foyusava como mealheiro e fechava-o na gaveta da secretria.
       Conservava a caixinha assim como o livro Caixa do Dr. Foy para dar sorte. Esquecia-se agora por completo de todas as antigasdvidas e louvava a prpria esperteza 
de ter ficado com a clnica.
       - Isso est a tornar-se uma verdadeira mina, de todosos pontos de vista, Chris. - Andrew exultava. - Uma clnica pobre que rende bastante e uma boa clientela 
declasse mdia. E melhor que tudo, estou adquirindo porminha prpria conta muitos clientes da alta sociedade.

7
       No comeo de Outubro, Manson julgou-se em condies de autorizar Christine a reformar a moblia da casa. 
       Depois do trabalho da manh, disse-lhe com uma naturalidade cheia de nfase, que era a sua nova maneira dese exprimir:
       - Gostaria que fosses hoje  cidade, Chris. Vai  Casa Hudson, ou  Casa Ostley, se preferires. Vai  melhorcasa de mveis e compra tudo o que precisamos. 
Talvezduas moblias de quarto, uma de sala de visitas, o queentenderes.
       Ela olhou-o em silncio, enquanto Andrew acendia um cigarro, sorridente.
       -  uma das vantagens de ganhar dinheiro: poderdar-te tudo o que necessitas. No penses que sou mesquinho. Acredita que no sou. Tens sido uma boa companheira,Chris, 
em todos os momentos difceis. Agora estamosa comear a gozar os bons tempos.
       - Comprando mveis caros e... conjuntos estofados daCasa Ostley.
       Ele no percebeu a amargura das suas palavras. Riu.
       - Isso mesmo, querida. J chegou a hora de nos desfazermos dos velhos trastes da Casa Regency.
       Lgrimas despontaram nos olhos de Christine. Explodiu :
       - Em Aberalaw no achavas que fossem trastes... E defacto no so. Oh! Aquele tempo, sim, aquele  que foi umtempo feliz!  - Abafando um soluo, virou as 
costas e saiuda sala.
       Ele seguiu-a com o olhar, espantado. Christine andava ultimamente com uns modos estranhos. Nervosa, deprimida, com repentinas crises de inexplicvel mau 
humor.
       Andrew sentiu que se afastavam um do outro, que desapareciaaquela misteriosa unio, aquele secreto lao de camaradagem que sempre existira entre ambos. Ora! 
A culpa no era dele. Fazia o que podia. Mais no era possvel.
       Furioso dizia consigo mesmo: O meu triunfo nadavale para ela! Mas no podia perder tempo a incomodar-secom a incompreenso, a injustia do procedimentodela. 
Tinha um grande nmero de chamadas a atendere era esse precisamente o dia em que costumava passarpelo banco.
       Duas vezes por semana, regularmente, ia ao banco para depositar mais algum dinheiro na sua conta. Achava uma imprudncia acumular dinheiro em casa. No podia 
deixarde comparar aquelas agradveis visitas com a sua tristeexperincia bancria em Blaenelly, quando, como simplesassistente sem importncia, fora humilhado 
por AneurinRees. O Sr. Wade, gerente do banco londrino, dirigia-lhesempre um sorriso de respeitoso acolhimento, e de vezem quando convidava-o para fumar um cigarro 
no seugabinete.
       - Permita que lhe diga, doutor, e no veja nisso qualquer intromisso na sua vida: o doutor vai muitssimobem. Ns aqui estamos em condies de orientar 
perfeitamenteum mdico em franco progresso, que j conta coma sua independncia, como o doutor, por exemplo. E agora,quanto queles ttulos da Southern Railway, 
de que jtivemos ocasio de falar...
       A deferncia de Wade no era mais do que uma amostrada considerao geral. Andrew via agora que os outrosmdicos do bairro o cumprimentavam cordialmente 
quandoos automveis se cruzavam. Na reunio do Outono daseco distrital da Associao Mdica, na mesma sala ondefora tratado com to pouca considerao quando 
l aparecera pela primeira vez, foi acolhido com afecto, recebeumuitas provas de apreo e at mesmo um charuto doDr. Ferrie, o vice-presidente.
       - Tenho muito prazer em v-lo aqui, doutor - dissecom cordialidade o Dr. Ferrie, um homenzinho de caraavermelhada. - Est de acordo com as linhas-mestras 
domeu discurso? Temos de usar de energia nessa questode honorrios. Principalmente nas chamadas nocturnas. Estou disposto a no ser condescendente. Ainda uma 
noitedestas bateram  minha porta. Um petiz de doze anos,calcule! Venha depressa, doutor, choramingou. O pap est no trabalho e a mam est muito mal. Ora 
o senhorsabe como so essas conversas das duas da madrugadae eu nunca tinha visto em toda a minha vida ogaroto nem mais gordo nem mais magro. Meu filho,disse 
eu. A tua me no  minha cliente. Vai buscar omeio guinu da chamada. Ento irei.  claro que novoltou.  o que lhe digo, doutor, esta zona  terrvel.
       Uma semana depois dessa reunio telefonou-lhe aSr.a Lawrence. Andrew achava sempre um encanto a graciosa tagarelice das suas conversas pelo telefone. Nessedia, 
porm, depois de explicar que o marido fora pescar naIrlanda e era possvel que tambm fosse mais tarde paral, convidou-o para almoar com ela na sexta-feira. 
Dirigiu-lhe o convite como se fosse uma coisa sem maiorsignificao.
       - A Toppy vem. E mais uma ou duas pessoas. Achoque so mais interessantes do que essa gente que secostuma encontrar nesses almoos. E talvez lhe possamser 
teis.
       Andrew desligou o telefone, entre satisfeito e irritado.
       No ntimo, estava aborrecido porque Christine no fora tambm convidada. Mas, reflectindo, achou que se tratavade uma questo mais de negcio do que de vida 
social.
       Devia aparecer em bons meios, travar relaes com pessoas importantes como as que compareciam ao almoo, tantomais que Christine poderia ignorar o facto. 
Quando chegoua sexta-feira, contou-lhe que combinara um almoo com Harrison e pulou para o automvel com a conscincia tranquila.E no se lembrou que no tinha 
feitio para mentir.
       A residncia de Frances Lawrence ficava em Knightbridge, numa rua muito sossegada entre Hans Place eMilton Crescent. Embora no fosse esplndida como a 
casade L Roy, o seu bom gosto e a sua elegante sobriedadetransmitiam a mesma sensao de opulncia. Andrew chegou atrasado. J l se encontrava a maioria dos 
convidados: Toppy, a novelista Rosa Keane, Sir Dudley Rumbold-Blane,clnico famoso, M.D., F.R.C.P.(*) e membrodo conselho de administrao dos produtos Cremo; 
NicolWatson, explorador e antropologista, e vrias outras pessoas menos importantes.
       
(*) F. R. C. P. - Abreviatura de Fellow of the Royal College ofPhylicians, ttulo superior ao M. R. C. P. (N. do T.)
       
        mesa, Manson sentou-se ao lado da Sr.a Thornton,que, segundo o informou, morava em Leicestershire, masvinha periodicamente a Londres, passando curtas 
temporadas no Brown Hotel. Embora j se sentisse suficientemente calmo durante o cerimonial das apresentaes atagarelice da mulher deu-lhe tempo para retomar 
o domniocompleto de si mesmo. Ela discorria maternalmentesobre uma torcedura de p que sofrera, numa partida dehquei, a filha Sybil, internada num colgio de 
Roedean.
       Mesmo prestando ateno  Sr.a Thornton, que interpretava o silncio como interesse pela narrativa, Mansonainda conseguia ouvir alguma coisa da suave e espirituosapalestra
 que se desenrolava na mesa as piadinhas agressivas de Rosa Keane e a descrio extraordinariamentefascinante de Watson sobre uma expedio ao Paraguai emque 
tomara parte recentemente. A Admirou tambm a facilidade com que Frances mantinha a animao da conversa, encorajando ao mesmo tempo o pedantismo de SirRumbold, 
que se sentara ao seu lado. Uma ou duas vezesAndrew sentiu os olhos dela a procur-lo, meio sorridentes,notando neles uma interrogao.
       - No resta dvida - Watson concluiu a narrativa comum sorriso de quem pede desculpa - de que o incidentemais lamentvel foi voltar para casa e apanhar 
logo umagripe.
       - Ah! - exclamou Sir Rumbold. - Ento tambm pagou o seu tributo!
       Aclarando a voz e recorrendo s lunetas, que encaixou no volumoso nariz, conseguiu atrair aateno de toda a mesa. Sir Rumbold sentiu-se  vontadeem tal 
situao. Desde h muitos anos que era uma figuraa que o grande pblico rendia culto. Foi Sir Rumboldquem, havia coisa de um quarto de sculo, assombrara aHumanidade 
com a declarao de que uma certa parte dointestino era no s intil, mas tambm provadamente prejudicial. Centenas de pessoas correram logo a cortara parte perigosa. 
E embora Sir Rumbold no pertencesse a esse nmero, a fama da operao, que os cirurgies denominaram inciso Rumbold-Blane, firmou para sempre asua fama de 
autoridade em assuntos de dieta. Desde ento,estava sempre em relevo conseguindo pleno sucessocom as suas recomendaes  populao de vrios alimentos exticos 
e fermentos lcteos. Mais tarde inventou osistema de mastigao Rumbold-Blane, e agora, alm dassuas actividades em conselhos de administrao de muitascompanhias, 
redigia os menus da famosa cadeia de restaurantes Railey. Os anncios diziam assim: Venham, senhoras e cavalheiros! Sir Rumbold-Blane, M.D. e F.R.C.P., ajudar 
os clientes na escolha dos alimentos de maiscalorias! Entre os elementos mais conscienciosos da profisso no faltava quem resmungasse baixinho, insinuandoque 
Sir Rumbold j devia ter sido expulso h muito tempodo Registo Mdico. Mas a resposta era bem simples: queseria do Registo sem Sir Rumbold!
       Pontificava agora, olhando paternalmente para Frances:
       - Um dos aspectos mais interessantes desta epidemia de gripe  o efeito teraputico, verdadeiramente espectacular, do Cremogen. Ainda na semana passada tive 
ocasiode dizer a mesma coisa na reunio do conselho de administrao. Infelizmente, no h cura para a gripe. E nessecaso o nico recurso para enfrentar a invaso 
perigosado bacilo consiste em desenvolver no mais alto grau acapacidade de resistncia, a defesa vital do organismocontra a infiltrao da doena. Aproveitei 
o ensejo paradizer e orgulho-me de o ter feito com certa proficincia que realizmos experincias concludentes... no emcobaias, ah! ah.!, como os nossos amigos 
dos laboratrios,mas em seres humanos. So experincias que provam opoder fenomenal do Cremogen na organizao e no reforoda defesa vital do organismo contra 
os micrbios.
       Watson voltou-se para Andrew, com o seu estranhosorriso:
       - Que lhe parecem os produtos Cremo, doutor?
       Apanhado desprevenido, Andrew respondeu inadvertidamente :
       - Valem tanto como outros quaisquer  base de leite desnatado.
       Com um olhar furtivo de aprovao, Rosa Keane cometeu a maldade de rir. Frances riu tambm. Repentinamente Sir Rumbold passou  descrio da sua recentevisita 
a Trossacks, a convite da Associao Mdica doNorte. O almoo decorreu, no entanto, na melhor harmonia.
       Mais de uma vez Andrew participou desembaraadamenteda conversa geral. Na sala de visitas, antes que ele seretirasse, Frances proporcionou-lhe mais duas 
oportunidades de conversar.
       - O doutor  realmente encantador - murmurou ela. A Sr.a Thornton nem esperou pelo caf para me falara seu respeito. E tenho um pressentimento de que o senhor 
a pescou - no  assim que se diz? - para cliente.
       Com essa boa notcia acariciando-lhe o ouvido, Manson voltou para casa sob a impresso de que a aventura foraptima para ele e Christine dela no tomara 
conhecimento.
       Na manh seguinte, porm, teve uma surpresa desagradvel. Freddie telefonou, para lhe perguntar, alvoroado:
       - Ento  como se passou o almoo de ontem? Como que eu soube? Ora, meu velho! No leu hoje a Tribune?
       Alarmado, Andrew voltou, rpido,  saleta, onde costumavam ficar os jornais, depois de lidos por ele e Christine.Correu os olhos novamente pela Tribune, 
um dos matutinos ilustrados de maior circulao. Estremeceu de repente.Como no vira aquilo antes? Na seco de notcias mundanas, uma fotografia de Frances Lawrence 
com umapequena nota sobre o almoo da vspera. O nome de Manson estava entre os convidados.
       Aborrecido, arrancou a pgina do jornal, fez uma bolade papel e atirou-a ao fogo. Lembrou-se ento de que Christinej havia lido a Tribune. Franziu a testa 
num acessode inquietao. E embora se convencesse de que ela notinha dado pela maldita notcia, foi muito carrancudopara o consultrio.
       Mas Christine lera a notcia. Depois de um momentode espanto, sentiu o corao ferido. Porque no lhe falara Andrew nisso? Porqu? Porqu? No se teria incomodadopor 
ele comparecer quele almoo idiota. Procurou tranquilizar-se: era uma coisa to sem importncia que nemlhe devia causar tanta mgoa e ansiedade. Mas, com acabea 
a estalar, compreendeu que no fundo o facto noera sem importncia.
       Quando Andrew voltou das suas visitas, Christine tentou continuar com o servio de casa como se nada tivesseacontecido. Mas no pde. Andava do consultrio 
para aoutra sala sempre com o mesmo peso no corao. Com oespanador limpava nervosamente o dispensrio. Junto dasecretria via-se a antiga maleta do mdico, a 
primeiraque ele possura, a que usara em Blaenelly, que levava pelosbairros operrios, e com que descia s minas nos casos deemergncia. Afagou-a com uma estranha 
ternura. Andrewtinha agora uma maleta nova, de preo. Fazia parte da suanova clnica, da clnica de luxo que cultivava agora tofebrilmente e que inspirava to 
profunda averso a Christine.
        Ela sabia que era intil tentar explicar-lhe as suas discrepncias sobre a conduta dele. Andrew andava to melindroso... Isso era bem a marca do seu prprio 
conflitointerior. Uma palavra dela irrit-lo-ia provocando umadiscusso. Devia agir de outro modo.
       Era sbado e Christine prometera a Florie lev-la nasua companhia quando sasse para fazer compras. A filhada criada, toda bonitinha no vestido novo, j 
estava sua espera no alto da escada da cave. Era uma boa menina,a Florie, e Christine afeioara-se-lhe muito. Aos sbadossaam quase sempre juntas. Christine 
sentiu-se melhorquando se viu fora de casa, ao ar livre, com a garota pelamo, a passear pelo mercado, conversando com os vendedores de que era freguesa, comprando 
frutas e flores, procurandoencontrar alguma coisa que pudesse agradar a Andrew. Mas a ferida continuava aberta. Porqu, porqueno lhe participara? E porque no 
fora convidada tambm?
       Lembrou-se da primeira vez em que tinham ido a casados Vaughans, em Aberalaw. Fizera tudo, ento, paraarrast-lo consigo. Como agora a situao era diferente!
       E a culpa era dela? Estaria mudada, recolhida dentro desi mesma, transformada de certo modo numa criaturadesprezvel? Achava que no. Gostava ainda de se 
darcom pessoas amigas, travar relaes amigveis, sem ligar importncia social que pudessem ter. A amizade com aSr.a Vaughan ainda perdurava numa troca constante 
decorrespondncia.
       Mas, embora magoada e diminuda, Christine preocupava-se muito menos consigo do que com o marido. Elabem sabia que a gente rica tambm cai doente e que 
sepode ser to bom mdico na zona mais aristocrtica deLondres como na zona operria de Aberalaw. No exigiaa continuao daqueles esforos hericos dos velhos 
temposdas grandes marchas a p e das corridas de motocicleta.
        No entanto sentia com toda a alma que naqueletempo o idealismo de Andrew fora puro e maravilhoso,iluminando a vida de ambos com uma luz forte e clara. 
Agora, a chama tornara-se amarelada e o vidro da lanternaestava sujo de fumo.
       Ao entrar na casa de Frau Schmidt procurou eliminarda fisionomia os indcios da preocupao. No entanto percebeu que a velha a observava atentamente.
       - Anda sem apetite, minha filha. No est com boacara. Todavia possui agora um lindo automvel, dinheiro,tudo. Olhe! Tem de provar isto.  muito saboroso.
       Com a longa faca afiada, cortou uma lasca do seufamoso presunto defumado e obrigou Christine a comeruma sanduche de po de forma. Ao mesmo tempo ofereceua 
Florie sorvete e um pastel. Frau Schmidt no se calava.
       - Agora, um pouco de Libtauer. O doutor j tem comido muito deste queijo e nunca se farta. Qualquer dia destesvou pedir-lhe um atestado para pregar a na 
montra. Foieste queijo que me deu fama... E Frau Schmidt continuou a discorrer alegremente at Christine se retirar.
       Ao sarem, Christine e Florie ficaram paradas no passeio  espera que o sinaleiro - era o velho amigo Struthersquem estava de servio - desse sinal para 
poderem atravessar. Christine segurava com fora o brao da impulsivaFlorie.
       - Deves prestar sempre ateno ao trnsito desta esquina aconselhou.  Que diria tua me se fosses atropelada?
       Com a boca cheia do resto do pastel, Florie achougraa ao dito.
       Quando finalmente chegaram a casa, Christine comeou a desembrulhar as compras e ao dirigir-se  sala dafrente, para pr numa jarra os crisntemos que trouxera,sentiu-se 
outra vez possuda de tristeza.
       Nisto o telefone tocou. Foi atender com andar pesado, a fisionomia abatida.
       Demorou-se uns cinco minutos. E voltou com a expresso transfigurada. Os olhos, de excitados, brilhavam. De vezem quando olhava pela janela, ansiosa pela 
volta deAndrew, esquecida do prprio desalento na alegria da boanotcia que recebera. Sim, uma notcia muito importantepara Andrew, muito importante para ambos. 
Ela estavacerta, tinha a convico de que no poderia ter acontecidocoisa melhor naquela ocasio. Nenhum antdoto mais eficaz para o veneno do sucesso fcil. 
E, impaciente, Christine correu  janela, mais uma vez.
       Quando Manson chegou, ela no se conteve, no soube esperar. Correu ao encontro dele, at  porta da rua.
       - Andrew! Tenho um recado para ti. De Sir RobertAbbey. Ele falou-me h pouco pelo telefone.
       - Ah! Sim? - A fisionomia de Andrew, que ao ver amulher assumira de repente um ar compungido, animou-se de novo.
       - Sim! Foi ele mesmo quem falou. Queria falar contigo. Eu disse-lhe que no estavas... Oh! Ele foi to gentil... Ih! E eu estou a contar tudo isto to mal! 
Meu querido! Foste nomeado para a clnica externa do Hospital Vitria. Podes tomar posse imediatamente!
       A satisfao foi pouco a pouco manifestando-se no olharde Andrew.
       -  verdade... Que boa notcia, Chris!
       - No ? - exclamou ela, entusiasmada. - Agora podes voltar ao trabalho que sempre apreciaste... com oportunidadespara pesquisas... tudo o que ansiavas e 
no pudesteconseguir na Junta... 
       Envolveu-o nos braos e apertou-ocontra o peito.
       Andrew fitou-a, extraordinariamente tocado pelo seuamor, pelo seu desprendimento e pela sua generosidade. Teve um rebate de conscincia.
       - Que alma boa tens, Chris! E como eu sou idiota eingrato!

8
       Nos meados do ms seguinte, Andrew assumiu as funes na consulta externa do Hospital Vitria. Os seus diasde consulta eram as teras e quintas, com o horrio 
dastrs s cinco da tarde. O trabalho parecia-se muito como daqueles velhos tempos na clnica de Aberalaw. Masagora s tinha de apreciar casos da sua especialidade: 
pulmes e brnquios. Alm disso, para seu grande e ntimoorgulho, j no era simples assistente de mdico, mas umclnico de categoria num dos mais antigos e famosos 
hospitais de Londres. 
       O Vitria era indiscutivelmente um hospital velho. Situado em Battersea, no labirinto daquelas ruas estreitasque ficam perto do Tamisa, quase no era banhado 
pelosol mesmo no Vero. No Inverno, as varandas para ondedeviam ser levadas as camas de rodas dos doentes estava quase sempre envoltas pelo nevoeiro que subia 
do rio. Nabase da fachada, sombria e carcomida, via-se um grandecartaz vermelho e branco, que parecia verdadeiramenteum pleonasmo, onde se lia: O Hospital Vitria 
est emrunas. 
       A parte do edifcio onde estava instalada a clnicaexterna, em que Andrew se encontrava, era em parte umarelquia do sculo XVIII. Com efeito, exibia-se 
ali orgulhosamente, dentro de uma caixa de vidro, na sala de entradaum almofariz usado pelo Dr. Lintel Hodges, mdico damesma seco do hospital durante o perodo 
de 1761 a 1793.As paredes, no revestidas de azulejos, haviam tomadouma cor de chocolate e os corredores, embora escrupulosamente limpos, eram to mal ventilados 
que destilavamhumidade. Todas as dependncias estavam impregnadasdo cheiro a bolor da velhice. 
       No primeiro dia de trabalho, Andrew visitou todo ohospital na companhia do Dr. Eustace Thoroughgood, veterano da sua seco. Era um homem de cinquenta anosagradvel 
e preciso. De estatura abaixo da mediana, usavauma barbicha grisalha e tinha maneiras simpticas e paternais, como um padre com boa disposio. Thoroughgood tinha 
enfermeiras prprias no Hospital e, de acordocom o sistema existente, uma sobrevivncia da antigatradio sobre a qual se mostrava de uma erudiocuriosa, ele 
julgava-se responsvel por Manson e peloDr. Milligans, os mdicos mais novos da seco.
       Depois da volta pelo Hospital, o Dr. Thoroughgoodlevou Andrew  grande sala comum da cave. As luzes jestavam acesas embora ainda no fossem quatro da tarde. 
O fogo crepitava no fogo de ferro. Nas paredes, muitobrancas, viam-se os retratos dos mdicos mais ilustres doHospital, vendo-se a peruca e as gorduras do Dr. 
LintelHodges no lugar de honra, por cima do fogo. Este eratambm uma relquia volumosa daquele venervel passado.
       E, embora celibatrio e com ares de clrigo, o Dr. Thoroughgood amava a lareira como se fosse a sua prpria filhae dilatava as narinas no prazer de a contemplar.
       Tomaram, na companhia de outros mdicos, um ch agradvel, com muitas torradas quentes e boa manteiga. Todos pareceram a Manson rapazes muito simpticos.
       Entretanto, notando a deferncia com que tratavam oDr. Thoroughgood e a ele mesmo, conteve um sorriso.  que se lembrava dos atritos que tivera, ainda h 
poucosmeses, com certos sujeitinhos insolentes, quando procurava mandar doentes para o Hospital.
       Sentara-se junto dele o Dr. Vallance, um jovem mdicoque passara um ano nos Estados Unidos estudando naclnica dos irmos Mayo. Comearam a conversar sobre 
osistema do famoso sanatrio. Tomado de sbito interesse,Andrew perguntou num dado momento se o Dr. Vallanceouvira falar em Stillman aquando da sua estadia na 
Amrica do Norte.
       - Sim, naturalmente - disse Vallance. - Stillman gozade muito prestgio. No tem diploma de facto, mas agoraele  mais ou menos reconhecido como um grande 
clnico,embora no oficialmente.
       - Visitou a clnica dele?
       - No. - Vallance abanou a cabea. - No pude ir atl. Fica no Orgo.
       Andrew calou-se por um instante, sem saber se deviafalar.
       - Creio que  uma coisa notabilssima - disse afinal. - Tive ocasio de entrar em contacto com Stillman h jalguns anos. Foi ele quem me escreveu primeiro 
a propsito de um trabalho que publiquei no American Journalof Hygiene. Observei ento fotografias e detalhes da clinica. No pode desejar-se sanatrio mais perfeito 
para otratamento da tuberculose. Fica na montanha, no meiode pinheiros, bem isolado, com varandas envidraadas,um sistema especial de ar condicionado que permite 
absoluta pureza e temperatura invarivel no Inverno. - Andrew parou como a desculpar-se do seu prprio entusiasmo poisuma interrupo na palestra geral permitiu 
que todos ospresentes escutassem o que dizia. - Quando se pensa nasnossas condies em Londres, isso parece um ideal inatingvel.
       O Dr. Thoroughgood sorriu secamente, mesmo comaspereza.
       - Os mdicos londrinos tm sabido sempre agir muitobem nas condies em que trabalham, Dr. Manson. Podemos no ter as novidades e os exotismos a que se 
referiu,mas no tenho dvidas em afirmar que os nossos mtodosseguros e experimentados, embora menos espectaculares,tambm produzem resultados satisfatrios e 
provavelmentemais duradouros.
       Cabisbaixo, Andrew no deu resposta. Compreendeuque, como novato, cometera uma imprudncia em exprimirto abertamente o seu ponto de vista. O Dr. Thoroughgood,para 
mostrar que no o pretendera melindrar tratou gentilmente de desviar a conversa para outro assunto. Faloua respeito da arte de aplicar ventosas. A histria da 
medicina tinha sido por muito tempo a sua mania e dispunhade grande nmero de Informaes sobre os barbeiros-cirurgies da velha Londres.
       Quando se levantaram, disse amavelmente a Andrew:
       - Tenho uma verdadeira coleco de ventosas. Hei-demostrar-lha um dia destes.  realmente lamentvel que a ventosa tenha cado em desuso. Era... e ainda 
... umprocesso admirvel para provocar contra-irritao.
       Passado esse incidente o Dr. Thoroughgood tratou de mostrar-se um colega simptico e prestvel. Era bom clnico, quase infalvel nos diagnsticos e tinha 
gosto emlevar Andrew a visitar as suas enfermarias, mas no aspectodo tratamento o seu esprito rotineiro no admitia aadopo de novidades. No queria admitir 
a tuberculina,sustentando que o seu valor teraputico ainda no foraabsolutamente comprovado. Era muito avaro no uso dopneumotrax e a sua percentagem de insuflaes 
era a mais baixa do hospital. Entretanto, era extremamentegeneroso na administrao de malte e leo de fgado debacalhau.
       Andrew no pensou mais em Thoroughgood desde que comeou a trabalhar. Era estupendo, dizia para si mesmo, encontrar-se, depois de tantos meses de espera, 
na situao de quem comea de novo. E nessa primeira fase apoderou-se dele uma animao quase semelhante ao seuantigo ardor e entusiasmo.
       Como era natural, as suas velhas pesquisas sobre leses pulmonares produzidas por inalao de p haviam-nolevado mais tarde a considerar em conjunto toda 
a questoda tuberculose. Esboou vagamente um plano para investigar, de acordo com a experincia de Von Pirquet, osprimeiros sinais fsicos de leso primria. 
Podia dispor deum enorme material de pesquisas: as crianas subalimentadasque as mes traziam ao hospital para beneficiaremda conhecidssima liberalidade do Dr. 
Thoroughgood naconcesso de leo de fgado de bacalhau.
       E no entanto, por mais que procurasse convencer-se docontrrio, Andrew no trabalhava com alma. No podia recuperar o entusiasmo espontneo das suas investigaes 
sobre inalao. Tanta coisa o preocupava, tinha tantoscasos importantes na clnica, que no lhe era possvel concentrar a ateno sobre obscuros indcios que talvez 
mesmono conduzissem a coisa alguma. Ningum melhor do queele sabia o tempo necessrio para um exame cuidadoso. Estava sempre atarefadssimo. Esse argumento era 
irrespondvele Andrew no tardou a assumir uma atitude de admirvel conformismo. Era-lhe humanamente impossvelfazer o que pretendia.
       A pobre gente que vinha ao dispensrio do Hospitalno exigia muito dele. O seu predecessor tinha sido, aoque parecia, um fanfarro, mas, como receitava 
muito esabia contar de vez em quando uma boa anedota, a suapopularidade manteve-se at ao fim. Andrew tambm entrou na intimidade do Dr. Milligan, o companheiro 
declnica, e dentro de pouco tempo j adoptava os mtodosdo colega no contacto com os doentes. Mandava-os entrar aos grupos para junto da sua mesa e despachava-os 
rapidamente.
       Quando receitava: Repita-se o remdio, nemtinha tempo para se lembrar como troara noutras pocasdessa frase clssica. Andrew, de facto, percorria o caminhoque 
conduzia  classificao de clnico admirvel.

9
       Ms e meio depois de assumir as funes no Hospital, Andrew tomava o caf da manh, em companhia de Christine, quando abriu uma carta que trazia o carimbo 
deMarselha. De momento, olhou espantado, como se noacreditasse no que estava a ler. E depois exclamou:
       -  do Denny. Cansou-se finalmente do Mxico. Estde volta, disposto a recomear a actividade aqui, diz ele. S vendo acredito. Mas, meu Deus! Como ser 
agradvelv-lo outra vez! Est longe h quanto tempo? Parece umsculo. Imagina que vem da China.  Tens a o jornal,Chris? V quando chega o Oreta.
       A notcia deu tambm uma grande alegria a Christinemas por diferentes motivos. Havia nela um forte instintomaternal, um estranho esprito de proteco, 
quase calvinsta, em relao ao marido, e ela sempre achara queDenny (e Hope, tambm, embora em escala menos elevada) exercia uma influncia benfica sobre Andrew.
       Agora, especialmente, que ele, em virtude da modificaoque se operara no seu esprito, tanto precisava dessainfluncia, Christine mostrava-se ainda mais 
ansiosa eatenta. Aps a chegada da carta, pensou logo em promover uma reunio dos trs amigos.
       Na vspera da chegada do navio, tocou no assunto.
       - No sei se isso te agradar, Andrew... mas estou apensar que poderamos dar um jantarzinho na semanaque vem... Um jantar s para ns, o Denny e Hope.
       Ele fitou-a surpreendido. com o ambiente de constrangimento latente entre ambos era estranho que ela falasse em preparar uma festa. No entanto respondeu:
       - Hope provavelmente est em Cambridge, e Denny eeu podemos ir a qualquer lado. - Mas, olhando para ela,anuiu rapidamente. - Est bem. Trata do jantar paradomingo. 
 o dia melhor para todos ns.
       No domingo seguinte apareceu Denny. Mais saudvelde aparncia, a cara mais vermelha do que nunca. Pareciamais velho, mas mais bem disposto e mais correcto 
demaneiras. Todavia, era ainda o mesmo Denny, como demonstrou ao saudar o casal:
       - Isto aqui  um palcio! Com certeza, enganei-me naporta. - E voltando-se solenemente para Christine. - A senhora,por favor, pode informar-me: este cavalheiro 
tobem vestido  o Dr. Manson?
       Um momento depois, j sentado, recusou um aperitivo.
       - No! Agora sou amador de limonadas. Por mais estranho que parea, o facto  que estou disposto a assentar avida de uma vez, aqui mesmo, neste pas de 
tanta chuva. J estou farto de girar por este vasto mundo. A melhormaneira de se querer a esta terra to caluniada  passaruns tempos no estrangeiro.
       Andrew fitou-o com afectuosa censura.
       - Deves realmente assentar a vida, Phillip. Afinal decontas, j entraste na casa dos quarenta... E com a tuacapacidade...
       Denny dirigiu-lhe um olhar significativo por baixo das sobrancelhas.
       - Largue esse esprito, Sr. Professor. Ainda lhe possomostrar as minhas habilidades qualquer dia.
       Contou que tivera a sorte de ser nomeado cirurgionuma enfermaria do South Hertfordshire, com trezentaslibras por ano sem descontos. No podia considerar 
aquilo, claro, como uma situao definitiva, mas havia muitotrabalho para um cirurgio que quisesse pr em aco asua tcnica operatria. Queria ver, afinal, 
o que ainda eracapaz de fazer.
       - No sei como me deram essa situao - observouDenny - Devem ter-se enganado. Confundiram-me comoutra pessoa.
       - No - disse Andrew, com ar um tanto doutoral. - Foi por causa do teu ttulo de M. S. (doutor em cirurgia). Um ttulo de primeira ordem como este pode levar-te 
auma boa situao.
       - Que tem ele, hem? - resmungou Denny. - Nem parece o amigalhao que me ajudou a dinamitar aquela redede esgotos.
       Nesse momento entrou Hope. Ainda no conheciaDenny, mas, aps cinco minutos, j se entendiam perfeitamente. Quando passaram para a sala de jantar, tinhamfeito 
uma alegre frente nica para arreliar Manson.
       - Naturalmente, Hope - disse Phillip, num tom melanclico, ao agarrar no guardanapo - o senhor no deveesperar muita comida nesta casa. Oh! No! Eu conheoesta 
gente h muito tempo. Conheci o professor muitoantes de se tornar a coqueluche das finas rodas de Londres. No sabia que este casal foi expulso da cidade ondevivia 
porque matava porquinhos da ndia  fome?
       - Eu costumo trazer um bocado de presunto no bolso- disse Hope. -  um hbito que aprendi com o Billydos Botes na nossa ltima expedio. Mas, infelizmente,no 
tenho ovos. As galinhas l de casa esto agora nochoco.
       As graas continuaram durante o jantar. O humorismode Hope parecia provocado especialmente pela presenade Denny. Mas pouco a pouco a conversa descaiu paraassuntos 
mais srios. Denny contou algumas das suas aventuras na Amrica do Sul, metendo uma ou duas histriasde negros que fizeram Christine rir a bom rir. Hopeexplicou 
detalhadamente as mais recentes actividades daJunta. Whinney conseguira finalmente promover as investigaessobre fadiga muscular que haviam estado tanto tempo 
no campo das teorias.
       -  o que estou a fazer agora - disse Hope, com melancolia. - Mas, graas a Deus, s me faltam nove meses paraacabar o contrato. Nessa altura, farei alguma 
coisa quejeito tenha. Estou farto de trabalhar por conta alheia, comos velhos a moerem-me a pacincia e modificando a voznuma agitao cmica: Dr. Hope, que 
quantidade decido carboltico encontrou desta vez?. Quero trabalharpor minha prpria conta. Quem me dera ter um pequeninolaboratrio s para mim!
       Como esperava Christine, a conversa tornou-se nitidamente cientfica. Terminado o jantar, que foi abundante,desmentindo assim as previses pessimistas de 
Denny, eservido o caf, Christine ficou  mesa, assistindo  discusso, muito embora Hope a prevenisse de que a linguagem no seria muito prpria para uma senhora. 
Cotovelosfincados na mesa, mo no queixo, escutando em silncio,esquecida de tudo, ela no tirava os olhos do rosto deAndrew.
       A princpio Manson mostrou-se seco e reservado. Embora estivesse alegre por ver novamente Phillip, tinha aimpresso de que o velho amigo no dava muita 
importnciaaos seus sucessos, mostrando-se muito mais irnicodo que entusiasmado. Afinal de contas tinha vencido defacto. No tinha? E Denny, que fizera? Quando 
Hope insistira nas suas ironias, Andrew estivera a ponto de dizeraos dois, com toda a franqueza, que deixassem de brincar sua custa.
       Todavia, agora que conversavam sobre assuntos profissionais, Manson foi deixando-se conduzir inconscientementepor eles e num dado momento foi contagiado 
pelatagarelice dos companheiros e comeou tambm a falarcom a vivacidade dos velhos tempos.
       O assunto da discusso eram os hospitais. De repente Andrew exprimiu a sua opinio sobre todo o sistema hospitalar.
       - Querem saber o que penso a esse respeito? - Soprouuma abundante fumaa. Agora j no era um cigarrobarato, mas um bom charuto, tirado de uma caixa queapresentara 
distraidamente aos outros, sob o olhar sardnico de Denny. - Para mim, todo o sistema  anacrnico. Compreendam: no quero de forma alguma que pensemque estou 
menosprezando o meu prprio hospital. Gostomuito do Vitria e posso afirmar-lhes que l trabalha-sede verdade. Mas o sistema  que no serve. Apenas o povoingls, 
com a sua apatia, o pode tolerar.  o que acontececom as estradas do nosso pas: o mesmo atraso, a mesmadesorganizao, o mesmo desmazelo. O Vitria  umaruna. 
O S. Joo tambm. Muitos hospitais de Londres,talvez mais de metade, esto nas mesmas condies. E quefazemos ns para obviar a esse mal? Pedimos esmola. Afixamos 
cartazes nas fachadas dos hospitais. Pedimosauxlio como se anunciam produtos. O Vitria est acair!. Comprem a Cerveja Brown,  a melhor!. Istono tem graa? 
No Vitria, se a sorte nos ajudar, poderemosdentro de dez anos comear a construo de umanova ala ou uma dependncia para moradia das enfermeiras! Mas para que 
remendar uma velha carcaa? Queinteressa um hospital para doentes pulmonares no centrode uma cidade barulhenta e hmida como Londres? Quediabo!  como se a gente 
levasse um doente com uma pneumonia para o fundo de uma mina de carvo. E emmuitos outros hospitais e casas de sade sucede o mesmo. Esto instalados nas ruas mais 
movimentadas e barulhentas, e at as camas tremem quando os camies passam narua. Mesmo que eu fosse com muita sade para um desseshospitais, teria de tomar todas 
as noites um bom calmantepara poder dormir. Imaginem os doentes, no meio dessabarulheira com uma grave infeco intestinal ou com umafebre alta provocada pela 
meningite! Qual  o remdio para isso?
       Phillip franziu a testaperante essa inesperada irritao. 
       - Uma junta hospitalar,contigo como presidente?
       - No sejas idiota, Denny - respondeu Andrew, impaciente. - O remdio  a descentralizao. No, isto no uma frase feita;  o resultado do que observei 
desde queestou em Londres. Porque no poderiam os grandes hospitais ficar numa zona um pouco afastada, onde no houvessebarulho nem fumos de fbricas? Digamos, 
a umasquinze milhas da cidade. Talvez um lugar como Benham,por exemplo. Fica distanciado apenas a umas dez milhas,mas  como se fosse em pleno campo, arborizado, 
ar puro,sossego. E no julguem que seriam grandes as dificuldades de transporte. O metropolitano poderia fazer a viagem atBenham em menos de vinte minutos. E 
podia mesmohaver comboios privativos para o servio do hospital. Quando penso que as nossas ambulncias mais velozesgastam quarenta minutos pouco mais ou menos 
para transportar um doente de urgncia, considero isso um progresso. Pode alegar-se que, transferindo os hospitais, a cidadeficaria sem servios mdicos.  uma 
tolice. Os dispensriospodem ficar nos centros e nos bairros, longe dos hospitais. J que tratamos do assunto,  preciso lembrar que essalaracha de zonas de servio 
mdico  uma verdadeira barafunda. Quando cheguei aqui verifiquei imediatamente que o nico lugar para onde podia mandar os meus doentesda parte oeste de Londres 
era o hospital da parteleste. E voltando ao Vitria, temos ali doentes de todosos bairros. No se procura circunscrever as zonas hospitalares. Toda a gente se 
dirige para os hospitais do centroda cidade. Para falar com franqueza, camaradas, a confuso  s vezes inacreditvel. E que se faz? Nada, absolutamente nada. 
Continuamos no velho sistema, passeandopelas ruas as caixas das esmolas, organizando bandos precatrios, fazendo apelos, deixando os estudantes arrecadarem moedas 
nas festas de beneficncia. Nos pasesnovos da Europa, sim, parece que se faz alguma coisa,Juro por tudo: se pudesse arrasaria o Vitria e construiriaum novo 
hospital para tuberculosos em Benham, comuma boa linha de comunicaes para a cidade. E garanto-lhes! A mdia de curas subiria espantosamente!
       Isso serviu apenas de introduo. A discusso ampliou-se.
       Philip trouxe  colao o seu velho ponto de vista: aestupidez de pedir a um mdico de clnica geral que tratede todas as doenas, a insnia de exigir que 
ele tome a responsabilidade de todos os casos, at o momento deliciosoem que um especialista, a quem nunca se viu mais gordo, chamado para declarar, pelo preo 
de cinco guinus,que  demasiadamente tarde para se fazer alguma coisa.
       Sem reservas nem eufemismos, Hope exps o exemplode um jovem bacteriologista batido entre o comercialismoe a rotina. De um lado, os laboratrios que lhe 
querempagar um ordenado para fazer especialidade, de outro ladouma junta de velhos caducos e cmicos.
       - Suponham vocs - esganiou-se Hope - os irmosMarx dentro de uma dona-elvira escangalhada, comquatro volantes independentes e uma quantidade enormede 
buzinas. Pois assim  a Junta de Mineiros e Metalrgicos.
       A conversa seguiu at depois da meia-noite, e nessemomento tiveram a agradvel surpresa de encontrar a mesa posta com caf e sanduches.
       - Quanto incmodo por nossa causa, Sr.a Manson- protestou Hope, com uma cortesia que confirmava a definio de Denny a seu respeito: - Um rapazinho de 
bonssentimentos.  Como deve ter ficado aborrecida com anossa conversa! E tem graa como uma discusso fazfome! Vou sugerir a Whinney um novo plano de investigaes: 
o efeito do falatrio sobre as secrees gstricas. Upa! Isso  uma asneira chapada!
       Hope despediu-se entre afirmaes veementes de que passara uma noite agradabilssima; Denny ainda se demorou mais um bocado, valendo-se do privilgio de umaamizade 
mais antiga, e quando Andrew foi ao telefonepara chamar um txi, Phillip apresentou a Christine, meioacanhado, um lindo xale espanhol.
       - O professor provavelmente mata-me com cimes- disse - mas isto  um presente para si. No lho mostreantes que eu volte as costas. - No permitiu que ela 
proferisse uma palavra de agradecimento, pois era a coisaque mais o embaraava. -  curioso: todos esses xales espanhis vm da China. Comprei este em Xangai.
       Calaram-se um momento. Ouviram os passos de Andrew, que voltava do telefone. Denny levantou-se. Os seus olhos amigos evitaram osdela.
       - Eu no queria perturb-lo, o senhor sabe. - Sorriu. - Mas devemos fazer um esforo. Temos realmente de ofazer voltar ao que era em Blaenelly.
         

10
       No comeo das frias da Pscoa, Andrew recebeu umbilhete da Sr.a Thornton pedindo-lhe que fosse ao BrownHotel para ver a filha. Dizia-lhe em poucas palavras 
queo p de Sybil no tinha melhorado, e, como apreciara ointeresse que ele havia tomado pelo caso no almoo daSr.a Lawrence, estava ansiosa por ouvir a sua opinio.
       Lisonjeado por essa homenagem  sua pessoa, Andrew acudiu imediatamente.
       Como verificou pelo exame, o caso era perfeitamente simples. Todavia era conveniente fazer-se uma operao preventiva. Manson empertigou-se, sorrindo para 
a robustae sadia Sybil, que estava nesse momento sentada nacama, a calar a meia. E declarou  Sr.a Thornton:
       - O osso engrossou. Pode resultar da um joanete seno for tratado a tempo. A minha opinio  que se faaa operao quanto antes.
       - Foi isso mesmo que disse o mdico do colgio. - A Sr.aThornton no se mostrou surpreendida. Estamos preparadas para isso. Sybil pode ir para uma casa 
de sade. Mas... Est bem, tenho confiana no doutor.  precisoque o doutor tome as providncias.  Que operador recomenda?
       A pergunta deixou Andrew atrapalhado. Como o seu trabalho era quase exclusivamente clnico, conhecia muitos mdicos eminentes, mas nenhum cirurgio de Londres.
       De repente lembrou-se de Ivory. E disse num tom amvel:
       - O Dr. Ivory poder fazer isso muito bem... se estiver disponvel.
       A Sr.a Thornton j ouvira falar no Dr. Ivory.  claro! No era o cirurgio a que se tinham referido os jornaisno ms anterior, por ter ido de avio ao Cairo 
por causade um caso de insolao? Um nome conhecidssimo! A Sr.aThornton achou admirvel a ideia de entregar o caso dafilha a uma pessoa notvel. S uma exigncia 
apresentou: Sybil devia ir para a casa de sade da Sr.a Sherrigton.Tantas pessoas amigas tinham ido para l que no podiaadmitir outra.
       Andrew voltou para casa e telefonou a Ivory com ahesitao de um homem que est tentando uma aproximao preliminar. Mas logo o tranquilizou o modo de Ivory 
to amvel, to confiante e encantador! Combinaram vera menina, juntos, no dia seguinte, e Ivory garantiu que,embora a casa de Ida estivesse repleta, havia de 
conseguirum quarto para a menina Thornton, caso fosse necessrio.
       Na manh seguinte Ivory declarou perante a Sr.a Thornton, com toda a nfase, que estava inteiramente de acordocom a opinio de Andrew, acrescentando ser 
imprescindvel a operao imediata. Sybil foi levada para a casa daSr.a Sherrington. Dois dias mais tarde, depois de dar tempo menina para se aclimatar, fez-se 
a operao.
       Andrew serviu de assistente para atender s instncias gentis e amistosas de Ivory.
       A operao no era difcil. No resta dvida de queem Blaeneily o prprio Andrew poderia t-la efectuado.
       Embora parecesse no ter pressa, Ivory efectuou-a comimpressionante competncia. Lembrava uma imagem defora e de frieza dentro do seu comprido avental 
branco,de onde emergia a face firme, macia, de mandbulas salientes.
        Ningum encarnava melhor do que Charles Ivorya ideia popular do grande operador. Tinha as mos delicadas e macias que o convencionalismo romntico atribuisempre 
ao heri da sala de cirurgia e na sua bela aparnciae perfeita segurana produzia uma impresso dramtica.
       Andrew, que tambm estava de avental, observava-o dooutro lado da mesa com um respeito natural.
       Uns quinze dias depois, quando Sybil Thornton deixoua casa de sade, Ivory convidou-o para um almoo noSackville Club. Repasto muito agradvel. Ivory era 
umadmirvel conversador de palavra fluente e interessante,com uma coleco de anedotas sociais recentes que decerto modo colocava o companheiro no mesmo p de 
intimidade com o mundanismo, como se fosse tambm umfrequentador de sales. A sala de jantar do Sackville, como tecto decorado e os grandes lustres de cristal, 
estavacheia de pessoas famosas, que Ivory classificava de interessantes.
        Andrew sentia-se lisonjeado e no havia dvidade que Ivory no pretendia outra coisa.
       - O senhor deve permitir que eu apresente a sua proposta para scio na primeira reunio do clube - disse ooperador. - Encontrar ali um grupo de bons amigosFreddie, 
Paul e eu somos scios.  verdade, o JackieLawrence tambm. Casal insinuante, os Lawrence. O marido e a mulher so ptimos amigos e cada qual tratada sua vida! 
Sinceramente gostaria de o propor para scio. Com franqueza, amigo, estava com a impresso de que osenhor no tinha grande simpatia por mim. A velha desconfiana 
escocesa, hem? Como sabe, eu no trabalho em hospitais. Prefiro ser franco-atirador. Alm disso, meu carocolega, eu vivo to ocupado! Alguns desses medalhes doshospitais 
passam um ms inteiro sem uma operao particular e eu fao a mdia de dez por semana! E a propsito,vamos ter notcias dos Thorntons muito em breve. Deixe o caso 
por minha conta. So clientes de primeiraordem. E, j que tocmos no assunto, no acha que sedevia pensar nas amgdalas da Sybil? J olhou para elas?
       - No! Ainda no reparei.
       - Oh! Deve olhar, meu velho. Muito crescidas. Umfoco de infeco. Tomei a liberdade de lhe dizer que devemosarranc-las quando chegar o Vero! Espero que 
noleve a mal...
       Voltando para casa, Andrew no pde deixar de considerar com simpatia o companheiro encantador em queIvory se transformara. J se sentia mesmo grato a Hamsonpor 
t-lo apresentado. O caso correra esplendidamente. OsThorntons estavam bem impressionados. E certamente nopodia haver melhor critrio.
       Trs semanas depois, quando tomava ch na companhiade Christine, recebeu uma carta de Ivory.
       Meu caro Hanson:
       A Sr.a Thornton acaba de explicar-se lindamente.
       Como enviei agora ao anestesista a parte que lhecompetia, aproveito tambm mandar a sua porme ter assistido to eficientemente na operao.
       Sybil ir v-lo em breve. No se esquea das amgdalas,de que j falei. A Sr.a Thornton est encantada.
                                               CordialmenteC. I.
       Dentro da carta um cheque de vinte guinus.
       Andrew olhou espantado para o cheque. Nenhuma assistncia prestara a Ivory durante a operao. Mas, poucoa pouco, a sensao grata que o dinheiro agora 
lhe ocasionava foi invadindo o seu corao. com um sorriso complacente, passou a carta e o cheque a Christine.
       - Tipo correcto, esse Ivory, no achas, Chris?! Estavacapaz de apostar que este ms vamos bater um record.
       - Mas no compreendo... - Christine estava surpreendida. -Isso o pagamento da conta da Sr.a Thornton?
       - No, tolinha... - deu uma risadinha.  um extraordinriozinho... Apenas pelo tempo que gastei assistindo operao.
       - Queres dizer com isso que o Dr. Ivory te d partedos seus honorrios?
       Andrew corou de repente. E irritado:
       - Ora, valha-me Deus! No  disso que se trata. Isso absolutamente proibido. Nem devemos falar numa coisadessas. No compreendes que eu ganhei esse dinheiro 
pelotrabalho de assistir  operao, por estar presente, assimcomo o anestesista ganhou o dele por ministrar o anestsico? Ivory incluiu tudo isso na conta. Creio 
que deveter sido uma conta salgadssima.
       Christine abandonou o cheque em cima da mesa, vencida, infeliz.
       - Parece muito dinheiro.
       - Ora essa! E porque no? - Andrew encerrou a questo num rompante indignado. - Os Thorntons so fabulosamente ricos. Isso custa-lhes tanto como os trs 
xelinse meio a um dos nossos clientes pobres.
       Depois de ele sair, Christine continuou com os olhosfitos no cheque, seriamente apreensiva. No sabia atento que Andrew tinha ligaes e interesses profissionaiscom 
Ivory e sentiu-se possuda de repente por toda ainquietao anterior. Aquela noite passada em companhiade Denny e Hope no dera o menor resultado. Como Andrew 
estava agora louco por dinheiro, terrivelmente louco!
       O seu trabalho no hospital parecia no ter importncia perante aquela febre de sucesso material. Mesmo no consultrio observava que Andrew ia receitando 
remdios emais remdios, muitas vezes para pessoas que no tinhamdoena alguma. E ainda insistia com eles para que voltassem  consulta, voltassem outra vez.
       Christine ficou sentada ali, diante do cheque de Charles Ivory. O rosto dela parecia diminudo, mais fino, pelaexpresso de profunda tristeza. Lgrimas inundaram-lheos 
olhos. Tinha necessidade de falar a Andrew. Era preciso,indispensvel. 
       Logo naquela noite, depois do trabalho, aproximou-sedele timidamente.
       - Andrew queres proporcionar-me uma sensao agradvel? Vamos dar um passeio de automvel, pelo campo,no domingo?  Prometeste-me isso quando compraste ocarro.
       Andrew fitou-a com admirao.
       - No me lembro... mas est bem, combinado.
       O domingo amanheceu como ela esperava. Um lindodia de Primavera. Pelas onze horas, Andrew estava despachadodas visitas e seguiram ento, de automvel, levando 
no banco traseiro uma toalha e um cesto de piquenique.
       Christine foi-se animando quando atravessaram aponte de Hammetsith e tomaram a estrada de Kingstonpara Surrey. No tardariam a passar por Dorking, virando 
direita, na estrada para Shere. Havia tanto tempo queno saa da cidade que a doura do campo, o verde alegredas paisagens, a prpura dos olmos floridos, a poalha 
deouro do sol espalhada nas rvores, o amarelo-plido dasprimaveras que desabrochavam  beira do rio, impregnavam a sensibilidade de Christine, enchendo-a de 
boa disposio.
       - No vs to depressa, querido - murmurava ela numavoz mais doce do que a das ltimas semanas. - O campoest to bonito!
       Mas Andrew parecia disposto a ultrapassar todos oscarros.
       Chegaram a Shere por volta da uma da tarde. comas suas casinhas de tecto vermelho e o seu riacho a deslizar mansamente entre as margens cobertas de agries, 
aaldeia ainda no parecia perturbada pela avalanche dosturistas de Vero. Avanaram um pouco mais direitos auma colina cheia de rvores. Pararam o carro num caminho 
retirado. Ali, na pequenina clareira onde estenderama toalha, havia uma solido cheia de murmrio que era sdeles e dos passarinhos.
       Comeram sanduches e beberam o caf que haviamtrazido num termo.  sua volta, entre as rvores, as primaveras cresciam em profuso. Christine quis colh-las,enterrar 
o rosto na sua frescura macia. Deitaram-se narelva, Andrew de olhos semicerrados, com a cabea pertoda dela. Uma tranquilidade paradisaca foi descendo sobrea 
alma inquieta e sombria de Christine. Ah! Se a vidadeles fosse sempre assim!...
       O olhar indolente de Andrew pousou por momentos no automvel. De repente disse :
       - Este carrito no  mau, hem, Chris? Quero dizer, no mau relativamente ao preo. Mas precisamos de adquirirum novo no Salo Automvel.
       Christine estremeceu, novamente inquieta pela demonstrao que Manson acabava de fazer da sua preocupaoconstante de riqueza.
       - Mas comprmos este carro h to pouco tempo! Parece-me muito bom para ns.
       - Ora!  uma carroa. No notaste como aqueleBuick passou  nossa frente? Quero uma limousine deluxo, de grande velocidade.
       - Mas para qu?
       - Porque no? Estamos em condies de adquirir umcarro assim. Estamos no caminho da fortuna, Chris!
       Andrew acendeu um cigarro  e voltou-se para ela, comvisvel satisfao. - Se ainda no ests inteirada do facto,minha querida professorinha de Blaenelly, 
convm quesaibas: estamos a enriquecer a grande velocidade.
       Christine no correspondeu ao sorriso do marido. Sentiu de repente um calafrio percorrer-lhe o corpo, que repousava ao calor do sol. Comeou a arrancar 
punhados deerva e a torcer nervosamente a ponta da toalha. Dissevagarosamente:
       - Querido, ns precisamos de facto de enriquecer? Eu,pelo menos, no preciso. Porque falar tanto em dinheiro? Quando quase nada tnhamos... Oh! como ramos 
felizes! Nunca falvamos de dinheiro. Mas agora no falas deoutra coisa.
       Ele sorriu de novo superiormente:
       - Depois de patinharmos na lama tantos anos, comer salsichas e arenques em conserva, aguentar comisses idiotas e atender operrios em quartos imundos, eu 
proponho,para variar, uma melhoria no nvel das nossas condiesde vida. Tens alguma objeco a fazer?
       - Querido, no leves o caso para a brincadeira. Noutros tempos no me falavas assim. Tu no vs, ento tuno vs que ests sendo vtima do prprio sistema 
queoutrora censuravas, do que odiavas tanto?! - A expressodela era de causar pena, de agitada. - No te lembras deque consideravas a vida como se fosse um assalto 
ao desconhecido, uma investida para a altura?... Era como sequisesses conquistar uma cidadela que no vias mas quetinhas a certeza de que estava l, no alto...
       Andrew murmurou, embaraado:
       - Ora! Ento era eu muito jovem... Um sonhador! Aquilo tudo era romantismo. Observa os outros. Todosfazem a mesma coisa procurando vencer, ganhar o mximoque 
podem. No h outra coisa a fazer.
       Ela teve um suspiro trmulo. Sabia que devia falarnaquele momento ou nunca mais.
       - Meu querido! No  s isto que se pode fazer. Porfavor, atende-me. Peo-te. Tenho sofrido tanto com isso... Com esta tua mudana! Denny tambm notou. Isto 
afasta-nosum do outro. J no s o Andrew Manson com quemcasei. Ah! Se ao menos quisesses voltar a ser o que eras!...
       - Mas, afinal, que fiz eu? - protestou ele, irritado. Eu dou-te pancada, eu embriago-me, eu j matei algum? Cita um dos meus crimes!
       Desesperada, Christine replicou:
       - No so coisas que se possam apontar.  toda a tua atitude, querido. V, por exemplo, aquele cheque que Ivoryte mandou.  uma coisa sem grande importncia 
aparentemente, mas no fundo... No fundo, no  coisa limpa,decente, honesta.
       Ela percebeu que Andrew fora tocado ao vivo. Levantou-se, ofendido, com o olhar incendiado.
       - Ora, valha-me Deus! Porque voltar a este assunto? Que mal pode haver em ter recebido o cheque?
       - Ento, no vs? - Toda a emoo acumulada nosltimos meses dominou Christine, que no podia discutir,que se desfazia de repente em lgrimas. Gritou, no 
augedo nervosismo. - Por amor de Deus, querido, No te tornes venal!
       Andrew cerrou os dentes, furioso. Falou lentamente com energia causticante.
       - Aviso-te, pela ltima vez, de que deves abandonaresses histerismos, essas loucuras. Porque no me ajudas,em lugar de me aborrecer, de manh  noite, com 
remoques?
       - Eu no procuro aborrecer-te com remoques - soluavaela. - Queria apenas convencer-te. Mas no posso.
       - Pois ento, no fales mais. - Andrew perdeu a calmae gritou de sbito. - Escuta o que te digo. No fales. Issodeve ser algum complexo que de ti se apoderou. 
Falas-mecomo se eu fosse um charlato indecente. Eu quero apenasavanar. E se quero ganhar dinheiro  porque  o nicomeio de vencer na vida. Julga-se uma pessoa 
pelo que temde seu. Quem nada tem  mandado, montam-no. Pois bem: j suportei isso demasiado tempo. Para o futuro quero serdos que mandam. Deves compreender-me. 
E nunca maisme fales nessas tolices irritantes.
       - Est bem, est bem - Christine chorava ainda. - Nofalarei mais. Mas ficas avisado... Um dia arrependes-te.
       O passeio estava estragado para ambos e principalmentepara ela. Embora enxugasse os olhos e colhesse um granderamo de primaveras, embora estivesse ainda 
uma hora inteiradeitada na relva, em pleno sol; embora tivesse paradona volta em Lavender Lady para tomar ch, embora conversasse com o marido com aparente amizade 
sobre assuntos banais, a verdade era que todo o encanto do dia desaparecera.
       Quando voltaram para casa, no fim da tarde,o rosto de Christine estava plido e sem expresso.
       A ira de Andrew foi pouco a pouco transformando-seem indignao. Porque era Christine a nica pessoa contraele? Outras mulheres... e mulheres encantadoras... 
estavam entusiasmadas com o seu rpido triunfo.
       Alguns dias mais tarde, Frances Lawrence telefonou-lhe. Tinha andado pelo estrangeiro. Passara o Invernona Jamaica, de onde escrevera algumas cartas a Andrew.Agora 
estava de volta, ansiosa por ver os amigos, irradiandoa luz do sol que absorvera na pele. Frances disseque precisava de o ver antes de perder o tom moreno doar 
da praia.
       Andrew foi tomar ch com ela. Como dissera, Francesestava deliciosamente queimada pelo sol, o magro rostoto bronzeado como o de um fauno. O prazer de v-lade 
novo era extraordinariamente aumentado pela expressodos olhos de Frances, esses olhos to indiferentespara muitas pessoas e irradiando tanta luz para ele, comopara 
um velho amigo. Sim, falaram como velhos amigos.
       Ela contou-lhe a viagem, os jardins de coral, os peixes quese viam por baixo das canoas de fundo de vidro, a belezae a doura do clima. Em troca, Andrew 
confidenciou-lheos seus ltimos triunfos. Talvez um pouco das suas preocupaes ntimas tivesse transparecido nas suas palavras,pois Frances comentou graciosamente:
       - O senhor est solene de mais. E to prosaico queat perde a graa.  o que lhe acontece quando noestou aqui. No! Com franqueza, tenho a impresso deque 
o senhor trabalha de mais. Precisa de manter todoesse servio de clientela barata? Se eu fosse a si, pensavaj ser tempo de montar um consultrio numa zona eleganteda 
cidade. Wimpole Street ou Welbeck, por exemplo.  a que o senhor deve exercer clnica.
       Nesse momento entrou o marido de Frances, alto, arde boa vida, cerimonioso. Cumprimentou Andrew  a quemconhecia agora muito bem, pois jogara bridge com 
ele umaou duas vezes no Sackville Club  e aceitou de bomhumor uma chvena de ch.
       Embora declarasse cordialmente que no queria de forma alguma perturb-los, a entrada de Lawrence interrompeuo lado srio da conversa. Comearam a discutir, 
comdivertida animao as ltimas invenes de Rumbold-Blane.
       Mas meia hora depois, quando Andrew voltava paracasa, a sugesto da Sr.a Lawrence ocupava-lhe o crebro.
       Sim, porque no montaria um consultrio na WelbeckStreet? J era tempo para isso. De nenhum modo queriaabandonar a clientela de Paddington. O dispensrio 
erarendoso de mais para pensar em larg-lo sem mais nem menos. Mas podia facilmente combinar as horas com as deum consultrio na zona aristocrtica. Teria assim 
um endereo mais pomposo para a correspondncia, um cabealhode maior efeito para o papel de receitas, para as contas.
       A ideia expandia-se dentro dele, estimulava-o para uma conquista maior. Que boa amiga era Frances! To tilcomo a Sr.a Everett e muito mais encantadora, 
muito maisatraente! E ainda por cima ele estava em ptimas relaescom o marido. Podia fit-lo calmamente. No precisavade sair sorrateiramente daquela casa como 
se fosse umcozito ordinrio de alcova. Ah! a amizade era uma grandecoisa!
       Sem tocar no assunto a Christine, comeou a procurarum consultrio conveniente no West End. Um ms depoisquando o encontrou, teve a grande satisfao de 
declararnuma indiferena estudada, quando lia os jornais da manh:
        A propsito... Talvez te interesse saber... Montei consultrio na Welbeck Street.  para a minha clientela maisdistinta.

11
       A sala do 57 da Welbeck Street deu a Andrew umanova sensao de triunfo. Estou aqui, exultava no ntimo,estou aqui finalmente!.
       Embora no fosse ampla, a sala era clara e ventilada,com uma pequena janela. Ficava no andar trreo, o queera uma vantagem evidente, pois muitos clientes 
no gostavamde subir escadas. Alm disso, embora a sala deespera fosse comum a outros mdicos, o gabinete era sdele.
       No dia 19 de Abril, ao receber as chaves, Andrewfoi acompanhado de Hamson quando foi tomar posse dasala. Freddie mostrara-se utilssimo em todas as circunstncias 
preliminares e arranjara para ele uma enfermeiracompetente, amiga da que empregava na Queen AnneStreet. A enfermeira Sharp nada tinha de bonita. Erade meia-idade, 
com ar de pessoa capaz, porm carrancuda,um tanto rspida. Freddie justificou a escolha de modoconciso:
       - Nada pior do que uma enfermeira bonita. Sabes oque eu quero dizer, meu velho. Brincadeira  brincadeira. Mas negcio  negcio. No se podem combinar as 
duascoisas. Nenhum de ns est aqui para se divertir. E umsujeito duro de cabea como tu sabe disso muito bem. A propsito, creio que vamos ficar cada vez mais 
ntimosagora que estamos perto um do outro.
       Quando Freddie e Andrew discutiam o arranjo da sala, apareceu inesperadamente a Sr.a Lawrence. Ia passando e entrara, alegremente, para ver se o consultrio 
era bom.
       Frances tinha um ar encantador, de saia e casaco pretose uma pele cara  volta do pescoo. Demorou pouco, masdeu ideias e sugestes para a decorao e para 
as cortinasda janela, para que tudo ficasse mais elegante do quesegundo as ideias sem gosto de Freddie e Andrew. 
       Perdida a sua esfuziante presena, a sala pareceu subitamente vazia. Freddie desabafou:
       - Nunca vi um tipo de tanta sorte como tu! Ela um encanto. - E numa expresso de inveja: - Faz lembrar as palavras de Gladstone, em 1890, a respeito do 
meiomais eficiente de fazer avanar um homem na sua carreira.
       - No sei o que queres dizer.
       Mas quando a instalao ficou pronta, Andrew tevede concordar com Freddie e tambm com Frances, queviera ver a materializao das suas ideias. A sala davaexactamente 
a impresso que se idealizara: elegante, mascom aspecto perfeitamente profissional. Em tal ambiente,a tabela de trs guinus por consulta parecia justa erazovel.
       A princpio no teve grande assistncia mas  forade escrever cartas amveis a todos os mdicos que lheenviavam doentes ao hospital - cartas em que dava 
informaessobre esses doentes e sintomas da doena foi estendendouma rede de conhecimentos por toda a cidadee no demoraram a aparecer os primeiros clientes 
particulares. Andrew era agora um mdico muito atarefado.
       A sua nova limousine corria de casa para o hospital, dohospital para o consultrio da Welbeck Street. E haviaainda uma lista compacta de chamadas a atender, 
almdo servio no velho dispensrio, onde muitas vezes tinhade ficar at depois das dez da noite.
       O sucesso era como um fortificante correndo pelas suas artrias como um precioso estimulante de energias. Aindatinha tempo para ir ao Rogers e encomendar 
trs fatosnovos, assim como para ir ao camiseiro de Jermyn Street,recomendado por Hamson. A reputao no hospital aumentava.
        verdade que tinha menos tempo para se dedicaraos doentes, mas dizia para si mesmo que o poucoque lhes dedicava era compensado pela competncia. Mesmocom 
os amigos se acostumou a falar com o tom bruscode homem ocupado. E dizia com um sorriso insinuante: Tenho de me retirar, meu velho. J estou atrasado.
       Numa tarde de sexta-feira, umas cinco semanas depoisde aberto o consultrio, foi procur-lo uma senhora idosa,doente da garganta. Tratava-se de uma simples 
laringite,mas a mulher era nervosa e estava ansiosa por conhecera opinio de outro mdico. Um tanto magoado, Andrewpensou para quem a devia de mandar. Era ridculo 
imaginar que fosse roubar tempo a um homem como RobertAbbey. De repente, a fisionomia de Andrew alegrou-se.
       Lembrara-se de Hamson, ali muito perto. Freddie tinhasido gentilssimo nos ltimos tempos. Era justo que lhefizesse ganhar aqueles trs guinus, em vez 
de mandar asenhora para um desconhecido qualquer. E Andrew enviou-a a Freddie, com um bilhete.
       Trs quartos de hora mais tarde, a doente estava devolta, muito mais bem disposta, amvel, desfazendo-seem desculpas, satisfeita consigo mesma, com Freddie 
eprincipalmente com Andrew.
       - Desculpe-me incomod-lo, doutor. S lhe quero agradecer os seus cuidados. Falei com o Dr. Hamson e eleconfirmou tudo o que o doutor disse, e ele... ele 
garantiu-meque o remdio que o doutor me deu era o que hde melhor.
       Em Junho foram cortadas as amgdalas de Sybil Thornton.
        Estavam um pouco inflamadas e um articulista doMedical Journal havia admitido que a absoro das toxinaspelas amgdalas se relacionava com a etiologia 
doreumatismo.
       Ivory fez a operao de modo to lento que at se tornou aborrecido.
       - Prefiro trabalhar devagar nesses tecidos linfticos- explicou a Andrew, quando lavaram as mos. - Conheo operadores que arrancam amgdalas apressadamente. 
Maseu no opero dessa maneira.
       Quando Andrew recebeu, pelo correio, mais um chequede Ivory, Freddie estava junto dele. Trocavam agora frequentes visitas nos consultrios. Hamson retribuiu 
prontamente a gentileza, enviando a Andrew uma boa gastriteem troca da laringite que recebera. E da para o futuro,alguns clientes fizeram a viagem, com bilhetes 
de recomendao, entre os dois consultrios.
       - Ouve, Manson - observou Freddie. - Fiquei satisfeito porque acabaste com aquela tua atitude de querer endireitaro mundo. Mas mesmo assim - mirou o cheque, 
porcima do ombro de Andrew - ainda no ests a tirar todoo sumo da laranja, meu velho. Faamos um acordo, compincha,e acharemos a fruta muito mais suculenta.
       Andrew soltou uma gargalhada.
        noite, ao voltar para casa, sentia-se com um bomhumor extraordinrio. Verificando que no tinha cigarros,parou o carro em frente de uma tabacaria de OxfordStreet. 
Ao entrar, viu de repente uma mulher parada juntoda montra. Era Blodwen Page.
       Reconheceu-a imediatamente. Mas como estava mudada! Nem parecia a patroa autoritria de Bryngover. Emagrecera e emanava dela cansao e abatimento. QuandoManson 
a cumprimentou, fitou-o com olhar aptico, mortio.
       - No  a Sr.a Page? - disse ele, aproximando-se. - Perdo,  naturalmente  devo  cham-la  agora  Sr.a  Rees. No se lembra de mim? Sou o Dr. Manson.
       Ela examinou-o, notou o seu aspecto elegante e prspero. Suspirou.
       - Lembro-me perfeitamente, doutor. Desejo que passebem. - E ento, como se receasse demorar-se, dirigiu oolhar para um homem comprido e calvo que a esperavaimpacientement
e um pouco adiante. E disse, com ar preocupado: - Tenho de ir, doutor. Meu marido est  espera.
       Andrew notou a pressa dela em ir-se embora, viu oslbios finos de Rees prepararem-se para resmungar: Quehistria  essa? Estou  espera!. Blodwen baixava 
a cabea,submissa. Por um momento, Andrew sentiu dirigidoinexpressivamente para o seu lado o frio olhar do gerentede banco. Depois, o par foi andando e perdeu-se 
na multido.
       A cena no saa da cabea de Andrew. Quando chegoua casa encontrou Christine na sala da frente a tricotar. Numa bandeja, o ch que ela mandara servir assim 
queouvira na rua o rudo do carro. Andrew olhou para elacom vivacidade, como a adivinhar a sua disposio. Queriacontar-lhe o encontro e sentiu de repente o desejo 
determinar com a atmosfera de constrangimento. Entretanto,mal aceitara uma xcara de ch, Christine falou antesdele, apressadamente:
       - A Sr.a Lawrence telefonou hoje de tarde novamente. No deixou recado.
       - Ah! - Andrew corou. - Que queres dizer com esse... novamente?
       -  a quarta vez que ela telefona nesta semana.
       - E que tem isso?
       - Nada. No estou a fazer comentrios.
       - Mas  como se os fizesses... No posso impedir queela me telefone.
       Christine ficou calada, os olhos fixos no seu trabalho.
       Se ele soubesse o tumulto que havia dentro daquelesilncio no teria dado ocasio  cena que se seguiu.
       - Pelo que me parece acabars imaginando que eu souum bgamo. Ela  uma mulher decentssima. E o marido,um dos meus melhores amigos.  uma gente encantadora,pelo 
menos tm a vantagem de ser uma gente alegre queno anda a espiar pelos cantos com lamrias tolas emrbidas. Que diabo!
       Engoliu o resto do ch e levantou-se. Todavia, malsaiu da sala, ficou arrependido. Entrou no consultrio,acendeu um cigarro e ps-se a pensar desalentadamenteque 
as coisas iam de mal a pior entre ele e Christine.
       A desinteligncia em aumento deprimia-o, irritava-o. Era uma nuvem escura no claro cu do seu sucesso.
       Christine e ele haviam conhecido uma felicidade perfeitana vida conjugal. O inesperado encontro com a Sr.aPage acordara no esprito de Andrew as doces recordaesdo 
seu namoro em Blaenelly. Decerto, agora nodedicava a Chris a mesma adorao de outrora, mas... que diabo! Tinha-lhe amor! Talvez a tivesse magoadouma ou duas 
vezes nos ltimos tempos. Ao chegar a esseconvencimento sentiu o sbito desejo de entender-se comela, de agradar-lhe, de a acariciar. Pensou muito. De repente,a 
fisionomia iluminou-se. Olhou para o relgio everificou que a Casa Laurier ainda devia estar aberta.
       Meteu-se imediatamente no automvel e foi ver a menina Cramb.
       A menina Cramb, a quem explicou o seu desejo, ps-selogo ao seu dispor com o maior entusiasmo. Tiveram uma,troca de impresses e depois dirigiram-se para 
a seco depeles, onde alguns modelos foram apresentados ao Dr. Manson. A menina Cramb acariciava-os com os dedoscompetentes, salientando o brilho, a qualidade, 
tudo oque podia apreciar-se numa pele cara. Por mais de umavez discordou delicadamente da opinio de Andrew, indicandocom honestidade o que era bom e o que no 
era.
       Por fim ele fez uma escolha que teve a sua aprovaocordial. Depois foi  procura do Sr. Winch. Voltou imediatamentepara declarar com alegria.
       - O Sr. Winch diz que ao doutor far um preo especial. -  Naquela casa no se empregava em qualquer circunstncia a palavra abatimento. - So cinquenta 
e cinco libras, doutor. E eu garanto-lhe que a compra no podeser melhor. As peles so lindas. Sua mulher ter orgulho em us-las. 
       No sbado seguinte, s onze horas, Andrew levou acaixa verde-escuro, com a prestigiosa marca Laurier artisticamente impressa na tampa e entrou em casa.
       - Christine! - chamou. - Chega aqui num instante!
       Ela estava em cima, ajudando Emily a arrumar os quartos, mas desceu logo, um pouco alvoroada e surpresa pelo tom com que o marido a chamara. 
       - Olha, querida! - Agora que chegava o momento decisivo, Andrew sentia-se num grande embarao. - Compreiisto para ti. Eu sei... sei que ultimamente temos 
andadode candeias s avessas. Mas, quero mostrar-te... 
       No terminou a frase. E, com acanhamento de colegial, entregou-lhe a caixa. Christine estava muito plida. As mos tremiam-lheao desatar a fita. E ento 
soltou um gritinho de alvoroo:
       - Mas que peles to bonitas! Como so bonitas!
       Na caixa, envolto em papel de seda, havia um par deraposas prateadas; duas peles finssimas ligadas elegantemente numa s. Andrew tirou-as apressadamente, 
alisou-ascomo havia feito a menina Cramb. A sua voz estavaanimada agora.
       - Gostas das peles, Chris? Pe-nas ao pescoo, paraver o efeito. A boa Half-Back ajudou-me a escolh-las. So de primeira qualidade. No pode comprar-se 
coisamelhor. E de luxo, tambm. V como brilham... E reparano tom prateado do lombo. Era isto mesmo que querias?
       Corriam lgrimas nos olhos dela. Voltou-se, atnita,para Andrew.
       - Gostas de mim, no gostas, querido?  s o que desejo neste mundo.
       Acalmada afinal, experimentou as peles. Eram magnficas. Andrew no se cansava de as admirar. Quis completara reconciliao. Sorriu.
       - Olha, Chris. Podemos celebrar o acontecimento enquanto dura o entusiasmo. Vamos almoar fora. Encontro-me uma hora no grill do Plaza.
       - Sim, querido. - Ela ainda tentou objectar. - Mas eufiz hoje para o almoo umas empadinhas... daquelas quegostas tanto.
       - No, no! - H muito tempo que o sorriso de Andrew no era to alegre. - Nada de ficar em casa. A umahora. Encontrar-te-s no Plaza com o cavalheiro elegantee 
formoso. No  preciso combinar sinal. Ele reconhecer-te- pelas peles.
       Passou o resto da manh satisfeitssimo. Que idiotafora em no se lembrar de Christine! No h mulherque no goste de receber carinhos, de sair, de se divertir.
       O grill do Plaza era o lugar mais indicado. Londres empeso, ou pelo menos a parte de Londres que interessa,podia ser vista ali, da uma s trs.
       Fora do seu costume, Christine tardava em chegar.
       Ao esper-la, no pequeno vestbulo do grill, Andrew iaficando um pouco inquieto ao ver pela vidraa que asmelhores mesas j estavam a ser ocupadas. Pediu 
o segundo aperitivo. Ela s apareceu  uma e vinte, esbaforida,atordoada pelo movimento, pela gente que entrava e saa,pela criadagem de libr e principalmente 
por ter gastomeia hora esperando o marido num local diferente do quetinha combinado.
       - Desculpa-me, querido - estava ofegante. - Nem calculaso que aconteceu. Esperei um tempo enorme. E spor fim compreendi que estava na entrada do restaurantee 
no na do grill.
       A mesa que puderam obter no era grande coisa. Ficava encostada a uma coluna. A sala estava muito cheia, comas mesas to juntas umas das outras como se os 
clientesestivessem amarrados. Os criados moviam-se como contorcionistas de circo. O calor era tropical e o barulho togrande como o de colegiais no recreio.
       - Vamos, Cris. Que escolhemos? - disse Andrew com ar superior.
       - Escolhe tu, querido - respondeu ela, acanhada.
       Andrew escolheu um almoo caro: caviar, sopa Prncipede Gales, galinha, espargos, uma compota para sobremesae uma garrafa de Liebfraumilch de 1929.
       - No podamos ter dessas coisas no nosso tempo de Blaenelly - disse ele a rir, disposto a mostrar-se bem humorado. - Nada h como passar-se bem.
       Ela procurou corresponder corajosamente s disposiesde Andrew. Elogiou o caviar, fez um esforo herico paraengolir a sopa de luxo, fingiu-se interessada 
quando eleapontou Glen Roscoe, o astro da tela, Mavis York, umaamericana famosa por j ter casado seis vezes, e outraspersonalidades igualmente clebres. Mas 
Intimamente repugnava-lhe a elegante vulgaridade do ambiente. Os homens eram efeminados, penteadssimos, demasiadamentebem vestidos. A nica mulher que podia 
ver da sua mesaera loura, vestida de preto, muito pintada, com um desembaraoum pouco atrevido.
       Da a pouco Christine sentiu a cabea tonta. Comeoua perder o domnio de si mesma. As suas reaces eramsempre normais, mas ultimamente os seus nervos 
sofriamde forte tenso. Sentiu o contraste entre as suas peles deluxo e o seu modesto vestido. Teve a impresso de que asoutras mulheres a observavam, percebeu 
que estava ali toimpropriamente como uma humilde margarida do camponuma cesta de orqudeas.
       - Que tens? - perguntou Andrew de repente. - no tesentes bem?
       - Sinto bem, sim, naturalmente - protestou ela, tentando sorrir. - Mas os lbios no obedeceram. O mximoque pde fazer foi engolir, com repugnncia, o pedao 
degalinha excessivamente condimentado que tinha no prato. 
       - No ligas importncia ao que eu digo - murmurouele ressentido. - No bebeste uma gota de vinho. Quediabo! Quando se leva uma mulher a almoar fora...
       - Queres dar-me um pouco de gua? - pediu Christinecom uma voz que mal se ouvia. Sentia vontade de chorar.
       Aquele meio era-lhe estranho. O seu cabelo no estava penteado como devia, no pintara o rosto... No era deadmirar que os prprios criados estivessem a 
olhar paraela. Nervosamente, apanhou um espargo. Mas a ponta doespargo partiu-se e, escorrendo gordura, caiu sobre as pelesde Christine.
       A loura platinada da mesa vizinha voltou-se para o companheiro com um sorriso trocista. Andrew notou aquele sorriso. No tentou mais conversar. O almoo terminounum 
silncio triste.
       Voltaram para casa ainda mais tristes. Logo depois elesaiu, sem mais expanses, para fazer as suas visitas. Aindaficaram mais afastados do que anteriormente. 
Christinesofria profundamente. Comeava a perder a confiana emsi mesma, a perguntar-se se seria na verdade a mulherque convinha a Andrew.
       A noite, quando ele voltou, recebeu-o com um beijo eum abrao, agradecendo-lhe ainda o presente e o almoo.
       - Ainda bem que gostaste - disse ele secamente. E foipara o quarto.

12
       Um acontecimento veio distrair a ateno de Andrewdos seus aborrecimentos domsticos. A Tribune noticiavaque Richard Stillman, o famoso higienista americano,chegara 
a Londres e se hospedara no Brooks Hotel.
       Noutros tempos Andrew teria corrido ao encontro deChristine, todo alvoroado, com o jornal na mo. E teriadito: Olha Chris! Sabes quem chegou a Londres. 
O Richard Stillman. Lembras-te? Aquele americano com quemme correspondi durante tantos meses. No sei se ele mequer ver. Mas, com franqueza, gostaria de me encontrarcom 
ele.Mas agora Andrew perdera o costume de correr paraChristine. Em vez disso, leu pensativamente o jornal, satisfeito de poder aproximar-se de Stillman, no 
como simplesmdico assistente, mas como clnico vitorioso que tinhaconsultrio na Welbeck Street. Sentou-se  mquina eescreveu cuidadosamente uma carta ao americano, 
na qualrecordava a antiga correspondncia e o convidava para almoarem juntos, quarta-feira, no grill do Plaza.
       Stillman telefonou-lhe na manh seguinte. A sua vozera tranquila, cordial, mas decidida.
       - Gostaria de o encontrar, Dr. Manson. Aceito comprazer o seu convite para almoarmos juntos. Mas noutrolugar. J no suporto o Plaza. Porque no vem almoarcomigo 
aqui, no Hotel?
       Andrew encontrou-se com Stillman na saleta de esperado seu apartamento, no Brooks, um hotel confortvel edistinto, mas cujo sossego era um contraste humilhantepara 
o Plaza com a sua confuso barulhenta. O dia estavamuito quente. Andrew tivera uma manh ocupadssima elogo que viu Stillman quase se arrependeu de o ter procurado.
        Era um homem de cinquenta anos, mido, comuma cabea demasiadamente grande para o corpo e o rostochupado. A pele era rosada como a de uma criana, ocabelo 
ralo e castanho, de risco ao meio. S quando viuos olhos, de um azul firme e frio,  que Andrew percebeu,quase com um choque, a fora de alma e de aco quese 
continha naquela figura aparentemente inexpressiva.
       - Espero que no tenha sido incmodo para si vir ataqui  disse - Richard Stillman, com a naturalidade de umhomem disputado por muita gente. - Bem sei que, 
quasetodos os americanos gostam do Plaza.  - Sorriu humanizando-se. - Mas, vai tanta gente ali!... - um momento desilncio. - E agora, que estamos juntos, quero 
felicit-locordialmente pelo seu esplndido trabalho sobre inalao. No se aborreceu com o que eu lhe disse sobre serecita? Que tem feito ultimamente?
       Desceram para o restaurante. O maitre dhotel foi pessoalmenteatender Stillman.
       - Que quer comer? Para mim sumo de laranja - disse Stillman sem olhar para a lista em francs. - E duascosteletas de carneiro com ervilhas. Depois, caf.
       Andrew disse o que pretendia e voltou-se para o companheironum respeito crescente. Era impossvel estarmuito tempo perante Stillman sem sentir a atraco 
dominanteda sua personalidade. A sua carreira, que Andrewconhecia nas suas linhas gerais, era verdadeiramente singular.
       Richard Stillman provinha de uma velha famlia de Massachusetts que dera vrias geraes de advogados aoforo de Boston. Mas apesar dessa tradio forense, 
Stillmanrevelou desde muito novo uma grande vocao para amedicina, e aos dezoito anos conseguiu finalmente a licenapaterna para comear os estudos na Universidade 
de Harvard.
       Durante dois anos seguiu ali o curso mdico. Mas,nessa altura, o pai morreu de repente, deixando a me ea irm de Richard em situao precria. O av paterno, 
o velho John Stillman, que ficou coma famlia a seu cargo, insistiu para que o neto trocasse amedicina pelo direito para seguir a tradio. O velho erainflexvel 
e no houve argumentos que o convencessem.
       Richard viu-se forado a tirar no o diploma de mdico,que tanto ambicionava, mas o de bacharel em Direito,depois de alguns anos de um curso que fora para 
ele umaestopada. Afinal, em 1906, foi para o escritrio dos Stillmane durante quatro anos dedicou-se a advocacia.
       No era, no entanto, naquele trabalho que estava asua alma. Continuava a fascin-lo a bacteriologia, principalmente a microbiologia  a sua paixo desde 
os primeiros tempos de estudante. No sto da casa montou umPequenino laboratrio, fez do seu auxiliar de escritrio umassistente e em todas as horas vagas entregava-se 
 suavocao. Aquele sto, foi, na verdade, o comeo do Instituto Stillman. Richard no era amador. Pelo contrrio,no s revelou extraordinria habilidade tcnica 
como tambm uma originalidade que tocava quase as raias do gnio.
       E quando, no Inverno de 1908, morreu de tuberculose galopantesua irm Mary, a quem queria do fundo do corao, todas as suas foras se concentraram na luta 
contra essadoena. Tomou como ponto de partida os trabalhos dePierre Louis e do seu discpulo americano James Jackson.
       A obra de Laennec sobre auscultao levou-o ao estudoda fisiologia dos pulmes. Inventou um novo tipo de estetoscpio e, mesmo com os elementos modestos 
de quepodia dispor, deu incio s primeiras tentativas para produzir um soro.
       Quando o av morreu, em 1910, Richard j havia conseguidocurar a tuberculose em cobaias. Foi imediato o resultado desse duplo acontecimento. A me de Stillmanvira 
sempre com simpatia a vocao cientfica do filho.
       No lhe foi difcil desfazer-se do escritrio de Boston e,com o que herdara do velho, comprar uma granja pertode Portland, no estado de Orgo, para se 
devotar ali aoverdadeiro sentido da sua vida.
       J que perdera tantos anos, no se dignou trabalharpara obter o diploma de mdico. S tinha de ir para afrente, de obter resultados. No demorou a produzir 
umsoro extrado de cavalos e uma vacina bovina com a qualimunizou todo um rebanho de gado Jersey. Ao mesmotempo ia aplicando ao tratamento dos pulmes atacadoso 
mtodo de imobilizao, segundo as observaes fundamentais de Helmholtz e Williard Gibbs, de Yale, e de pesquisadores mais recentes como Bisaillon e Zinks. Da 
pordiante lanou-se resolutamente na teraputica.
       Os mtodos de cura do novo Instituto deram logo famaa Stillman, conquistando maiores triunfos do que as suasvitrias de laboratrio. Muitos dos seus doentes 
j haviampassado por uma srie de sanatrios e eram consideradoscomo casos incurveis. Richard curou-os. E obteve comisso a hostilidade, o desprezo, a condenao 
da classemdica.
       Comeou ento para ele o combate maior e mais prolongado. Era a luta para que se aceitasse e se respeitasseo seu trabalho. Gastou tudo o que tinha na instalaodo 
Instituto e defrontou as despesas pesadssimas da suamanuteno. Tinha horror  publicidade e resistiu a todasas tentativas para comercializar a sua obra. Por 
vezespareceu iminente o naufrgio, tal a soma das dificuldadesmateriais e das oposies violentas. Mas, com extraordinria coragem, Stillman venceu todas as crises 
e at mesmo uma grande campanha de imprensa desencadeadacontra ele.
       Passada a poca da difamao, amainou tambm a tempestade das controvrsias. Pouco a pouco, embora de m vontade, os adversrios foram reconhecendo o seu 
valor. Em 1925, uma comisso de Washington visitou o Institutoe fez um relatrio entusistico dos mtodos ali empregados.
        A consagrao chegou finalmente. Afluram grandes doaes e auxlios de filantropos, de empresas e mesmo dos poderes pblicos. Esses recursos destinou-os 
Stillman a desenvolver e aperfeioar o Instituto, que se tornou coma sua incomparvel situao e o seu esplndido apetrechamento, com os seus rebanhos de gado 
Jersey e os seuscavalos de puro sangue irlands fornecedores de soro, umadas maravilhas do estado de Orgo.
        evidente que Stillman ainda conservava inimigos.
       Em 1929, por exemplo, as crticas de um assistente demitidosuscitaram novo escndalo. Mas, apesar de tudo, conseguira um ambiente de garantia e segurana 
para continuar os seus trabalhos. O triunfo no lhe modificou apersonalidade. Era ainda o mesmo homem tranquilo esbrio que vinte e cinco anos antes montara um 
pequeninolaboratrio nas guas-furtadas de sua casa.
       E agora, sentado no salo de jantar do Brooks Hotel,olhava para Andrew com serena simpatia.
       -  muito agradvel - disse ele - estar na Inglaterra. Gosto do seu pas. O nosso Vero, l na Amrica, no to fresco como o daqui.
       - Naturalmente veio fazer uma srie de conferncias,no  verdade? - perguntou Andrew.
       Stillman sorriu.
       - No! J no fao conferncias. Sem falsa modstia,posso dizer que os meus clientes, quando deixam o Instituto, se encarregam de  fazer as conferncias 
em meulugar. Para lhe falar francamente, estou aqui por motivosparticulares. O caso  este: o seu compatriota Sr. Cranston,o Herbert Cranston que fabrica esses 
automveis magnficos, procurou-me nos Estados Unidos h coisa de um ano. O homem levou a vida inteira a sofrer de asma e eu... isto , o Instituto conseguiu cur-lo. 
Desde ento ele teminsistido comigo para que eu monte aqui uma pequenaclnica segundo o modelo do nosso sanatrio de Portland. Dei o meu acordo h uns seis meses. 
Os planos j foramelaborados e a clnica j est quase pronta. Vamos cham-la Bellevue. Fica l para os lados de Chilterns, pertode High Wycombe. Vou inaugur-la 
e entregarei depois asua direco a um dos meus assistentes, o Marland. Aquipara ns, considero o caso uma experincia, uma experincia muito promissora dos meus 
mtodos, do ponto de vistaclimtico e racial. O aspecto financeiro no tem a menorimportncia.
       Andrew inclinou-se para a frente.
       - Isso interessa-me muito. De que se vai principalmente ocupar? Gostaria de visitar o estabelecimento.
       - Venha visitar-nos quando estiver pronto. Vamos empregar ali o nosso sistema para a cura da asma. Cranstonempenha-se nisso. Na clnica tratar-se-o tambm, 
comoinsisti em especificar, alguns casos de tuberculose incipiente. Digo  alguns  porque - sorriu - bem sei que nopasso de um homem que apenas conhece qualquer 
coisado aparelho respiratrio. Mas a verdade  que na Amricao que mais nos desorienta  a quantidade enorme de pessoasque quer ir para o sanatrio... Que estava 
eu a dizer? ah, os casos de tuberculose incipiente... Uma coisa interessantepara si: tenho um novo processo de pneumotrax.  de facto um processo cientfico.
       - Refere-se ao mtodo Kmile-Well?
       - No, no. Muito melhor. Sem as desvantagens das flutuaes negativas. - A fisionomia de Stillman iluminou-se. - O senhorconhece a dificuldade que apresenta 
o aparelho fixo; aquele ponto em que a presso intrapleural equilibra apresso do fluido e o fluxo do gs cessa por completo. Pois bem, inventmos no Instituto 
uma cmara de pressoacessria, na qual podemos introduzir o gs numa pressonegativa determinada logo no comeo. Mostrar-lhe-ei issoquando visitar a clnica.
       - Mas no h o risco da embolia? - perguntou Andrew depressa.
       - Afastmos completamente esse perigo. S vendo! uma coisa interessante e simples. Introduzindo um manometro de bromofrmio perto da agulha, evitamos a 
rarefaco. Uma flutuao de catorze centmetros s produz um centmetro cbico de gs na ponta da agulha. Alm disso, a nossa agulha tem um ajustamento qudruplo. 
 assim um pouco melhor do que a de Sangman.
       Mau grado seu, mesmo na posio de mdico efectivodo Hospital Vitria, Andrew ficou impressionado.
       - Bem, se de facto  assim, o senhor elimina quase por completo o choque pleural. Com franqueza, Sr. Stillman,at me causa espanto que tudo isso se deva 
ao senhor. Desculpe-me, eu no me exprimi bem, mas compreende naturalmente o que quero dizer. So tantos os mdicos diplomados que continuam a usar os aparelhos 
antigos...
       - Meu caro doutor - respondeu Stillman com um sorriso cordial - no se esquea de que o primeiro homemque teve a ideia do pneumotrax foi Carson, um simples 
amador de fisiologia, sem nenhum diploma. Seguidamente entraram na discusso de aspectos tcnicos. Discutiram apiclise e frenicotomia. Conversaramsobre os quatro 
pontos de Brauer, passaram ao oleotraxe aos estudos de Bernon em Frana  injeces macias interpleurais no enfisema tuberculoso. A conversa parouquando Stillman 
viu as horas e notou, com uma exclamao, que j estava com meia hora de atraso para umencontro marcado com Cranston.
       Andrew deixou o Brooks Hotel cheio de estmulo e de entusiasmo. Mas logo a seguir, numa estranha reaco,sentiu-se confuso, insatisfeito com o seu prprio 
trabalhoOra, isto  impresso. Deixei-me levar por este sujeito,disse para si prprio, aborrecido.
       No foi, portanto, em muito boa disposio de espritoque regressou a casa. Todavia, ao cruzar a porta, procuroufixar uma expresso que no revelasse o 
seu estado denimo. As suas relaes com Christine exigiam agora essasprecaues. Ela mostrava-se to submissa e insignificanteque, embora intimamente furioso, 
Andrew sentia a necessidade de aparentar um estado de esprito idntico.
       Parecia-lhe que ela entrara em si prpria, vivendo umavida interior onde ele no podia penetrar. Christine liamuito, escrevia muitas cartas. Por mais de 
uma vez deucom ela a brincar com Florie jogos infantis, cartescom cromos coloridos. Comeou tambm a frequentar aigreja, discreta, mas regularmente, e isso, 
sobretudo, exasperava-o.
       Em Blaenelly ia todos os domingos  igreja, na companhia da Sr.a Watkins e ele nunca encontrara motivopara protestar. Mas agora, de m vontade e afastado 
dela,considerava o caso como um ataque que ela lhe dirigia,como uma pirraa, com o fim de o fazer sofrer.
       Naquela tarde, quando ele entrou na sala da frente, Christine estava ali sentada sozinha, com os cotovelosfincados na mesa, com os culos que comprara recentemente,a 
ler um livro. Sentiu-se subitamente irritado peloabandono a que ela aparentemente o votava. Olhando porcima dos seus ombros, conseguiu descobrir o ttulo do livro, 
antes que Christine tentasse escond-lo. E leu noalto da pgina: O Evangelho de S. Lucas.
       - Meu Deus! - ficou  perturbado, quase furioso. - Jchegaste a este ponto? J andas metida com a Bblia?
       - Que tem isso? Antes de te conhecer eu j lia a Bblia.
       - Ah! Lias, no?
       - Lia, sim - uma expresso de sofrimento estampou-senos olhos dela. - Naturalmente os teus amigos do Plazano gostam disso. Mas, pelo menos,  uma boa literatura.
       - Pois olha! Se ainda no sabes  bom que te avise: Ests a ficar uma neurastnica insuportvel.
       - Talvez, e o pior  que  esse o meu desejo. Mas deixa-me dizer-te. Antes ser uma neurastnica insuportvel econtinuar espiritualmente viva do que ser um 
insuportvelmdico da moda, espiritualmente morto!
       Ela parou de repente, mordendo os lbios, contendo as lgrimas. Foi com grande esforo que se dominou. FitandoAndrew firmemente, com olhos dolorosos, disse, 
afinal,numa voz apagada:
       - Andrew, no te parece que seria bom para ns queeu sasse uns tempos de casa? A Sr.a Vaughan escreveu-mepedindo-me que fosse passar com ela duas ou trs 
semanas. Ela est a veranear em Newquay. Vs algum inconvenientenisso?
       - Sim! Vai! com os diabos! Vai!
       Voltou-lhe as costas e saiu.

13
       A partida de Christine para Newquay foi um alvio,uma verdadeira emancipao para Andrew. Isto durantetrs dias, pois que no quarto j andava, um tanto 
inquieto,a perguntar a si mesmo com uma rstia de cime: Queestar ela a fazer agora? Sentir saudades? Quando pensar em voltar?
       Embora tentasse convencer-se de que era um homemlivre, sentia que lhe faltava alguma coisa, sensao igual que tivera, em Aberalaw, quando Christine fora 
a Bridlingtonpara que ele pudesse dedicar-se mais tranquilamenteao exame.
       Tinha diante dos olhos a imagem de Christine: no aimagem risonha e fresca da Christine dos primeiros tempos, mas de uma Christine mais plida, de feies 
maisamadurecidas, ar abatido, os olhos cansados por trs dosculos. No era uma imagem de beleza, mas tinha o poderde no lhe sair da cabea.
       Passava muito tempo fora de casa, ia jogar bridge noclube com Ivory, Freddie e Preedman. Apesar da reacoque experimentara depois do primeiro encontro 
com StilIman, via frequentemente o americano, agora muito activo,orientando os ltimos retoques do pequeno sanatrio. Escreveu a Denny pedindo-lhe que fosse visit-lo, 
mas Phillipno podia vir a Londres interrompendo o servio queapenas comeara. Hope era inacessvel em Cambridge.
       Procurou concentrar o esprito perturbado nas suas pesquisas clnicas no hospital. Mas foi debalde. Estava demasiadamente inquieto. Possudo da mesma intensidade 
nervosa foi conferenciar com o gerente do banco, parasaber como ia a sua conta. Muito satisfatria; tudo muitobem. Comeou a formar um projecto. Passaria a casa 
emChesborough Terrace, ficando apenas com o dispensrioao lado, e compraria uma nova em Welbeck Street. Teriade gastar muito dinheiro mas seria uma aplicao 
vantajosa. Poderia contar com o auxlio de uma empresa construtora. Naquelas noites de calor acordava de repente,a cabea recheada de planos, preocupado com a clnica,os 
nervos em crise, sentindo a falta de Christine com amo e procurando instintivamente a mesinha da cabeceirapara encontrar um cigarro.
       Num dia de estado de esprito mais desorientado telefonou a Frances Lawrence.
       - Estou sozinho actualmente. Gostaria de sair comigouma noite destas, para um passeio fora da cidade? Londresest to quente!...
       A voz dela era serena, de um estranho efeito sedativopara Andrew.
       -  uma esplndida ideia. Esperava que me telefonasseum dia destes. J foi a Crossways?  uma construo desabor isabelino, um pouco prejudicada pelo excesso 
deiluminao. Mas o rio ali  um encanto.
       Na noite seguinte Andrew despachou os clientes do dispensrio em menos de uma hora. Antes das oito encontrou-se com Frances em Knightbridge e o carro seguiupela 
estrada de Chertsey.
       Ainda se notavam os ltimos reflexos do crepsculono longo dia de Vero. Frances ia sentada ao lado dele,falando pouco mas enchendo todo o carro com a sua 
encantadora presena. Levava um saia-e-casaco de fazendamuito leve, com um chapelinho escuro na cabea pequena.
       Andrew sentia de modo intenso toda a graa da mulher,toda a sua perfeita distino. A mo nua, perto dele,era bem a materializao do seu requinte branca, 
esguia. Na ponta de cada dedo comprido, a unha pintada.
       Como dissera Frances, Crossways era uma deliciosacasa da poca isabelina, situada entre lindos jardins debruados sobre o Tamisa. E era pena que as adaptaess 
necessidades modernas e um infame jazz-band estragassemo efeito romntico das prgulas antigas e dos pequeninoslagos onde brotavam nenfares. E, embora umlacaio 
tivesse vindo abrir a porta do carro quando entraram no ptio do edifcio, j quase todo ocupado por automveis de luxo, permanecia o encanto dos velhostijolos 
cobertos de hera e das altas chamins poligonaisdestacando-se serenamente no cu.
       Entraram no restaurante. Sala cheia, assistncia elegantssima. As mesas estavam colocadas de modo a deixarno centro um espao vazio, um quadrado de soalho 
polido.
       O maitre dhotel tinha o mesmo aspecto, parecia irmodo gro-vizir do Plaza. Andrew odiava e temia maitresdhotel. Mas isso descobria agora era porque 
nunca osdefrontara na companhia de uma mulher como Frances.Bastou um simples olhar para serem logo levados, comtodas as provas de considerao, para a melhor 
mesa dasala; viram-se cercados no mesmo instante por um grupode criados atenciosssimos, um dos quais desdobrou oguardanapo de Andrew, colocando-o com religioso 
respeitosobre os seus joelhos.
       Frances pediu pouca coisa: salada, um assado. Nadade vinho; apenas gua gelada. Imperturbvel, o maitredhotel parecia ver nessa frugalidade uma prova de 
distino,e Andrew pensou, com sbito azedume, que se tivesseentrado com Christine em tal santurio e encomendasserefeio to modesta seria naturalmente atirado 
pela portafora, com o maior desprezo...
       Um sorriso de Frances veio expurg-lo dessas ideias.
       - Sabe que j nos conhecemos h muito tempo e esta a primeira vez que me convida para sair em sua companhia?
       - Isso desagrada-lhe?
       - No, creio que no.
       Andrew deliciava-se de novo com o tom encantador de intimidade que Frances assumia, com o seu leve sorriso. Isso fazia-o sentir-se mais espirituoso, mais 
 vontade,como se pertencesse a uma classe superior. No era simples pretenso ou tolo snobismo. A distino dela era topessoal e envolvente que o atingia, o 
contagiava. Deu pelointeresse com que os ocupantes das outras mesas os observavam,a admirao masculina de que Frances era objectoe que ela parecia superiormente 
ignorar. Andrew no pdedeixar de sorrir  ideia de uma ligao mais ntima.
       - O senhor ficar talvez muito lisonjeado quando lhedisser que quebrei por sua causa um outro compromissopara ir ao teatro. Lembra-se de Nicol Watson? Ele 
convidou-me para ir a um espectculo de bailados. No riados meus gostos infantis... Era o Massin em La BoutiqueFantastique.Recordo-me do Watson e da sua viagem 
ao Paraguai. Pessoa inteligente.  distintssmo.
       - Mas... porque no foi? Teve medo que o teatro estivesse muito aquecido?
       Ela sem responder, sorriu apenas. Tirou um cigarro deuma caixa de esmalte em cuja tampa, de cores discretas,havia uma linda miniatura de Boucher.
       -  verdade... Ouvi dizer que Watson lhe fazia a corte. E... - continuou Andrew, com repentina veemncia: - quepensa seu marido a esse respeito?
       Ela tambm dessa vez no respondeu. Levantou apenas,de leve, a sobrancelha, como a marcar levemente certafalta de compreenso. Mas, depois de um momento, 
disse:
       - Ento ainda no compreendeu? Jackie e eu somosptimos amigos. Mas cada qual escolhe as suas prpriasamizades. Ele est agora em Juan ls Pins e no meinteressa 
saber por que motivo. - E num tom ligeiro. - Vamos danar?
       Danaram. Ela movia-se com uma graa extraordinria, fascinante. Era leve, quase area, nos braos de Andrew.
       - No dano bem - disse Manson quando voltaram mesa. At o modo de falar j era o dela. Como estavalonge, bem longe, o  tempo em que resmungava: Quediabo, 
Chris! Eu no sei arrastar os ps pelo salo!.
       Frances no protestou, e nisso ele viu mais um sinalda sua distino. Outra qualquer, para o lisonjear, teriarespondido que ele danava bem e Andrew sentir-se-iaainda 
mais desajeitado. De repente, num impulso de curiosidade,perguntou:
       - Explique-me uma coisa, por favor. Porque tem sidoto gentil comigo? Porque me tem ajudado tanto durantetodos estes meses?
       Ela encarou-o, achando-lhe graa, mas sem se mostrar admirada.
       - O senhor tem um extraordinrio encanto para asmulheres. E ainda  mais interessante porque no se dconta disso.
       - Ora... Como? Que ideia! - Andrew corou. - E, depois,sem -vontade: - Acho que tambm valho alguma coisacomo mdico.
       Frances riu, espalhando displicentemente com a mo ofumo do cigarro.
       - No fique irritado. Eu fiz mal, talvez, em explicar-lhe. De facto  um ptimo mdico. Ainda uma noite destasfalmos a seu respeito em casa de Joseph Le 
Roy. Eleanda um tanto aborrecido com o mdico dietista da nossaCompanhia. Coitado de Rumbold! Se soubesse o que LeRoy disse dele! Chama-lhe velho caduco. Precisa 
de seraposentado. E Jackie concorda. Querem para o lugar deleum mdico mais jovem, mais enrgico. Enfim, para usar aexpresso corrente, um homem mais moderno. 
Parece que eles querem lanar uma grande campanha na imprensa mdica. Querem realmente interessar a medicinanos produtos, no ponto de vista cientfico, como explicaLe 
Roy. Ora, Rumbold  um motivo de ironia entre oscolegas. Mas que ideia a minha de falar nesses assuntos! Uma noite to agradvel fica estragada. E, por favor, nofranza 
a testa como se pretendesse assassinar-me, ou aocriado, ou ao dirigente do jazz. Bem, este pode matar... No  de facto muito antiptico? Sabe que est agora como 
ar sisudo com que apareceu na Laurier? Todo empertigado, cheio da sua pessoa, to nervoso! Estava at umpouco ridculo. E quando me lembro do que fez com apobre 
da Toppy! Pela sequncia natural destas coisas, ela que devia estar aqui.
       - Pois eu prefiro que no seja ela - disse Andrew sem levantar a vista. 
       - No me considere uma criatura banal, por favor no admitiria que o fizesse. Creio que somos duas pessoas inteligentes... E  claro! Eu, pelo menos, no 
acredito emgrandes paixes. Fraseados romnticos no so comigo.Mas acho que a vida  muito mais agradvel quando setem um bom amigo para nos distrair um pouco. 
- Os olhosiluminaram-se, numa expresso risonha. - Parece que mesinto possuda pelo estilo de mulher  Rossetti... E isso uma tristeza! - Agarrou na cigarreira. 
- Aqui est toabafado! Vamos embora! Quero que o senhor veja o luar no rio.
       Andrew pagou a conta e saiu pela grande porta envidraada que, com vandalismo, haviam aberto na parede. Movia-se em surdina no terrao a msica da orquestra.
        Foram andando por uma alameda de belas rvores ladeadas que levava ao rio. A alameda era sombria, maso luar punha plidos desenhos na copa das rvores. 
MaisBem, o rio era um lenol prateado.
        Passearam pela margem, sentaram-se num banco. Elatirou o chapu e ficou contemplando em silncio as guaslnguidas que se arrastavam. O seu eterno murmrio 
foiperturbado, de modo estranho, pelo rumor surdo de umpossante automvel que passava ao longe a toda a velocidade.
       - Que msica estranha a da noite! - desabafou Frances. - O velho e o novo. Faris de automveis em contrastecom o luar.  assim o nosso tempo.
       Andrew beijou-a. Ela submeteu-se ao beijo, sem outras expanses. Os lbios eram clidos e secos. Foi s passado um momento, que ela disse :
       - Muito agradvel o seu beijo. Porm muito mal dado.
       - Posso beijar melhor - murmurou Andrew, imvel.
       Atordoado, sentia-se tacanho, sem convico, acanhado, nervoso. Irritado consigo mesmo, procurou convencer-seque era maravilhoso estar ali, numa noite to 
linda,com uma mulher to graciosa e encantadora. Segundo asconvenes do luar e das novelas de cordel, devia estreit-la loucamente nos braos. Mas, em vez disso, 
sentia-se semjeito, parado, com vontade  de fumar, e o vinagre dasalada azedara-lhe o estmago.
       Sem saber como, viu reflectido na gua do rio o rostode Christine, um rosto abatido, um pouco aflito, com umadas faces manchada com a tinta com que pintara 
as portasda casa quando da sua instalao em Chesborough Terrace. Essa viso aborreceu-o e exasperou-o. Se estava ali eraporque as circunstncias o haviam arrastado. 
E que diabo! Afinal de contas era um homem e no um cliente parao Voronoff! Num ntimo desafio, beijou Frances de novo.
       - Pensei que talvez fosse preciso um ano para o doutorse decidir - e nos olhos dela brilhava a mesma chamaafectuosa e divertida. - E agora acho que nos 
devemos irembora. Noites como estas so muito perigosas para a almade um puritano.
       Andrew estendeu a mo para ajudar Frances a levantar-se.
       Ela conservou-a presa nas suas, apertando-a levemente quando se dirigiam para o automvel. Andrew deuum xelim de gorjeta ao vigilante fardado e ps o carroem 
movimento. Ao voltarem para Londres, o silncio deFrances tinha a eloquncia da felicidade.
       Andrew, entretanto, no se sentia contente. Considerava-se um idiota, um cozinho de luxo. Indignado consigoprprio, em luta com os prprios sentimentos, 
repugnava-lhe voltar para o seu quarto abafado, para a sua camasolitria, onde no encontraria repouso. O corao estavafrio. Mil ideias lhe povoavam a cabea. 
A memria desenrolou perante os seus olhos, com doura aflitiva, a lembranado seu primeiro amor por Christine, o xtase palpitante daqueles dias de Blaenelly, 
e foi com esforo iradoque afastou do seu esprito essas imagens.
       Em frente da casa de Frances, Andrew ainda estava irresoluto. Saiu do carro e abriu a porta, para que elasasse. Ficaram juntos na rua, enquanto Frances 
abria abolsa e tirava a chave.
       - No quer entrar? Os criados j devem estar a dormir.
       Hesitante, Andrew gaguejou:
       -  muito tarde... No lhe parece?
       Ela pareceu no o ouvir. Subiu os degraus exteriorescom a chave na mo. Quando Andrew a acompanhou, tevea impresso de ver a sombra de Christine, de volta 
domercado, com o seu velho saco das compras.

14
       Trs dias mais tarde, no consultrio da Welbeck Street, fazia muito calor e vinha da rua, pela janela aberta, orumor enervante do trnsito. Andrew estava 
cansado, sobrecarregadode trabalho, apreensivo com a volta de Christine,que devia chegar no fim da semana. Estava  esperade um telefonema, mas ficava nervoso 
quando ouvia acampainha. Tinha de desdobrar-se para atender em menosde uma hora seis clientes... e clientes de trs guinus!, etinha ainda de ir apressadamente 
ao dispensrio antes dese encontrar com Frances para jantarem fora. Foi comimpacincia que viu entrar a enfermeira Sharp com umar ainda mais azedo do que de costume.
       - Est l fora um homem que quer falar consigo. O aspecto  horrvel. No  cliente e diz que tambm no viajante. No tem ao menos um carto de visita. 
Chama-se Boland.
       - Boland? - repetiu Andrew, distrado. - De repente a fisionomia iluminou-se-lhe. - No ser Con Boland? Mande-o entrar, enfermeira. Imediatamente.
       - Mas h um cliente  sua espera. E dentro de dezminutos, a Sr.a Roberts...
       - No se incomode com a Sr.a Roberts - ordenou Andrew irritado. - Faa o que lhe digo.
       A enfermeira corou ao ouvir as suas palavras. Estevequase para dizer que no estava habituada a que lhefalassem naquele tom. Fungou e saiu de cabea erguida.
       Logo depois, voltava com Boland.
       - Ora viva, Con! - disse Andrew levantando-se de umpulo.
      - Ol, ol! - berrou Con, avanando para o amigo,com um largo sorriso cordial que lhe escancarava a boca.
       Era o mesmo dentista de cabelos ruivos. No se notava amenor diferena. To autntico e desalinhado no seu fatoazul, lustroso e largussimo e nos seus sapates 
castanhos,como se tivesse sado naquele momento do barraco demadeira a que chamava garage. Um pouco mais velho,talvez, mas sempre  exuberante,  com  o  mesmo 
excessoagressivo nos gestos e no bigode espetado, cabeludssimo, ainda indomvel. Bateu fortemente nas costas de Andrew.
       - Cos diabos, Manson! Que alegro v-lo de novo. Est estupendo, estupendssimo. Eu t-lo-ia conhecido nomeio da multido. Bravo! Sim, senhor! Gosto de 
ver istoaqui!  um consultrio de primeira ordem. - Voltou osolhos radiantes de simpatia para a azeda Sharp, que ficara espera, com ar desdenhoso. - Esta sua 
amvel enfermeirano queria que eu entrasse. S consentiu quandolhe disse que tambm sou formado. E  verdade. Juro porDeus, enfermeira! Eu e este amigo que  
seu patro jtrabalhmos como bestas de carga na mesma organizaomdica. Foi h muito tempo. L em Aberalaw. Se forpara aqueles lados, passe l por casa, que 
eu e a patroa teremos muito gosto em oferecer-lhe um chzinho. A casaest sempre aberta para quem  amigo do meu amigoManson!
       A enfermeira Sharp atirou-lhe um olhar enviesado esaiu da sala. Mas isso nenhum efeito causou sobre Con,que fervia numa alegria simples e natural. E agitando-sediante 
de Andrew:
       - No  grande formosura, hem, meu filho! Mas pareceuma mulher direita, isso sou capaz de apostar. E ento,ento? Como vo as coisas? Como passam vocs?
       No largava a mo de Andrew; balanava-a para cimae para baixo, nas mais alegres expanses.
       A presena inesperada de Con era um rico estimulantepara um dia de tanta depresso. Quando conseguiu libertar a mo daqueles apertos e balanos cordiais, 
Andrewdeixou-se cair na cadeira giratria, sentindo-se humanooutra vez. Ofereceu cigarros ao amigo e, com um polegarenfiado na cava do colete e o outro apertando 
a pontahmida do cigarro que acabara de acender, Boland comeou a explicar a razo da sua visita.
       - Eu tinha direito a umas frias, meu velho, e, comotinha tambm alguns assuntos a tratar, a patroa achouque eu devia enfiar a trouxa e vir at aqui. Estou 
metidonuma inveno e pras.  uma mola para apertar travesde automvel. Estou a fazer um consumo tremendo demassa cinzenta nessa inveno. Mas  s nas horas 
vagas. Um inferno! No tenho quem me ajude no consultrio. Mas no faz mal. A coisa tem de ir. Alis no  toimportante como o que c me trouxe.
       Con deixou cair no tapete a cinza do cigarro e tomouum ar mais srio.
       - Escute, Manson, meu filho!  a Mary! Naturalmente lembra-se da Mary; eu garanto-lhe que ela tambm selembra de si. No tem andado bem ultimamente. Nemparece 
a mesma. Resolvemos lev-la ao Llewellyn e eleno a conseguiu fazer melhorar. - Con indignou-se de repente. A voz tornou-se-lhe rude...  - Com os diabos, Manson! 
Meteu-se-lhe na cabea que a Mary est com umcomeo de tuberculose... Como se uma coisa dessas fossepossvel na famlia Boland desde que o Dan, o tio dela,foi 
para um sanatrio, h quinze anos. Oua, Manson: quer fazer alguma coisa por este seu velho amigo? Sabemosque o senhor agora  um grande homem. Em Aberalaw no 
se fala noutra coisa. Quer examinar Mary? Noimagina a confiana que ela tem em si. E todos ns. Eue minha mulher j trocmos muitas impresses a esterespeito. 
Ela at me disse: Quando puderes vai procuraro Dr. Manson. E se ele quiser ver a menina mand-la-emosaonde ele achar conveniente. E agora, que me diz, Manson? 
Se est demasiadamente ocupado para isso,  sfalar com franqueza. E pronto! J c no est quem falou.
       Andrew foi ficando com ar preocupado.
       - No diga isso, Con. O senhor no compreende oprazer que tenho em v-lo? E Mary... Pobrezinha! Devecalcular que farei por ela tudo, tudo. 
       Sem ligar aos significativos gestos da enfermeira Sharp, gastou o seu precioso tempo a conversar com Boland. Afinal, a enfermeira no resistiu mais.
       - H cinco clientes  espera, Dr. Manson, e j estcom mais de sessenta minutos de atraso sobre as horasmarcadas para as consultas. No sei que desculpas 
hei-dedar, e no estou acostumada a tratar os clientes dessamaneira.
       Apesar destas palavras Andrew no se despediu deCon imediatamente. Acompanhou-o at  porta da rua,caprichando em mostrar-se hospitaleiro.
       - No consinto que volte para a sua casa, Con. Quanto tempo vai ficar ainda por c? Trs ou quatro dias? ptimo! Onde est hospedado? No Westland?  muito 
forade mo! Porque no vem para minha casa? Que diabo,somos ntimos! E tenho uma poro de quartos desocupados. Christine regressa na sexta-feira e ficar encantadapor 
v-lo, Con, encantada. Poderemos conversar como nosvelhos tempos.
       No dia seguinte Con trouxe a mala para Chesborough Terrace.  noite, terminado o servio do dispensrio, osdois amigos foram  segunda sesso de um teatro 
devariedades. Era espantoso como tudo parecia agradvelna companhia de Boland. A gargalhada fcil do dentistacausava um certo espanto no primeiro momento, mas 
logodepois contagiava quem estava perto. Havia pessoas quese voltavam para Con, sorrindo-lhe com simpatia.
       - Repare, meu velho! - Con estorcia-se na cadeira. - Veja aquele tipo com a bicicleta. Lembra-se do seu tempo,Manson?
       No intervalo foram ao bar. Chapu atirado para anuca, a espuma de cerveja a escorrer-lhe pelo bigode, ossapates castanhos firmes no varo metlico do balco,Con 
expandiu-se:
       - Manson: nem avalia como isto me diverte. O senhor realmente a bondade personificada!
       Era to viva e natural a gratido reflectida no rostode Con que Andrew se sentiu um hipcrita acabado.
        sada do teatro comeram bife com batatas e beberam cerveja num restaurante das proximidades. Em casa acenderam o fogo da sala da frente e puseram-se a 
palestrar. Conversavam, fumavam e esvaziavam garrafas de cerveja.
       Andrew esqueceu-se por um momento das complicaes dasua existncia supercivilizada. A exaustiva tenso da clnica, as perspectivas de trabalhar para L 
Roy, a possibilidade de ser promovido no Hospital, a situao da suaconta bancria, a formosura e a pele macia de FrancesLawrence, o medo dos olhos acusadores 
de Christinetudo isso se esbateu no seu esprito enquanto Con seexpandia.
       - Manson, lembra-se do tempo do nosso combate como Llewellyn? E o Urquhart e os restantes do grupo a desertarem no momento do sarilho... A propsito, o 
Urquhartmanda-lhe recomendaes.  ainda o mesmo homem. Maslembra-se de  que  quando  ficmos sozinhos  bebemos oresto da cerveja?
       Chegou o dia seguinte e veio inexoravelmente o momento em que Andrew devia enfrentar Christine. compreendendo, irritado, como era falsa a sua aparente tranquilidade, 
Manson arrastou at  estao o simples Con,considerando-o uma tbua de salvao.
       Quando o comboio chegou, o corao de Andrew batia acelerado, numa expectativa tumultuosa. Que momentode aflio e remorso quando viu o rosto delgado e toconhecido 
de Christine avanando entre a multido dospassageiros, a procur-lo ansiosamente! Mas depois esqueceutudo na nsia de demonstrar uma cordialidade despreocupada.
       - Ol, Chris! Pensei que no mais voltasses! Repara quem est comigo!  o Boland em carne e osso!  aindao mesmo do nosso tempo. Este amigo no envelhece. 
Esthospedado l em casa, Chris... Contar-te-ei tudo no automvel.
       - Est l fora. Ento divertiste-te muito?
       Surpreendida pela recepo imprevista  pois receavaat que ele no a fosse esperar  estao  Christine perdeuo ar abatido e, numa alegria nervosa, as suas 
facescoraram. Ela tambm andara apreensiva, metida em simesma, ansiosa por uma vida nova. Sentia-se agora cheiade esperana. Encolhida no banco traseiro, na companhiade 
Con, falava animadamente, dirigindo olhares furtivospara Andrew, que ia na frente conduzindo o carro.
       - Como  bom voltar para casa! - deu um longo suspiroao transpor a porta da rua; e de repente, falandoansiosa: - Sentiste a minha falta, Andrew?
       - Parece-me que sim. Todos ns. Emily, venha c! Con! Que diabo est a fazer com a bagagem?
       Num momento estava na porta da rua ajudando Con,sem nenhuma necessidade, a trazer as malas. E ento,antes que se dissesse ou fizesse mais alguma coisa, 
desculpou-sedizendo ser a altura de ir atender os clientes.
       Insistiu para que o esperassem  hora do ch. E resmungou ao sentar-se no automvel: Ora graas a Deus! Isto j passou! Ela parece nadater melhorado com 
o passeio. Que inferno! Em todo ocaso, tenho a convico de que nada notou. E isso  oprincipal, por enquanto!
       Embora voltasse tarde, vinha exageradamente vivo e animado. Con mostrou-se encantado com to boa disposio.
       - Estou a gostar de o ver, meu filho. O senhor estainda mais animado do que nos velhos tempos.
       Mais de uma vez sentiu o olhar de Christine a procur-lo, ansioso por um sinal, por um gesto de entendimento.
       Percebeu que a doena de Mary a preocupava e at adistraa dos seus ntimos pensamentos. Num intervalo daconversa ela contou-lhe que fizera o Con telegrafar 
aMary, para que viesse quanto antes, no dia seguintemesmo, se possvel. Esperava que se fizesse tudo por ela,sem demora.
       Tudo correu melhor do que Andrew esperava. Mary telegrafou, comunicando que chegaria no dia seguinte,pela manh, e Christine estava ocupadssima nos preparativos 
para a receber. A agitao que reinava na casaservia at para disfarar a cordialidade forada de Manson.
       Mas quando Mary chegou Andrew voltou a ser, derepente, o antigo Andrew. Notava-se logo  primeira vistaque ela estava doente. Era agora uma rapariguinha 
devinte anos, alta e magra, com as espduas um pouco curvadas,com essa beleza de pele, quase sobrenatural, quelogo esclareceu Andrew. Estava muito fatigada da 
viagem. No prazer de v-losnovamente, no se queria ir deitar entretida com a conversa,mas acabou por convencer-se a ir para a cama logodepois do jantar. Foi 
ento que Andrew subiu para aobservar.
       Ficou l em cima uns quinze minutos. Quando desceu,para reunir-se a Con e Christine na sala de visitas, a suaexpresso estava dessa vez involuntariamente 
perturbada.
       - Receio que seja um caso positivo. O vrtice esquerdo. Llewellyn tinha razo, Con. Mas no se preocupe. Estainda no comeo. Podemos vencer a doena.
       - Quer  dizer... - murmurou  Con, profundamente apreensivo -  ...que pode haver cura?
       - Sim. Afirmo isso. Naturalmente,  preciso prestar-lhetoda a ateno, uma assistncia constante, o mximo cuidado. - Ficou a meditar com uma ruga profunda 
na testa. - Parece-me, Con, que Aberalaw  um pssimo lugar paraela.  sempre inconveniente conservar em casa um casoincipiente de tuberculose. Quer deixar-ma 
levar para oVitria? Tenho bastante influncia no Dr. Thoroughgood. Estou certo de que conseguirei instal-la na sua enfermaria. No perderei Mary de vista.
       - Manson! - foi impressionante a exclamao de Con. - Isso  uma prova de verdadeira amizade. Se soubesse aconfiana que o senhor inspira a essa criana! 
Se h ummdico que a pode curar s  possvel ser o senhor!
       Andrew telefonou imediatamente a Thoroughgood e comunicou-lhe que j no fim da semana Mary poderiaser levada para o hospital. Con alegrou-se visivelmente. 
O seu fcil optimismo reapareceu com a ideia do hospitalpara tuberculosos, da assistncia de Andrew e da superviso de Thoroughgood. J via Mary boa de todo, completamentecurada
. Os dois dias seguintes foram pesadssimos de ocupaes.
       Na tarde de sbado, quando Mary foi para o hospital eCon tomou o comboio de regresso, a tranquilidade deManson parecia garantida. Pelo menos no momento. 
Pdeagarrar no brao de Christine e dizer alegremente, ao dirigir-se ao dispensrio:
       - Que bom estarmos juntos de novo, Chris! Meu Deus! Que semana atarefada tivemos!
       Pareceu-lhe que falara num tom muito natural. Masfoi bom que no tivesse olhado para o rosto de Christine.
       Ela sentou-se na saleta, sozinha, a cabea levemente curvada, as mos no colo, parada. Estava to desanimadacomo no prprio momento em que chegara. Havia 
nelaum terrvel pressentimento: Deus do Cu! Quando, como que isso acabar?

15
       A vaga de sucesso de Andrew continuava a alastrar,era agora j uma onda irresistvel, que o envolvia e oarrastava na sua violncia estrondosa e borbulhante.
       As relaes com Hamson e Ivory eram cada vez maisntimas e mais rendosas. Alm disso, Fredman pediu-lheque o substitusse no Plaza enquanto ia passar uns 
diasem L Toucquet para jogar golf. Os honorrios,  claro,seriam divididos. Era Hamson quem o substitua habitualmente no lugar de Deedman, mas Andrew desconfiava 
queos dois andavam de candeias s avessas.
       Como era lisonjeiro para Manson descobrir que podiaentrar directamente na alcova de uma superdeslumbranteestrela de cinema, sentar-se sobre a colcha de 
cetim desua cama, apalpar com as suas mos calmas a sua anatomia insexuada e at mesmo, se havia tempo, fumar umcigarro na sua companhia!
       Mais lisonjeira ainda era a proteco de Joseph LeRoy. Naquele ms j almoara com ele duas vezes. Sabiaque ideias muito profundas estavam no crebro do 
homemda Nova Zelndia. No ltimo encontro, Le Roy dissera, apreparar o terreno:
       - Sabe, doutor? Estou a pensar no aproveitamento dosseus servios. O plano que tenho em mente  muito vastoe terei necessidade de boas opinies mdicas. 
No querosaber de jarres falsificados. O velho Rumbold no valeabsolutamente coisa alguma. Vamos p-lo no olho da ruasem mais contemplaes. Tambm no me interessa 
umgrupo de pretensos especialistas, a provocar trapalhadase a arrastar-me para festas e reunies. O que quero  umorientador mdico que saiba bem o que faz. Cheguei 
 concluso de que  o doutor que me convm. Note bem; comos nossos produtos a preos populares, j conquistamosuma grande parte do pblico. Mas julgo sinceramente 
quej  tempo de desenvolver os negcios e comear a fabricarprodutos mais cientficos. Temos de separar os componentesdo leite, electrific-los, fazer comprimidos. 
Cremo com vitamina B, Cremofax e Lactocin para a desnutrio,o raquitismo, a neurastenia, a insnia. O doutor compreende-me, no  verdade? E depois, se conseguirmostudo 
isso em bases clnicas mais ortodoxas, poderemoscaptar a colaborao e a simpatia de toda a classe mdica. Faramos de cada mdico um possvel vendedor, por assimdizer. 
Ora, doutor, isso exige naturalmente orientao epropaganda cientficas e  nesse ponto que creio que umclnico moderno nos poder ajudar muito. E quero tambm 
que pese bem as minhas palavras; tudo isso  negcioabsolutamente limpo e cientfico. Estamos a procurar agoraa elevao do nvel dos nossos produtos e se tomar 
em considerao os extractos ordinarssimos que os mdicos recomendam... Umas coisas lamentveis... Que diabo, procurando melhorar a qualidade dos nossos produtos, 
parece-me que estamos a contribuir para a prosperidade do pas.
       Andrew no se deteve a meditar que havia provavelmente mais vitaminas num grozinho de ervilha fresca doque em muitas latas de Cremofax. Mais do que o ordenadoque 
poderia ganhar como orientador clnico da empresa,entusiasmava-o o interesse que parecia inspirar a L Roy.
       Frances explicara-lhe como poderia tirar proveito das especulaes sensacionais do industrial. Ah! Como eraagradvel ir tomar ch em casa dela, sentir, num 
olharprovocante e num doce sorriso de intimidade, que aquelacriatura to refinada e atraente lhe dedicava uma atenoespecial! A convivncia com ela dava-lhe 
tambm maiordistino, confiana maior, polidez mais estudada. Ia adoptando, inconscientemente, a linha dela. Sob a sua influncia aprendia a cultivar os requintes 
superficiais e a nose interessar com os aspectos profundos da vida.
       J enfrentava Christine com o maior desembarao. 
       Podia entrar em casa com ar inteiramente natural logo depois de um encontro com Frances e nem mesmo sedetinha para notar aquela transformao assombrosa. 
Sepensava nisso, por acaso, era para garantir a si mesmoque no amava a Sr.a Lawrence, que Christine de nadasabia, que todo o homem tem de passar por isso, maiscedo 
ou mais tarde. Porque havia de ser diferente dosoutros?
       Para de alguma maneira a compensar, dava-se ao trabalho de mostrar-se amvel com Christine, dirigindo-se-lhegentilmente e at mesmo discutindo com ela os 
seus projectos.
       Foi assim que ela ficou a saber que Andrew estavacom ideia de comprar a casa de Welbeck Street e que teriade abandonar Chesborough Terrace se o assunto 
fosse levado a bom termo. Christine agora j no discutia com omarido, no o censurava, e se tinha aborrecimentos nuncaos demonstrava. Parecia completamente conformada 
e avida de Andrew decorria agora com ritmo to apressado que no lhe dava tempo para reflexes. A correria estimulava-o. Tinha uma falsa sensao de energia. Via-se 
forte,cada vez mais importante, no domnio de si mesmo e doprprio destino.
       E de repente a tormenta desencadeou-se no seu cusem nuvens.
       Na noite de 5 de Novembro procurou-o no consultrio de Chesborough Terrace a mulher de um modesto comerciante da vizinhana. 
       Era a Sr.a Vidler, uma mulherzinha de meia-idade, masde olhos vivos e espertos; uma dessas londrinas que nuncasaem do bairro onde vivem. Andrew conhecia 
o casal. Logo que veio para Chesborough Terrace foi chamado paratratar do filhinho dos Vidler. Alm disso, naquele tempoo mdico ainda precisava de mandar pr 
meias solas nossapatos. Ora, os Vidler possuam uma pequena loja de duasentradas na esquina da Paddington Street. Num lado consertava-se calado; no outro estava 
instalada uma tinturaria.
        E, embora a loja tivesse o nome pomposo de Consertos em Geral, Lda., podia ver-se ali o Harry Vidler atrabalhar sem colarinho e em mangas de camisa. Era 
umhomem robusto, mas plido, que ficava a bater sola oumesmo a passar fatos a ferro se os seus dois ajudantes nodavam conta do trabalho na outra seco.
       Era dele que falava agora a Sr.a Vidler:
       - Doutor - disse no seu modo alvoroado, - meu maridono anda bem. H algumas semanas que est doente. J fiz tudo o que era possvel para o trazer aqui, 
mas eleno quer vir. O doutor podia ir v-lo amanh? Eu obrig-lo-ei a ficar na cama.
       Andrew prometeu ir.
       No dia seguinte encontrou o sapateiro deitado. Queixava-se de dores internas e de uma crescente obesidade. Nosltimos meses a barriga aumentara de uma forma 
extraordinria. 
       Como geralmente acontece com muitos doentesque anteriormente gozaram de boa sade, dava vrias explicaes para a sua doena. Atribua-a ao abuso da cervejaou 
talvez  vida sedentria.
       Depois de o examinar Andrew viu-se obrigado a refutar aquelas opinies. Convenceu-se de que se tratava de umquisto. Embora no fosse um caso perigoso, exigia 
operao.
       Manson fez o que pde para tranquilizar Harry e amulher. Explicou-lhe toda a evoluo de um simples quistoe como pode causar toda uma srie de incmodos, 
que sterminam com a extirpao. No tinha a menor dvidaquanto ao xito da operao e aconselhou Vidler a entrarimediatamente num hospital.
       Mas a Sr.a Vidler nessa altura levantou as mos parao cu.
       - No, doutor! No quero que o meu Harry v paraum hospital! - Procurava dominar a prpria agitao. - Eu j previa que podia acontecer uma coisa dessas... 
Eletem trabalhado demasiadamente na loja! Mas, graas aDeus, temos recursos para enfrentar a situao. No somos ricos, o doutor bem sabe, mas felizmente temos 
algumas economias. Chegou a hora de as aplicar. No deixareique o Harry v para uma santa casa, como um indigente.
       - Mas, Sr.a Vidler, eu posso arranjar...
       - No! O doutor pode lev-lo para uma casa de sade. H muitas aqui nas proximidades. E tambm pode escolherum cirurgio de sua confiana para o operar. 
Pode ter acerteza, doutor, que enquanto eu estiver aqui nenhumasanta casa h-de albergar Harry Vidler.
       Andrew compreendeu que a deciso da mulher era inabalvel.
       Quando se compenetrou da necessidade de seroperado, o prprio Vidler foi da mesma opinio. Queriater o melhor tratamento possvel.
        noite Andrew telefonou para Ivory. Agora j eracostume contar com Ivory quando tinha em mos umcaso que metia operao. Mas dessa vez era um caso especial.
       - Eu gostaria que me fizesse um favor, Ivory. Tenhoaqui um caso de quisto abdominal que precisa de ser operado...  uma pessoa decente, trabalhadora. Mas 
no rica, compreende? Receio que no possa ganhar grandecoisa. Mas eu ficar-lhe-ia muito grato se voc fizesse isso... digamos, por um tero do seu preo habitual.
       Ivory foi muito gentil. Nada lhe dava mais prazer queprestar qualquer servio ao amigo Manson. Discutiram ocaso por alguns minutos e, terminada a conferncia, 
Andrew ligou para a Sr.a Vidler.
       - Acabo de falar com o Dr. Charles Ivory, um cirurgiodo West End que  meu amigo particular. Ir comigoamanh, para ver o seu marido. s onze horas, Sr.a 
Vidler. Est bem? Ele disse-me... est a ouvir?... ele disse-me,Sr.a Vidler, que far a operao por trinta guinus. Atendendoa que ele costuma cobrar cem guinus... 
talvez mais,parece-me que o preo  bem razovel.
       - Pois sim, doutor, pois sim - a voz dela era aflita,mas esforava-se por parecer aliviada. - Estou muito agradecida ao doutor. Havemos de dar um jeito.
       Na manh seguinte, Ivory viu o doente na companhiade Andrew e no outro dia Harry Vidler foi levado para aCasa de Sade de Brunsland, em Brunsland Square.
       Era uma casa asseada de estilo antigo, no muito longede Chesborough Terrace; uma das muitas casas de sadedo bairro, onde os preos eram modestos e as 
instalaesdeficientes. Os internados, na sua maioria, no tinhamnecessidade de cuidados mdicos hemiplgicos, cardacoscrnicos, velhas que no se levantavam 
da cama e cujosmales mais graves eram evitar as escaras produzidas pelalonga permanncia no leito. O edifcio no fora construdopara casa de sade. Isso, porm, 
era vulgar! Todas asoutras de Londres, que Andrew j visitara, eram tambm adaptaes. No havia elevador. A sala de operaes foraoutrora uma estufa. Mas a proprietria, 
Sr.a Buxton, eraenfermeira diplomada e uma mulher activa. Apesar dosseus defeitos, a Brunsland era uma casa de limpeza absoluta. No se via a menor mancha, a menor 
sombra depoeira nos cantos mais escusos do soalho forrado de oleado.
       A operao estava marcada para sexta-feira e, comoIvory no podia comparecer mais cedo, para uma horaespecialmente tardia: entre a uma e as duas da tarde.
       Embora Andrew fosse o primeiro a aparecer na casade sade, Ivory chegou pontualmente acompanhado doanestesista. Foi o chauffeur quem transportou a pesadacaixa 
de instrumentos, pois o operador no queria comprometera delicadeza dos dedos, e, embora se depreendesseclaramente que no tinha boa impresso da casa,a sua atitude 
continuou amvel como sempre. Em menosde dez minutos tranquilizou a Sr.a Vidler, que ficara espera na sala, e conquistou a simpatia da Sr.a Buxton edas enfermeiras; 
depois, posto o avental e caladas asluvas, ficou serenamente pronto para agir.
       O doente marchou para a sala com confiana e deciso.
       L dentro despiu o roupo que lhe dera uma das enfermeiras  e subiu para a mesa de operaes. Compenetrando-sede que era indispensvel a interveno cirrgica, 
Vidlerresolvera enfrent-la com coragem e sorriu para Andrewantes que o anestesista lhe colocasse a mscara: Hei-deficar melhor quando isso acabar.
       Logo depois fechou os olhos e aspirou quase avidamenteas inalaes do ter. A Sr.a Buxton tirou a ligadura. A rea esterilizada pelo iodo apareceu  extraordinariamente 
inchada, como uma bola lustrosa. Ivory deu incio  operao. Comeou com algumas injeces, espectacularmente profundas, nos msculos lombares. 
       -Combate o choque - explicou solenemente a Andrew. - Emprego sempre isso.
       E a principiou o verdadeiro trabalho.
       Foi larga a inciso... E imediatamente, com uma presteza quase cmica, o quisto apareceu. Esparramou-se pelaabertura como uma bola de futebol molhada e 
muitocheia de ar. A confirmao do diagnstico aumentou ainda mais, se possvel, o alto conceito que Andrew formava desi prprio. Disse para si mesmo que Vidler 
voltaria a sero que era dantes, quando arrancasse da barriga aqueleacessrio incmodo, e, j pensando noutro cliente, olhoudisfaradamente para o relgio.
       Entretanto, no seu estilo magistral, Ivory jogava coma bola de futebol, tentando com calma atingir os seuspontos de aderncia e sempre fracassando imperturbavelmente. 
Cada vez que tentava dominar a bola, ela escapulia-se-lhe das mos. Tentou umas vinte vezes.
       Andrew lanou um olhar irritado a Ivory, pensando intimamente: Que est este homem a fazer? No hmuito espao no abdmen, mas, que diabo!, h o suficiente.Tinha 
visto Llewellyn, Denny, uma dzia de outros operadores no seu velho hospital, trabalhando com eficinciaem espao muito menor. A arte do bom operador estavanisto 
mesmo: manobrar bem em posies muito difceis.
       De repente, Andrew percebeu que aquela era a primeira operao abdominal que vira Ivory fazer. Insensivelmente,meteu o relgio no bolso e foi-se aproximando 
da mesa,um pouco desconcertado.
       Ivory procurava insistentemente passar a mo por baixodo quisto, sempre calmo, proficiente, fleumtico. Ao ladoa Sr.a Buxton e uma jovem enfermeira permaneciam 
tranquilas, confiantes, numa inocncia quase absoluta. O anestesista, homem idoso, de cabelos grisalhos acariciava contemplativamente o fundo da mscara de ter. 
A atmosfera da pequena sala envidraada era de um sossego completo, sem nervosismos. No havia tenso de nervos nema expectativa ansiosa de um drama. Via-se apenas 
Ivorylevantar um ombro, manobrar com as mos enluvadas,tentar apanhar por baixo a bola escorregadia. Mas, apesardessa tranquilidade, o corpo de Andrew era perpassadopor 
um arrepio. 
       Surpreendeu-se de testa franzida, observando nervosamente. Que receava? Nada havia a temer. Era uma operao normal. Dentro de poucos minutos estaria terminada.
       Com um plido sorriso, Ivory desistiu da tentativa deencontrar o ponto de aderncia do quisto. A jovem enfermeira lanou ao operador um olhar humilde quando 
elelhe pediu o bisturi.
       Ivory apanhou-o num gesto vagaroso, medido. Talvezem toda a sua carreira nunca tivesse encarnado melhordo que naquele momento o tipo do grande cirurgio 
tradicional.
        Empunhando o bisturi, antes que Andrew percebesse as suas intenes, deu um generoso golpe no quistoluzidio e tudo se precipitou.
       O quisto esvaziou-se subitamente projectando umadensa massa coagulada de sangue venoso, vomitando o seucontedo na cavidade abdominal. Num segundo, a grandeesfera 
trgida transformara-se numa bolsa de tecidos flcidos, na confuso do sangue gorgolejante. Num gestoespontneo, a Sr.a Buxton agarrou num molho de gase.
       O anestesista ps-se de p abruptamente. A enfermeiradava a impresso de que ia desmaiar. Ivory disse gravemente :
       - Clamps, por favor.
       Andrew ficou horrorizado. Compreendeu o desastre.
       No tendo conseguido apanhar o pedculo para fazer a ligadura, Ivory rasgara o quisto cega e disparatadamente.
       E era um quisto hemorrgico!
       - Gase, por favor  disse o cirurgio, na sua voz imperturbvel.
       Estava agora a querer dominar a confuso,tentando pinar o pedculo, empurrando gase para a cavidade cheia de sangue, entulhando o abdmen, absolutamente 
incapaz de deter a hemorragia. A verdade iluminoua razo de Andrew com uma luz de relmpago e disse paraconsigo: Deus do Cu! Ele no sabe operar! No sabe,absolutamente!com 
o dedo na cartida, o anestesista murmurou numavoz humilde como a desculpar-se:
       - Ivory, receio que... Parece-me que o homem est a morrer.Largando a pina, Ivory entupiu a cavidade abdominalde gaze ensanguentada. Comeou a suturar 
a sua grandeinciso. Agora j no havia entumecimento. A barriga deVidler estava encolhida, plida, parecendo vazia, porqueVidler estava morto.
       - Acabou-se! - disse finalmente o anestesista. - O homem deu o derradeiro suspiro.
       Ivory deu o ltimo ponto meticulosamente e voltou-separa colocar a pina entre os seus instrumentos. Andrewestava mudo de horror. Com a fisionomia cor de 
cera, a Sr.a Buxton arrumava os sacos de gua quente sem mesmosaber o que fazia. S  custa de muita fora de vontade que parecia dominar-se. Saiu da sala. Sem 
saber o queacontecera o servente entrou empurrando a maca. Poucodepois o corpo de Harry Vidler era levado para o quarto.
       - Foi uma pena - disse Ivory finalmente, numa vozabafada, ao tirar o avental. - Creio que foi o choque. Nolhe parece, Gray?
       O anestesista balbuciou uma resposta. Ocupava-se na arrumao dos seus aparelhos.
       Andrew ainda estava sem poder falar. No torvelinho estonteante das suas emoes, lembrou-se de repente daSr.a Vidler,  espera, l em baixo. Teve a impresso 
deque Ivory lhe adivinhou o pensamento.
       - No se preocupe, Manson. Deixe a mulherzinha porminha conta. Eu falarei agora mesmo com ela. Vamo-nosembora.
       Instintivamente, como um homem incapaz de resistir, Andrew via-se acompanhando Ivory, descendo as escadas, dirigindo-se para a sala de espera. Ainda estava 
atordoado,com nuseas, absolutamente incapaz de falar  Sr.a Vidler.
       Foi Ivory quem enfrentou a situao, mostrando-se quase altura das suas grandes ocasies.
       - Minha querida senhora - disse, compadecido e imponente, pondo a mo gentilmente sobre o seu ombro. - Infelizmente temos ms notcias para lhe dar.
       Ela juntou, torceu as mos. Nos seus olhos liam-se aomesmo tempo terror e aflio.
       - Que diz?
       - Apesar de todos os nossos cuidados e esforos, Sr.aVidler, o seu pobre marido...
       Quase a desmaiar ela caiu numa cadeira, a face lvida,as mos ainda apertadas na mesma crispao.
       - Harry! - suspirou, num fio de voz  que cortava ocorao. E repetiu: - Harry!
       - O que posso garantir-lhe, minha senhora - continuouIvory melancolicamente -  que ningum neste mundopoderia salv-lo.  o que todos ns podemos atestar. 
Nos eu, como o Dr. Manson, o Dr. Gray, a Sr.a Buxton. E mesmo que resistisse  operao... - levantou os ombros,num gesto significativo. Ela ergueu os olhos 
para ele, compreendendoo sentido das suas palavras, dando valor,mesmo naquele momento, a todas as suas atenes, a todaa bondade do grande operador.
       - Essa  a maior consolao que o doutor me podiadar - disse entre soluos.
       - Pedirei   directora  que fique junto de si. Tenharesignao para suportar o golpe. No tenho palavras comque lhe manifeste o apreo pela sua coragem.
       Saiu da sala e Andrew acompanhou-o ainda desta vez.
       No fundo do corredor ficava o escritrio. Estava vazio,mas com a porta aberta. Ivory entrou, acendeu um cigarroe tirou uma boa baforada. O rosto estava 
um pouco maisplido do que de costume, mas o queixo era firme, a moserena. Os nervos pareciam no ter sofrido o mais ligeiroabalo.
       - Bem, o que l vai l vai - disse, friamente. - Lamento muito, Manson. No imaginava que o quisto fossehemorrgico. Mas o senhor sabe que estas coisas 
acontecem aos melhores operadores.
       No pequeno escritrio s havia uma cadeira debaixoda secretria. Andrew afundou-se no maple que estava encostado ao fogo. Ps-se a contemplar com os olhosfebris 
a planta do vaso colocado sobre a grelha vazia.
       Sentia-se doente, desorientado, na iminncia de umcolapso. No lhe saa da ideia a imagem de Harry Vidler,dirigindo-se, cheio de esperana, para a mesa 
da operao.
       Martelavam-no no ouvido as suas palavras: Hei-de ficar melhor quando isso acabar. E dez minutos depois umamaca conduzia-o como um animal mutilado, estripado 
nomatadouro. Rangeu os dentes, cobriu o rosto com as mos.
       -  claro... - disse Ivory, olhando para a ponta docigarro -  claro que no morreu na mesa da operao. Eu j tinha terminado o trabalho... Assim ficamos 
livresde qualquer complicao. No h motivo para inqurito.
       Andrew levantou a cabea. Tremia, enfurecido pela conscincia da sua prpria fraqueza naquela terrvel situao, que Ivory defrontava com tanto sangue-frio. 
E explodiu num verdadeiro histerismo.
       - Por amor de Deus, cale essa boca! Sabe muito bemque matou o desgraado. O senhor no  cirurgio. Nuncafoi, nunca ser cirurgio. O senhor  o mais feroz 
carniceiro que vi em toda a minha vida.
       Houve um silncio. Ivory lanou-lhe um olhar frio eduro.
       -No acho bem que continue a falar assim, Manson.
       - Ah! O senhor no acha?! - Um soluo de dor, quase agonia, fez estremecer Andrew. - Eu sei que o senhoracha! Mas  a dura verdade. Todos os casos que lheentreguei 
antes deste eram brincadeiras infantis. Mas este, o primeiro caso realmente srio que tivemos... Oh! MeuDeus! Eu devia-me ter informado... Sou to culpado comoo 
senhor!
       - Tenha calma, domine-se, idiota! Podem ouvir lfora.
       - E que me importa? - Um novo acesso de clera o arrebatou. - O que digo  s a verdade. E o senhor sabeisso to bem como eu. Meteu os ps pelas mos. Foi 
quaseum assassnio!
       Naquele momento pareceu que Ivory ia derrubar Andrew com um soco. No lhe seria difcil, com o seu pesoe a sua fora. Mas o mdico fez um grande esforo 
edominou-se. No pronunciou palavra. Virou-lhe simplesmente as costas e saiu. Mas na sua expresso dura e friatransparecia uma expresso implacvel e m de quem 
noperdoa.
       Andrew no soube quanto tempo permaneceu no escritrio com a cabea encostada ao mrmore frio do fogo.
       Mas levantou-se afinal, lembrando-se desconsoladamentede que tinha de trabalhar. O tremendo choque do desastreatingira-o em cheio com a violncia destruidora 
de umabomba. Era como se ele tambm estivesse esventrado evazio. Todavia foi caminhando como um autmato. Avanava como um soldado que, horrivelmente ferido, 
aindacumpria, pela fora da disciplina, a misso a que se considerava obrigado.
       Foi nesse estado de esprito que executou o seu restante trabalho. Depois voltou para casa, com o corao pesadocomo chumbo e a cabea doendo-lhe horrorosamente. 
Chegou tarde, por volta das sete da noite. J estava na horade recomear o trabalho das consultas e do dispensrio.
       A sala da frente estava cheia, o dispensrio repleto.
       Arrastadamente, como um moribundo, lanou um olhar para a sala, calculando o nmero de clientes, que, apesarda linda noite de Vero, tinham vindo prestar 
homenagem sua competncia e  sua personalidade. Predominavamas mulheres, na maioria empregadas da Casa Laurier, quevinham h muitas semanas, animadas pelo seu 
sorriso,pela sua diplomacia, dominadas pela sua sugesto paraque continuassem o remdio. A gente de sempre, resmungava,aptico, a intrujice de sempre!
       Deixou-se cair na cadeira giratria do dispensrio e,com ares profissionais, deu incio  representao habitual.
       - Como passa? Sim, vejo que est um pouco melhor. O pulso est mais firme. O remdio est a dar bom resultado. Espero que o gosto no lhe parea muito desagradvel,minha 
cara senhora.
       E saa do dispensrio, entregava o frasco vazio a Christine, que esperava do lado de fora, atravessava o corredor,entrava no consultrio, fazendo ali as 
mesmas perguntas banais, despendendo a mesma falsa simpatia; depois atravessava de volta o corredor, agarrava no frasco cheio eentrava novamente no dispensrio. 
E completava assim o crculo infernal da sua prpria danao.
        Estava uma noite sufocante. Andrew sofria muito, mas continuava a movimentar-se, um pouco para se atordoar muito porque no podia estacar naquela ngreme 
ladeiraque era agora a sua vida. Girando de um para o outrolado, num vaivm desesperado, no se cansava de perguntar a si mesmo: At onde chegarei, meu Deus, 
atonde?
        Finalmente mais tarde do que de costume, quase sdez, foi-se o ltimo cliente. Fechou a porta da rua dodispensrio e encaminhou-se para o gabinete da frente, 
onde, como de costume, Christine o esperava, pronta parao ajudar a fazer as contas do dia.
       Pela primeira vez depois de muitas semanas, Andrew observou-a com ateno, fitando intensamente o rosto de Christine, que, de olhos baixos, apreciava a lista 
que tinhana mo. Andrew sentiu-se chocado pela mutao do seurosto. A expresso era esttica e sem vida, a boca tinhaum ar de cansao. Embora Christine no levantasse 
acara, havia nos seus olhos uma tristeza mortal.
       Sentado  secretria, diante do Caixa, Manson sentiauma dor interior. Mas o enervamento de que estava possudoimpediu que a dor se manifestasse por um 
soluo. Antes que ele pudesse falar, Christine comeou a fazer ascontas em voz alta.
       E Andrew continuava a escriturao... Uma cruz emcada visita, um crculo em cada consulta, fazendo a somada sua cupidez. Quando a concluiu, Christine perguntounuma 
voz cuja mordaz ironia ele s agora observava:
       - Muito bem! Qual foi o lucro hoje?
       Andrew no respondeu, no pde responder. Christinesaiu. Ele escutou os seus passos na escada, a caminho doquarto; ouviu o som de uma porta que se fechava 
mansamente e encontrou-se sozinho, vazio, desnorteado, estupefacto.
        Para onde vou eu por este caminho, meu Deus?De repente os olhos fixaram a caixa de charutos, cheiade dinheiro, com toda a receita do dia, e, tomado novamente 
de sbito desespero, agarrou na caixa e atirou-a deencontro  parede. Ela caiu com um rumor surdo.
       Andrew levantou-se. Sentia uma sufocao, no podia respirar. Abandonando o consultrio, foi para o ptio dacasa, um abismo de sombra sob as estrelas, apoiou-se 
dbilmente ao muro e comeou a vomitar violentamente.

16
       Andrew mexeu-se na cama a noite toda, inquieto, sempoder dormir. S ao amanhecer conseguiu conciliar o sono.
       Levantou-se tarde, plido, com olheiras. Ao descer, depois das nove, viu que Christine j havia tomado o caf e sado. Normalmente o facto no teria significao. 
Mas naqueledia a ausncia da mulher f-lo compreender, numa angstia sbita, como estavam agora afastados.
       Quando Emily lhe trouxe ovos e presunto, Andrew nada pde comer. Os msculos do pescoo estavam doridosrecusavam-se ao trabalho de mastigar. Bebeu uma xcarade 
caf e, num impulso, preparou uma dose forte dewhisky. Bebeu-o de um golo. S depois se decidiu a enfrentar a tarefa do dia.
       Embora a aco da rotina ainda o amparasse, os seus movimentos eram menos automticos do que no dia anterior.
        Uma rstia de luz, ainda muito tnue, ia forando onevoeiro da sua combalida natureza. Compreendeu estarna iminncia de uma queda brusca. Compreendeu tambmque 
se casse no abismo nunca mais de l sairia. Cautelosamente, procurando animar-se a si mesmo, abriu a garagem e tirou o carro. Esse simples esforo humedeceu-lheas 
palmas das mos.
       O seu principal objectivo naquela manh era chegarao Vitria. Tinha um encontro marcado com o Dr. Thoroughgood para observarem Mary Boland. Aquele, pelomenos, 
era um compromisso a que no queria faltar. Conduziu devagar at ao hospital. De facto sentia-se melhorno automvel do que a p.  fora do hbito o conduzirtornara-se 
uma ocupao automtica, um mero reflexo.
       Chegou ao hospital, arrumou o carro e subiu  enfermaria. Com um cumprimento de cabea para a enfermeira,tomou a papeleta de Mary e sentou-se na ponta do 
leitodela. Recebeu o seu sorriso acolhedor e viu o lindo ramalhete de rosas que estava na mesinha da cabeceira, mascontinuou estudando as indicaes da papeleta, 
nada animadoras.
       - Bons dias - disse ela. - No so lindas essas rosas? Foi Christine quem as trouxe, ontem de tarde.
       Andrew fitou-a. No estava afogueada, mas parecia um pouco mais magra.
       - Sim, so lindas. E como vai passando, Mary?
       - Ora... muito bem - no primeiro momento, os olhosdela evitaram os de Andrew, mas logo depois encararam-nocheios de confiana. - Seja como for, eu sei que 
no serpor muito tempo. Vai-me curar muito em breve.
       A confiana que havia nas suas palavras, e principalmente no seu olhar, produziu em Andrew uma palpitaodolorosa e pensou intimamente: Se as coisas correremtambm 
mal neste aspecto ser o fim de tudo.
       Nesse momento o Dr. Thoroughgood comeou a inspeco pela enfermaria. Logo que entrou viu Andrew e dirigiu-se-lhe imediatamente.
       - Bons dias, Manson - disse, com bom humor. - Poraqui? Que h? Est doente?
       Andrew levantou-se.
       - Estou perfeitamente bem, obrigado.
       O Dr. Thoroughgood olhou-o com ar intrigado e voltou-se para a cama de Mary.
       - Gostei que me pedisse que visse este caso na sua companhia. Deixe-me ver a papeleta, enfermeira.
       Durante dez minutos observaram Mary. Depois Thoroughgood encaminhou-se para uma janela, no fundo da enfermaria, onde, sem perder de vista toda a sala, podiam 
conversar sem serem ouvidos.
       - E ento? - perguntou Thoroughgood.
       Ainda absorto, Andrew ouviu a sua prpria voz:
       - No sei o que pensa, Dr. Thoroughgood, mas tenhoa impresso de que a marcha da doena no  animadora.
       Thoroughgood cofiou a barbicha:
       - De facto, h dois ou trs indcios... Parece-me que h uma ligeira extenso.
       - No penso assim, Manson. A temperatura  instvel.
       - ... talvez. Desculpe-me a insistncia, doutor... Compreendo perfeitamenteas nossas posies, mas este caso interessa-memuito. Dadas as circunstncias, 
o doutor no acharia deconsiderar o recurso do pneumotrax? Deve lembrar-se queeu insisti para que o tentssemos quando Mary, a doente,deu entrada no hospital.
       Thoroughgood olhou de lado para Manson. A sua fisionomia alterou-se, tomou aspecto obstinado.
       - No, Manson. No me parece que seja caso para pneumotrax. No o empreguei quando ela para c veio e no ovou empregar agora.
       Um silncio se estabeleceu. Andrew nada mais disse. Conhecia Thoroughgood, a sua teimosia invulgar. Almdisso sentia-se exausto, fsica e moralmente, sem 
energiapara persistir numa discusso que julgava intil. Escutavaimpassvel as digresses de Thoroughgood, que expunha asua maneira de ver o caso. Quando o outro 
concluiu evoltou  sua inspeco, Andrew aproximou-se de Mary,disse-lhe que voltaria no dia seguinte e saiu da enfermaria.
       Antes de abandonar o hospital, pediu ao porteiro que comunicasse para casa que no o esperassem para o almoo.
       Era quase uma hora. Ainda estava triste, possudo de pensamentos dolorosos, sem vontade de comer. Perto deBattersea Bridge parou em frente de uma casa de 
ch. Pediu caf e torradas. Mas no pde beber o caf e sentiunuseas no estmago s primeiras torradas. Viu que acriada o olhava com curiosidade.
       - No esto boas? - perguntou ela. - Posso troc-las.
       Fez um gesto negativo com a cabea e pediu a conta. Enquanto a criada escrevia, ps-se a contar distraidamenteos botezinhos negros e lustrosos do vestido 
dela. J umavez, havia muito tempo, olhara assim para trs botezinhosde madreprola da blusa de uma professora deBlaenelly.
       L fora uma nvoa amarelada caa opressivamente sobre o rio. Lembrou-se de repente que tinha dois compromissospara aquela tarde, no consultrio de WelbeckStreet. 
Foi conduzindo o automvel devagar.
       A enfermeira Sharp estava de mau humor, como sempre acontecia nos sbados em que tinha de trabalhar. Contudo,o aspecto de Andrew era de tal natureza que 
ela lhe perguntou se estava doente. Depois, num tom mais suaveporque sempre tivera pelo Dr. Hamson a maior considerao,informou que Freddie j telefonara duas 
vezes depois do almoo.
       Quando ela saiu da sala, Andrew sentou-se junto da secretria, com o olhar vago, sem nada fixar. O primeirocliente chegou s duas e meia. Era um jovem funcionriodo 
Departamento de Minas, a quem fora indicado peloGill. Era um cardaco. Sofria realmente de perturbaesvalvulares. Manson deu-se conta de que estava a estudaro 
caso muito minuciosamente, dando-lhe o mximo daateno, explicando ao doente todos os detalhes do tratamento.
       Por fim, quando este fez o gesto de tirar a carteira,apressou-se a dizer:
       - No me pague agora. Espere que eu lhe mande aconta.
       Uma sensao estranha se apossou dele ao pensar quenunca chegaria a cobrar a conta, que j no tinha a preocupaoabsorvente do dinheiro, que ainda era 
capaz de odesprezar como nos velhos tempos.
       Entrou logo depois o segundo cliente, uma mulher dosseus quarenta e cinco anos. Era a Sr.a Basden, uma dassuas mais dedicadas clientes. Sentiu o corao 
oprimir-sequando ela apareceu. Rica, egosta e hipocondraca, erauma segunda edio, mais jovem, mas mais antiptica,daquela Sr.a Reaburn que vira certa vez em 
companhia deHamson, na Casa de Sade Sherrington.
       Escutou-a, aborrecido, com a mo na testa. Ela, toda risonha, fazia um relatrio circunstanciado de todas as manifestaes do seu organismo desde a ltima 
consulta,alguns dias antes. De repente, Andrew ergueu a cabea.
       -  por isso que vem ao meu consultrio, Sr.a Basden?
       Interrompida no meio de uma frase, a sua cara eracmica; a parte superior ainda se manifestava prazenteira,mas a boca caa devagar, num esgar de surpresa.
       - Eu sei que tenho a culpa - continuou. - Eu disse-lheque voltasse. Mas, com franqueza, a senhora no sofre decoisa alguma.
       - Dr. Manson! - a mulher arfava, sem poder acreditarno que ouvia.
       Era a verdade absoluta. Numa anlise implacvel, Manson chegara  concluso de que todos os sintomas que amulher apresentava eram devidos exclusivamente 
ao dinheiro. Nunca trabalhara um dia em toda a sua vida. O corpo era mole, gordo, superalimentado. Se no dormiaera porque os msculos nenhum esforo faziam. O 
prpriocrebro permanecia parado. Toda a sua actividade se resumia em cortar cupes de obrigaes, receber dividendos,ralhar com as criadas e inventar o que ela 
e o lulu daPomernia deviam comer. O remdio era abandonar o comodismo, fazer qualquer coisa aproveitvel. Nada deplulas, sedativos, hipnticos, colagogos e todas 
essas drogas! 
       Porque no dava aos pobres alguma coisa do quelhe sobrava? Porque no se interessava pela sorte do prximo, deixando de pensar exclusivamente em si mesma? 
Mas nunca seria de utilidade para algum, nunca! Nadaadiantava aconselh-la. Aquela criatura estava espiritualmente morta e ai dele! ele tambm.
       - Queira desculpar-me - disse aborrecido. - No lheposso dedicar mais os meus cuidados, Sr.a Basden. Eu...  possvel que tenha de viajar. Mas encontrar 
certamenteoutros mdicos que tero muito gosto em alimentar-lhe assuas manias.
       Ela abriu a boca repentinamente como um peixe fora degua. Depois a fisionomia deixou transparecer uma verdadeira apreenso. Estava convencida, muito convencida, 
deque o mdico perdera o juzo. No quis discutir mais. Levantou-se, agarrou precipitadamente a mala e saiu a todaa pressa.
       Disposto a voltar para casa, Andrew deu volta  chavedas gavetas da secretria com ar de quem fecha a loja. 
       Antes, porm, de levantar-se, entrou, alvoroada e risonha, a enfermeira Sharp.
       - O Dr. Hamson chegou agora! Preferiu vir pessoalmentea telefonar.
       Logo depois entrou Freddie. Animadssimo, acendeu um cigarro, puxou uma cadeira. Havia qualquer coisa no seuolhar. A sua atitude nunca fora to afectuosa.
       - Desculpa, meu velho, se venho roubar-te tempo numa tarde de sbado. Mas sabia que estavas no consultrio equis dar-te dois dedos de conversa. Olha, Manson: 
contaram-me esse caso da operao de ontem e no minto emdizer-te que fiquei satisfeitssimo. J era tempo de ficaresesclarecido a respeito do nosso amigo Ivory. 
Nesse momentoa voz de Hamson tomou um acento malvolo.
       - bom que saibas, meu velho, que tenho andado ultimamenteum pouco afastado do Ivory e do Freedman. Notm procedido correctamente comigo. Havia entre 
ns umacerta combinao que rendia bastante, mas depois cheguei concluso de que esses dois tipos ficavam com a maiorparte dos lucros. Alm disso o feitio de 
carniceiro do Ivoryj me irritava. No sabe operar. Tens carradas de razo. Ele no passa de um miservel abortador. Ah, no sabesdisso? Posso garantir-te o fundamento 
das minhas palavras. Aqui perto, apenas a uns cem quilmetros daqui,existem duas casas de sade que no se dedicam a outra coisa. Tudo muito encapotado e a preos 
exorbitantes, claro. E sabes quem as dirige? Ivory! Freedman no lhefica atrs.  um negociante de drogas muito sujo e semao menos a distino do Ivory. E compreende, 
amigo: sete conto estas coisas  para teu bem. Prefiro que fiquessabendo como so no fundo esses dois tipos porque achoque deves afastar-te deles e entrar comigo 
em acordosmais ntimos. Ainda no tens experincia e por isso estsa ser demasiadamente explorado. Os teus ganhos poderiamser muito maiores. No sabes que o Ivory 
costuma dar cinquenta por cento a quem lhe proporciona uma operao?  s por isso que lhe mandam tantos clientes! E quanto te d ele a ti? Uns miserveis quinze 
por cento; vinte quanto muito. Isso no  suficiente, Manson! E depois da matana de ontem, eu, se estivesse no teu caso,no o toleraria mais. Agora, aqui entre 
ns, tenho umaboa ideia. Ainda no disse coisa alguma,  claro; soudecente de mais para fazer isso. Mas o plano  este... vamos estabelecer um acordo, tu e eu. 
Vamos fazer uma boasociedade por nossa prpria conta. Afinal, somos camaradas de escola, no  verdade? Eu gosto de ti, sempregostei e posso oferecer-te um feixe 
de vantagens.
       Freddie parou para acender outro cigarro e depois sorriu cordial, expansivamente, disposto a mostrar todas as vantagens como provvel scio.
       - No fazes ideia dos recursos de que disponho. Queres saber a minha ltima? Injeces a trs guinus... de gua destilada! Um destes dias uma cliente veio 
tomar a suavacina. Pois eu no me esqueci em casa do diabo daampola? Pois bem! Para que ela no perdesse os passos,injectei-lhe a velha ITO. E a mulher voltou 
no dia seguintepara me dizer que aquela injeco lhe dera mais resultado, pois que se sentira melhor, do que as outras. Entocontinuei. E porque no? A f  que 
salva. Mas ficasabendo que tambm prescrevo toda a espcie de remdios, quando necessrio. Graas a Deus, nunca deixo de serum profissional! Graas a Deus! E justamente 
por sercorrecto  que eu e tu podemos entrar num acordo. Ah! Manson! Tu, com os teus ttulos, e eu, com o meu savoir-faire, podemos fazer grandes coisas.  claro 
que a combinao tem de ser habilidosamente preparada. Mandapara mim o cliente que entenderes para eu confirmar odiagnstico. Alm disso tenho em vistas um operador,jovem 
e distinto, cem vezes melhor que o Ivory! Poderemos montar mesmo, no futuro, a nossa casa de sade. E ento, velho amigo, estaremos conservados!
       Andrew continuava esttico, rgido, mudo. No tinharaiva a Hamson. Sentia apenas um amargo desprezo porsi mesmo. Nada poderia ter mostrado de modo mais 
expressivo a que ponto havia chegado, tudo o que tinha feito,que caminho seguira... Por fim, compreendendo que tinhade responder qualquer coisa, murmurou:
       - No posso entrar num acordo contigo, Freddie. Eu... aborreci-me disto tudo de repente. Parece-me que vou deixar isto aqui por algum tempo. H canalhas 
de mais nestazona de Londres. Bem sei que existe um certo nmero dehomens de bem, procurando trabalhar com decncia, escrupulosos na clnica, dignos de apreo. 
Mas os outros nopassam de canalhas. So canalhas que do essas injecesinteis, que arrancam amgdalas e apndices que no fazem mal algum, que mandam os clientes 
de um paraoutro como se fossem bolas de futebol; que dividemhonorrios, fazem abortos, recomendam mdicos pseudocientficos, ganham o dinheiro de qualquer maneira.
       A cara de Hamson foi-se avermelhando pouco a pouco.
       - Que diabo  isso! - balbuciou Freddie. - No tensfeito a mesma coisa?
       - No nego, Freddie - disse Andrew, num tom pesado. - No sou melhor do que os outros. E no quero que hajao menor ressentimento entre ns. Foste sempre 
o meumelhor amigo.
       Hamson pulou na cadeira.
       - Perdeste o juzo ou qu?
       - Talvez tenha perdido de facto o juzo. Seja comofor, quero mudar de vida, deixar de pensar em dinheiroe em sucesso material. Essas coisas no so dignas 
deum bom mdico. Quando um colega nosso ganha cincomil libras por ano  um caso perdido. E porque... porquese h-de querer ganhar dinheiro  custa dos sofrimentosalheios?
       - Mas que grandssimo idiota! - respondeu Hamsonem voz bem clara. Voltou as costas e abandonou a sala.
       Andrew sentou-se novamente  secretria, sozinho, desolado. Por fim levantou-se e foi para casa. Ao aproximar-se,sentiu o corao bater com fora. Eram quase 
seis datarde. Toda a tenso do seu longo dia atribulado pareciachegar ao auge. A mo que enfiou a chave na fechadurada porta da rua estava trmula, muito trmula.
       Encontrou Christine na sala da frente. Ao v-la ali,plida e silenciosa, um arrepio perpassou-lhe pelo corpo.
       Como desejava que ela perguntasse, com o interesse antigo,porque tinha passado tantas horas longe dela! Mas Christine disse apenas numa voz desinteressada:
       - Tiveste hoje um dia muito comprido. Queres tomarch antes do servio do dispensrio?
       - Hoje  noite no h dispensrio.
       Christine fitou-o:
       - Mas  sbado... O dia de maior movimento.
       A nica resposta de Andrew foi escrever um aviso noqual declarava que o dispensrio estaria fechado  noite.
       Atravessou o corredor, pendurou o aviso na porta. O corao agora batia tanto como se fosse rebentar. Quandovoltou, encontrou Christine no consultrio, 
ainda mais plida, com os olhos cheios de apreenso.
       - Que aconteceu? - perguntou ela numa voz estranha.
       Andrew encarou-a e ento extravazou toda a angstia queprocurava conter, a onda do sentimento rompeu todos os diques da contenso nervosa.
       - Christine! 
       Tudo dentro dele falou nesta nica palavra. No mesmo instante caiu ajoelhado junto dela, a soluar.

17
       A reconciliao foi uma coisa sublime, a maior maravilhada vida de Andrew e Christine desde os primeirosdias do seu amor. Na manh seguinte, que era domingo,ficou 
deitado junto dela, como naqueles dias de Aberalaw,falando, falando, e, como antigamente, abrindo-lhe o corao.
       Pairava l fora a quietude do domingo. A msica dossinos era como uma sugesto de paz e tranquilidade. MasAndrew no estava tranquilo.
       - Como cheguei a isto? - resmungava, aflito. - Eu estava doido, Chris? Quando penso nessas coisas nem possoacreditar no que fiz. Eu metido com essa gente 
depois deconhecer Denny e Hope! Meu Deus! Mereo um grandecastigo!
       Ela procurava consol-lo:
       - Tudo aconteceu de uma forma to precipitada, querido!... Era de uma pessoa perder completamente a cabea.
       - Falando srio, Chris! Parece-me que enlouqueoquando penso nessas coisas. E como deves ter sofrido durante todo esse tempo! Deus do Cu! Deve ter sido 
umverdadeiro martrio.
       Christine sorria, comeara a sorrir novamente. Comoera tocante, maravilhoso mesmo, ver o rosto dela perdero ar de desnimo e indiferena gelada, para se 
mostrarmeigo outra vez, feliz, cheio de carinho para ele. Graasa Deus, pensava Andrew intimamente, estamos de novoa viver.
       De repente, enrugando a testa:
       - S nos resta uma coisa a fazer. - Apesar da vibrao nervosa, sentia-se forte agora, livre de um nevoeiro deiluso, pronto para agir. - Temos de sair daqui. 
Afundei-me de mais, Chris, de mais! Se ficasse aqui, lembrar-me-iaa cada momento do grupo de charlates com que me meti... E quem sabe se no voltaria a ser o 
que fui? Podemospassar a clnica facilmente. E sabes, Chris? Tenho umaideia estupenda!
       - Qual, querido?
       Desfez-se a ruga nervosa da testa de Andrew e sorriupara ela, tmida, carinhosamente.
       - H quanto tempo que no me chamavas querido! Isso encanta-me! Sim, eu sei. A culpa foi minha... Mas,no me deixes, Chris, tornar a discutir essas coisas! 
A minha ideia... Sabes como me ocorreu esse plano? Veio-me cabea quando acordei hoje. Lembrei-me, indignado, daproposta do Hamson para formarmos uma sociedade 
ignbil. E de repente surgiu a ideia... Porque no formar umasociedade honesta, decente?  o que costumam fazer osmdicos dos Estados Unidos. Stillman fala-me 
sempre nisso, embora no seja mdico diplomado. Aqui, entretanto, pareceque no h isso. Pensa, Chris: mesmo numa cidadezinhade provncia pode ter-se uma clnica, 
com um pequenogrupo de mdicos, cada um entregue  sua especialidade. Escuta: em vez de me meter com Hamson, Ivory e Prdelman, porque no me junto a Denny e Hope, 
formandocom eles uma trindade de primeira ordem? Denny fariatodo o trabalho de cirurgia... sabes como ele  bom operador! Eu ficaria com a parte de clnica geral 
e Hope seriao nosso bacteriologista. Pensa que coisa boa seria cada umde ns especializado no seu sector e todos contribuindocom os seus conhecimentos para uma 
empresa de ajudamtua. Talvez te recordes do que costumava dizer o Denny,e eu tambm, sobre o nosso deplorvel sistema de clnicasem especializaes. O pobre 
do clnico geral tem de serpau para toda a obra, tentando carregar um peso que osombros no podem suportar. Uma coisa intolervel. A soluo, a verdadeira soluo, 
tem de ser esta: um grupode mdicos trabalhando de acordo, honestamente.  o meiotermo entre a medicina socializada e a actividade individual, o esforo isolado. 
Se isto ainda no existe aqui apenas porque os grandes querem assambarcar tudo. Mas,querida! No seria magnfico se pudssemos formar umpequeno grupo de vanguarda 
cientfica espiritualmentepuro? Seramos uma espcie de pioneiros para acabar compreconceitos, fazer ruir os falsos dolos e, quem sabe?,comear uma verdadeira 
revoluo em todo o nosso sistema mdico.
       Com o rosto encostado no travesseiro, Christine fitou-ocom olhos brilhantes.
       - Quando falas assim, parece que voltamos aos velhos tempos, meu querido. Nem tenho palavras para te dizercomo isso me agrada.  como se estivssemos a comearoutra 
vez! Como me sinto feliz, querido, to feliz!
       - Tenho de me penitenciar de muita coisa - continuouele num tom sombrio. - Fui um doido, Chris. Pior do quedoido. - Apertou a testa com as mos. - No me 
sai dacabea o Harry Vidler. S descansarei quando fizer algumacoisa que me redima - E de repente, resmungando: - Tivetanta culpa como o Ivory, Chris. Sinto que 
no me libertareidessa ideia facilmente e no seria mesmo justo queme libertasse. Mas hei-de trabalhar como um desesperado,Chris, e tenho a certeza de que Denny 
e Hope me acompanharo. Conheces as ideias deles. Denny anda realmenteansioso por trabalhar de novo a srio. E quanto a Hope... Ora, se tiver um laboratoriozinho 
onde possa fazer nashoras vagas as suas pesquisas, ele acompanhar-nos- atao fim do mundo.
       Saltou da cama e comeou a atravessar o quarto lado alado com a impetuosidade dos bons tempos, excitado aomesmo tempo pelas promessas do futuro e pelo remorsodo 
passado, a cabea num torvelinho, cheio de inquietaes, de esperanas, de planos.
       - Tenho de resolver muitas coisas, Chris - exclamou- e uma delas no quero adiar. Escuta, querida! Vou escreveragora algumas cartas... Mas, depois do almoo, 
queres darum passeio comigo fora da cidade?
       Ela fitou-o interrogativamente.
       - Mas no disseste que tens muito que fazer?
       - Mas isso est em primeiro lugar. Sinceramente, Chris, tenho uma grande preocupao por causa da Mary Boland. Ela no est a passar bem no Vitria e no 
me tem sidopossvel prestar-lhe uma assistncia eficaz. Thoroughgoodest com muito m vontade e parece que no compreendeperfeitamente o caso, pelo menos na minha 
opinio. MeuDeus! Parece-me que endoideceria se acontecesse algumacoisa a Mary, tanto mais que me responsabilizei por elaperante o pai.  horrvel ter de dizer 
isso, pois se tratado meu prprio hospital, mas a verdade  que ela nuncaficar boa no Vitria. Deve ir para o campo, para umlugar saudvel, para um bom sanatrio.
       - Parece-te?
       -  por isso que quero ir contigo at  clnica doStillman... Bellevue  o lugar mais bonito, mais adorvelque podes imaginar. Se eu conseguisse levar a 
Mary paral... Ah! No s ficaria descansado, como teria a impressode haver feito alguma coisa de aproveitvel.
       Christine respondeu logo, decidida:
       - Vamos l assim que estiveres pronto.
       Depois de vestir-se, Andrew desceu e ps-se a escrevera Denny e Hope. S tinha trs visitas inadiveis a fazere aproveitou-as para pr as cartas no correio. 
Na volta,encontrou Christine j pronta. Comeram alguma coisa epartiram.
       Apesar de o esprito de Andrew continuar dominadopela tenso nervosa, o passeio foi muito feliz. Compreendia agora, mais do que nunca, que a felicidade 
 um estadode alma, que no depende  no obstante a opinio dosclnicos  dos bens materiais. Durante todos aqueles mesesem que lutara para conquistar fortuna, 
posio e todas asformas de sucesso material, considerara-se feliz. Mas averdade  que no o fora. Vivera numa espcie de delrio,uma obsesso constante de obter 
mais e mais. Dinheiro,pensava com amargura, s vale quem tem o malditodinheiro!. No comeo dissera a si mesmo que precisavade ganhar mil libras por ano. Quando 
atingiu esta quantia quis ter o dobro. Mas quando chegou a ganhar duasmil libras, ainda no ficou satisfeito, e no foi tudo. Queria sempre mais, ainda mais, 
e essa ganncia acabaria porliquid-lo.
       Olhou de soslaio para Christine. Quanto teria sofridopor causa dele! Mas agora, se Andrew quisesse ter a confirmao de que estava no bom caminho, nenhuma 
provaseria mais concludente do que a transformao que seoperara na sua fisionomia radiante, feliz. No um rostobonito porque a vida deixara ali as suas marcas: 
sinaisde cansao e de lgrimas, pequenas rugas em torno dosolhos, covas nas faces plidas que outrora tinham sidofrescas e coradas. Mas era um rosto que conservavauma 
expresso de serenidade e de franqueza. Aquele rostoanimava-se agora de modo to vivo e tocante que Andrew sentiu, ao observ-lo, um novo surto de arrependimentojurou 
intimamente que nunca mais, em toda a sua vida,havia de dar a Christine razo para mgoa.
       s trs da tarde j estavam em Wycombe. Tomaramento por um caminho lateral que levava ao alto da colinade Lacely Green. Situada esplendidamente num pequeninoplanalto, 
Bellevue tinha uma posio soberba, com lindasvistas para os vales.
       Stillman acolheu-os cordialmente. Era um homenzinho reservado, pouco expansivo, de raros entusiasmos, masexprimiu a satisfao que lhe causava a visita de 
Andrew,mostrando toda a beleza e eficincia da sua criao.
       O sanatrio era pequeno de propsito, mas no se podiapr em dvida a eficincia das suas instalaes. compunha-se de duas alas com grandes terraos, que 
se uniamna parte central, destinada  administrao. Por cima dovestbulo e dos escritrios, uma sala de curativo e tratamento admiravelmente guarnecida de aparelhagem. 
Todaa parede da parte sul era de vidro vita. Eram do mesmomaterial todas as janelas. O sistema de aquecimento e deventilao era a ltima palavra. Enquanto visitava 
Bellevue, Andrew no podia deixar de notar o contraste daquelamaravilha de eficincia tcnica com os casares antigos,centenrios, que serviam de hospital em 
Londres, e comas moradias mal adaptadas e mal providas de aparelhagemque se mascaravam de casas de sade.
       Terminada a visita, Stillman convidou-os para tomarch. E nesse momento, num arranco, Andrew entrou noassunto:
       - Tenho horror a pedir favores, Sr. Stillman. - Christine teve de sorrir ao escutar a velha chapa, j quase esquecida. - Mas seria possvel receber uma doente 
minha? Comeo de tuberculose. Tudo parece indicar que  um casopara pneumotrax. Trata-se da filha de um grande amigomeu, um dentista... A jovem no segue bem 
onde est. Nos olhinhos azuis de Stillman notava-se uma pontade ironia.
       - Isso significa que me quer enviar um cliente... Osmdicos daqui no costumam faz-lo, embora costumemfazer os da Amrica. No se esquea de que eu aqui 
souum curandeiro, um charlato, que mantm um sanatriosuspeito onde os doentes tem de passear descalos sobrea relva molhada antes de ingerirem as suas cenouras 
grelhadas.
       Andrew no sorriu.
       - No tome o meu pedido por graa, Sr. Stillman. Ocaso dessa pequena interessa-me extraordinariamente. Ando preocupadssimo com ela.
       - Receio, meu amigo, no ter lugar para novos clientes. Apesar da desconfiana de que sou vtima por parte detoda a classe mdica, h uma poro de gente 
 esperade vaga.  estranho! - Stillman deixou transparecer afinal, discretamente, um sorriso. - Com tantos mdicos huma multido que quer tratar-se comigo 
       - Que pena! - murmurou Andrew. A recusa do americano  representava uma grande decepo para ele. - E euque estava quase a contar com isso! Se pudssemos 
internar a Mary aqui... que alvio seria para mim. A verdade que tem aqui o melhor sanatrio da Inglaterra. Noestou a adul-lo. Digo isso porque o sinto. Quando 
pensonaquela velha enfermaria do Vitria onde a minha doentepermanece... Quando me lembro de que ela est ali combaratas a correr por debaixo da cama!...
       Inclinando o corpo, Stillman tomou uma sanduche da mesinha prxima. Tinha um jeito especial, engraado, detomar qualquer coisa com as pontas dos dedos, 
como setivesse acabado de lavar as mos cuidadosamente e temessesuj-las.
       - Muito bem! Est a representar a sua comdia irnica, hem? No, no devo falar assim. Vejo que est preocupado. Eu ajud-lo-ei. Embora se trate de um mdico, 
tomareia sua doente ao meu cuidado. - Notando a expresso parada de Andrew, o americano fez um trejeito. - Note que no tenho as vistas curtas. No me importo 
de tratar com a gente da profisso, quando a isso me vejo obrigado. Porque no acha graa? No v que  uma ironia? No fazmal. Mesmo sem ironia  cem vezes mais 
esclarecido doque a maioria dos seus colegas. Deixe-me ver. S na prximasemana  que terei um quarto vago. Julgo quequarta-feira. Traga-me a sua doente na quarta-feira 
daprxima semana e desde j lhe prometo fazer por elatudo o que puder.
       Com a gratido expressa nos olhos, Andrew no sabiacomo exprimi-la.
       - Eu... eu no sei como lhe agradecer... Eu...
       - Pois ento no agradea e no procure ser muitoeducado. Gosto mais de si quando parece que vai atirara gente pela janela fora. Sr.a Manson, ele nunca 
lhe atiroucom a loua  cabea? Um grande amigo meu, l naAmrica, proprietrio de dezasseis jornais, costuma partirtoda a loua de casa quando se zanga com a 
mulher. Poisbem, um dia...
       Ps-se a contar uma longa anedota, que pareceu aAndrew absolutamente sem sentido. Mas, ao voltar paracasa, j ao anoitecer, dizia ele a Christine:
       - De qualquer maneira  j uma coisa resolvida. Umgrande peso que tiro da conscincia. Tenho a certeza deque Mary no poderia ter melhor tratamento.  um 
tipoextraordinrio, esse Stillman. Gosto dele, de facto.  primeiravista nada se d pelo homem, mas por dentro feito de ao. Quem sabe se no poderamos ter 
uma clnicadeste gnero? Uma coisa assim, embora mais pequena,para mim, o Hope e Denny. Parece uma esperana absurda,hem? Mas quem sabe? Estive a pensar... Se 
Denny e Hopeme acompanhassem e nos instalssemos juntos na provncia... Poderamos escolher um local perto de uma dessas zonas carbonferas, porque assim poderia 
retomar o trabalho sobre inalao. Que dizes, Christine?
       A sua nica resposta foi olhar para um lado e paraoutro e, com risco de provocar escndalo na rua movimentada, dar-lhe um beijo bem repenicado.

18
       Na manh seguinte Andrew levantou-se cedo, depois deuma noite bem dormida. Sentiu-se retemperado e prontopara a aco. A primeira providncia foi uma telefonadelapara 
a agncia Pulger & Turner, especializada em transaces entre mdicos, confiando-lhe a venda da clnica.
       Gerald Turner, o chefe actual da antiga e conceituadafirma, atendeu pessoalmente e, a pedido de Andrew, veioimediatamente a Chesborough Terrace. Depois 
de umexame dos livros, assegurou-lhe que no teria a menor dificuldade em arranjar comprador. 
       -  claro, doutor, quetemos de mencionar nos anncios uma justificao paraa venda - disse gentilmente o Sr. Turner, batendo nosdentes com a extremidade 
do lpis. - Qualquer pretendenteter desejo de saber a razo por que um mdico abandona uma mina de ouro como esta. Desculpe-me aliberdade, mas  mesmo uma mina 
de ouro. H muitotempo que no me passa pelas mos uma clnica to rendosa. Podemos alegar motivos de doena?
       - No - respondeu Andrew, abruptamente. - Diga averdade. Diga... - conteve-se - basta dizer: por motivos particulares.
         - Muito bem, doutor. - E o Sr. Gerald Turner escreveu no livro de notas: - Transferncia por motivos particularese alheios  clnica.
       Andrew concluiu:
       - E no se esquea: no exijo uma fortuna. Quero apenas um preo razovel.  bem possvel que muitos clientesno queiram continuar com o meu sucessor.
        hora do almoo, Christine entregou-lhe dois telegramas. Andrew pedira a Denny e a Hope que lhe telegrafassem assim que recebessem as cartas enviadas na 
vspera.
       O primeiro, de Denny, era bem simples: Impressionado.  Espere-me amanh  noite.
       O segundo declarava num estilo bem caracterstico: O meu destino  esbanjar a vida no meio de doidos. Parece que falou em laboratrio. Contribuinte indignado.
       Depois do almoo Andrew correu ao hospital. No eraa hora da visita de Thoroughgood, mas isso convinha-lhe admiravelmente. Queria evitar discusses e aborrecimentos, 
principalmente com o colega mais antigo, que sempreo tratara muito bem, apesar da teimosia e da consideraoque dedicava aos cirurgies-barbeiros de outrora.
       Sentado na beira da cama de Mary, Andrew explicou-lheo que pretendia fazer.
       - Para comear, devo dizer que a culpa foi minha - ebateu-lhe no ombro, tranquilizadoramente. - Eu devia terprevisto que este lugar no te servia. Vers 
a diferenaquando fores para  Bellevue. No calculas, Mary! Mastodos aqui foram muito amveis para contigo e no hnecessidade de magoar algum. Deves dizer apenas 
quequeres sair na prxima quarta-feira, deixar o hospital. Sete acanhas em dizer isso, direi a teu pai que escreva ordenandoa tua sada. H muita gente  espera 
de vaga eeles no levantaro dificuldades. Ento, na quarta-feira,eu mesmo irei levar-te a Bellevue. Est tudo combinado,at falei a uma enfermeira para ir connosco. 
Nada maissimples... nem melhor para ti.
       No regresso, Andrew tinha a impresso de haver realizado alguma coisa de til, sentia que estava a pr novamenteem ordem a sua vida, que deixara tombar 
em tohorrvel confuso. Naquela noite, no dispensrio, resolveudespedir severamente os clientes crnicos, no se importando de sacrificar a sua fama de sedutor. 
Em menos deuma hora teve de declarar, firmemente, mais de dez vezes:
       - No deve voltar mais  consulta. J c vem h muitotempo. No padece de qualquer doena. E no continuea tomar remdios!
       Estava admirado do alvio que sentia depois de pronunciar estas palavras. Ter essa franqueza, essa honestidade, era um prazer que no experimentava desde 
muitotempo. Quando foi para junto de Christine tinha umaanimao quase juvenil.
       - Agora j no me julgo tanto um charlato de feira! - E resmungando: - Meu Deus! Como posso falar assim!... a-me esquecendo do que aconteceu... Vidler... 
tudo o queeu fiz!.
       Neste momento o telefone tocou. Christine foi atender. Andrew teve a impresso de que ela se demorou muitopara voltar. Quando a viu a sua expresso pareceu 
novamenteperturbada.
       O telefone  para ti.
       - Quem ?... - De repente adivinhou que se tratavade Frances Lawrence. Houve um silncio na sala. Depois,Andrew falou precipitadamente: - Diz-lhe que no 
estou. Diz-lhe que me fui embora. No, espera! - tomou um ardecidido e caminhou com passo firme. - Deixa que eu falo.
       Ao voltar, uns cinco minutos depois, encontrou-a sentada, a fazer tricot num canto da sala onde a luz era maisintensa. Olhou-a disfaradamente, desviou 
logo a vista eencaminhou-se para a janela. Ficou ali, aborrecido, olhandopara a rua, com as mos nos bolsos. O leve rudo dasagulhas de Christine comunicava-lhe 
uma impresso estranha,constrangedora. Era como se fosse um cachorrinhotriste e vulgar voltando para casa de cauda cada e ploarrepiado depois de uma escapada 
com os ces vadios.
       Num determinado momento, no se conteve. Ainda decostas disse para ela:
       - Isso tambm acabou. Talvez te interesse saber queno passou de uma tola questo de vaidade... Sim, devaidade, de egosmo e de ambio. Nunca deixei de 
tequerer um s instante.  - E numa exploso repentina: - Cos diabos, Chris! O verdadeiro culpado fui eu. Essagente no sabe o que  decncia, mas eu devia saber. 
No justo que procure desculpar-me com tanta facilidade. Mas fica sabendo tambm, Chris, que j me libertei doRoy. Aproveitei estar perto do telefone e liguei 
paraele, desistindo do emprego que me prometera. No querosaber mais das suas porcarias. Afastei-me de toda aquelacambada. Definitivamente!
       Ela no respondeu, mas o leve rudo das suas agulhasera agora, na sala silenciosa, mais vivo, mais animado.
       Andrew deve ter ficado ali muito tempo. Intimamente envergonhado, olhando o movimento da rua, vendo osltimos vestgios do sol apagarem-se no crepsculo 
doVero. Por fim, quando se voltou, as sombras da noite jtinham invadido a sala, mas Christine continuava sentada ali, meio invisvel na penumbra da sua poltrona: 
uma figurinha quase apagada, a fazer tricot.
       Naquela noite Andrew acordou alagado em suor, aflito, procurando-a s cegas na cama, ainda sob a impressoterrvel do pesadelo.
       - Chris, onde ests? Perdoa-me, Chris, perdoa-me. Juroque para o futuro procederei honestamente contigo. - E depois, j tranquilizado, quase adormecido. 
- Vamos gozarumas frias quando vendermos isto aqui. Meu Deus! Comoos meus nervos esto destroados. E pensar que j te chameineurastnica!  Quando voltarmos 
e nos instalarmosseja onde for, ters um jardinzinho, Chris. Eu sei quegostas de flores. Lembras-te..., lembras-te de Vale View,querida?
       Na manh seguinte Andrew voltou para casa com umgrande ramo de crisntemos. Esforava-se com o afectode outrora por demonstrar todo o seu carinho, no coma 
generosidade ostensiva que ela detestava. Ficava arrepiado s de pensar naquele almoo do Plaza. Era com ocarinho dos velhos tempos, simples, modesto, sincero.
        hora do ch trouxe um bolo de que ela gostavamuito. No contente foi buscar para ela as chinelinhasde andar por casa. Christine levantou-se da cadeira, 
franzindo a testa, protestando afectuosamente:
       - No, querido, no faas isso! Vou pagar caro. Daquia uns dias arrancars os cabelos e tratar-me-s aos berros... Como costumavas fazer antigamente.
       - Chris! - exclamou ele, magoado, sentido. - No vsque tudo mudou? De hoje para o futuro s pensarei emte ser agradvel.
       - Est bem, est bem, meu querido. - Sorria, mas nosseus olhos havia lgrimas. E com uma deciso repentinade que Andrew no a julgaria capaz: - Tudo me 
servequando h verdadeira unio entre ns. No quero quecorras atrs de mim com mimos. S te peo  que nocorras atrs de mais algum.
       Como prometera, Denny chegou naquela noite, ainda atempo de jantar. Trazia um recado de Hope, que lhe telefonara de Cambridge, avisando que no podia vir 
a Londresnaquele dia.
       - Diz que no pode vir por causa de negcios - declarou Denny, enchendo o cachimbo. - Mas desconfio muitode que o nosso amigo Hope anda namorando e quer 
casar. Est romanticamente apaixonado, o nosso bacteriologista.
       - Ele nada disse sobre a minha ideia? - perguntou Andrew, ansioso.
       - Disse, sim. Est animadssimo. A paixo no impede. Podemos contar com ele. Eu tambm estou muito animado.
       Denny desenrolou o guardanapo e serviu-se de salada.
       - No sei mesmo como um plano to razovel surgiunuma cabea como a sua. E eu a imaginar que estavareceitando   perfumarias para a clientela aristocrtica! 
Conte-me pormenores.
       Andrew explicou tudo, com todos os detalhes, numa eloquncia crescente. Comearam a discutir o plano nosseus aspectos prticos. J tinham falado muito quandoPhillip 
disse:
       - Na minha  opinio, no  devamos  optar por umacidade grande. Uma cidadezinha de vinte mil habitantesseria o ideal.  onde podemos fazer coisas interessantes. 
Consulte um mapa de West Midlands. Encontrar ali umaporo de cidadezinhas industriais com uns quatro oucinco mdicos que se detestam cordialmente, cada umprocurando 
atrapalhar a vida dos outros. Tm de fazertudo e acabam nada fazendo de aproveitvel.  num lugarassim que temos de tentar a experincia do nosso sistema de cooperao 
especializada. No convm comprar qualquer clnica.  s chegar e pr mos  obra. Meu Deus! J estou a ver a cara dos mdicos da terra!...  claro queteremos 
de enfrentar uma tremenda campanha de insultos. Poderemos at ser assassinados. Mas voltando ao realizvel, do que precisamos  de uma clnica central e, comodiz, 
de um laboratrio anexo, para o Hope. Podemos termesmo uns dois ou trs quartos para doentes no andarsuperior. Para comear, uma coisa modesta. O problema apenas 
de adaptar, e no de construir, um edifcio. E tenho a impresso de que triunfaremos. - Nisto, dandopelo interesse animado com que Christine seguia as suaspalavras, 
Phillip sorriu. - Que lhe parece isto tudo, minhasenhora? Uma loucura, no  verdade?
       - Sim, uma loucura - respondeu ela com a voz umpouco tomada. - Mas so as loucuras que contam.
       - Muito bem dito, Chris! Por Deus! So as loucurasque contam.
       Andrew deu um murro na mesa que fez os talherestinirem.
       - O plano  bom! Mas o que vale de facto  o idealque o anima! Uma nova interpretao do juramento deHipocrates: absoluta fidelidade ao ideal cientfico, 
nadade empirismo, nada de charlatanices, nem de exploraesde clientes, nem preparados de reclame, nem xaropadaspara enganar neurastnicos, nem...  Upa!  Por 
amor deDeus, d-me qualquer coisa que se beba! A minha gargantaest seca de tanta conversa. Preciso de um alto-falante!
       Ficaram a trocar impresses at  uma da manh.
       O entusiasmo intenso de Andrew contagiava at o prprio Denny, to frio habitualmente. Este j no podia apanharo ltimo comboio. Phillip teve portanto de 
ocupar o quartode hspedes e, no dia seguinte, ao sair apressado, logodepois do caf, prometeu voltar a Londres na sexta-feiraseguinte. Nesse intervalo falaria 
com Hope e, prova suprema do seu entusiasmo!, compraria um mapa grandede West Midlands.
       - A coisa vai, Chris! A coisa ir para a frente! - Andrew voltava triunfante da rua. - Phillip est entusiasmado. No se expande muito, mas eu conheo-o.
       Nesse mesmo dia comearam a aparecer os primeiros pretendentes  compra da clnica. Gerald Turner acompanhava pessoalmente os candidatos mais provveis. 
O corretor expressava-se fluente e elegantemente, e discorriacom optimismo at mesmo sobre a arquitectura da garage.
       Na segunda-feira o Dr. Noel Lowry apareceu duas vezes sozinho de manh e acompanhado pelo corretor  tarde.
       Pouco depois Turner telefonava para Andrew, numa suave confidncia:
       - O Dr. Lowry est interessado; posso dizer mesmomuito interessado. Insiste muito para que no fechemoso negcio com qualquer outro pretendente antes que 
suamulher venha ver a casa. Ela est numa praia de banhos,com as crianas. Chegar na quarta-feira.
       Era o dia combinado para levar Mary a Bellevue, masAndrew achou que o assunto, entregue a Turner, estavaem boas mos. Tudo correra no hospital como previra. 
Mary deixaria o Vitria s duas da tarde. Ele esper-la-iana porta com a enfermeira Sharp.
       Chovia muito quando,  uma e meia, o carro parouem frente do consultrio de Welbeck Street, para conduzira enfermeira. A mulher estava de mau humor e esperava-ode 
aspecto carrancudo. Desde que Andrew a avisara deque dispensaria os seus servios no fim do ms, mostrava-se ainda mais sombria e rspida. Respondeu com um resmungo 
ao cumprimento do mdico e entrou no automvel.
       Felizmente tudo correu bem no hospital. Mary apareceu porta da rua assim que o carro parou em frente doVitria. Instalou-se no banco traseiro na companhia 
daenfermeira, bem agasalhada, com um saco de gua quentenos ps. Entretanto, Andrew no tardou a arrepender-sede haver trazido aquela enfermeira carrancuda e 
desconfiada. Era evidente que ela considerava a viagem como umtrabalho fora das suas obrigaes e Manson no sabiaexplicar como a suportara tanto tempo.
       s trs e meia chegaram a Bellevue. J no chovia eo sol comeava a aparecer por entre as nuvens. Maryinclinava-se para a frente, a examinar com olhos inquietos,talvez 
mesmo de apreenso, o sanatrio que lhe haviamdescrito com tanto entusiasmo.
       Andrew encontrou Stillman no escritrio. Estava ansioso para que ele observasse a doente quanto antes, poisa questo do pneumotrax no lhe saa da cabea. 
Falou-lhe a esse respeito, enquanto fumavam um cigarro ebebiam ch.
       - Muito bem - concordou  Stillman, quando o outroconcluiu. - Vamos examinar a doente agora mesmo.
       Guiou Manson ao quarto de Mary. Ela j estava deitada, abatida pela viagem e ainda apreensiva, a observara enfermeira Sharp, que arrumava as suas roupas 
numcanto do aposento. Assustou-se um pouco quando viu Stillmanentrar.
       Este examinou-a meticulosamente. Foi um exemplo para Andrew: exame sereno, silencioso, absolutamente preciso.
       No tomava ares importantes e convencionais. No procurava impressionar. Nem mesmo parecia um mdico emexerccio. Era como um tcnico a examinar uma determinada 
mquina que no funcionava bem. Embora empregasse o estetoscpio, era pelo tacto que fazia a maior partedas pesquisas, apalpando os espaos intercostais e supraclaviculares, 
como se pudesse conhecer, pelos dedos subtis, averdadeira condio das clulas vivas dos pulmes.
       Quando terminou o exame, nada disse a Mary, masfez sinal a Manson para que o acompanhasse.
       - Pneumotrax  disse.  No  h   dvida  alguma.  uma coisa que j devia ter sido feita h muitas semanas. Vamos tratar disso imediatamente. V e avise 
a pequena.
       Enquanto o americano saa para tratar dos preparativos, Andrew voltou ao quarto e avisou Mary. Procurou tranquiliz-la com as palavras mais animadoras, porm 
eraevidente que a perspectiva da interveno imediata a perturbava.
       -  o senhor quem vai fazer? - perguntou ela nervosamente. - Prefiro que seja o senhor.
       -  uma coisa muito simples, Mary. No sentir amenor dor. Eu estarei l, para ajudar. Pode ter a certezade que tudo correr bem.
       Era sua inteno deixar tudo a cargo de Stillman. Masa doente estava to nervosa, tinha tanta f nele, e sentia-se tambm to responsvel pela sua presena 
ali, que resolveu entrar na sala dos tratamentos e oferecer a suaassistncia ao americano.
       Dez minutos depois estavam prontos para a aco. Quando Mary chegou, Andrew aplicou-lhe a anestesia local.
       Depois, enquanto Stillman introduzia habilmente a agulha, colocou-se perto do manmetro, fiscalizando o fluxo, napleura, do azoto esterilizado. O aparelho 
era extraordinariamente delicado e Stillman um mestre incontestvel na tcnica. Manobrava a cnula com admirvel destreza,sem desviar os olhos do manmetro, pois 
o estalido finalanunciaria a perfurao da pleura parietal. Stillman tinhaum mtodo prprio de manipulao profunda para prevenir qualquer manifestao de enfisema 
cirrgico.
       Depois da primeira fase de intenso nervosismo, a inquietao de Mary ia cedendo gradualmente. A confiana foicrescendo no decurso da operao e por fim 
a doente jsorria para Andrew, completamente tranquila. Ao voltarao quarto disse-lhe:
       - Tinha razo. No sinto coisa alguma. Nem pareceque sofri uma operao.
       - Ah, sim? - levantou as sobrancelhas. E num sorriso: -  assim que deve ser... Nada de encenao; nada quepossa impressionar o doente. Eu gostaria que todas 
asoperaes fossem assim! Mas, com toda essa calma, conseguimos imobilizar o seu pulmo. Vai entrar em repousoagora. Quando voltar de novo a respirar, estar curado. 
Posso garantir!
       Mary olhou-o demoradamente, aps o que passeou avista pelo quarto alegre, pela janela donde se desfrutavauma linda paisagem.
       - Creio que vou gostar disto aqui, apesar de tudo. Eleno procura ser agradvel... Falo do Sr. Stillman... Mas,assim mesmo, d uma ptima impresso. Posso 
tomar ch?

19
       Eram quase sete horas quando Andrew abandonou Bellevue.  Demorou-se muito mais do que esperava.  queficara a conversar na varanda, gozando a frescura da 
tardee a agradvel conversa de Stillman. No caminho de regresso, achava-se possudo de uma extraordinria sensaode tranquilidade, de paz. Compreendeu ser a 
influnciado americano, da sua personalidade, da sua quietude moral, da sua indiferena pelas vaidades da vida. E isso eraum sedativo para o seu esprito sobressaltado.
       Alm disso sentia-se aliviado a respeito de Mary. Comparava o que fizera no comeo, despachando-a sumariamente para um hospital em runas, com o que realizara 
naquela tarde. Sem dvida que lhe dera muito trabalho,muito incmodo e no estava muito em regra com a ortodoxia mdica. Tinha tambm de pensar na conta. Emborano 
tivesse falado com Stillman na questo do preo,sabia que Boland no estava em condies de suportaras contas de Bellevue. Ele  que teria de pagar. Mas issono 
tinha importncia perante a satisfao ntima de terlevado a cabo uma tarefa que o dignificava. Pela primeira vez depois de tantos meses acreditava ter praticado 
umaaco realmente elevada. Era uma convico que o animava, que o confortava, como o comeo da sua reabilitao.Conduzia devagar, desfrutando da doura da noite.
       A enfermeira Sharp ia novamente no banco traseiro, mascalada e, mergulhado nas suas meditaes, Andrew ignorava-a. Quando entraram em Londres, perguntou-lhe 
ondequeria que a deixasse e, consoante a sua indicao, largou-ana estao do metro de Notting Hill. Era um alvio despach-la.
       - Boa enfermeira, no havia dvida, mas antipticae incmoda. Sentia que ela sempre o detestara.
       Decidiu mandar-lhe pelo correio, no dia seguinte, o ordenado do ms. Era um recurso para no a aturar mais.
       Ao atravessar Paddington Street, toda a satisfaontima de Manson desapareceu como por encanto. Sentia-se mal todas as vezes que passava pela loja de Vidler. 
Olhando furtivamente, viu a tabuleta Consertos em Geral, Ld.a. Um empregado fechava as portas.
       Esse simples facto era to significativo que Mansonsentiu um arrepio. Mal disposto, acelerou o andamento atChesborough Terrase. Guardou o carro e entrou 
em casacom uma tristeza estranha a oprimir-lhe o corao.
       Christine veio ao seu encontro toda entusiasmada. Ao contrrio do marido, parecia satisfeitssima. Os olhos brilhavam  com o reflexo de boas notcias.
       - Est tudo vendido! - declarou com alvoroo. - Tudo, querido! Clnica, mveis, casa, garagem, at a cave. Acabam de sair agora mesmo daqui. O doutor e a 
Sr.a Lowry. - E explicou a rir-se. - O homem ficou to nervoso porno apareceres para atender os clientes que ele mesmo fezo servio do dispensrio. Convidei-os 
para jantar. Conversmos bastante. Sem se abrir muito, a cara da Sr.a Lowrydava a entender que talvez tivesses sido vtima de umdesastre de automvel. Acabei 
por ficar apreensiva. Masagora que chegaste, estou contente. Ters de te encontrar com o Dr. Lowry amanh, na agncia. As onze horas.  para assinar o contrato. 
Ah!  verdade... O doutor jdeu o sinal ao Sr. Turner.
       Andrew acompanhou-a  sala de jantar, de cuja mesa haviam j sido retirados os pratos. Embora Andrew tivesse gostado de ter passado a clnica, no podia demonstrarnaquele 
momento um grande entusiasmo.
       - Foi de facto uma boa soluo, no foi? - continuou  Christine. - Resolvemos isso depressa. Suponho que eleno vai exigir uma apresentao muito demorada 
 clientela. Estive a pensar em muitas coisas antes de tu chegares. E se ns passssemos um tempo fora antes de retomares a actividade? Em Vale Andr, por exemplo... 
Vivemos ali um tempo to agradvel! - parou de repente,olhando de frente o marido. - Que tens, meu amor?
       - Nada - sorriu ele, sentando-se. - Apenas um pouco cansado. Talvez porque no jantei.
       - Que  me  dizes! - exclamou  Christine,  alarmada. - Pensava que tivesses jantado em Bellevue, antes do regresso. - Olhou em torno da sala. - E j levantei 
a mesae deixei a criada ir ao cinema!
       - No tem importncia.
       - Tem, sim. Compreendo agora porque no ficaste alegre com a venda da clnica. Espera um momento, que euvou arranjar-te qualquer coisa. Que preferes? Posso 
aquecer um pouco de sopa, estrelar uns ovos... Que mais queres?
       - Bastam os ovos, Chris! No te preocupes. Bem, sepuderes, traz tambm um bocado de queijo.
       Momentos depois j ela estava de volta, trazendo numa bandeja talheres, pratos, ovos estrelados, um pouco desalada, po, biscoitos, manteiga e queijo. Colocou 
a bandeja na mesa. Quando Andrew se sentou, ela foi  despensae trouxe uma garrafa de cerveja.
       Enquanto o marido comia, ela observava-o risonha,cheia de solicitude.
       - Queres saber uma coisa? Tenho pensado muitas vezesque ns seramos felizes, mesmo se vivssemos numa casapobre, apenas com uma cozinha e um quarto. Essa 
histria de aristocracia no liga connosco. Agora que volteia ser a mulher de um trabalhador, sinto-me completamente feliz.
       Andrew continuou a comer. Era evidente que a comidalhe estava a saber bem.
       - Outra coisa, querido - e Christine ps as mos noqueixo, de uma maneira muito particular. - Tenho pensado muito nestes ltimos dias. Anteriormente andavaembrutecida, 
mesmo parva. Mas, desde que novamentenos entendemos tudo me parece claro!... As coisas s tmvalor quando se  obrigado a lutar por elas. Quando vmsem esforo, 
quando so presentes da sorte, no do omenor prazer. Lembras-te  daqueles  dias em Aberalaw? Como vivamos, como vivamos contentes mesmo com tantas privaes! 
Pois bem! Tenho a impresso de que recomeamos.  a nossa maneira de ser, querido. Somos assim! Sou to feliz por isso!
       Andrew fitou-a.
       - Sentes-te realmente feliz?
       Christine deu-lhe um beijo.
       - Nunca fui to feliz em toda a minha vida. -Estiveram uns instantes calados. Andrew ps manteiganum biscoito e levantou a tampa do prato do queijo. Ficoudecepcionado. 
O que havia no era o seu predilectoLibtauer, mas um queijo barato que a criada usava comocondimento. Ao dar por isso Christine soltou uma exclamaode quem se 
censura e continuou: - Eu devia ter ido hoje  casa de Frau Schmidt!
       - No tem importncia, Chris!
       - Mas no est certo! - tirou-lhe o queijo antes queele se servisse. - Eu aqui a fazer de menina sentimental,sem pensar nas minhas obrigaes, e tu to 
cansado, cheiode fome! Que bela mulher de trabalhador estou a demonstrar ser! - Levantou-se, olhou para o relgio. - Deixa-meir depressa, antes que feche a pastelaria.
       - Ora, Chris! Deixa...
       - Peo-te, querido! - f-lo calar alegremente. - Empenho-me nisso.  natural... Tu gostas do Libtauer, eu gostode ti... ento...
       E saiu da sala antes que ele pudesse protestar. Andrewouviu os seus passos apressados no vestbulo, o leve rudoda porta que se fechava. Os olhos ainda 
sorriam. S Christine era capaz dessas coisas! E ps manteiga noutro biscoito,  espera do queijo saboroso que ela traria.
       O silncio era completo dentro de casa. A criada foraao cinema e a Florie com certeza estava a dormir. Boaocasio para se entregar aos seus pensamentos: 
Stillmanera um homem admirvel e Mary no tardaria a ficarcompletamente curada. Que sorte ter deixado de choverdurante a tarde! A viagem de regresso fora uma 
delcia.
       A paisagem era to alegre e tranquila! Graas a Deus,Christine teria em breve um jardinzinho. Ele, o Dennye o Hope poderiam ser linchados pelos cinco mdicos 
deWest Midlands. Mas mesmo assim Chris teria, o jardinzinho.
       Comeou a comer distraidamente um dos biscoitos. Perderia o apetite se ela se demorasse. Devia estar a conversar com a Frau Schmidt. Boa criatura a alem. 
Fora ela quemlhe tinha mandado os primeiros clientes. Se ao menostivesse continuado modestamente, com decncia, em vezde... bom, eram guas passadas, graas a 
Deus! Christinee ele estavam bem novamente. Mais felizes que nunca. Que maravilha ser digno de ouvir o que ela dissera momentos antes.
       Acendeu um cigarro.
       Nisto a campainha da porta retiniu com estridncia.
       Levantou a cabea, abandonou o cigarro e encaminhou-separa a porta. A campainha vibrou mais uma vez. Andrewabriu a porta.
       Percebeu imediatamente haver um tumulto do lado defora: uma multido na rua, cabeas e ombros que se comprimiam no escuro. Antes que pudesse descobrir de 
quese tratava, o guarda que havia tocado a campainha avanou.
       Era o amigo Struthers, o sinaleiro. Mas como estavaplido!
       - Doutor! - ofegava como um homem que viesse acorrer. - A sua mulher foi atropelada. Ia a atravessar arua... Deus do Cu... Ia a atravessar a rua... e nisto 
veioum autocarro!...
       Andrew sentiu gelar o corao. Antes que pudesse pronunciar palavra, a confuso, num momento, entrou pelacasa dentro; num torvelinho a multido invadiu 
o hall.
       Frau Schmidt, debulhada em lgrimas, um condutor de autocarro, outro polcia, pessoas estranhas, todos a empurr-lo, a arrast-lo para o consultrio. Depois, 
avanando por entre a multido, carregada por dois homens,a pobre Christine. A cabea pendia para trs, inanimada.
       Os dedos da mo esquerda ainda seguravam pelo cordo oembrulhinho do queijo. Deitaram-na sobre a marquesa do consultrio. Estava morta.

20
       O golpe foi tremendo, esmagador. Durante alguns dias Andrew no deu por viver. Se em momentos de lucidez elese apercebia da presena de Emily, Denny e, uma 
vez ouduas, de Hope, passava o resto do tempo num atordoamentocompleto, fazendo com estranho automatismo tudoquanto lhe mandavam, profundamente mergulhado nofundo 
pesadelo do seu desespero. O sistema nervoso, jmuito atingido, aumentava a sua tragdia criando no seucalado esprito negros e horrorosos remorsos. Acordavade 
repente, alagado em suor, gritando numa angstia delirante.
       Foi atravs de uma nuvem confusa que assistiu ao inqurito, ao processo to banal e cheio de formalidades, ao depoimento das testemunhas que se permitiam 
o luxo deretalhes to desnecessrios. No tirava os olhos da figuraatarracada de Frau Schmidt, por cujas faces rechonchudas as lgrimas corriam sem parar.
       - Estava to alegre, ria tanto quando esteve l emcasa! No se cansava de repetir: Depressa, por favor! No quero que meu marido espere muito....
       Quando ouviu o juiz manifestar as suas condolnciaspelo triste acontecimento, compreendeu que o caso estavaencerrado. Levantou-se maquinalmente e viu-se 
na ruacaminhando ao lado de Denny.
       Nunca soube como se fizeram os preparativos para ofuneral. Tudo se passou, misteriosamente, fora do seuconhecimento. A caminho do cemitrio de Kensal Green,o 
pensamento pairava longe de si, aqui e ali, principalmente no passado. E l dentro, entre aqueles muros sombrios,lembrou-se das largas e claras perspectivas de 
Aberalaw,da montanha que ficava atrs do Vale View e ondepastavam, felizes, os potros selvagens. Ela gostava de passear por l, de sentir o ar fresco da serra 
banhar-lhe orosto e agora estava ali, sepultada naquele cemitrio dacidade to sombrio e fechado.
       Naquela noite, sob a presso da avassaladora nevrose, procurou esquecer com o lcool. Mas o whisky s lhe excitou o desprezo de si mesmo. Ficou vagueando 
no quartoat altas horas da madrugada, resmungando, acusando-senuma voz de bbado:
       Pensavas estar livre da punio. Pensavas que noterias de pagar. Mas estavas muito enganado! Crime ecastigo! s o nico culpado de tudo o que aconteceu. 
Tensde sofrer!.
       Saiu de casa sem chapu e errou pela rua, a cambalear.
       Parou de olhos esbugalhados diante da loja fechada de Vidler. Ao voltar, com as lgrimas escorrendo-lhe pela cara, resmungava ainda, amarguradamente: com 
Deus no sebrinca! Christine disse isso uma vez. Com Deus nose brinca, meu amigo!.
       Subiu trpegamente a escada, vacilou, entrou no quarto, silencioso, frio, abandonado. Viu sobre o toucador a bolsade Christine. Apanhou-a, encostou-a ao 
rosto e abriu-a comdedos trmulos. Tinha dentro algumas moedas, a conta deFrau Schmidt, um leno. No compartimento do centroencontrou alguns papis. Alm de um 
retratinho deles um instantneo j meio apagado, tirado em Blaenelly  os cartes de agradecimento que os clientes de Aberalaw lhehaviam enviado pelo Natal. Ela 
guardara tudo isso, durante tantos anos, como verdadeiros tesouros! Um soluo enorme elevou-lhe o peito. Caiu de joelhos, junto da camae desatou a chorar convulsivamente.
       Denny no fez a menor tentativa para impedir que ele bebesse. Andrew tinha a impresso de que Phillip estavaquase sempre em casa. No podia ser por causa 
da clnica,pois o Dr. Lowry j entrara em funes. Morava fora, masvinha atender as consultas e as chamadas. Mas Andrewnada sabia nem queria saber do que se passava. 
Tinha osnervos em farrapos. O som da campainha da porta era osuficiente para que o corao lhe batesse loucamente. Sedava uma passada sentia as mos inundarem-se 
de suorfrio. Passava os dias sentado no quarto torcendo um lenoentre os dedos, enxugando de vez em quando as moshmidas, olhando o fogo da lareira, convencido 
de quemais uma noite de insnia teria de passar.
       Uma manh Denny apareceu-lhe e disse-lhe:
       - Estou finalmente livre, graas a Deus. Agora podemos seguir.
       Nem uma tentativa de recusa esboou. No tinha o mnimo poder de resistncia. Nem sequer perguntou aondeiam. Aptico e silencioso, viu Denny arranjar a 
sua mala. Ao fim de uma hora j estavam na estao de Paddington.
       Viajaram a tarde toda na direco do sudoeste. Fizeram transbordo em Newport e seguiram para Monmouthhire. Desceram em Abergavenny. Ali, ao sarem da estao,Denny 
alugou um automvel. Atravessaram a cidade epenetraram em pleno campo, onde o Outono se manifestava nos seus tons mais belos. Ali Philip abriu-se:
       - H aqui um lugarzinho onde eu noutro tempo costumava vir pescar: a abadia de Llantony. Suponho que nosconvm.
       s seis horas chegaram ao destino. As runas da abadia, com as suas enormes lajes cinzentas, polidas, erguiam-sesobre um terreno relvado. Ainda subsistiam 
algumas arcadas dos claustros. Perto havia um hotel modesto, construdo inteiramente com as pedras provenientes da abadia.O leve murmrio do regato que corria 
em frente era umconstante convite ao repouso, e na tarde tranquila subiapara o cu, muito azul e direito, o fumo de um fogo delenha.
       Na manh seguinte, Denny arrastou Andrew para um passeio. Era um dia fresco e estimulante, mas Andrew estavato quebrado pela noite sem dormir, sentiu-se 
tocansado logo  primeira subida, que quis voltar mal tinham dado alguns passos. Denny, todavia, insistiu energicamente e obrigou-o a andar oito milhas e dez 
no diaseguinte. No fim da semana j andavam vinte milhas pordia. Quando voltava para o quarto, ao anoitecer, Andrewmergulhava num sono de pedra logo que caa 
na cama.
       Ningum havia a perturb-lo. Apenas alguns pescadores, mas mesmo a poca das trutas nessa altura estava aterminar. Comiam numa casa de pavimento lajeado 
numacomprida mesa de carvalho, em frente da lareira abertaonde ardia um bom fogo. A comida era boa e apetitosa.
       Quase no conversavam durante as caminhadas. Asvezes andavam o dia todo sem trocar mais do que meiadzia de palavras. A princpio, Andrew no olhava a paisagem, 
mas pouco a pouco, sem que ele disso se apercebesse, medida que os dias iam passando a beleza dos bosquese das colinas floridas ia despertando os seus sentidos 
embotados.
       O ritmo do seu restabelecimento no foi rpido, masao fim do primeiro ms j suportava a fadiga das longascaminhadas, j comia e dormia normalmente, tomava 
banhofrio de manh e encarava o futuro sem temor. Compreendeuque Denny nada poderia ter escolhido de melhorpara a sua convalescena do que aquele lugar isolado,aquela 
vida espartana e monstica. Quando caram asprimeiras geadas sentiu na alma uma alegria h muitono experimentada.
       Comeou de repente a conversar. De princpio coisassem importncia. Como um atleta que se prepara comexerccios leves para mais rudes provas, o esprito 
de Andrew ainda se mantinha reservado ao aproximar-se davida. Mas, imperceptivelmente, Denny ia-o pondo a pardos acontecimentos.
       A clnica fora vendida ao Dr. Lowry, embora com umpequeno abatimento no preo fixado por Turner, atendendo a que as circunstncias no permitiram uma apresentao 
em regra do novo mdico aos clientes. Hopecompletara enfim o tempo do seu contrato e estava agoraem casa da famlia, em Birmingham. Denny tambmestava desocupado. 
Pedira a demisso antes de vir a Llantony.
       A deduo era to evidente que Andrew levantoulogo a cabea e comentou:
       - No comeo do ano eu j devo estar apto para o trabalho.
       Comearam da em diante a falar praticamente e aofim de uma semana j havia desaparecido a expressodura e aptica de Andrew. Parecia-lhe estranho e melanclico 
que o esprito humano pudesse sobrepor-se a umgolpe to profundamente mortal. No entanto, quisesse ouno, o seu restabelecimento era um facto. No comeoarrastava-se 
com indiferena estica, maquinalmente, masagora aspirava com prazer o ar frio das manhs, batia nasrvores com a ponta da bengala, arrancava a correspondncia 
das mos de Denny e invectivava o carteiro quandono lhe trazia o Medical Journal.
        noite os dois companheiros estudavam um grandemapa. com o auxlio de um anurio fizeram uma lista decidades com interesse para o fim em vista. Eram muitas,mas 
depois de uma seleco rigorosa s restavam oito: duas em Staffordshire, trs em Northamptonshire e trsem Warwickshire.
       Denny partiu na segunda-feira seguinte e esteve ausente uma semana. Durante esses sete dias, Andrew sentiu renascer, impetuosamente, o seu antigo desejo 
de trabalhar,mas trabalhar de facto de acordo com as suas ideias,fazendo coisas srias em companhia de Hope e Denny.
       Tomou-o enorme impacincia. Na tarde de sbado foi a pat  estao de Abergavenny para esperar o ltimo comboio da semana. Quando voltava, decepcionado, 
convencido de que teria ainda de passar duas noites e um dianuma expectativa ansiosa, teve a surpresa de ver um Fordescuro estacionado em frente do hotel. Correu 
at  porta.
       Entrou na casa de jantar. Denny e Hope, sentados  mesa,banqueteavam-se com presunto, ovos, queijo e pssego emcompota.
       Nesse fim de semana a casa estava unicamente porconta deles. As informaes de Denny, transmitidas nodecurso do banquete, foram o entusistico preldio 
de umaveemente discusso. A chuva e o granizo batiam nas vidraas.
        O tempo estava horrvel. Mas o facto nenhum interessetinha para eles. Duas das cidades visitadas por Phillip  Franton eStandborough estavam, segundo a 
gria de Hope, emponto de rebuado para cometimentos mdicos. Eramduas cidades semiagrcolas, progressivas, onde algumasindstrias comeavam a desenvolver-se. 
Em Standboroughacabava de ser montada a indstria de pneumticos. Franton tinha uma grande fbrica de acar de beterraba.
       Novas casas estavam a ser construdas. A populao aumentava. Mas tanto numa como noutra os servios mdicos no acusavam o menor progresso. Franton tinhaapenas 
um pequeno hospital e Standborough nem isso. Os casos graves eram levados para Coventry, a quinze milhas de distncia.
       Bastaram estas simples informaes para os alvoroartanto como o rasto de uma lebre alvoroa o faro de umco de caa. Mas Phillip tinha informaes ainda 
maisinteressantes. Desdobrou uma planta de Standborougharrancada de um guia turstico.
       - Tenho  de  confessar que  roubei  isto  no hotel de  Standborough. Parece que comeamos bem ali.
       - Diga-me  depressa - rogou  impacientemente  Hope,que j no pensava em fazer graa - que significa estesinal?
       - Isto - explicou Denny, quando todos se debruaramsobre o mapa - isto aqui  a praa do mercado. Pelo menosdevia chamar-se assim. Mas eles l do-lhe o 
nome deCrculo, no sei porqu. Vocs esto a ver como : umapraa muito grande, com residncias, lojas, escritrios, aomesmo tempo zonas de moradia e de comrcio. 
O conjuntoproduz um efeito jorgiano com os seus prticos e as suasjanelas baixas.  l que mora o mdico mais importantedo lugar. Tive oportunidade de o ver. 
 gordo como umabaleia. Tem uma cara vermelha e usa suas, com queixadas de carneiro. A propsito, o homem tem dois assistentes... - nessa altura a voz de Denny 
tomou um tom deirnico lirismo - defronte, do outro lado da encantadorafonte de granito que fica no meio do Crculo, h duascasas de fachadas decentes, casas 
grandes, bem assoalhadas e... para vender. Acho, portanto...
       - Pelo que me diz respeito - disse Hope, quase engasgado- devo declarar que nada me agradaria tanto comoum laboratriozinho em frente dessa fonte.
       Continuaram conversando. Denny indicou outros detalhes, detalhes muito interessantes...
       -  claro - concluiu  ele - que  perdemos completamente o juzo. Ideias como estas so realizadas s milmaravilhas nas grandes cidades americanas,  custa 
demuita organizao e sem olhar a despesas. Mas aqui!... em Standborough!, e sem que qualquer de ns tenha muitodinheiro para gastar!... Alm disso, vamos ter 
entre nsmesmos discusses tremendas. Mas, seja como for... Que Deus se compadea do velho com queixada decarneiro! - exclamou Hope, levantando-se e estirando 
os braos.
       No domingo o plano deu mais um passo na senda doprogresso. Ficou resolvido que Hope, ao regressar, no dia seguinte, faria um pequeno desvio na viagem para 
passarem Standborough. Andrew e Denny deveriam encontrar-secom ele ali na quarta-feira. E ento sondariam discretamente o encarregado da venda das casas.
       Tendo perante si a perspectiva de um dia cheio, Hopepartiu muito cedo, afrontando com o carrito o lamaal,antes mesmo que os companheiros acabassem de tomaro 
caf. O cu estava muito carregado e o vento sopravaforte. A manh era tempestuosa, mas estimulante. Depoisde tomar o caf, Andrew saiu sozinho para dar uma volta.
       Como era bom sentir-se restabelecido, pronto a enfrentar mais uma vez, com o seu trabalho, a grande aventura deuma nova clnica! Agora, que estava prxima 
a sua realizao,  que compreendia quanto aquela ideia representavapara ele.
       Quando voltou, s onze horas, j tinha chegado ocorreio, com cartas de Londres. Sentou-se  mesa, preparando-se para a leitura da correspondncia. Denny 
lia ojornal junto da lareira.
       A primeira carta que Andrew abriu era de Mary Boland. Ao passar os olhos pelas vrias pginas escritas numaletrinha cerrada, o rosto foi-se-lhe abrindo num 
sorriso.
       Mary comeava com expresses carinhosas, fazendo votos porque ele j estivesse completamente refeito do penosogolpe. Depois, concisamente, dava informaes 
sobre a suasade. Estava melhor, infinitamente melhor, quase boa denovo. Havia mais de um ms que a febre desaparecera. Andava j de p e fazia agora um pouco 
de exerccio. Aumentara tanto de peso que Andrew talvez tivesse dificuldade em reconhec-la. Perguntava-lhe se no a ia visitar. Stillman voltara aos Estados Unidos, 
onde permaneceria alguns meses. Quem o substitua era Marland, o assistente,e Mary terminava com palavras de agradecimento port-la levado para Bellevue.
       Andrew ps a carta de lado e, com a expresso animadapela ideia da cura de Mary, entregou-se ao exame do restoda correspondncia. Desprezou toda uma srie 
de circulares,o reclamos de preparados. Tomou depois outra carta. Eraum sobrescrito de ofcio grande, com aspecto solene dedocumento oficial. Abriu-o. Havia dentro 
uma folha depapel almao.
       O sorriso desapareceu-lhe de repente do rosto. Ficoua olhar para a carta, sem acreditar no que lia. Os olhosarregalavam-se-lhe e tinha no rosto uma palidez 
de morte.
       Durante mais de um minuto ficou imvel, fitando, espantado, o papel.
       - Denny! - disse finalmente em voz baixa.  Leia isto.

21
       Dois meses antes, quando Andrew deixou a enfermeira Sharp na estao de Notting Hill, ela tomou o metropolitano e saltou em Oxford Circus. Da seguiu a p, 
muitoapressada, para a Queen Anne Street. Tinha um encontromarcado com a enfermeira Trent, que trabalhava com oDr. Hamson. Combinara com a amiga irem juntas aquelanoite 
ao Queens Theatre. Mas como j eram oito e quinzee o espectculo comeava s oito e quarenta e cinco, haviamuito pouco tempo para se encontrar com a companheirae 
chegarem ao teatro. Fazia parte do programa um jantarnum restaurante da vizinhana. Teriam de contentar-secom uma sanduche mastigada  pressa, ou talvez nemisso. 
A enfermeira ia furiosa. Sentia que fora vtima deuma explorao infame. Quando relembrava os acontecimentos daquela tarde refervia de zanga e indignao.
       Subiu os degraus da entrada do 170 e tocou nervosamentea campainha. Foi a enfermeira Trent quem lhe abriu a porta, mascom uma expresso de censura. Antes 
que pudesse reclamar, a amiga disse-lhe apressadamente, segurando-lhe obrao.
       - Perdoa-me, minha querida, mas se soubesses que diative! Contar-te-ei mais tarde.  s um momento para mearranjar um pouco. Se no perdermos tempo chegaremosa 
tempo.
       Nesse momento, enquanto as duas enfermeiras conversavam no patamar, Hamson desceu as escadas todo flamante, de casaca. Parou ao v-las. Freddie nunca resistiaa 
qualquer oportunidade de patentear o encanto da suapessoa. Fazia parte da sua tcnica captar simpatias paradepois colher os benefcios dessa atitude.
       - Ol, enfermeira Sharp - disse jovialmente ao abrira cigarreira de ouro. - Parece abatida. Porque esto asduas to atrasadas? No tencionavam ir ao teatro? 
Ouvifalar nisso.
       - Sim, doutor - disse a Sharp. - Mas...  fiquei presapor um dos casos do Dr. Manson.
       - Sim? - na voz de Freddie havia apenas uma pontade interrogao, mas nada mais foi preciso para a enfermeira Sharp. Reclamando sempre contra as injustias 
deque era vtima, antipatizando com Andrew e admirandoHamson, desatou logo a falar. - Nunca vi semelhante coisa em toda a minha vida,Dr. Hamson. Nunca! Tirar 
uma doente do Hospital Vitriae lev-la para esse lugar que chamam Bellevue, e eu presapelo Dr. Manson, enquanto fazia um pneumotrax comum homem que nem sequer 
 formado... - Mal contendoas lgrimas de ressentimento, a enfermeira contou a histria com todos os pormenores.
       Houve um silncio  quando  concluiu. Uma expresso estranha brilhava nos olhos de Freddie.
       - Foi desagradvel, enfermeira - disse Hamson, afinal. - Mas espero que no perca o teatro. Pode tomar um txi,que pago eu. Trent, inscreva isso na lista 
das despesas. Agora, se me do licena, vou indo.
       - Este, sim,  o que se chama um cavalheiro! - murmurou a enfermeira Sharp, acompanhando-o com o olhar. - Vamos, minha querida, vamos de txi.
       Freddie seguiu pensativo para o clube. Desde a zangacom Andrew, via-se forado a calar o prprio orgulho evoltar a aproximar-se mais intimamente de Fredman 
eIvory. Iam jantar juntos naquela noite e menos por malcia do que pelo desejo de interessar os companheiros arenovar a antiga intimidade, Hamson comentou fortuitamente, 
durante o jantar:
       - Parece que o Manson anda a praticar belas acesdesde que nos abandonou. Ouvi dizer que arranja agoradoentes para esse tal Stillman...
       - Qu? - Ivory largou o garfo.
       - ...e que colabora com ele, pelo que me disseram. - EHamson esboou uma verso espirituosa da histria.
       Mal acabou de falar, Ivory perguntou-lhe num tombrusco:
       - Isso  verdade?
       - Meu caro - respondeu Freddie num tom de protesto. - Quem me informou foi a prpria enfermeira ainda noh meia hora.
       Ivory baixou os olhos e continuou a comer, mas sob asua calma aparente havia um jbilo selvagem. Nuncaperdoara a Manson aquela observao final sobre a 
operao do Vidler. Embora no fosse muito susceptvel, Ivorytinha o orgulho feroz do homem que conhece o seu pontofraco e faz tudo para o esconder. No fundo 
ele bem sabiaser um cirurgio incompetente. Mas nunca algum lhedissera de cara a cara e com violncia to causticanteat onde ia a sua incapacidade. Odiava Manson 
por essaamarga verdade.
       Freddie e Fredman puseram-se a conversar por algunsmomentos, quando, de repente, Ivory levantou a cabeae perguntou com ar de desinteressado:
       - Voc tem o endereo dessa enfermeira do Manson?
       Interrompendo o que dizia a Fredman, Hamson olhouastuciosamente para Ivory.
       - Claro que tenho.
       - Parece-me - opinou Ivory com frieza - que se deveriam tomar providncias sobre o assunto. Aqui entre ns,Freddie, nunca simpatizei com esse Manson. Mas 
isso novem ao caso; o que me interessa exclusivamente  o ladomoral da questo. Ainda uma noite destas, numa reunio,o Gadsby esteve a falar comigo acerca desse 
Stillman. Osjornais j comearam a falar desse americano. Um idiotaqualquer arranjou uma lista de pessoas que pretendemter sido curadas por esse sujeito depois 
de passarem inutilmentepelas mos dos mdicos. Voc conhece essa velha histria... Gadsby est indignado. Parece que Cranston,o fabricante de automveis, foi cliente 
dele antes de otrocar pelo curandeiro. E agora pergunto: que ser de ns,mdicos, se no reagirmos contra esses charlates estrangeiros?
       - Que diabo! Todas as vezes que penso nisso o casoparece-me progressivamente mais grave. Vou entender-mecom Gadsby imediatamente. Rapaz! V se o Dr. MauriceGadsby 
est no clube. Se no estiver diz ao porteiro quetelefone para saber se est em casa.
       Pela maneira como ajeitou o colarinho via-se que Hamson tambm estava preocupado. No alimentava rancornem m vontade contra Manson, a quem sempre quiserabem 
no seu estilo frvolo e egosta. Murmurou:
       - No me meta nisso.
       - No seja idiota, Freddie. Devemos ento admitir queesse tipo suje a nossa reputao e ainda por cima faaimpunemente coisas dessas?
       O mandarete voltou com a notcia de que Gadsby estavaem casa.
       - Receio, colegas, que no possamos jogar hoje o nosso bridge. A no ser que o Gadsby tenha qualquer compromisso.
       Mas Gadsby nessa noite no estava comprometido epouco depois Ivory apareceu em sua casa. Embora nofossem amigos ntimos, as suas relaes iam ao ponto 
deautorizar que Gadsby oferecesse a Ivory um clice de bomvinho do Porto e um charuto de classe. Estivesse ou noinformado da reputao de Ivory como operador, 
Gadsbyconhecia pelo menos a sua posio social e isso era maisdo que suficiente para que o operador fosse tratado coma devida considerao por Maurice Gadsby, 
que aspiravaao prestgio mundano.
       Quando Ivory explicou a razo da sua visita, Gadsbyno precisou de fingir para mostrar-se muito interessado. Ficou sentado na borda da poltrona, sem tirar 
os olhosdo cirurgio, escutando atentamente.
       - Com mil demnios! - exclamou, com veemncia desusada, ao ouvir o remate da histria. - Conheo esseManson. Esteve connosco, por pouco tempo, na Junta 
deMineiros e Metalrgicos, e posso garantir que foi um alviopara ns v-lo pelas costas. Um sujeito sem a menor educao,com ares de vagabundo. E isso  de facto 
autntico? Ele tirou realmente uma doente ao Thoroughgood? Vamosconhecer a opinio de Thoroughgood sobre o assunto.
       - Ele no s levou a doente para Stillman como tambm ajudou na operao.
       - Se isso  verdade - disse Gadsby cauteloso -  umcaso para ser julgado pelo G.M.C.(*).
       
(*) General Medical College. - Conselho Geral dos Mdicos.
       - Bem... - Ivory fingiu-se hesitante. - Era esse exactamenteo meu ponto de vista. Mas recuei um pouco. Compreende... Durante certo tempo as minhas relaes 
comesse tipo foram mais estreitas do que as suas. Acho queno me qualificava bem se apresentasse eu a denncia.
       - Apresent-la-ei eu - disse Gadsby, com autoridade. - Se o que me contou foi realmente como as coisas se passaram eu mesmo o denunciarei. Considerar-me-ia 
em faltapara com a minha conscincia se no providenciasse imediatamente. O que est em causa  uma questo vital,Ivory. Esse Stillman  um perigo, no tanto para 
o pblico,como para a nossa profisso. Creio que lhe contei, naquelanoite, o meu caso com esse sujeito.  uma ameaa para osnossos direitos, os nossos diplomas, 
a nossa tradio.  umaameaa a tudo que temos de salvaguardar, e o nosso nicorecurso  negar-lhe qualquer cooperao. Assim, mais cedoou mais tarde, o homem 
ter de naufragar por causa da questo da certido. Veja bem, Ivory! Graas a Deus, isso um privilgio da profisso. S ns  que podemos assinaruma certido 
de bito. Mas compreenda... Se esse Mansone outros como ele lhe garantem a colaborao mdica,ento estamos perdidos. Felizmente o G.M.C, tem procedidosempre 
com o mximo rigor em assuntos como esse. O caso do Jarvis, que se passou ainda no h muitos anos. Lembra-se? Um profissional prestou-lhe servios como anestesista,mas 
foi imediatamente banido do Registo Mdico. Quanto mais penso nesse estrangeiro pretensioso mais decidido fico a fazer dele um exemplo. D-me licena porum momento. 
Vou telefonar ao Thoroughgood e amanhentender-me-ei com a enfermeira.
       Levantou-se e telefonou ao Dr. Thoroughgood. No dia seguinte, em presena do mdico do hospital, fez a enfermeira Sharp assinar uma declarao. E to concludentefoi 
o seu depoimento que Gadsby procurou imediatamenteos seus advogados. Detestava Stillman,  claro. Mas tambmantegozava a vantagem que poderia alcanar apresentando-se 
perante a opinio pblica como paladino damoralidade mdica. Enquanto Andrew convalescia em Llantony, sem sabernada do que se passava, o processo ia seguindo o 
seu curso.
        verdade que Freddie, muito impressionado ao ler nojornal a notcia do inqurito sobre a morte de Christine,telefonou a Ivory para evitar a acusao. Mas 
j erademasiadamente tarde. A denncia fora apresentada.
       A comisso disciplinar tomou a queixa em consideraoe, dando o seu parecer, foi enviada a Manson uma intimao para comparecer  reunio de Novembro do 
conselho mdico, a fim de defender-se. Era essa intimaoque tinha agora nas mos, trmulo e emocionado, considerando o libelo formulado na velha fraseologia 
jurdica: Que vs, Andrew Manson, sabendo e querendo, em 15de Agosto, prestastes assistncia a Richard Stillman, pessoa que exerce a medicina sem diploma nem Registo 
Mdico, e que vos associastes com a f do vosso grau aocitado Stillman na explorao de tal exerccio. E que, emconsequncia disto, estais acusado de conduta 
desonesta no ponto de vista profissional. 

22
       O caso devia ser julgado em 10 de Novembro e Andrew chegou a Londres com uma semana de antecedncia. Viera sozinho, pois pedira a Hope e Denny que deixassem 
o caso por sua prpria conta, e com melancolia amarga hospedou-se no Museum Hotel.
       Embora aparentemente calmo, Andrew estava num verdadeiro desespero ntimo. Oscilava entre crises de amargura e de emocionada incerteza, originadas no somentenas 
dvidas sobre o futuro como tambm na intensa recordao de todos os momentos j vividos da sua carreira mdica. Seis semanas antes essa crise encontr-lo-iaainda 
ferido pela angstia da morte de Christine, semenergia para lutar, indiferente ao que acontecesse. Masagora, restabelecido, pronto e ansioso por recomear o trabalho, 
o golpe atingiu-o em cheio cruelmente. compreendeu, com o corao oprimido, que no valeria a penaviver se perdesse de novo as esperanas renovadas.
       Esses e outros pensamentos dolorosos atormentavam-lhe incessantemente a cabea, originando por vezes umestado de exasperante confuso. No podia acreditar 
queele, Andrew Manson, estivesse naquela situao horrvel, defrontando realmente o que constitui o pesadelo de todosos mdicos. Porque era chamado perante o 
conselho? Porquequeriam elimin-lo do Registo Mdico? Nada fizera decomprometedor. Nenhuma desonestidade praticara, nenhum delito. Salvara apenas a vida de Mary 
Boland.
       A sua defesa foi confiada a Hopper & C.a, uma firmade advocacia muito recomendada por Denny.  primeiravista, Thomas Hopper no despertava grande confiana. 
Era um homenzinho de cara vermelha, culos de ouro eatitudes nervosas. Devido a qualquer deficincia de circulaode sangue, corava a todos os instantes. E issodava-lhe 
certo ar de satisfao prpria que no contribua,evidentemente, para inspirar confiana. Contudo, Hopper tinha pontos de vista muito firmes sobre o caminho quedevia 
seguir na defesa. Quando Andrew, no primeiro desabafo da sua indignao furiosa, quis apelar para Sir Robert Abbey, o nico amigo de influncia que contava emLondres, 
Hopper lembrou, num aparte, que Abbey era membro do conselho, assim como discordou inteiramente, apesar da insistncia aflita de Andrew, da ideia de mandarum 
telegrama a Stillman, pedindo-lhe que viesse imediatamente.
       Na opinio do advogado, j conheciam todosos argumentos de que o americano poderia servir-se e apresena do homem s serviria para irritar os membrosdo 
conselho. Pelo mesmo motivo devia ficar de lado oassistente Marland, que dirigia agora Bellevue.
       Andrew foi compreendendo pouco a pouco a enorme diferena entre o aspecto legal do caso e o seu modo deo considerar. O advogado at franziu o sobrolho, em 
sinalde reprovao, quando o mdico afirmou a sua inocncianuma argumentao frentica. Por fim Hopper foi obrigadoa declarar:
       - A est uma coisa que tenho de lhe pedir, Dr. Manson. No se manifeste nesses termos durante o julgamentode quarta-feira. Posso garantir-lhe que nada seriamais 
desastroso para o nosso caso.
       Andrew parou desconcertado, torcendo as mos, cravando em Hopper uns olhares incendiados.
       - Mas eu quero que eles conheam a verdade. Queromostrar que a cura dessa jovem foi a coisa melhor queeu fiz em muitos anos. Depois de meses e meses de 
porcarias profissionais, exercendo a medicina apenas paraobter dinheiro, consegui fazer alguma coisa decente, til...  por isso que sou vtima da perseguio 
deles.
       Por detrs dos culos, os olhinhos do advogado mostravam uma apreenso profunda. Na sua aflio, o sanguefluiu-lhe ao rosto.
       - Por favor, Dr. Manson, por favor! No compreendea gravidade da nossa situao?! Devo aproveitar a oportunidade para lhe dizer com toda a franqueza que, 
mesmose tudo correr bem, as nossas possibilidades de... vitriame parecem diminutas. Os precedentes so todos contrans: Kent, em 1909; Loriden, em 1912; Foulger, 
em 1919,todos eles foram condenados por se ligarem a pessoas nodiplomadas. Isso sem contar o famoso caso Hexam, em1921. Deve saber que Hexam foi excludo do 
Registo porter aplicado uma anestesia geral a um cliente de Jarvis, ajustador de ossos. Oua bem! O que desejo de si  queapenas responda s perguntas com um sim 
ou um no. Se isso no lhe for possvel, a mxima conciso.  umaviso solene que lhe fao: se entrar nas consideraesque me tem exposto nestes dias no haver 
a menorsalvao para o caso. O doutor ser irradiado fatalmente,estou to certo disso como de me chamar Thomas Hopper.
       Com profunda melancolia, Andrew compreendeu quedevia fazer todo o possvel por dominar-se. Era como umdoente na mesa de operaes. Devia submeter-se a todasas 
formalidades e exigncias do conselho, mas no lheera fcil chegar a essa passividade. Sentia-se indignados ao pensar que devia desistir de qualquer ideia de 
sejustificar e responder estupidamente sim ou no atodas as perguntas.
       Na noite de tera-feira, quando atingiu o auge da febril expectativa do que poderia suceder no dia seguinte, Andrew ps-se a andar pelas ruas; em certo momento 
percebeu encontrar-se inexplicavelmente em Paddington, caminhando na direco da loja de Vidler. Arrastava-o umestranho impulso do subconsciente. L nos arcanos 
do seuEsprito perdurava a doentia impresso de que todas ascalamidades dos ltimos meses eram o castigo pela mortedo sapateiro. A ideia obcecava-o sempre, contra 
a sua vontade. Mas estava ali, dentro da cabea, patente nosmisteriosos meandros da sua alma. Era levado irresistvelmente ao encontro da viva de Vidler, como 
se o simplesfacto de a ver pudesse ajud-lo, ou dar-lhe, no sabia porqu, alvio para o seu sofrimento.
       Era uma noite hmida e escura. Havia pouca gente nasruas. Andrew tinha uma sensao estranha de irrealidadeao caminhar sem ser reconhecido por aquela zona 
ondetanta gente o conhecera. A sua prpria figura, com trajede luto, tornara-se uma sombra entre os outros fantasmasque passavam pressurosos sob a chuva hmida. 
Encontroua loja ainda aberta. Hesitou um momento. Depois, quandosaiu um fregus, Andrew entrou apressadamente.
       A Sr.a Vidler estava sozinha, atrs do balco da tinturaria, embrulhando o casaco de uma freguesa. Vestia saiapreta e uma blusa que mandara tingir. De luto 
pareciamais magra. De repente levantou a vista e deu comManson.
       - Dr. Manson! - E a fisionomia dela iluminou-se. - Como tem passado, doutor?
       Andrew deu uma resposta rouca. Percebeu que ela nada sabia das suas recentes atribulaes. Ficou parado  portada rua, rgido, sem deixar de fitar a viva, 
a chuva escorrendopela aba do chapu.
       - Entre, doutor. Como est ensopado! O tempo esthorrvel!
       Andrew interrompeu-a, num tom forado, numa voz dooutro mundo:
       - Sr.a Vidler, h muito tempo que queria visit-la. Pergunto muitas vezes como  que a senhora vive desde...
       - Vou indo, doutor. Podia ser pior. Tenho agora umrapaz para fazer o conserto do calado.  um bom auxiliar. Mas porque no entra, doutor? Vou buscar-lhe 
um poucode ch.
       Andrew fez um sinal negativo com a cabea.
       - Eu... Eu ia passando. - E de sbito, quase num desespero - A senhora deve sentir muito a falta de Harry.
       - Sim, no resta dvida. Sinto falta... Pelo menos,senti muito no princpio. Mas  uma coisa assombrosa- nesse momento at sorria - como a gente se acostuma 
atudo.
       E ele, apressadamente, muito embaraado:
       - De certo modo... eu considero-me responsvel. Foium golpe to repentino para a senhora! Penso s vezesque a senhora pode julgar-me culpado.
       - Culpado,  o  doutor! - Ela  negou  com  a  cabea. - Como pode dizer uma coisa dessas! O doutor fez tudoquanto pde, arranjou mesmo uma boa casa de sade, 
umoperador de primeira ordem...
       - Mas a senhora pode pensar... - insistia Andrew comvoz abafada, sentindo um frio estranho por todo o corpo. - Se tivesse agido de outro modo, se tivesse 
levado oHarry para um hospital... 
       - Seria a mesma coisa, doutor. O meu Harry teve tudo do melhor, tudo que se pode obter com dinheiro. At oenterro. S vendo! Quantas coroas! E quanto a lanar-lheas 
culpas... Olhe, eu tenho dito muitas vezes, aqui na loja,que o Harry no podia ter tido um mdico melhor, maisatencioso e mais competente do que o doutor.
       Quando ela acabou de falar, Andrew compreendeu comum derradeiro calafrio da sensibilidade que nem mesmo uma confisso franca e completa faria a viva acreditarna 
verdade. Tinha as suas iluses sobre o fim pacfico,inevitvel e dispendioso do marido e seria uma crueldadearrancar-lhe uma convico que lhe dava to confortanteresignao.
       - Tive muito prazer em v-la de novo, Sr.a Vidler- disse Manson, depois de uma pausa. - Como lhe disse... h muito tempo que pretendia visit-la.
       Calou-se, apertou-lhe a mo, cumprimentou com o chapu, e saiu.
       Em vez de lhe dar alvio ou consolao, o encontroservira apenas para agravar a sua angstia. As ideiasentrechocavam-se dentro da cabea. Que podia ter 
esperado? Perdo, no velho estilo dos romances? Condenao? Com amargura chegou  concluso de que ela ainda oapreciava mais do que anteriormente, e ao voltar pelasruas 
molhadas Manson convenceu-se subitamente de queia ser condenado no dia seguinte. Esse pressentimento foi transformando-se numa aterradora certeza.
       Ao atravessar uma pequena rua lateral, j perto dohotel, passou pela porta de uma igreja. Estava aberta. Maisuma vez o impulso dominou-o, f-lo parar, retroceder, 
entrar.
       No havia luz l dentro. A nave estava escura, vaziae quente, como se um ofcio religioso tivesse terminadoh pouco. Andrew no sabia que igreja era, nem 
procurousaber. Sentou-se no ltimo banco e fixou o olhar cansadono altar sombrio e coberto. Lembrou-se de que na pocado seu afastamento Christine voltara o pensamento 
paraDeus. Ele, Andrew, nunca fora um beato, mas agora estavaali, naquela igreja desconhecida. As atribulaes impelemas criaturas para l, para as coisas espirituais, 
para aIdeia de Deus.
       E continuou sentado, a cabea vergada, como um homem que repousa no fim de uma viagem. Os seus pensamentos manifestavam-se aos arrancos, no como as palavras 
de uma orao determinada, mas com todo o anseioaflito da sua alma: Meu Deus! No me deixes ser condenado! Oh, meu Deus! No me deixes ser condenado!
       Durante meia hora, talvez, ficou mergulhado nessa meditao estranha. Depois levantou-se e seguiu directamente para o hotel.
       Embora tivesse dormido profundamente, acordou namanh seguinte com uma sensao ainda maior de ansiedade doentia. Ao vestir-se, as mos tremiam ligeiramente.
       Censurava-se por ter vindo para aquele hotel, que tantolhe fazia recordar os transes do concurso. A sensao que experimentava agora era exactamente a do 
medo que precedeum exame. Mas esse medo multiplicado por cem.
       Desceu  sala do almoo, mas nem uma xcara de caf tomou. O julgamento estava marcado para as onze horase Hopper pedira-lhe que comparecesse mais cedo. 
Calculouno gastar mais de vinte minutos para ir at a HallamStreet. Nervoso, impaciente, procurou passar o tempo comos jornais, na saleta do hotel, at s dez 
e meia. Partiuafinal. Mas o txi que tomara ficou retido por um congestionamento do trnsito. Eram onze horas em ponto quandochegou  sede do G.M.C.
       Entrou apressado na sala do conselho, tendo apenasuma vaga impresso da sua vastido e da imponncia damesa, sobre um estrado, onde se sentavam os membros 
doconselho, sob a presidncia de Sir James Haliday. Sentavam-sea um canto os que deviam tomar parte no seujulgamento. Davam a estranha impresso de actores espera 
do momento de entrarem em cena. Viu ali Hopper,Mary e Con Boland, a enfermeira Sharp, o doutor Thoroughgood,o advogado Boon, a irm Myles, encarregadada enfermaria 
do Vitria. Errou o seu olhar pela fila decadeiras e depois, apressadamente, sentou-se ao lado deHopper.
       - Porque no veio mais cedo, como lhe recomendei? - disse o advogado, aborrecido. - O outro julgamento est aacabar. O conselho no perdoa a quem chega atrasado.
       Andrew no respondeu. Como dissera Hopper, o presidente pronunciava naquele momento a sentena no processo anterior. Condenao. Nome riscado do Registo. 
Andrew no podia desviar os olhos do mdico condenadopor qualquer deslize banal. Era um pobre diabo de fatocoado e sapatos cambados. Todo o seu aspecto denunciavaa 
luta pela vida. E havia tanta amargura e desnimo nasua expresso quando foi condenado por aquele augustocenculo de colegas que Andrew sentiu um profundo calafrio.
       Mas no tinha tempo para pensar no pobre homem,para compadecer-se dele. Quase no mesmo instante o seuprprio julgamento foi anunciado. O corao contraiu-se-lhe 
dentro do peito.
       Terminada a formalidade da leitura do processo, levantou-se e tomou a palavra o Sr. George Boon, advogado deacusao. Era um tipo magro, de cara rapada, 
atitudesfirmes. Vestia fraque e pendia das suas lunetas uma fitapreta, muito larga. A voz era ntida e segura.
       - Sr. Presidente, meus senhores; reconheo que estecaso que ides julgar nada tem a ver com qualquer teoriada medicina definida, do captulo 28. do Medical 
Act. Pelocontrrio, constitui um exemplo insofismvel da associao de um profissional com uma pessoa no qualificadapara o exerccio da medicina, tendncia essa 
que, talvezdeva dizer, o conselho tem tido ultimamente tantos motivospara deplorar.
       Os factos so os seguintes: a doente, Mary Boland,atacada de tuberculose apical, foi admitida na enfermariado Dr. Thoroughgood, no Hospital Vitria, em 
18 de Julho.
       Ficou ali sob os cuidados do Dr. Thoroughgood at 14 deSetembro, dia em que ela mesma pediu para sair, sob o pretexto de que desejava voltar para casa da 
famlia. Digopretexto porque, em vez de voltar para casa, a doenteencontrou-se na portaria do hospital com o Dr. Manson,que imediatamente a levou para uma instituio 
de nomeBellevue, que se prope, creio eu, promover a cura dedoenas pulmonares.
       Chegando a esse lugar, Bellevue, a doente recolheuao leito e foi examinada pelo Dr. Manson em colaboraocom o proprietrio do estabelecimento, o Sr. Richard 
StilIman, homem no diplomado e no qualificado para oexerccio da medicina, e que, alm disso, segundo estouinformado,  estrangeiro. Depois do exame foi decidido 
emconferncia - chamo a ateno do conselho para esteponto - foi decidido em conferncia pelo Dr. Manson epelo Sr. Stillman que a doente seria submetida ao tratamento 
pelo pneumotrax. Em seguida o Dr. Manson fez a anestesia local e a insuflao foi realizada pelos Dr. Mansone Sr. Stillman.
       E agora, meus senhores, depois deste breve resumodo caso, proponho-me, com a vossa permisso, apresentarprovas e testemunhas do facto. Dr. Eustace Thoroughgood, 
faa o obsquio.
       O Dr. Thoroughgood levantou-se e avanou. Tirando as lunetas e conservando-as na mo como um recurso parafazer realar os seus argumentos, Boon comeou o 
interrogatrio.
       - No quero constrang-lo, Dr. Thoroughgood. Estamos perfeitamente ao par da sua reputao, posso dizer mesmodo seu renome como especialista de doenas pulmonarese 
no tenho dvida de que est animado de esprito deindulgncia para o seu jovem colega. Mas, Dr. Thoroughgood:  ou no verdade que, sbado 10 de Setembro, oDr. 
Manson pediu insistentemente ao doutor uma conferncia sobre a doente Mary Boland?
       -  verdade.
       - E tambm  verdade que no decurso da conferncia oDr. Manson insistiu para que se adoptasse um tratamentoque o doutor julgava inconveniente?
       - Ele queria que eu fizesse o pneumotrax.
       - Exactamente! E para o bem da  doente o doutorrecusou. No foi isso?
       - Sim, recusei.
       - E diante dessa recusa, a atitude do Dr. Manson nofoi de certo modo estranhvel?
       - Bem... - Thoroughgood hesitou.
       - Por favor, Dr. Thoroughgood! Respeitamos a suanatural relutncia, mas...
       - Ele dava a impresso de estar um pouco nervosonaquele dia. Pareceu no concordar com a minha deciso.
       - Obrigado, Dr. Thoroughgood. O doutor no tem amenor razo para supor que a doente no estava satisfeitacom o tratamento do hospital - e a simples ideia 
de tamanhoabsurdo trouxe um sorriso amarelo  fisionomia deBoon - ou que pudesse ter qualquer motivo de queixa contra o doutor ou o resto do pessoal...
       - Nenhuma razo. A doente sempre demonstrou estar satisfeita, feliz e confiante.
       - Obrigado, Dr. Thoroughgood. - Boon tomou outro apontamento. - E  agora, irm Myles, faa o  favor.
       Quando a irm Myles se aproximou, Boon inquiriu: Irm Myles, na segunda-feira 12 de Setembro, dois dias depoisda conferncia entre o Dr. Thoroughgood e o 
Dr. Manson,o acusado foi visitar a doente?
       - Foi.
       - Era a hora habitual das suas visitas?
       - No.
       - Ele examinou a doente?
       - No... Sentou-se e conversou com ela.
       - Isso mesmo, irm! Uma conversa longa e sria, parausar as palavras do seu depoimento escrito. Mas, diga-nosagora, irm, de viva voz, que sucedeu logo 
depois que seretirou o Dr. Manson?
       - Passada hora e meia, mais ou menos, declarou an. 17, isto , Mary Boland: Irm, tenho pensado emmuitas coisas e resolvi ir-me embora. A irm tem sidomuito 
boa para mim, mas quero deixar o hospital na prximaquarta-feira.
       Boon interrompeu apressadamente:
       - Na prxima quarta-feira. Obrigado, irm. Era isso queeu queria pr em evidncia. Por enquanto,  s isso.
       A irm Myles afastou-se.
       Com as lunetas que tinha na mo, o advogado fez umgesto comedido de quem estava satisfeito.
       - E agora... enfermeira Sharp, por obsquio. - Umapausa. - Enfermeira Sharp: est disposta a sustentar asua declarao sobre o que fez o Dr. Manson na tarde 
dequarta-feira 14 de Setembro?
       - Estou, sim. Eu presenciei tudo!
       - Deduzo pelo tom de voz, enfermeira, que a senhorao acompanhou contra vontade.
       - Quando descobri aonde tnhamos ido e que esse tal Stillman no era mdico, nem nada, eu fiquei...
       - Chocada! - sugeriu Boon.
       - Sim, isso mesmo! - berrou a enfermeira. - Semprepretendi em toda a minha vida profissional trabalharpara mdicos prestigiosos, especialistas bem qualificados.
       - Exactamente - cantarolou Boon. - Agora, enfermeiraSharp, pretendo que esclarea novamente, perante o conselho,um ponto que considero de muita importncia. 
O Dr. Manson colaborou de facto com Stillman na operao?
       - Colaborou, sim - respondeu a enfermeira num tom vingativo.
       Nesse momento Abbey inclinou-se sobre a mesa e, por intermdio do presidente, dirigiu  testemunha uma suave pergunta:
       - No  verdade que quando se deram esses factos a enfermeira fora prevenida pelo Dr. Manson de que teriade deixar o emprego?
       A enfermeira corou, perturbou-se, resmungou:
       - Sim, acho que sim.
       Um minuto depois o depoimento estava terminado. 
       Andrew sentiu dentro de si mesmo um certo conforto. Abbey, pelo menos, continuava seu amigo.
       Um tanto irritado com o aparte, Boon voltou-se paraa mesa do conselho:
       - Sr. Presidente, meus senhores: eu poderia apelar para outros testemunhos, mas sei perfeitamente como  precioso o tempo do conselho. Alm disso, estou 
certo de jhaver provado plenamente a acusao. No h a menorsombra de dvida de que a doente Mary Boland foi tirada,com absoluta conivncia do Dr. Manson, dos 
cuidados deum  eminente  especialista num dos  melhores hospitaisde Londres para um instituto muito discutvel. Isso por sis j constitui uma grave infraco 
da tica profissional. Mas est provado que o Dr. Manson se associou deliberadamente ao proprietrio desse instituto que no  mdico formado e registado, ajudando-o 
a realizar uma operao perigosa e que tinha sido contra-indicada pelo Dr. Thoroughgood, o especialista moralmente responsvel pelo caso. Sr. Presidente, meus senhores: 
eu sustento que no estamos, como pode parecer  primeira vista, diante deum exemplo isolado, de uma irregularidade acidental, masde uma infraco, preconcebida 
e quase sistemtica docdigo mdico.
       Boon sentou-se, visivelmente satisfeito, e comeou alimpar as lunetas. Houve um momento de silncio. Andrewconservou os olhos fitos no soalho. Tinha sido 
uma tortura para ele suportar a apresentao tendenciosa do caso. Dizia a si mesmo com amargura que estava sendo tratadocomo se fosse um criminoso.
       Nesse momento o advogado de defesa deu um passo frente e preparou-se para falar, como de costume. Hoppermostrava-se agitado. O sangue subia-lhe ao rosto. 
Estavaatrapalhado com a arrumao dos papis. Mas o curioso que conquistava com isso a simpatia do conselho.
       - Ento, Sr. Hopper? - disse o presidente.
       Hopper pigarreou.
       - Sr. Presidente, meus senhores: devo declarar desdej que no contesto as provas apresentadas pelo meu distintocolega. No pretendo mesmo voltar a esses 
factos. O que nos importa verdadeiramente  a maneira de osinterpretar. Existem, alm disso, alguns pontos complementares que do ao caso um aspecto muito favorvel 
aomeu constituinte.
       Ainda no foi dito, por exemplo, que a menina Bolandera, de incio, cliente do Dr. Manson, uma vez que ela oconsultou antes de conhecer o Dr. Thoroughgood, 
em 11de Julho. Alm disso, o Dr. Manson estava pessoalmenteinteressado no caso, por se tratar da filha de um amigontimo. Assim, ele sempre a considerou sob a 
sua prpria responsabilidade. Devemos reconhecer, com toda a franqueza,que a aco do Dr. Manson foi absolutamente malorientada. Mas observo respeitosamente que 
ela no foidesonesta nem de m f.
       J ouvimos referncias a essa ligeira discordncia entre o Dr. Thoroughgood e o Dr. Manson sobre o tratamento. Compreendendo-se o grande interesse do Dr. 
Manson neste caso, no deixa de ser natural que quisesseretom-lo nas suas prprias mos. Tambm no deixa deser natural que quisesse evitar um aborrecimento 
para oseu colega mais velho. Foi esta, e nenhuma outra, a razodo subterfgio a que o Sr. Boon aludiu com tanta nfase.
       Ento Hopper fez uma pausa, tirou o leno e tossiu. Tinha o ar de quem se aproxima de um ponto mais difcil.
       - E agora chegamos  questo das relaes comStillman e Bellevue. Presumo que os ilustres membros doconselho no desconheam o nome do Sr. Stillman. Embora 
no seja mdico diplomado, goza de certa reputaoe diz-se mesmo que conseguiu levar a bons resultados alguns casos duvidosos.
       O presidente interrompeu-o com solenidade:
       - Sr. Hopper, que pode saber o senhor, um advogado,sobre esses assuntos?
       - De acordo - apressou-se Hopper a desculpar-se. - Oponto que desejo frisar  que o Sr. Stillman parece umhomem bem intencionado. Ora aconteceu que as suas 
relaes com o Dr. Manson datam de h muitos anos quandoescreveu uma carta em que felicitava o meu cliente por um estudo sobre os pulmes. Quando o Sr. Stillman 
veiomontar aqui a sua clnica, os dois tiveram ocasio detravar relaes pessoais, que em nada diziam respeito profisso. Deste modo, embora tenha sido um acto 
malpensado, no deixa de ser natural que o Dr. Manson, procura de um local onde pudesse tratar a menina Boland, levasse em conta a convenincia que Bellevue lhe 
oferecia. O meu colega definiu Bellevue como um estabelecimentomuito discutvel. Sobre esse ponto creio que o conselhodeve ter interesse em ouvir a doente. Menina 
Boland, faafavor.
       Quando Mary se ergueu, todos os membros do conselho olharam para ela com vincada curiosidade. Embora estivesse nervosa e no tirasse a vista de Hopper, no 
olhandouma nica vez para Andrew, parecia perfeitamente bemem sade normal.
       - Menina Boland - disse Hopper. - Quero que nos digacom franqueza: teve algum motivo de queixa durante a sua permanncia em Bellevue?
       - No! Muito pelo contrrio - pela moderao estudada da resposta, Andrew compreendeu imediatamente queela havia sido cuidadosamente industriada.
       - Sentiu-se pior depois do tratamento?
       - Pelo contrrio, estou melhor.
       - O tratamento aplicado foi realmente o que o Dr. Manson sugeriu  menina na primeira consulta que lhefez em... deixe-me ver... em 11 de Julho?
       - Foi.
       - Acha necessrio estabelecer este ponto? - perguntouo presidente.
       - Nada mais tenho a perguntar  testemunha - disseHopper apressadamente.
       Quando Mary se sentou, o advogado estendeu as mospara a mesa do conselho, no seu estilo suplicante.
       - O que pretendo sugerir, senhores,  que o tratamento efectuado em Bellevue foi, na verdade, o tratamento prescritopelo Dr. Manson, embora aplicado, talvez 
sem adevida tica, por outras pessoas. Sustento, portanto, quenenhuma cooperao profissional entre Stillman e o Dr. Manson houve na verdadeira significao do 
acto. Gostaria de interrogar o Dr. Manson.
       Andrew levantou-se, com a terrvel conscincia da sua posio, sentindo todos os olhares convergirem para ele.
       Estava plido e emocionado. Tinha na altura do estmago uma sensao de vcuo e de frio. Ouviu Hopper dirigir-lhea palavra.
       - Dr. Manson teve qualquer lucro financeiro com asua pretensa colaborao com o Sr. Stillman?
       - Absolutamente nenhuma.
       - Tinha qualquer motivo oculto, qualquer interesseobjectivo para fazer o que fez?
       - No!
       - Tinha qualquer preveno pessoal contra o seu colegamais antigo, Dr. Thoroughgood?
       - No! Sempre foi muito amvel para comigo. Apenas... as nossas opinies no coincidiram neste caso.
       - Exactamente - interveio Hopper como que a despachar. - Pode ento asseverar ao conselho, honesta e sinceramenteque no tinha a menor inteno de desrespeitaro 
cdigo mdico nem a mais remota ideia de que a suaconduta era de qualquer modo desonesta?
       -  a absoluta verdade.
       Hopper mal conteve um suspiro de alvio quando, comum sinal de cabea, convidou Andrew a sentar-se. Emborase sentisse obrigado a apresentar esse depoimento, 
recearaa impetuosidade do cliente. Mas o perigo passara, felizmente, e Hopper compreendeu haver agora algumas possibilidadesde xito se no se alongasse muito 
na defesa.
       Disse ento, com ar contrito:
       - No quero ocupar por mais tempo a ateno do conselho. Procurei mostrar que o Dr. Manson cometeu apenasum erro lamentvel. Apelo no somente para a justia,mas 
tambm para a clemncia do conselho, e, finalmente,gostaria de indicar  considerao dos ilustres juizes as atenuantes do meu constituinte. A sua carreira inspirariaorgulho 
a qualquer mdico. Quantos futuros brilhantes nosaram da obscuridade porque um simples erro na vidano soube encontrar perdo e misericrdia! Espero, e atsuplico, 
que este caso ora a ser julgado, no chegue tambm a to triste resultado.
       O tom de desculpa e de humildade que o advogadoassumiu produziu de facto efeito excelente no conselho.
       Mas logo depois estava de p o advogado de acusao,com o propsito evidente de prejudicar a boa impressodo tribunal:
       - Peo licena para fazer uma ou duas perguntas aoDr. Manson - voltou-se para o acusado e com um acenoconvidou Andrew a levantar-se. - Dr. Manson, no compreendibem 
a sua ltima resposta. Disse o doutor queno tinha a menor ideia de que a sua conduta fosse dequalquer modo desonesta. Entretanto, o senhor sabia queo Sr. Stillman 
no  formado em Medicina...
       Andrew, desconfiado, encarou Boon. A atitude do manhoso acusador durante todo o debate fizera-o sentir-seculpado de uma aco comprometedora. No vcuo geladoque 
tinha dentro de si mesmo foi-se acendendo uma pequena labareda. Disse de modo bem claro:
       - Sim, eu sabia que ele no era formado.
       Boon esboou um ligeiro gesto de satisfao. Comentou,num tom sardnico:
       - Ah! Sabia? Sabia, no  verdade? E nem isso, aomenos, lhe serviu de obstculo?
       - No, nem isso. - Andrew  repetiu  as palavras  doadvogado com sbita amargura. Sentiu fugir-lhe o domniode si mesmo. Respirou cem fora. - E agora, Sr. 
Dr. Boon,j que tive de escutar algumas perguntas suas, d licenapara que eu tambm lhe faa uma? J ouviu falar dePasteur?
       -  claro! - Havia espanto na resposta do advogado. - Quem ainda no ouviu falar dele?
       - Muito bem! Quem no ouviu falar nele? Mas naturalmente o senhor no sabe e  bom que eu lhe explique: Pasteur, a maior de todas as figuras da medicina 
cientfica,no era formado. A mesma coisa aconteceu com Ehrlich,o homem que deu  medicina o remdio melhor e maisespecfico de todos os tempos(*). O mesmo se 
passou comHaffkine, que combateu a peste da ndia muito mais eficientemente do que o faria qualquer desses cavalheiros diplomados. O mesmo com Macthnikoff, cuja 
grandeza s inferior  de Pasteur. Perdoe-me ter de recordar-lhetodos esses factos elementares, Sr. Dr. Boon. Servem parademonstrar que nem todos os que lutam 
contra as doenassem estarem inscritos no Registo Mdico tm de ser necessariamente loucos ou charlates.
       
(*)  O 914.  (N. do T.)
       
       Estabeleceu-se um silncio carregado de apreenso. At ento o julgamento decorrera numa atmosfera de preguiosa sonolncia, de formalismo bafiento, como 
num tribunal de pequenos delitos. Mas todos os membros do conselho estavam agora despertos, interessados. Abbey, especialmente,no deixara de fitar Andrew, com 
uma atenoestranha e intensa.
       Passou-se um momento. Pondo as mos na cara, Hopper resmungava, apavorado. Tinha agora a certeza de ser umacausa perdida. Embora deplorvelmente desconcertado,Boon 
fez um esforo para se endireitar.
       - Sim, sim, conhecemos todos esses nomes ilustres. Mas, certamente, no pretende comparar Stillman com eles.
       - Porque no? - rebateu Andrew, ardendo de indignao. - S  so ilustres porque j  morreram. Enquantovivo Koch foi troado, insultado mesmo, por Virchow! 
Agora Koch j no  troado nem insultado. Reservamosas nossas troas e os nossos insultos para homens comoSpahlinger e Stillman. A est outro exemplo para o 
qualchamo a sua ateno... Spahlinger! Um homem de cincia com pensamentos grandes e originais. No  formado,no  mdico. No tem qualquer ttulo universitrio. 
Masj fez mais pela medicina do que milhares de mdicoscom os seus diplomas, esses doutores que andam por a, deautomvel, extorquindo dinheiro, fazendo o que 
bem entendem, enquanto Spahlinger  combatido, menosprezado, acusado mesmo, tendo de enfrentar agora a misria depoisde ter gasto toda a fortuna em pesquisas e 
experincias. 
       - Devemos concluir da - Boon procurou assumir umar sardnico - que o doutor tem admirao igual por Richard Stillman?
       - Tenho, sim!  um grande homem.  um homem que dedicou toda a sua vida ao bem da Humanidade. Temenfrentado a inveja e o preconceito, e a calnia tambm. 
Mas j conseguiu impor-se na sua terra. Aqui parece queno. Contudo, estou convencido de que ele j fez maiscontra a tuberculose neste pas do que qualquer outrohomem 
vivo. Est fora da classe mdica,  verdade! Masdentro dela h muitos que tratam casos de tuberculose avida inteira e ainda nada fizeram que se aproveite nocombate 
a esse pesadelo da Humanidade.
       Houve uma grande sensao na sala. Os olhos de Mary Boland, fixos em Andrew, brilhavam de entusiasmo einquietao ao mesmo tempo. De modo sorna e melanclica, 
Hopper ia arrumando os papis dentro da suapasta.
       O presidente interveio:
       - O doutor pesa bem o que est a dizer?
       - Perfeitamente!
       Andrew segurou com mos frenticas o encosto da cadeira, sabendo muito bem que estavaa ser levado a pronunciar graves inconvenincias, masdisposto a sustentar 
as suas opinies. Anelante, no augeda tenso nervosa, dominava-o um estranho desinteressepelo que lhe pudesse acontecer. Se tinha de ser expulso,queria ao menos 
s-lo em beleza. Continuou, fremente:
       - Escutando o libelo que foi apresentado hoje aquicontra o meu procedimento, no me cansava de perguntara mim mesmo que mal havia eu feito. No quero trabalharcom 
charlates. No creio em remdios de pura mistificao. Por isso mesmo, desprezo esses reclames de vistososrtulos cientficos que enchem todos os dias a minhacaixa 
postal. Bem sei que estou falando com franquezaque me prejudica, mas no o posso evitar. Devemos sermuito mais liberais do que somos. Se concluirmos que tudo fora 
da classe est errado e que tudo dentro dela estcerto, ento ser a morte do progresso cientfico. Dentro em breve constituiremos apenas uma sociedade comercial. 
J  tempo de comearmos a pr em ordem a nossa prpria casa. E no me refiro apenas s questes superficiais. Devemos comear pelo princpio, temos de pensar que 
osmdicos saem das faculdades com uma instruo desesperadoramenteinsuficiente. Quando me formei, eu eraum verdadeiro perigo para a sociedade. S conhecia osnomes 
de algumas doenas e dos remdios que, segundome ensinaram, deviam ser aplicados. Nem mesmo sabiamanejar um simples frceps. Tudo o que sei o aprendi depois de 
sair da faculdade. E quantos mdicos existem pora que nada sabem alm dos rudimentos aprendidos com aprtica? Os pobres diabos no tm tempo para estudar,andam 
sempre atarefadssimos. E isso acontece porquetoda a nossa organizao est caqutica. Devamos seragrupados em unidades cientficas. Deviam existir cursosobrigatrios 
para mdicos j diplomados. Devamo-nos esforar por considerar a cincia como a nossa nica preocupao. Devamos acabar com o velho frasco de remdio. Devamos 
oferecer a cada clnico uma oportunidade paraestudar, para cooperar nas pesquisas.
       E que diremos a respeito da comercializao da medicina? Do tratamento intil, para ganhar dinheiro? Das operaes desnecessrias? Dos milhares de ineficientes 
preparados pseudocientficos que receitamos? No ser j tempo de acabar com tudo isso? Toda a classe  exageradamente intolerante e exclusivista. Camos na apatia 
e nainrcia. No pensamos em avanar, em alterar o nossosistema. Afirmamos que vamos fazer muita coisa e nadafazemos. H muitos anos que nos queixamos das infamescondies 
de trabalho que as nossas enfermeiras tm dedefrontar e dos ordenados miserveis que recebem. E queprovidncias j foram tomadas? As enfermeiras continuam com 
o mesmo trabalho excessivo, ganham a mesmamisria. Falo nisso apenas como um exemplo, pois oassunto  realmente mais srio, muito mais profundo. A verdade  que 
no damos oportunidades, nada facilitamosaos nossos pioneiros, aos que promovem o avano dacincia. Por ter tido coragem de servir de anestesista aJarvis, quando 
este comeava os seus trabalhos, o nomedo Dr. Hexam foi expulso da actividade da sua profisso. Dez anos mais tarde, quando Jarvis curou centenas dedoentes que 
os senhores cirurgies no tinham conseguidosequer melhorar, quando Jarvis foi galardoado com umttulo de nobreza, quando todas as pessoas distintas proclamaram 
que ele era um gnio, ento compreendemoso erro da nossa atitude e Jarvis recebeu um diplomahonorrio de doutor em Medicina, mas nessa altura opobre Hexam j 
tinha morrido de desespero.
       Eu sei que j cometi muitos erros na minha carreira,e alguns graves. Sou o primeiro a deplor-lo. Mas noerrei com Richard Stillman nem me arrependo do 
que fizcom ele. S peo aos senhores que olhem para Mary Boland. Estava tuberculosa quando ingressou no sanatriode Stillman. Agora est curada. Se querem uma 
justificaopara o meu procedimento infame, ei-la aqui, nestasala, diante de todos.
       Terminou abruptamente. Sentou-se. Na mesa do conselho,a fisionomia de Abbey irradiava uma luz estranha.
       Boon, ainda de p, encarava Manson, confuso, sem sabero que pensar. Depois, reflectindo vingativamente que jdera bastante corda ao mdico para que se enforcasse,inclinou
-se para o presidente e retomou a sua cadeira.
       Durante um momento pesou na sala um silncio significativo.
       E o presidente fez a declarao habitual:
       - Peo ao auditrio que evacue a sala.
       Andrew saiu com os outros. Agora desaparecera a calma nervosa, e todo o seu corpo arquejava como uma mquinaque arrasta um peso enorme. Sentia-se sufocado 
na atmosfera da sala do conselho. No podia suportar a presenade Hopper, Boland, Mary e das outras testemunhas. Principalmente confrangia-o o ar de melanclica 
censura dacara do advogado. Sabia que procedera como um desatinado, como um louco lastimvel com a mania da declamao. A sua honestidade parecia-lhe agora uma 
loucura.
       Sim, fora uma loucura o sermo que pregara ao conselho. No parecera um mdico, mas um desses oradores improvisados do Hyde Park. Acabou-se! Deixaria de ser 
mdicodentro em pouco. com certeza o seu nome seria riscadodo Registo.
       Foi para os lavabos, sentindo a necessidade de estar s. Sentou-se na ponta de uma das bacias. Num gesto distrado, procurou um cigarro. Mas o fumo no tinha 
gostona sua boca seca. Atirou o cigarro ao cho, esmagando-ocom o salto do sapato. Era estranho como lhe custavaver-se forado a abandonar a profisso, apesar 
das coisasduras, mas verdadeiras, que dissera sobre ela momentosantes. Reflectiu que podia ficar a trabalhar com Stillman.
       Mas no era esse o trabalho que pretendia. No! Queriaficar ao lado de Denny e Hope, seguir a sua prpria inclinao, cravar a flecha das suas aspiraes 
na ilharga da apatia e do conservantismo. Mas tudo tinha de ser feitodentro da profisso, pois na Inglaterra nunca poderia serfeito fora dela. Agora, Denny e 
Hope tinham de guarnecersozinhos a nau da aventura.
       Uma grande onda de amargura invadiu o corao deAndrew. Era desolador o futuro que se abria diante dosseus olhos. J sentia naquele momento a mais dolorosade 
todas as sensaes: a de se ver excludo. Mais ainda: a sensao de ser um homem acabado, de que j chegaraao fim de tudo.
       O rudo de passos no corredor f-lo levantar-se pesadamente, e encaminhando-se para a sala do conselho diziaa si mesmo, severamente, que s havia uma coisa 
a fazer: no dar parte de fraco. Pedia a Deus que lhe desse foraspara no mostrar qualquer sinal de abatimento, de subservincia.
       Com os olhos cravados no cho, ningum viu. Nem mesmo olhou para a mesa do conselho. Uma atitudepassiva, esttica. Ecoavam alucinadoramente dentro de sitodos 
os rumores inexpressivos da sala o arrastar dascadeiras, as tosses, os cochichos, mesmo o barulho de algum que batia distrado com um lpis.
       De repente, o silncio. Espasmdicamente todo o corpode Andrew foi tomado de sbita rigidez. Era o fim.
       O presidente tomou a palavra. Falou devagar, de modo impressivo.
       - Andrew Manson, tenho a inform-lo que o conselho examinou com a maior ateno a acusao apresentadacontra si, assim como as provas apresentadas no processo. 
Reconhecendo embora as circunstncias peculiares do casoe a forma absolutamente no ortodoxa com que foi interpretada pelo acusado, o conselho  de opinio de 
que odoutor procedeu de boa f e com sincero propsito deobedecer ao esprito da lei que exige o mais alto grau demoralidade na conduta profissional. Informo-o, 
portanto, que o conselho no v razo para ordenar o cancelamentodo seu nome no Registo Mdico.
       No espanto do primeiro instante, Andrew no pde compreender. De repente, estremeceu num abalo nervoso. No tinha sido expulso! Estava livre, com o nome limpo,vingado!
       Levantou a cabea, ainda vacilante, na direco damesa do conselho. Na confuso estranha de todas as fisionomiasque se voltavam para ele, s uma pde distinguir,muito 
ntida: era a de Robert Abbey. A compreenso quelia nos olhos do grande mdico ainda mais o perturbou. Descobriu, numa sbita intuio, que fora salvo por Abbey.
       Agora j no podia apresentar ar de indiferena. com vozfraca (embora se dirigisse ao presidente, era a Abbey que falava) murmurou:
       - Muito obrigado, senhor.
       - O caso est encerrado - disse o presidente.
       Andrew levantou-se e viu-se logo cercado pelos amigos,por Con, Mary, o espantado Sr. Hopper, por gente a quemnunca vira antes, mas que lhe apertava a mo, 
que ofelicitava calorosamente. Sem saber como, encontrou-seem plena rua, ainda a receber nas costas as palmadas defelicitao de Con. Sentiu um estranho conforto 
para aconfuso nervosa de que estava possudo nos autocarrosque passavam, no movimento normal do trnsito. Erapossudo de vez em quando por assomos de alegria, 
indizvel xtase da sua libertao. De repente viu Mary afit-lo, com os olhos ainda cheios de lgrimas.
       - Se eles tivessem conseguido fazer alguma coisa contrasi... depois de tudo que o doutor fez por mim, eu... eumataria aquele velhinho da presidncia.
       - Com os diabos - Con no pde conter-se. - No seiporque te preocupaste tanto. Logo que o velho Mansoncomeou a falar, tive a convico de que ele ia cilindrartoda 
aquela gente!
       Andrew sorria ainda sem fora, hesitante, contente.
       Chegaram os trs ao Museum Hotel, depois da umahora. Denny estava  espera, no hall. Foi ao encontrodeles, num passo balanado, com um sorriso sereno. Hoppertelefonara-lh
e, dando a notcia. Mas no fez comentrios.
       Disse apenas:
       - Estou com fome. Mas aqui no podemos comer! Vamos todos a um restaurante. Almocem comigo.
       Almoaram. Embora nenhum sinal de emoo transparecesse na sua fisionomia, e conversasse principalmentesobre automveis com Boland, Denny fez do almoo umacomemorao 
alegre do acontecimento. Ao sarem da mesa,disse a Andrew:
       - O nosso comboio sai s quatro. Hope est em Standborough,  nossa espera. Podemos comprar muito barata atal casa. Tenho de fazer algumas compras. Podemo-nos 
encontrar na estao s quatro menos dez.
       Andrew fitou Denny, compreendendo a sua amizade,dando valor a tudo quanto lhe devia desde o primeiroencontro no barraco de madeira de Blaenelly. Perguntoude 
repente:
       - E se eu fosse irradiado da classe mdica?
       - Mas o Andrew no foi! - Phillip balanou a cabea. - E tomarei providncias para que isso nunca acontea.
       Enquanto Denny fazia as suas compras, Andrew acompanhou Con e Mary  estao de Paddington, onde iamtomar o comboio. Enquanto esperavam na plataforma,agora 
um tanto silenciosos, repetiu o convite que j fizera.
       - Vocs devem aparecer em Standborough. Venhamver-me.
       - Sim, iremos - garantiu Con. - Na Primavera... Assimque a dona-elvira estiver consertada.
       Quando partiu o comboio dos Boland, Andrew viu queainda dispunha de uma hora. Instintivamente num imperativo do seu corao, Manson tomou um autocarro.
       Em poucos minutos estava em Kensal Green. Entrou nocemitrio e ficou muito tempo junto da sepultura de Christine, pensando um turbilho de coisas. A tarde 
era luminosa e fresca, com essa brisa estimulante de que ela gostava tanto. Sobre a cabea de Andrew, num galho dervore, um pardal chilreou alegremente. E quando 
Manson partiu afinal, apressando-se para no perder o comboio, viu que as nuvens acumuladas no horizonte tomavama forma de uma cidadela.
       
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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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